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    Mensaje por Maria Lua Vie 06 Ene 2023, 19:06

    BRINDE NO JUÍZO FINAL

    Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
    poetas de elixir de inhame e de tonofosfan,
    chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
    poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.
    Em vão assassinaram a poesia nos livros,
    em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
    Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
    poetas diretos da Rua Larga.
    (As outras ruas são muito estreitas,
    só nesta cabem a poeira,
    o amor
    e a Light.)




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    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Mar 10 Ene 2023, 12:36

    INOCENTES DO LEBLON


    Os inocentes do Leblon
    não viramo navio entrar.
    Trouxe bailarinas?
    trouxe emigrantes?
    trouxe umgrama de rádio?
    Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
    mas a areia é quente, e há umóleo suave
    que eles passamn as costas, e esquecem.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 10 Ene 2023, 12:38

    CANÇÃODE BERÇO


    O amor não tem importância.
    No tempo de você, criança,
    uma simples gota de óleo
    povoará o mundo por inoculação,
    e o espasmo
    (longo demais para ser feliz)
    não mais dissolverá as nossas carnes.
    Mas tambéma carne não temimportância.
    E doer, gozar, o próprio cântico afinal é indiferente.
    Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos de namorados
    [sobre a via férrea
    e o tremque passa, como umdiscurso, irreparável:
    tudo acontece, menina,
    e não é importante, menina,
    e nada fica nos teus olhos.
    Tambéma vida é semimportância.
    Os homens não me repetem
    nemme prolongo até eles.
    A vida é tênue, tênue.
    Ogrito mais alto ainda é suspiro,
    os oceanos calaram-se há muito.
    Emtua boca, menina,
    ficou o gosto de leite?
    ficará o gosto de álcool?
    Os beijos não são importantes.
    No teu tempo nemhaverá beijos.
    Os lábios serão metálicos,
    civil, e mais nada, será o amor
    dos indivíduos perdidos na massa
    e só uma estrela
    guardará o reflexo
    do mundo esvaído
    (aliás sem importância).


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    Mensaje por Maria Lua Mar 10 Ene 2023, 12:38

    INDECISÃODOMÉIER

    Teus dois cinemas, um ao pé do outro, por que não se afastam
    para não criar, todas as noites, o problema da opção
    e evitar a humilde perplexidade dos moradores?
    Ambos coma melhor artista e a bilheteira mais bela,
    que tortura lançam no Méier!


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    Mensaje por Maria Lua Mar 10 Ene 2023, 12:40

    BOLERO DE RAVEL


    A alma cativa e obcecada
    enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
    e melancolia.
    Infinita, infinitamente…
    As mãos não tocamjamais o aéreo objeto,
    esquiva ondulação evanescente.
    Os olhos, magnetizados, escutam
    e no círculo ardente nossa vida para sempre está presa,
    está presa…
    Os tambores abafam a morte do Imperador


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    Mensaje por Maria Lua Mar 10 Ene 2023, 12:41

    LA POSSESSIONDUMONDE

    Os homens célebres visitam a cidade.
    Obrigatoriamente exaltam a paisagem.
    Alguns se arriscamno Mangue,
    outros se limitamao Pão deAçúcar,
    mas somente Georges Duhamel
    passou a manhã inteira no meu quintal.
    Ou antes, no quintal vizinho do meu quintal.
    Sentado na pedra, espiando os mamoeiros,
    conversava como eminente neurologista.
    Houve uma hora emque ele se levantou
    (emmeio a erudita dissertação científica).
    Ia, talvez, confiar a mensagemda Europa
    aos corações cativos da jovemAmérica…
    Mas apontou apenas para a vertical
    e pediu ce cocasse fruit jaune.



