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    Mensaje por Maria Lua Mar 09 Mayo 2023, 14:45

    A Noite Dissolve os Homens


    A Portinari


    a noite desceu. que noite!
    já não enxergo meus irmãos.
    e nem tampouco os rumores
    que outrora me perturbavam.
    a noite desceu. nas casas,
    nas ruas onde se combate,
    nos campos desfalecidos,
    a noite espalhou o medo
    e a total incompreensão.
    a noite caiu. tremenda,
    sem esperança. . . os suspiros
    acusam a presença negra
    que paralisa os guerreiros.
    e o amor não abre caminho
    na noite. a noite é mortal,
    completa, sem reticências,
    a noite dissolve os homens,
    diz que é inútil sofrer,
    a noite dissolve as pátrias,
    apagou os almirantes
    cintilantes! nas suas fardas.
    a noite anoiteceu tudo.
    o mundo não tem remédio. ..
    os suicidas tinham razão.
    aurora,
    entretanto eu te diviso, ainda tímida,
    inexperiente das luzes que vais acender
    e dos bens que repartirás com todos os homens.
    sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
    adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
    o triste mundo fascista se decompõe ao contacto de teus dedos,
    teus dedos frios, que ainda se não modelaram
    mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
    minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
    minha carne estremece na tua certeza de tua vinda
    o suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
    os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
    uma inocência, um perdão simples e macio. . .
    havemos de amanhecer. o mundo
    se tinge com as tintas da antemanhã
    e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
    para colorir tuas pálidas faces, aurora




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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:01

    O Amor Bate na Porta

    Cantiga do amor sem eira
    nem beira,
    vira o mundo de cabeça
    para baixo,
    suspende a saia das mulheres,
    tira os óculos dos homens,
    o amor, seja como for,
    é o amor.

    Meu bem, não chores,
    hoje tem filme de Carlito!

    O amor bate na porta
    o amor bate na aorta,
    fui abrir e me constipei.
    Cardíaco e melancólico,
    o amor ronca na horta
    entre pés de laranjeira
    entre uvas meio verdes
    e desejos já maduros.

    Entre uvas meio verdes,
    meu amor, não te atormentes.
    Certos ácidos adoçam
    a boca murcha dos velhos
    e quando os dentes não mordem
    e quando os braços não prendem
    o amor faz uma cócega
    o amor desenha uma curva
    propõe uma geometria.

    Amor é bicho instruído.
    Olha: o amor pulou o muro
    o amor subiu na árvore
    em tempo de se estrepar.
    Pronto, o amor se estrepou.
    Daqui estou vendo o sangue
    que escorre do corpo andrógino.
    Essa ferida, meu bem,
    às vezes não sara nunca
    às vezes sara amanhã.

    Daqui estou vendo o amor
    irritado, desapontado,
    mas também vejo outras coisas:
    vejo corpos, vejo almas
    vejo beijos que se beijam
    ouço mãos que se conversam
    e que viajam sem mapa.
    Vejo muitas outras coisas
    que não ouso compreender...


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:01

    Balada do Amor através das Idades


    Eu te gosto, você me gosta
    desde tempos imemoriais.
    Eu era grego, você troiana,
    troiana mas não Helena.
    Saí do cavalo de pau
    para matar seu irmão.
    Matei, brigámos, morremos.

    Virei soldado romano,
    perseguidor de cristãos.
    Na porta da catacumba
    encontrei-te novamente.
    Mas quando vi você nua
    caída na areia do circo
    e o leão que vinha vindo,
    dei um pulo desesperado
    e o leão comeu nós dois.

    Depois fui pirata mouro,
    flagelo da Tripolitânia.
    Toquei fogo na fragata
    onde você se escondia
    da fúria de meu bergantim.
    Mas quando ia te pegar
    e te fazer minha escrava,
    você fez o sinal-da-cruz
    e rasgou o peito a punhal...
    Me suicidei também.

    Depois (tempos mais amenos)
    fui cortesão de Versailles,
    espirituoso e devasso.
    Você cismou de ser freira...
    Pulei muro de convento
    mas complicações políticas
    nos levaram à guilhotina.

    Hoje sou moço moderno,
    remo, pulo, danço, boxo,
    tenho dinheiro no banco.
    Você é uma loura notável,
    boxa, dança, pula, rema.
    Seu pai é que não faz gosto.
    Mas depois de mil peripécias,
    eu, herói da Paramount,
    te abraço, beijo e casamos.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:02

    A Máquina do Mundo


    E como eu palmilhasse vagamente
    uma estrada de Minas, pedregosa,
    e no fecho da tarde um sino rouco

    se misturasse ao som de meus sapatos
    que era pausado e seco; e aves pairassem
    no céu de chumbo, e suas formas pretas

    lentamente se fossem diluindo
    na escuridão maior, vinda dos montes
    e de meu próprio ser desenganado,

    a máquina do mundo se entreabriu
    para quem de a romper já se esquivava
    e só de o ter pensado se carpia.

    Abriu-se majestosa e circunspecta,
    sem emitir um som que fosse impuro
    nem um clarão maior que o tolerável

    pelas pupilas gastas na inspeção
    contínua e dolorosa do deserto,
    e pela mente exausta de mentar

    toda uma realidade que transcende
    a própria imagem sua debuxada
    no rosto do mistério, nos abismos.

    Abriu-se em calma pura, e convidando
    quantos sentidos e intuições restavam
    a quem de os ter usado os já perdera

    e nem desejaria recobrá-los,
    se em vão e para sempre repetimos
    os mesmos sem roteiro tristes périplos,

    convidando-os a todos, em coorte,
    a se aplicarem sobre o pasto inédito
    da natureza mítica das coisas,

    assim me disse, embora voz alguma
    ou sopro ou eco o simples percussão
    atestasse que alguém, sobre a montanha,

    a outro alguém, noturno e miserável,
    em colóquio se estava dirigindo:
    “O que procuraste em ti ou fora de

    teu ser restrito e nunca se mostrou,
    mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
    e a cada instante mais se retraindo,

    olha, repara, ausculta: essa riqueza
    sobrante a toda pérola, essa ciência
    sublime e formidável, mas hermética,

    essa total explicação da vida,
    esse nexo primeiro e singular,
    que nem concebes mais, pois tão esquivo

    se revelou ante a pesquisa ardente
    em que te consumiste… vê, contempla,
    abre teu peito para agasalhá-lo.”

    As mais soberbas pontes e edifícios,
    o que nas oficinas se elabora,
    o que pensado foi e logo atinge

    distância superior ao pensamento,
    os recursos da terra dominados,
    e as paixões e os impulsos e os tormentos

    e tudo que define o ser terrestre
    ou se prolonga até nos animais
    e chega às plantas para se embeber

    no sono rancoroso dos minérios,
    dá volta ao mundo e torna a se engolfar
    na estranha ordem geométrica de tudo,

    e o absurdo original e seus enigmas,
    suas verdades altas mais que tantos
    monumentos erguidos à verdade;

    e a memória dos deuses, e o solene
    sentimento de morte, que floresce
    no caule da existência mais gloriosa,

    tudo se apresentou nesse relance
    e me chamou para seu reino augusto,
    afinal submetido à vista humana.

    Mas, como eu relutasse em responder
    a tal apelo assim maravilhoso,
    pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

    a esperança mais mínima — esse anelo
    de ver desvanecida a treva espessa
    que entre os raios do sol inda se filtra;

    como defuntas crenças convocadas
    presto e fremente não se produzissem
    a de novo tingir a neutra face

    que vou pelos caminhos demonstrando,
    e como se outro ser, não mais aquele
    habitante de mim há tantos anos,

    passasse a comandar minha vontade
    que, já de si volúvel, se cerrava
    semelhante a essas flores reticentes

    em si mesmas abertas e fechadas;
    como se um dom tardio já não fora
    apetecível, antes despiciendo,

    baixei os olhos, incurioso, lasso,
    desdenhando colher a coisa oferta
    que se abria gratuita a meu engenho.

    A treva mais estrita já pousara
    sobre a estrada de Minas, pedregosa,
    e a máquina do mundo, repelida,

    se foi miudamente recompondo,
    enquanto eu, avaliando o que perdera,
    seguia vagaroso, de mão pensas.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:03

    Ainda que mal


    Ainda que mal pergunte,
    ainda que mal respondas;
    ainda que mal te entenda,
    ainda que mal repitas;
    ainda que mal insista,
    ainda que mal desculpes;
    ainda que mal me exprima,
    ainda que mal me julgues;
    ainda que mal me mostre,
    ainda que mal me vejas;
    ainda que mal te encare,
    ainda que mal te furtes;
    ainda que mal te siga,
    ainda que mal te voltes;
    ainda que mal te ame,
    ainda que mal o saibas;
    ainda que mal te agarre,
    ainda que mal te mates;
    ainda assim te pergunto
    e me queimando em teu seio,
    me salvo e me dano: amor.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:04

    Canção Final


    Oh! se te amei, e quanto!
    Mas não foi tanto assim.
    Até os deuses claudicam
    em nugas de aritmética.
    Meço o passado com régua
    de exagerar as distâncias.
    Tudo tão triste, e o mais triste
    é não ter tristeza alguma.
    É não venerar os códigos
    de acasalar e sofrer.
    É viver tempo de sobra
    sem que me sobre miragem.
    Agora vou-me. Ou me vão?
    Ou é vão ir ou não ir?
    Oh! se te amei, e quanto,
    quer dizer, nem tanto assim.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:05

    O Deus de Cada Homem


    Quando digo “meu Deus”,
    afirmo a propriedade.
    Há mil deuses pessoais
    em nichos da cidade.

    Quando digo “meu Deus”,
    crio cumplicidade.
    Mais fraco, sou mais forte
    do que a desirmandade.

    Quando digo “meu Deus”,
    grito minha orfandade.
    O rei que me ofereço
    rouba-me a liberdade.

    Quando digo “meu Deus”,
    choro minha ansiedade.
    Não sei que fazer dele


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mayo 2023, 22:06

    Não se mate


    Carlos, sossegue, o amor
    é isso que você está vendo:
    hoje beija, amanhã não beija,
    depois de amanhã é domingo
    e segunda-feira ninguém sabe
    o que será.

    Inútil você resistir
    ou mesmo suicidar-se.
    Não se mate, oh não se mate,
    Reserve-se todo para
    as bodas que ninguém sabe
    quando virão,
    se é que virão.

    O amor, Carlos, você telúrico,
    a noite passou em você,
    e os recalques se sublimando,
    lá dentro um barulho inefável,
    rezas,
    vitrolas,
    santos que se persignam,
    anúncios do melhor sabão,
    barulho que ninguém sabe
    de quê, praquê.

    Entretanto você caminha
    melancólico e vertical.
    Você é a palmeira, você é o grito
    que ninguém ouviu no teatro
    e as luzes todas se apagam.
    O amor no escuro, não, no claro,
    é sempre triste, meu filho, Carlos,
    mas não diga nada a ninguém,
    ninguém sabe nem saberá.
    Não se mate



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mayo 2023, 17:27



    Elegia 1938


    Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
    onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
    Praticas laboriosamente os gestos universais,
    sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

    Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
    e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
    À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
    ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

    Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
    e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
    Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
    e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

    Caminhas entre mortos e com eles conversas
    sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
    A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
    Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

    Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
    e adiar para outro século a felicidade coletiva.
    Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
    porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.




    **************


    Elegia 1938



    Trabajas sin alegría para un mundo caduco,
    donde las formas y las acciones no encierran ejemplo alguno.
    Practicas laboriosamente los gestos universales,
    sientes calor y frío, falta de dinero, hambre y deseo sexual.

    Los héroes llenan los parques de la ciudad en que te arrastras,
    y preconizan la virtud, la renuncia, la sangre fría, la concepción.
    Por las noches, si llovizna, abren paraguas de bronce
    o se recogen entre los volúmenes de siniestras bibliotecas.

    Amas la noche por el poder aniquilador que encierra
    y sabes que, dormido. los problemas te exoneran de morir.
    Pero el terrible despertar prueba la existencia de la Gran Máquina
    y te repone, diminuto, ante indescifrables palmeras.

    Caminas entre muertos y con ellos conversas
    sobre cosas del futuro y asuntos del espíritu.
    La literatura arruinó tus mejores horas de amor.
    Al teléfono perdiste mucho, muchísimo tiempo de sembrar.

    Corazón orgulloso, tienes prisa en confesar tu derrota
    y aplazar para otro siglo la felicidad colectiva.
    Aceptas la lluvia, la guerra, el desempleo y la distribución injusta
    porque no puedas, tú solo, dinamitar la isla de Manhattan.