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    Mensaje por Maria Lua Miér 11 Ene 2023, 08:52

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    La conquista de la libertad es algo que deja tanto polvo que, por miedo al desorden, normalmente preferimos optar por ordenar.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 13 Ene 2023, 14:22

    OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO



    Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
    Tempo de absoluta depuração.
    Tempo em que não se diz mais: meu amor.
    Porque o amor resultou inútil.
    E os olhos não choram.
    E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
    E o coração está seco.

    Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
    Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
    mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
    És todo certeza, já não sabes sofrer.
    E nada esperas de teus amigos.

    Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
    Teus ombros suportamo mundo
    e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
    As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
    provamapenas que a vida prossegue
    e nemtodos se libertaramainda.
    Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
    prefeririam(os delicados) morrer.
    Chegou um tempo em que não adianta morrer.
    Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
    A vida apenas, sem mistificação.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 13 Ene 2023, 14:24

    MÃOS DADAS


    Não serei o poeta de ummundo caduco.
    Tambémnão cantarei o mundo futuro.
    Estou preso à vida e olho meus companheiros.
    Estão taciturnos mas nutremgrandes esperanças.
    Entre eles, considero a enorme realidade.
    Opresente é tão grande, não nos afastemos.
    Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

    Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
    não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagemvista da janela,
    não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
    não fugirei para as ilhas nemserei raptado por serafins.
    O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens
    [presentes,
    a vida presente.





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    Mensaje por Maria Lua Mar 24 Ene 2023, 06:41

    MADRIGAL LÚGUBRE



    Em vossa casa feita de cadáveres,
    ó princesa! ó donzela!
    em vossa casa, de onde o sangue escorre,
    quisera eu morar.
    Cá fora é o vento e são as ruas varridas de pânico,
    é o jornal sujo embrulhando fatos, homens e comida guardada.
    Dentro, vossas mãos níveas e mecânicas tecem algo parecido com
    [um véu.
    O mundo, sob a neblina que criais, torna-se de tal modo
    [espantoso
    que o vosso sono de mil anos se interrompe para admirá-lo.
    Princesa: acordada sois mais bela, princesa.
    E já não tendes o ar contrariado dos mortos à traição.
    Arrastar-me-ei pelo morro e chegarei até vós.
    Tão completo desprezo se transmudará em tanto amor…
    Dai-me vossa cama, princesa,
    vosso calor, vosso corpo e suas repartições,
    oh dai-me! que é tempo de guerra,
    tempo de extrema precisão.
    Não vos direi dos meninos mortos
    (nem todos mortos, é verdade,
    alguns, apenas mutilados).
    Tampouco vos contarei a história
    algo monótona talvez
    dos mil e oitocentos atropelados
    no casamento do rei da Ásia.
    Algo monótono…Ásia monótona…
    Se bocejardes, minha cabeça
    cairá por terra, sem remissão.
    Sutil flui o sangue nas escadarias.
    Ah, esses cadáveres não deixam
    conciliar o sono, princesa?
    Mas o corpo dorme; dorme assim mesmo.
    Imensa berceuse sobe dos mares,
    desce dos astros lento acalanto,
    leves narcóticos brotam da sombra,
    doces unguentos, calmos incensos.
    Princesa, os mortos! gritamos mortos!
    querem sair! querem romper!
    Tocai tambores, tocai trombetas,
    imponde silêncio, enquanto fugimos!
    …Enquanto fugimos para outros mundos,
    que esse está velho, velha princesa,
    palácio em ruínas, ervas crescendo,
    lagarta mole que escreves a história,
    escreve sem pressa mais esta história:
    o chão está verde de lagartas mortas…
    Adeus, princesa, até outra vida


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    Mensaje por Maria Lua Mar 24 Ene 2023, 06:43

    LEMBRANÇA DO MUNDO ANTIGO


    Clara passeava no jardim com as crianças.
    O céu era verde sobre o gramado,
    a água era dourada sob as pontes,
    outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
    o guarda-civil sorria, passavambicicletas,
    a menina pisou a relva para pegar umpássaro,
    o mundo inteiro, aAlemanha, a China, tudo era tranquilo
    [emredor deClara.
    As crianças olhavampara o céu: não era proibido.
    A boca, o nariz, os olhos estavamabertos. Não havia perigo.
    Os perigos queClara temia erama gripe, o calor, os insetos.
    Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
    esperava cartas que custavama chegar,
    nemsempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim,
    [pela manhã !!!
    Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!


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    Mensaje por Maria Lua Mar 24 Ene 2023, 06:45

    ELEGIA 1938

    Trabalhas semalegria para ummundo caduco,
    onde as formas e as ações não encerramnenhumexemplo.
    Praticas laboriosamente os gestos universais,
    sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

    Heróis enchemos parques da cidade emque te arrastas,
    e preconizama virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
    À noite, se neblina, abremguarda-chuvas de bronze
    ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

    Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
    e sabes que, dormindo, os problemas te dispensamde morrer.
    Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
    e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

    Caminhas entre mortos e comeles conversas
    sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
    A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
    Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

    Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
    e adiar para outro século a felicidade coletiva.
    Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
    porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Ma
    nhattan.




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    37


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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    Mensaje por Maria Lua Jue 26 Ene 2023, 09:03

    MUNDO GRANDE


    Não, meu coração não é maior que o mundo.
    É muito menor.
    Nele não cabem nem as minhas dores.
    Por isso gosto tanto de me contar.
    Por isso me dispo,
    por isso me grito,
    por isso frequento os jornais, me exponho cruamente
    [nas livrarias:
    preciso de todos.

    Sim, meu coração é muito pequeno.
    Só agora vejo que nele não cabemos homens.
    Os homens estão cá fora, estão na rua.
    A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
    Mas também a rua não cabe todos os homens.
    A rua é menor que o mundo.
    O mundo é grande.

    Tu sabes como é grande o mundo.
    Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
    Viste as diferentes cores dos homens,
    as diferentes dores dos homens,
    sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
    num só peito de homem…sem que ele estale.

    Fecha os olhos e esquece.
    Escuta a água nos vidros,
    tão calma. Não anuncia nada.
    Entretanto escorre nas mãos,
    tão calma! vai inundando tudo…
    Renascerão as cidades submersas?
    Os homens submersos —voltarão?

    Meu coração não sabe.
    Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
    Só agora descubro
    como é triste ignorar certas coisas.
    (Na solidão de indivíduo
    desaprendi a linguagem
    com que homens se comunicam.)
    Outrora escutei os anjos,
    as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
    Nunca escutei voz de gente.
    Em verdade sou muito pobre.

    Outrora viajei
    países imaginários, fáceis de habitar,
    ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando
    [ao suicídio.
    Meus amigos foram às ilhas.
    Ilhas perdem o homem.
    Entretanto alguns se salvaram e
    trouxeram a notícia
    de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
    entre o fogo e o amor.

    Então, meu coração também pode crescer.
    Entre o amor e o fogo,
    entre a vida e o fogo,
    meu coração cresce dez metros e explode.
    —Ó vida futura! nós te criaremos.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 27 Ene 2023, 08:21

    Ruas

    Por que ruas tão largas?
    Por que ruas tão retas?
    Meu passo torto
    foi regulado pelo becos tortos
    de onde venho.
    Não sei andar na vastidão simétrica
    implacável.
    Cidade grande é isso?
    Cidades são passagens sinuosas
    de esconde-esconde
    em que as casas aparecem-desaparecem
    quando bem entendem
    e todo mundo acha normal.
    Aqui tudo é exposto
    evidente
    cintilante. Aqui
    obrigam-me a nascer de novo, desarmado.