    Del poemario «Sentimento do Mundo» (1940)
    Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) Brasil
    Traducción: Juan Martín.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 15 Mayo 2023, 10:45

    Ode no Cinqüentenário do Poeta Brasileiro



    Esse incessante morrer
    que nos teus versos encontro
    é tua vida, poeta,
    e por ele te comunicas
    com o mundo em que te esvais.
    Debruço-me em teus poemas
    e neles percebo as ilhas
    em que nem tu nem nós habitamos
    (ou jamais habitaremos!)
    e nessas ilhas me banho
    num sol que não é dos trópicos,
    numa água que não é das fontes
    mas que ambos refletem a imagem
    de um mundo amoroso e patético.
    Tua violenta ternura,
    tua infinita polícia,
    tua trágica existência
    no entanto sem nenhum sulco
    exterior —salvo tuas rugas,
    tua gravidade simples,
    a acidez e o carinho simples
    que desborda em teus retratos,
    que capturo em teus poemas,
    são razoes por que te amamos
    e por que nos fazes sofrer...
    Certamente não sabias
    que nos fazes sofrer.
    É difícil de explicar
    esse sofrimento seco,
    sem qualquer lágrima de amor,
    sentimento de homens juntos,
    que se comunicam sem gesto
    e sem palavras se invadem,
    se aproximam, se compreendem
    e se calam sem orgulho.
    Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,
    anunciando que tua vida passou à toa, à toa.
    Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,
    diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.
    Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando
    [encarapitados nos burros velhos
    Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.
    Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,
    a de Bentinho Jararaca
    ou a de Cristina Georgina Rossetti:
    és tu mesmo, é tua poesia,
    tua pungente, inefável poesia,
    ferindo as almas, sob a aparência balsâmica,
    queimando as almas, fogo celeste, ao visitá-las;
    22
    22
    é o fenômeno poético, de que te constituíste o misterioso portador
    e que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos
    [mundos, das amadas exuberantes e das
    [situações exemplares que não suspeitávamos.
    Por isto sofremos: pela mensagem que nos confias
    entre ônibus, abafada pelo pregão dos jornais e mil queixas operárias;
    essa insistente mas discreta mensagem
    que, aos cinqüenta anos, poeta, nos trazes;
    e essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces
    sem uma queixa no rosto entretanto experiente,
    mão firme estendida para o aperto fraterno
    — o poeta acima da guerra e do ódio entre os homens —,
    o poeta ainda capaz de amar Esmeralda embora a alma anoiteça,
    o poeta melhor que nós todos, o poeta mais forte
    — mas haverá lugar para a poesia?
    Efetivamente o poeta Rimbaud fartou-se de escrever,
    o poeta Maiakovski suicidou-se,
    o poeta Schmidt abastece de água o Distrito Federal...
    Em meio a palavras melancólicas,
    ouve-se o surdo rumor de combates longínquos
    (cada vez mais perto, mais, daqui a pouco dentro de nós).
    E enquanto homens suspiram, combatem ou
    [simplesmente ganham dinheiro,
    ninguém percebe que o poeta faz cinqüenta anos,
    que o poeta permaneceu o mesmo, embora alguma
    [coisa de extraordinário se houvesse passado,
    alguma coisa encoberta de nós, que nem os olhos
    susto, emoção, enternecimento,
    desejo de dizer: Emanuel, disfarçado na meiguice
    [elástica dos abraços,
    e uma confiança maior no poeta e um pedido
    [lancinante para que não nos
    [deixe sozinhos nesta cidade
    em que nos sentimos pequenos à espera dos maiores
    [acontecimentos.
    Que o poeta nos encaminhe e nos proteja
    e que o seu canto confidencial ressoe para consolode muitos e esperanças de todos.
    os delicados e os oprimidos, acima das profissões e
    dos vãos disfarces do homem.
    Que o poeta Manuel Bandeira escute este apelo de
    [um homem humilde.[/b>



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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Mayo 2023, 18:19

    O tempo passa? Não passa


    O tempo passa? Não passa
    no abismo do coração.
    Lá dentro, perdura a graça
    do amor, florindo em canção.

    O tempo nos aproxima
    cada vez mais, nos reduz
    a um só verso e uma rima
    de mãos e olhos, na luz.

    Não há tempo consumido
    nem tempo a economizar.
    O tempo é todo vestido
    de amor e tempo de amar.

    O meu tempo e o teu, amada,
    transcendem qualquer medida.
    Além do amor, não há nada,
    amar é o sumo da vida.

    São mitos de calendário
    tanto o ontem como o agora,
    e o teu aniversário
    é um nascer toda a hora.

    E nosso amor, que brotou
    do tempo, não tem idade,
    pois só quem ama
    escutou o apelo da eternidade.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Mayo 2023, 18:19

    Cidadezinha qualquer



    Casas entre bananeiras
    mulheres entre laranjeiras
    pomar amor cantar.

    Um homem vai devagar.
    Um cachorro vai devagar.
    Um burro vai devagar.

    Devagar… as janelas olham.

    Eta vida besta, meu Deus.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Mayo 2023, 18:20

    Tempo de Ipê



    Não quero saber de IPM, quero saber de IP.
    O M que se acrescentar não será militar,
    será de Maravilha.
    Estou abençoando a terra pela alegria do ipê.
    Mesmo roxo, o ipê me transporta ao círculo da alegria,
    onde encontro, dadivoso, o ipê-amarelo.
    Este me dá as boas-vindas e apresenta:
    - Aqui é o ipê-rosa.
    Mais adiante, seu irmão , o ipê-branco.
    Entre os ipês de agosto que deveriam ser de outubro
    mas tiveram pena de nós e se anteciparam
    para que o Rio não sofresse de desamor, tumulto, inflação, mortes.
    Sou um homem dissolvido na natureza.
    Estou florescendo em todos os ipês.
    Estou bêbado de cores de ipês, estou alcançando
    a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
    Não me façam voltar ao chão,
    não me chamem, não me telefonem não me dêem dinheiro,
    quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
    Este é tempo de ipê.
    Tempo de glória.





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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Mayo 2023, 08:40

    Balada do Amor através das Idades


    Eu te gosto, você me gosta
    desde tempos imemoriais.
    Eu era grego, você troiana,
    troiana mas não Helena.
    Saí do cavalo de pau
    para matar seu irmão.
    Matei, brigámos, morremos.

    Virei soldado romano,
    perseguidor de cristãos.
    Na porta da catacumba
    encontrei-te novamente.
    Mas quando vi você nua
    caída na areia do circo
    e o leão que vinha vindo,
    dei um pulo desesperado
    e o leão comeu nós dois.

    Depois fui pirata mouro,
    flagelo da Tripolitânia.
    Toquei fogo na fragata
    onde você se escondia
    da fúria de meu bergantim.
    Mas quando ia te pegar
    e te fazer minha escrava,
    você fez o sinal-da-cruz
    e rasgou o peito a punhal...
    Me suicidei também.