    ***************



    Calles

    ¿Por qué calles tan anchas?
    ¿Por qué calles tan rectas?
    mi paso torcido
    estaba regulado por los callejones torcidos
    de donde vengo.
    No sé caminar en la vastedad simétrica
    implacable.
    Gran ciudad es eso?
    Ciudades son pasajes sinuosos
    al escondite
    donde las casas aparecen-desaparecen
    cuando lo desean
    y todos piensan que es normal.
    Aquí todo está expuesto.
    evidente
    centelleante. Aqui
    me obligan a nacer de nuevo, desarmado.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 31 Ene 2023, 08:00

    Vamos, no llores...

    Vamos, no llores...
    La infancia se ha perdido.
    La juventud se ha perdido.
    Pero la vida aún no se ha perdido.

    El primer amor ya pasó.
    El segundo también pasó.
    El tercer amor pasó.
    Pero aún continúa vivo el corazón.

    Perdiste a tu mejor amigo.
    No realizaste ningún viaje.
    No posees tierra, ni casa, ni barco,
    pero tienes un perro.

    Algunas duras palabras
    en voz tenue, te golpearon.
    Esas, nunca, nunca cicatrizan.
    Sin embargo, ¿existe el humor?



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    Mensaje por Maria Lua Mar 31 Ene 2023, 08:01

    Reconocimiento del amor

    Amiga, cómo carecen de norte
    los caminos de la amistad.
    Apareciste para ser el hombro suave
    donde se reclina la inquietud del fuerte
    (o que ingenuamente se pensaba fuerte).
    Traías en los ojos pensativos
    la bruma de la renuncia:
    no querías la vida plena,
    tenías el previo desencanto de las uniones para toda la vida,
    no pedías nada,
    no reclamabas tu cota de luz.
    Y te deslizabas en ritmo gratuito de ronda.
    Descansé en ti mi fajo de desencuentros
    y de encuentros funestos.
    Quería tal vez -sin percibirlo, lo juro-
    sádicamente masacrarte
    bajo el hierro de culpas y vacilaciones y angustias que dolían
    desde la hora del nacimiento,
    estigma desde el momento de la concepción
    en cierto mes perdido en la Historia,
    o más lejos, desde aquel momento intemporal
    en que los seres son apenas hipótesis no formuladas
    en el caos universal.
    ¡Cómo nos engañamos huyéndole al amor!
    Cómo lo desconocimos, tal vez con recelo de enfrentar
    su espada reluciente, su formidable
    poder de penetrar la sangre y en ella
    imprimir una orquídea de fuego y lágrimas.
    Pero, él llegó mansamente y me envolvió
    en dulzura y celestes hechizos.
    No quemaba, no brillaba, sonreía.
    No entendí, tonto que fui, esa sonrisa.
    Me herí con mis propias manos, no por el amor
    que traías para mí y que tus dedos confirmaban
    al juntarse a los míos, en la infantil búsqueda del Otro,
    el Otro que yo me suponía, el Otro que te imaginaba,
    cuando -por agudeza del amor- sentí que éramos uno sólo.
    Amiga, amada, amada amiga, así el amor
    disuelve el mezquino deseo de existir de cara al mundo
    con la mirada perdida y la ancha ciencia de las cosas.
    Ya no enfrentamos al mundo: en él nos diluimos,
    y la pura esencia en que nos transmutamos perdona
    alegorías, circunstancias, referencias temporales,
    imaginaciones oníricas,
    el vuelo del Pájaro Azul, la aurora boreal,
    las llaves de oro de los sonetos y de los castillos medievales,
    todos los engaños de la razón y de la experiencia,
    para existir en sí y para sí,
    con la rebeldía de cuerpos amantes,
    pues ya ni somos nosotros,
    somos el número perfecto: Uno.
    Tomó su tiempo, yo se, para que el «Yo» renunciase
    a la vacuidad de persistir, fijo y solar,
    y se confesara jubilosamente vencido,
    hasta respirar el más grande júbilo de la integración.
    Ahora, amada mía para siempre,
    ni mirada tenemos para ver, ni oídos para captar la melodía,
    el paisaje, la transparencia de la vida,
    perdidos como estamos en la concha ultramarina de mar.





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    Mensaje por Maria Lua Miér 01 Feb 2023, 13:51

    Canto órfico

    La danza ya no suena,
    la música dejó de ser palabra,
    el cántico creció del movimiento.
    Orfeo, dividido, anda en busca
    de esa unidad áurea que perdimos.

    Mundo desintegrado, tu esencia
    reside tal vez en la luz, más neutra ante los ojos
    desaprendidos de ver; y bajo la piel,
    ¿qué turbia imporosidad nos limita?
    De ti a ti, abismo; y en él, los ecos
    de una prístina ciencia, ahora exangüe.

    Ni tu cifra sabemos. Ni aun captándola
    tuviéramos poder de penetrarte. Yerra el misterio
    en torno de su núcleo. Y restan pocos
    encantamientos válidos. Quizás
    apenas uno y grave: en nosotros
    tu ausencia retumba todavía, y nos estremecemos
    R una pérdida se forma de esas ganancias.

    Tu medida, el silencio la ciñe, la esculpe casi,
    brazos del no-saber. Oh fabuloso
    udo paralítico sordo nato incógnito
    la raíz de la mañana que tarda, y tarde,
    do la línea del cielo en nosotros se esfuma,
    tornándonos extranjeros más que extraños.

    En el duelo de las horas, tu imagen
    atraviesa membranas sin que la suerte
    se decida a escoger. Las artes pétreas
    recógense a sus tardos movimientos.
    En vano: ellas no pueden ya.
    Amplio
    vacío
    un espacio estelar contempla signos
    que se harán dulzura, convivencia,
    espanto de existir, y mano anchurosa
    recorriendo asombrada otro cuerpo.

    La música se mece en lo posible,
    en el finito redondo, donde se crispa
    una agonía moderna. El canto es blanco,
    huye a sí mismo, ¡vuelos! palmas lentas
    sobre el océano estático: balanceo
    del anca terrestre, segura de morir.

    ¡Orfeo, reúnete! llama tus dispersos
    y conmovidos miembros naturales
    y límpido reinaugura
    el ritmo suficiente que, nostálgico,
    en la nervadura de las hojas se limita,
    cuando no forma en el aire, siempre estremecido,
    una espera de fustes, sorprendida.

    Orfeo, danos tu número
    de oro, entre apariencias
    que van del vano granito a la linfa irónica.
    lntégranos, Orfeo, en otra más densa
    atmósfera del verso antes del canto,
    del verso universo, lancinante
    en el primer silencio,
    promesa del hombre, contorno aún improbable
    de dioses por nacer, clara sospecha
    de la luz en el cielo sin pájaros,
    vacío musical a ser poblado
    por el mirar de la sibila, circunspecto.

    Orfeo, te llamamos, baja al tiempo
    y escucha:
    sólo al decir tu nombre, ya respira
    la rosa trimegista, abierta al mundo.




    Versión de Jorge Gaitán Durán y Dina Moscovich


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    Mensaje por Maria Lua Miér 01 Feb 2023, 13:51

    Dulce fantasma, ¿por qué me visitas...

    Dulce fantasma, ¿por qué me visitas
    como en otros tiempos nuestros cuerpos se visitaban?
    Me roza la piel tu transparencia, me invita
    a rehacernos caricias imposibles: nadie
    recibió nunca un beso de un rostro consumido.
    Pero insistes, dulzura. Oigo tu voz,
    la misma voz, el mismo timbre,
    las mismas leves sílabas,
    y aquel largo jadeo
    en que te desvanecías de placer,
    y nuestro final descanso de gamuza.
    Entonces, convicto,
    oigo tu nombre, única parte tuya indisoluble
    música pura en continua existencia.
    ¿A qué me abro?, a ese aire imposible
    en que te has convertido
    y beso, beso esa nada intensamente.