    Depois (tempos mais amenos)
    fui cortesão de Versailles,
    espirituoso e devasso.
    Você cismou de ser freira...
    Pulei muro de convento
    mas complicações políticas
    nos levaram à guilhotina.

    Hoje sou moço moderno,
    remo, pulo, danço, boxo,
    tenho dinheiro no banco.
    Você é uma loura notável,
    boxa, dança, pula, rema.
    Seu pai é que não faz gosto.
    Mas depois de mil peripécias,
    eu, herói da Paramount,
    te abraço, beijo e casamos.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Mayo 2023, 08:41

    Ainda que mal


    Ainda que mal pergunte,
    ainda que mal respondas;
    ainda que mal te entenda,
    ainda que mal repitas;
    ainda que mal insista,
    ainda que mal desculpes;
    ainda que mal me exprima,
    ainda que mal me julgues;
    ainda que mal me mostre,
    ainda que mal me vejas;
    ainda que mal te encare,
    ainda que mal te furtes;
    ainda que mal te siga,
    ainda que mal te voltes;
    ainda que mal te ame,
    ainda que mal o saibas;
    ainda que mal te agarre,
    ainda que mal te mates;
    ainda assim te pergunto
    e me queimando em teu seio,
    me salvo e me dano: amor.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Mayo 2023, 08:43

    A Máquina do Mundo


    E como eu palmilhasse vagamente
    uma estrada de Minas, pedregosa,
    e no fecho da tarde um sino rouco

    se misturasse ao som de meus sapatos
    que era pausado e seco; e aves pairassem
    no céu de chumbo, e suas formas pretas

    lentamente se fossem diluindo
    na escuridão maior, vinda dos montes
    e de meu próprio ser desenganado,

    a máquina do mundo se entreabriu
    para quem de a romper já se esquivava
    e só de o ter pensado se carpia.

    Abriu-se majestosa e circunspecta,
    sem emitir um som que fosse impuro
    nem um clarão maior que o tolerável

    pelas pupilas gastas na inspeção
    contínua e dolorosa do deserto,
    e pela mente exausta de mentar

    toda uma realidade que transcende
    a própria imagem sua debuxada
    no rosto do mistério, nos abismos.

    Abriu-se em calma pura, e convidando
    quantos sentidos e intuições restavam
    a quem de os ter usado os já perdera

    e nem desejaria recobrá-los,
    se em vão e para sempre repetimos
    os mesmos sem roteiro tristes périplos,

    convidando-os a todos, em coorte,
    a se aplicarem sobre o pasto inédito
    da natureza mítica das coisas,

    assim me disse, embora voz alguma
    ou sopro ou eco o simples percussão
    atestasse que alguém, sobre a montanha,

    a outro alguém, noturno e miserável,
    em colóquio se estava dirigindo:
    “O que procuraste em ti ou fora de

    teu ser restrito e nunca se mostrou,
    mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
    e a cada instante mais se retraindo,

    olha, repara, ausculta: essa riqueza
    sobrante a toda pérola, essa ciência
    sublime e formidável, mas hermética,

    essa total explicação da vida,
    esse nexo primeiro e singular,
    que nem concebes mais, pois tão esquivo

    se revelou ante a pesquisa ardente
    em que te consumiste… vê, contempla,
    abre teu peito para agasalhá-lo.”

    As mais soberbas pontes e edifícios,
    o que nas oficinas se elabora,
    o que pensado foi e logo atinge

    distância superior ao pensamento,
    os recursos da terra dominados,
    e as paixões e os impulsos e os tormentos

    e tudo que define o ser terrestre
    ou se prolonga até nos animais
    e chega às plantas para se embeber

    no sono rancoroso dos minérios,
    dá volta ao mundo e torna a se engolfar
    na estranha ordem geométrica de tudo,

    e o absurdo original e seus enigmas,
    suas verdades altas mais que tantos
    monumentos erguidos à verdade;

    e a memória dos deuses, e o solene
    sentimento de morte, que floresce
    no caule da existência mais gloriosa,

    tudo se apresentou nesse relance
    e me chamou para seu reino augusto,
    afinal submetido à vista humana.

    Mas, como eu relutasse em responder
    a tal apelo assim maravilhoso,
    pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

    a esperança mais mínima — esse anelo
    de ver desvanecida a treva espessa
    que entre os raios do sol inda se filtra;

    como defuntas crenças convocadas
    presto e fremente não se produzissem
    a de novo tingir a neutra face

    que vou pelos caminhos demonstrando,
    e como se outro ser, não mais aquele
    habitante de mim há tantos anos,

    passasse a comandar minha vontade
    que, já de si volúvel, se cerrava
    semelhante a essas flores reticentes

    em si mesmas abertas e fechadas;
    como se um dom tardio já não fora
    apetecível, antes despiciendo,

    baixei os olhos, incurioso, lasso,
    desdenhando colher a coisa oferta
    que se abria gratuita a meu engenho.

    A treva mais estrita já pousara
    sobre a estrada de Minas, pedregosa,
    e a máquina do mundo, repelida,

    se foi miudamente recompondo,
    enquanto eu, avaliando o que perdera,
    seguia vagaroso, de mão pensas.





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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Mayo 2023, 08:46

    Quero



    Quero que todos os dias do ano

    todos os dias da vida

    de meia em meia hora

    de 5 em 5 minutos

    me digas: Eu te amo.



    Ouvindo-te dizer: Eu te amo,

    creio, no momento, que sou amado.

    No momento anterior

    e no seguinte,

    como sabê-lo?



    Quero que me repitas até a exaustão

    que me amas que me amas que me amas.

    Do contrário evapora-se a amação

    pois ao não dizer: Eu te amo,

    desmentes

    apagas

    teu amor por mim.



    Exijo de ti o perene comunicado.

    Não exijo senão isto,

    isto sempre, isto cada vez mais.

    Quero ser amado por e em tua palavra

    nem sei de outra maneira a não ser esta

    de reconhecer o dom amoroso,

    a perfeita maneira de saber-se amado:

    amor na raiz da palavra

    e na sua emissão,

    amor

    saltando da língua nacional,

    amor

    feito som

    vibração espacial.



    No momento em que não me dizes:

    Eu te amo,

    inexoravelmente sei

    que deixaste de amar-me,

    que nunca me amastes antes.



    Se não me disseres urgente repetido

    Eu te amoamoamoamoamo,

    verdade fulminante que acabas de desentranhar,

    eu me precipito no caos,

    essa coleção de objetos de não-amor.





    *****************



    Quiero



    Quiero que todos los días del año

    todos los días de la vida

    cada media hora

    cada cinco minutos

    me digas: Te amo.



    Oyéndote decir: Te amo,

    creo, en el momento, que soy amado.

    En el momento anterior

    y en el siguiente,

    ¿cómo saberlo?



    Quiero que me repitas hasta el hartazgo

    que me amas que me amas que me amas.

    De lo contrario, se evapora el acto de amar

    pues al no decir: Te amo,

    desmientes

    apagas

    tu amor por mí.



    Exijo de ti el constante comunicado.

    No exijo sino esto,

    esto siempre, esto cada vez más.

    Quiero ser amado por y en tu palabra

    no sé otra manera que no sea ésta

    de reconocer el acto amoroso,

    la perfecta manera de saberse amado:

    amor en la raíz de la palabra

    y en su emisión,

    amor

    saltando de la lengua nacional,

    amor

    hecho sonido

    vibración espacial.



    En el momento en el que no me dices:

    Te amo,

    inexorablemente sé

    que dejaste de amarme,

    que nunca antes me amaste.



    Si no me dices urgente y repetidamente

    Te amoamoamoamoamo,

    verdad fulminante que acabas de desentrañar,

    me precipito en el caos,

    esa colección de objetos sin amor.




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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
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    Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mayo 2023, 15:19

    Consolo Na Praia



    Vamos, não chores.
    A infância está perdida.
    A mocidade está perdida.
    Mas a vida não se perdeu.

    O primeiro amor passou.
    O segundo amor passou.
    O terceiro amor passou.
    Mas o coração continua.

    Perdeste o melhor amigo.
    Não tentaste qualquer viagem.
    Não possuis carro, navio, terra.
    Mas tens um cão.

    Algumas palavras duras,
    em voz mansa, te golpearam.
    Nunca, nunca cicatrizam.
    Mas, e o humour?

    A injustiça não se resolve.
    À sombra do mundo errado
    murmuraste um protesto tímido.
    Mas virão outros.

    Tudo somado, devias
    precipitar-te, de vez, nas águas.
    Estás nu na areia, no vento...
    Dorme, meu filho.



    *****************


    Consuelo en la playa


    Vamos, no llores...
    La infancia se ha perdido.
    La juventud se ha perdido.
    Pero la vida aún no se ha perdido.

    El primer amor ya pasó.
    El segundo también pasó.
    El tercer amor pasó.
    Pero aún continúa vivo el corazón.

    Perdiste a tu mejor amigo.
    No realizaste ningún viaje.
    No posees tierra, ni casa, ni barco,
    pero tienes un perro.

    Algunas duras palabras
    en voz tenue, te golpearon.
    Esas, nunca, nunca cicatrizan.
    Sin embargo, ¿existe el humor?

    La injusticia no se resuelve.
    A la sombra del mundo equivocado
    murmuraste una protesta tímida.
    Pero vendrán otras.

    Todo sumado, deberías
    zambullirte, de una vez por todas, en las aguas.
    Estás desnudo en la arena, en el viento ...
    Duerme, hijo mío.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Sáb 27 Mayo 2023, 15:24

    O inglês da mina



    O inglês da mina é bom freguês.
    Secos e molhados finíssimos
    Seguem uma vez por mês
    Rumo da serra onde ele mora.
    Inglês invisível, talvez
    Mais inventado que real,
    Mas come bem, bebendo bem,
    Paga melhor. O inglês existe
    Além do bacon, do pâté,
    Do White Horse que o projetam
    No nevoento alto da serra
    Que um caixeirinho imaginoso
    Vai compondo, enquanto separa
    Cada botelha, cada lata
    Para o grande consumidor?
    Que desejo de ver de perto
    O inglês bebendo, o inglês comendo
    Tamanho lote de comibebes.
    Ele sozinho? Muitos ingleses
    Surgem de pronto na mesa longa
    Posta na serra. Comem calados.
    Calados bebem, num só inglês.
    Talvez um dia? Talvez. Na vez.




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    Mensaje por Maria Lua Lun 29 Mayo 2023, 14:46

    POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
    Traducidos por DÁMASO ALONSO y ÁNGEL CRESPO



    Carlos Drummond de Andrade nace en 1902 en Itabira do
    Mato Dentro (Minas Gerais). Hijo de unos hacendados, estudió en Belo Horizonte y Nova Friburgo. Se hizo farmacéutico.
    Fue profesor de portugués y periodista. En 1929 ingresó en la
    administración pública y hasta la fecha continúa siendo funcionario. Desde 1933 reside en Rio de Janeiro.
    Su primer libro, Alguma poesia, se publica en 1930, pero
    contiene, según el autor, poemas de 1925 a 1930. Sería interesante conocer obra anterior a 1925, por ejemplo, esos 25 poemas da Triste Alegria que parece se conservan inéditos. Tuvo
    que existir una época formativa, un irse soltando de la tradición
    anterior. Tal como conocemos su obra, resulta notable, quizá
    asombroso, ver que en Alguma poesia Drummond de Andrade
    ha roto amarras con todo el pasado poético de su país: ni rastro
    de los inmediatos parnasianismo y simbolismo. Hay un evidente rompimiento por lo que toca a la palabra poética: el poeta
    evita, y aun casi llega a eliminar, las troquelaciones y nexos
    verbales de toda una larguísima tradición (desde el petrarquismo, por lo menos, hasta sus inmediatos antecesores).
    Lo mismo que ocurre con el léxico y la sintaxis se ve en el
    ritmo. La tercera estfofa del Poema de sete faces (composición
    inicial de Alguma poesia) demuestra la actitud consciente del
    poeta en este sentido. En la siguiente traducción no hemos alterado ningún valor rítmico:


    Pasa el tranvía lleno de piernas:
    piernas blancas, negras, amarillas.
    Para qué tanta pierna, oh Dios, pregunta mi corazón.
    Pero mis ojos
    no preguntan nada.


    El desdén de la rima es aún más evidente. El poeta no la
    usa; pero si alguna vez la emplea suele ser para ponerla en tol~
    ja. Otra estrofa del mismo Poema de sete faces:


    Mundo vasto vasto mundo
    si me llamara Raimundo
    sería una rima, no sería una solución.
    Mundo mundo vasto mundo
    más vasto es mi corazón.