    Versión de Ángel Crespo


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    Mensaje por Maria Lua Miér 01 Feb 2023, 13:52

    El mundo es grande y cabe ...

    El mundo es grande y cabe
    en esta ventana sobre el mar.
    El mar es grande y cabe
    en la cama y en el colchón de amar.
    El amor es grande y cabe
    en el breve espacio de besar.



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    Mensaje por Maria Lua Dom 05 Feb 2023, 17:05

    En mitad del camino había una piedra...

    En mitad del camino había una piedra
    había una piedra en la mitad del camino
    había una piedra
    en la mitad del camino había una piedra.

    Nunca olvidaré la ocasión
    nunca tanto tiempo como mis ojos cansados permanezcan abiertos.

    Nunca olvidaré que en la mitad del camino
    había una piedra
    había una piedra en la mitad del camino
    en la mitad del camino había una piedra.





    Versión de Rafael Díaz Borbón


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    Mensaje por Maria Lua Jue 09 Feb 2023, 08:06

    Los que sufren

    Las plantas sufren como nosotros sufrimos.
    ¿Por qué no habrían de sufrir
    si esta es la llave de la unidad del mundo?

    La flor sufre, tocada
    por la mano inconsciente.
    Hay una ahogada queja
    en su docilidad.

    La piedra es sufrimiento
    paralítico, eterno.

    Nosotros -animales- no tenemos
    ni siquiera el privilegio de sufrir.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 09 Feb 2023, 08:07

    No, mi corazón no es más grande que el mundo...



    No, mi corazón no es más grande que el mundo.
    Es mucho más pequeño.
    En él no caben ni mis dolores.
    Por eso me gusta tanto contarme a mí mismo
    por eso me desvisto, por eso me grito,
    por eso frecuento los diarios,
    me expongo crudamente en las librerías:
    necesito de todos.
    Sí, mi corazón es muy pequeño.
    Sólo ahora veo que en él caben los hombres.
    Los hombres están aquí afuera, están en la calle.
    La calle es enorme. Más grande, mucho más grande
    de lo que yo esperaba.
    Mas en la calle tampoco caben todos los hombres.
    La calle es más pequeña que el mundo.
    El mundo es grande.
    Tú sabes como es grande el mundo.
    Conoces los navíos que llevan petróleo y libros, carne y algodón.
    Viste los diferentes colores de los hombres,
    los diferentes dolores de los hombres,
    sabes cómo es difícil sufrir todo eso, amontonar todo eso
    en un solo pecho de hombre... sin que estalle.
    Cierra los ojos y olvida.
    Escucha el agua en los vidrios tan calmada. No anuncia nada.
    Sin embargo, se escurre en las manos,
    ¡tan calmada! va inundando todo...
    ¿Renacerán las ciudades sumergidas?
    ¿Los hombres sumergidos -volverán?
    Mi corazón no sabe.
    Estúpido, ridículo y frágil es mi corazón.
    Sólo ahora descubro cómo es triste ignorar ciertas cosas.
    (En la soledad de individuo
    desaprendí el lenguaje
    con que los hombres se comunican).
    Otrora escuché a los ángeles, las sonatas, los poemas,
    las confesiones patéticas.
    Nunca escuché voz de gente. En verdad soy muy pobre.
    Otrora viajé por países imaginarios, fáciles de habitar,
    islas sin problemas, no obstante exhaustivas
    y convocando al suicidio.
    Mis amigos se fueron a las islas.
    Las islas pierden al hombre.
    Sin embargo algunos se salvaron y trajeron la noticia
    de que el mundo, el gran mundo está creciendo todos los días,
    entre el fuego y el amor.
    Entonces, mi corazón también puede crecer.
    Entre el amor y el fuego,
    entre la vida y el fuego,
    mi corazón crece diez metros y explota.
    -¡Oh vida futura! nosotros te crearemos.