    No sólo hay ese deseo de esquivar los modos poéticos tradicionales: hay además—como se ve en esos ejemplos—un gusto
    de hacer manifiesto ese desvío, con una violencia, que es en
    sí una protesta contra lo anterior: de manifestarlo con ironía,
    con humor, con incongruencias, con salidas de tono. Hay una
    abierta intención de exasperar al público formado en el gusto
    de las generaciones antecedentes. Son las características de una
    generación literaria. Esta poesía crea elementos positivos; pero
    es al mismo tiempo una protesta tácita.
    El mismo rompimiento ocurre con los temas y con la rela~
    ción en que el poeta se sitúa ante la realidad. Se diría que aparenta colocarse en una especie de indiferencia frente a lo que le
    rodea y aun frente a sí mismo: léase Muerte en el avión. Pero
    aunque en la poesía de Drummond de Andrade el mundo está
    visto primero como formas, en seguida como relaciones externas (visión objetiva) y, en fin, como una serie de relaciones
    conceptuales (en la mente del poeta), lo efectivo subyace a
    todo esto y, de vez en cuando, estalla como en Niño llorando en
    la noche (1), o como En los muertos de levita (2), donde el
    poeta nos habla de uno de esos álbumes familiares, con viejas
    fotografías, que sirven más bien para burla de las viejas modas,
    y que la polilla va royendo:


    Solamente no royó el sollozo inmortal de vida que reventaba,
    que reventaba de aquellas páginas.



    O léase el Desaparecimento de Luisa Porto, intenso, emocionado poema que no hemos traducido aquí por dos causas: porque siendo de los Novos poemas (1947) pertenece a la parte de
    la obra de Drummond de Andrade que no incluimos en la presente selección, pero que nos proponemos antologizar otra vez,
    y porque ya ha sido bellamente traducido por Pilar Vázquez
    Cuesta.



    **********************


    (1) Se halla en la antología publicada en la Colección Adonais por
    Rafael Santos Torroella,
    (2) No incluimos este poema porque se encuentra también en la obra
    citada en la anterior nota.



    continua
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    Mensaje por Maria Lua Lun 29 Mayo 2023, 14:48

    La agria, irónica, punzante, protestataria manera de Alguma
    poesia se habrá de suavizar poco a poco. Coincide este suavizarse con la lenta recesión de la manera modernista. También
    se nota que empieza a haber una mayor frecuencia de metros
    regulares. Siguen a Alguma poesia, Brejo das Almas (1934), Sentimento do Mundo (1940), José (1942). A rosa do povo (1945) es,
    a nuestro juicio, el libro central en el desarrollo poético de
    Drummond. Cierto que la primera estrofa de su primera composición (Consideração do poema) empieza con una protesta de

    r
    imar la voz sono (sueño) con outono:
    No rimaré la palabra «sono»
    con la incorrespondiente palabra «outono».
    Rimaré con la palabra carne
    o cualquier otra, que todas me convienen.
    Las palabras no nacen amarradas,
    sino saltan, se besan, se disuelven...




    continua


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    6


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 03 Jun 2023, 16:41

    ***


    El programa aún recuerda al Raimundo que no sería una solución. Pero el poeta, a los cuarenta años, ya mira hacia atrás,
    rememora. Muchas veces recuerda aquella «piedra en medio del
    caminoy). Una nueva ternura corresponde a algunos de sus Novos
    poemas (1947), breve libro que comienza con esta


    Canción amiga


    Yo preparo una canción
    en que mi madre se vea,
    todas las madres se encuentren
    y que hable como dos ojos.

    Camino por una calle
    que pasa muchos países.
    Y si no me ven, yo veo:
    saludo a viejos amigos.

    Yo distribuyo el secreto
    como quien ama o sonríe.
    Del modo más natural,
    dos cariños se desean.

    Mi vida, y nuestras vidas,
    forman un solo diamante.
    Aprendí nuevas palabras,
    y otras las hice más bellas.

    Yo preparo una canción
    que haga despertar los hombres
    y que adormezca a los niños.




    El poeta incorpora, desde aquí, a la evidencia de su poesía
    esa veta de ternura que antes llamábamos subyacente: desde
    ahora aflorará, de vez en cuando, con relativa frecuencia (léase de
    nuevo el mencionado Desaparecimento de Luisa Porto, que es del
    mismo libro)





    continuará


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    7


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    Mensaje por Maria Lua Lun 05 Jun 2023, 22:04

    ***


    Es de observar que el poema que hemos traducido poco más
    arriba no deja de tener que ver, en su espíritu, con los poetas de
    tendencia unanimista. Recordemos, por ejemplo, a Paul Fort

    (Si toutes les filies du monde voulaient s'donner la inain, tout aulour
    de la mer, elles pourraient faire une ronde.
    Si tous les gars du monde voulaient bien etr'marins, ils j'raient avec
    leurs b-arques un joli pont sur Vonde.
    Alors on pourrait faire une ronde aulour du monde, si tous les gens
    du monde voulaient s'donner la mainj
    o a Jules Romains, o quien no citamos en gracia a la brevedad.
    Permítasenos, sin embargo, indicar que la trayectoria de esta
    clase de poesía puede también seguirse a través de la escrita
    en lengua castellana. No hagamos, para comprobarlo, sino recordar el poema Masa, de César Vallejo, en el que, primero uno,
    luego varios, más tarde muchos y, finalmente, todos los hombres
    quieren dar nueva vida a un cadáver. Esta composición poética
    termina así:



    Entonces todos los hombres de la tierra
    le rodearon; les vio el cadáver triste, emocionado;
    incorporóse lentamente,
    abrazó al primer hombre; echóse a andar...





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    Mensaje por Maria Lua Mar 06 Jun 2023, 17:07

    ***




    Pero volvamos a la evolución de Drummond de Andrade. Un
    poco más, y en Claro enigma (1951) encontraremos la rima:
    sonetos con rima, aunque el poeta, como recuerdo de sus repugnancias antiguas, aún querrá de vez en cuando hacer una transgresión. El pensamiento poético se desenvuelve también dentro de
    cauces que están más próximos a los modos de la poesía tradicional tan odiados en la época de Alguma poesia. He aquí un soneto:




    Legado


    ¿Qué recuerdo daré al país que me dio
    cuanto recuerdo y sé, todo cuanto sentí?
    En noche del sin fin, pronto el tiempo olvidó
    mi dudosa medalla, y se ríe de mí.

    ¿Merezco esperar más que esperan otros, yo?
    Tú no me engañas, mundo, y no te engaño a ti.
    Monstruos de ahora Orfeo nunca los cautivó,
    vagando, taciturno, entre el tal vez y el sí.

    No dejaré de mí ningún canto radioso:
    una voz matinal palpitando en la bruma
    y que arranque de alguien su más secreto espino.

    De todo cuanto fue mi paso caprichoso
    tan sólo ha de quedar, pues el resto se esfuma,
    una piedra que había en medio del camino


    En los siguientes libros—Fazendeiro do ar (1952-1953) y
    A vida passada a limpo (1954-1958)—encontramos nuevos sonetos
    y estrofas más o menos regulares que alternan con el verso libre
    y parecen anunciar una nueva ruptura formal. Esta se produce,
    en efecto, en su último libro, Lição de Coisas, publicado en este
    año de 1962. Bien es verdad que en el mismo hay atisbos y hasta
    ejemplos de una nueva forma poética, muy eficaz hoy en el
    Brasil, a cuyo nacimiento no podemos considerar completamente ajeno a Drummond de Andrade.




    continuará


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    Mensaje por Maria Lua Mar 06 Jun 2023, 17:10

    ***

    La materia de su poesía es, según ha manifestado repetidamente el poeta, la realidad de su tiempo. El se quiere realista
    y ya cinco años antes de publicar su primer libro expresa así
    sus propósitos, si bien de manera oblicua, en Revista de Belo
    Horizonte: «El exceso de crítica, dominante en los años anteriores a 1914, se resolvió en el exceso contrario, de extrema pasividad ante los fenómenos del mundo exterior. El paroxismo de las
    doctrinas estéticas llegó a DADA; se repitió el descalabro de la
    Torre de Babel. Ahora, el escritor, huye de teorías y construcciones abstractas para trabajar la realidad con manos purasy> (3).

    Su inmersión en la realidad, no carente de humor ni de un
    agudo sentido crítico, le lleva, tras haberla transcendido, a su libro A rosa do povo, en el que reacciona contra el desgarro y la
    tragedia de un mundo en llamas, inclinándose, sin falsos sentimentalismos, por la libertad y la paz. Pero no vayamos a pensar en una poesía panfletária o en la que se propongan soluciones utópicas, perdiendo así el poeta los estribos y metiéndose a
    reformador. Drummond de Andrade se limita a poner de manifiesto el miedo (léase nuestra traducción del poema Congreso
    Internacional del Miedo), la protesta y la esperanza, pero es lo
    suficientemente elegante y reservado—Lo bastante minero—para
    no intentar una actitud profética.
    Su realismo tampoco es regionalista y, aunque es verdad que
    sus versos resultan muy brasileños, tendremos que convenir con
    Paulo Rónai en que «sus anclas fondean antes en el tiempo que
    en el espacio. Está más ligado al tiempo que al medio. Aunque
    sea revelador de varios aspectos del paisaje íntimo del Brasil, el
    arte de este poeta es antes que nada el arte de nuestra época, cuyas crisis y ansias expresa con innegable grandeza:


    El tiempo es mi materia, el tiempo presente, los hombres presentes,
    la vida presente* (4).


    *******************
    (3) Revista citada. Número 1, julio de 1925. Cita tomada de A literatura
    no Brasil, volumen III, tomo I. Livraria São José, Rio de Janeiro, 1959, páginas 578 y 579. (La obra ha sido dirigida por Afrânio Coutinho y el artículo
    al que pertenece la cita es original de Péricles Eugenio da Silva Ramos y se
    titula O modernismo na poesia.)
    (4) Paulo RÓNAI, Encontros corn o Brasil. Ministerio da Educação e
    Cultura. Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro, 1959, página 74.



    continuará


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    Mensaje por Maria Lua Mar 06 Jun 2023, 17:11

    ***




    Caracterizada a grandes rasgos su actitud realista, conviene
    referirse de modo semejante a lo ya dicho en relación con el aspecto formal de su poesía. En este sentido. Drummond de Andrade ha dado un ejemplo que han sabido comprender muchos de
    los poetas posteriores a él: se trata de su largo camino hacia
    cada vez mayores exigencias formales. Drummond llega a la poesía cuando ya empiezan a estar hechos los hombres de la revolución modernista y sabe usufructuar como nadie la liberación
    formal e ideológica que dicho movimiento comporta. Pero esta
    libertad es voluntariamente vigilada por el poeta—que no sigue en este sentido el ejemplo del gran Mario de Andrade, muy
    preocupado por las experiencias vanguardistas—primero, mediante la eliminación de lc< que pudiéramos llamar divagaciones temáticas (la materia poética es clara, definida, objetiva y proporcionada, o así quiere serlo, en cada uno de sus poemas) y en segundo lugar, mediante la adopción de metros tradicionales, tales
    como los romances de seis, siete y ocho sílabas y el soneto, al que
    ya nos hemos referido. El ejemplo de Drummond cundió entre
    los poetas de la generación postmodernista (baste con citar los
    nombres de Mauro Mota, Ledo Ivo y, sobre todo, João Cabral de
    Melo, auténtico renovador, en la actualidad, del verso brasileño) y quiere ser llevado a sus límites extremos por las últimas generaciones poéticas, presas de un afán de orden y concierto en un
    panorama sobre el que todavía se reflejan las sombras de periodos anárquicos muy anteriores en el tiempo.
    Esta es, nos damos cuenta de ello, la silueta, más que él
    retrato, de Carlos Drummond de Andrade. Aunque pensamm
    volver sobre su poesía, esperamos que la presente selección de
    versos de la que hemos considerado primera parte de su obra,
    añada nuevos rasgos a la imagen que nos proponemos completar
    cuando traduzcamos una selección de poemas de sus últimos
    libros.



    U. A. y A. € .








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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Mar 06 Jun 2023, 17:12

    CONGRESO INTERNACIONAL DEL MIEDO



    Provisionalmente no cantaremos al amor,
    que se refugió más abajo de los subterráneos.
    Cantaremos al miedo, que esteriliza los abrazos,
    no cantaremos al odio porque ese no existe,
    apenas si existe el miedo, nuestro padre y nuestro compañero,
    el miedo grande de las estepas, de los mares, de los desiertos,
    el miedo de los soldados, el miedo de las madres, el miedo de
    las iglesias,
    cantaremos el miedo de los dictadores, el miedo de los demócratas.
    cantaremos el miedo de la muerle y de después de la muerte,.
    después moriremos de miedo
    y sobre nuestros túmulos nacerán flores amarillas y medrosas.




    (De Sentimento do Mundo, 1935-1940.)




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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Jue 08 Jun 2023, 18:53

    TRISTEZA EN EL CIELO



    En el cielo hay también una hora melancólica,
    hora difícil en que la duda penetra las almas.
    ¿Por qué hice el mundo?. Dios se pregunta,
    y se responde: No sé.
    Los ángeles lo miran con reprobación
    y plumas caen.
    Todas las hipótesis: la gracia, la eternidad, el amor
    caen, son plumas.
    Otra pluma, y el cielo se deshace.
    Tan manso, ningún fragor denuncia
    el momento entre todo y nada,
    o sea, la tristeza de Dios.
    (De José, 1941-1942.)



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    Mensaje por Maria Lua Vie 09 Jun 2023, 08:52

    PARA SEMPRE, POEMA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, NA VOZ DO POETA







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    Mensaje por Maria Lua Sáb 10 Jun 2023, 18:06

    MUERTE EN EL AVIOM



    Me despierto para la muerte.
    Me afeito, me visto, me calzo.
    Es mi último día: un día
    cruzado por ningún presentimiento.
    Todo funciona como siempre.
    Salgo para la calle. Voy a morir.
    No moriré ahora. Un día
    entero se desata por mi frente,
    iCómo es de largo un día! Cuántos pasos
    en la calle: la cruzo. Y cuántas cosas
    que hay en el tiempo, acumuladas. Sin reparar
    sigo mi camino. Muchos rostros
    se aprietan en el cuaderno de notas.
    Visito el banco. ¿Para qué
    ese dinero azul, si algunas horas
    después vendrá la policía a retirarlo
    de lo que fue mi pecho y está abierto?
    Mas no me veo cortado, ensangrentado.
    Estoy lirppio, claro, nítido, estival.
    Y, no obstante, camino hacia la muerte.
    Paso por los despachos. Por espejos,
    por las manos que aprietan, por los ojos miopes, por bocas
    que sonríen o simplemente hablan, yo desfilo.
    No me desembarazo, de nada sé, no temo:
    la muerte disimula
    su hálito y su táctica.
    Almuerzo. ¿Para qué? Almuerzo un pez en oro y crema.
    Es mi último pez en mi último
    tenedor. La boca distingue, escoge, juzga,
    absorbe. Pasa música en dulce, es un escalofrío
    de violín o viento, no'sé. No es la muerte.
    Es el sol. Los tranvías repletos. El trabajo.
    Estoy en la gran ciudad y soy un hombre
    en su engranaje. Tengo prisa. Voy a morir.
    Pido paso a los lentos. No miro a los cafés
    con su ruido de tazas y de anécdotas,
    como no miro al muro del viejo hospital en sombra.
    Ni a los carteles. Tengo prisa. Compro un periódico. Es prisa,
    aunque va a morir.
    El día en su mitad ya rota no me avisa
    que comienzo también a acabar. Estoy cansado.
    Quería dormir, pero los preparativos... El teléfono.
    La factura. La carta. Hago mil cosas
    que crearán mil otras, aquí, allí, en los Estados Unidos.
    Me comprometo en firme, combino encuentros,
    a los que nunca iré, digo palabras vanas,
    miento diciendo: hasta mañana. Pues no habrá.
    Declino con la tarde, me duele la cabeza, me defiendo,
    la mano alarga un comprimido: el agua
    ahoga la menos que dolor, la mosca,
    el zumbido... De eso no moriré: la muerte engaña,
    igual que un jugador de fútbol la muerte engaña,
    lo mismo que los cajeros escoge
    meticulosa, entre dolencias y desastres.
    Aún no es la muerte, es la sombra
    sobre edificios fatigados, pausa
    entre dos carreras. Desfallece el comercio al por mayor,
    se van a descansar los ingenieros, los funcionarios, los canteros.
    Pero, continúan los motoristas, los garçons,
    mil otras profesiones nocturnas. La ciudad
    muda de mano, de golpe.
    Vuelvo a casa. De nuevo me limpio.
    Que mi pelo se presente ordenado
    y las uñas no recuerden la antigua criatura rebelde.
    La ropa sin polvo. La maleta sintética.
    Cierro mi cuarto. Cierro mi vida.
    El ascensor me cierra. Estoy sereno.
    Por la última vez miro a la ciudad.
    Aún'puedo desistir, aplazar la muerte, no tomar ese auto. No-*
    seguir, parar.
    Puedo volver, decir: amigos,
    se me olvidó un papel, no hay viaje,
    ir al casino, leer un libro.
    Pero tomo el auto. Indico el lugar
    donde algo espera. El campo. Reflectores.
    Paso entre mármoles, vidrio, acero cromado.
    Subo una escalera. Me agacho. Penetro
    en el interior de la muerte.
    La muerte dispone butacas para la comodidad
    de la espera. Aquí se encuentran
    los que van a morir y no saben.
    Periódicos, café, chiclets, algodón para los oídos*
    pequeños servicios rodean de delicadeza
    nuestros cuerpos amarrados.
    Vamos a morir, ya no es apenas
    mi fin particular y limitado,
    somos veinte para ser destruidos.
    moriremos veinte,
    veinte nos haremos pedazos, es ahora.
    O casi. Primero la muerte particular,
    restricta, silenciosa, del individuo.
    Muero secretamente y sin dolor,
    para vivir apenas como pedazo de veinte,
    y me incorporo todos los pedazos
    de los que igualmente van pereciendo callados.
    Somos uno en veinte, ramillete
    de soplos robustos prontos a ser deshechos.
    Y resbalamos sobre el aire.
    frígidamente resbalamos sobre los negocios
    y los amores de la región.
    Calles de juguete se deshacen.
    luces se extinguen; apenas
    colchón de nubes, oteros se disuelven,
    apenas
    un tubo de frío roza mis oídos,
    un tubo que se obtura: y dentro
    de la caja iluminada y tépida vivimos:
    cómoda soledad y calma y nada.
    Vivo
    mi momento final y es como
    si viviese hace muchos años
    antes y después de hoy, una continua vida irrefrenable,
    donde no hubiese pausas, síncopes, sueños,
    tan suave es en la noche esta máquina y tan fácilmente corta
    bloques cada vez mayores de aire.
    Soy veinte en la máquina
    que suavemente respira,
    entre candelas estelares y remotos soplos de tierra,
    me siento natural a millares de metros de altura,
    ni ave, ni mito,
    guardo conciencia de mis poderes,
    y sin mixtificación yo vuelo,
    soy un cuerpo volante y conservo bolsillos, relojes, uñas,
    ligado a tierra por la memoria y por la costumbre de los músculos,
    carne en breve estallando.
    Oh, blancura, serenidad bajo la violencia
    de la muerte sin aviso previo,
    cautelosa, no obstante irreprimible aproximación de un peligro
    atmosférico,
    golpe vibrado en el aire, lámina de viento
    en el pescuezo, rayo
    choque, estruendo, fulguración,
    rodamos pulverizados
    caigo verticalmente y me transformo en noticia.






    (De A rosa do povo, 1943-1945.)


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