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    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil, 31/10/ 1902 –  17/08/ 1987) - Página 16 Empty Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil, 31/10/ 1902 – 17/08/ 1987)

    Mensaje por Maria Lua Jue 09 Feb 2023, 21:44

    No lo hagas

    Carlos, fácil, amor
    es lo que ves:
    hoy un beso, mañana nada,
    y el siguiente día es Domingo
    y por Lunes, quién sabe
    qué sucederá.

    Tonto, deberías resistir
    o matarte, aún.
    No lo hagas, Oh, no lo hagas.
    Guárdalo todo para
    la fiesta de bodas, nadie sabe
    cuando vendrá,
    o aún si vendrá.

    Amor, Carlos, hijo de la Tierra,
    pasaría la noche contigo
    y, vencidas tus hesitaciones,
    dentro crecería una maravillosa barahúnda:
    rezos
    estéreo
    santos bendiciéndolos
    avisos para las mejores marcas de jabón,
    una barahúnda nadie sabe
    de dónde, qué por qué.
    Aún caminas
    melancólico, vertical.
    Eres la palmera, eres el grito
    que nadie escuchó en el cine
    y las luces se apagaron.

    Amor en la oscuridad -no- amor por día
    es siempre triste, Carlos, mi hijo,
    pero no le vayas a contar a nadie,
    ellos no saben y no tienen que
    saberlo.



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    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Jue 09 Feb 2023, 21:44

    Permanencia

    Ahora recuerdo uno, antes recordaba otro.

    Día vendrá en que ninguno será recordado.

    Entonces en el mismo olvido se fundirán.
    Una vez más la carne unida, y las bodas
    cumpliéndose en sí mismas, como ayer y siempre.

    Pues eterno es el amor que une y separa, y eterno
    el fin
    (ya comenzara , antes de ser), y somos eternos,
    frágiles, nebulosos, tartamudos, frustrados:
    eternos.

    Y el olvido todavía es memoria, y lagunas de
    sueño
    cierran en su negrura lo que amamos y fuimos
    un día,
    o nunca fuimos y que con todo arde en nosotros
    a la manera de la llama que duerme en la leña
    apilada en el galpón.





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    Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Feb 2023, 07:32

    Reconocimiento del amor

    Amiga, cómo carecen de norte
    los caminos de la amistad.
    Apareciste para ser el hombro suave
    donde se reclina la inquietud del fuerte
    (o que ingenuamente se pensaba fuerte).
    Traías en los ojos pensativos
    la bruma de la renuncia:
    no querías la vida plena,
    tenías el previo desencanto de las uniones para toda la vida,
    no pedías nada,
    no reclamabas tu cota de luz.
    Y te deslizabas en ritmo gratuito de ronda.
    Descansé en ti mi fajo de desencuentros
    y de encuentros funestos.
    Quería tal vez -sin percibirlo, lo juro-
    sádicamente masacrarte
    bajo el hierro de culpas y vacilaciones y angustias que dolían
    desde la hora del nacimiento,
    estigma desde el momento de la concepción
    en cierto mes perdido en la Historia,
    o más lejos, desde aquel momento intemporal
    en que los seres son apenas hipótesis no formuladas
    en el caos universal.
    ¡Cómo nos engañamos huyéndole al amor!
    Cómo lo desconocimos, tal vez con recelo de enfrentar
    su espada reluciente, su formidable
    poder de penetrar la sangre y en ella
    imprimir una orquídea de fuego y lágrimas.
    Pero, él llegó mansamente y me envolvió
    en dulzura y celestes hechizos.
    No quemaba, no brillaba, sonreía.
    No entendí, tonto que fui, esa sonrisa.
    Me herí con mis propias manos, no por el amor
    que traías para mí y que tus dedos confirmaban
    al juntarse a los míos, en la infantil búsqueda del Otro,
    el Otro que yo me suponía, el Otro que te imaginaba,
    cuando -por agudeza del amor- sentí que éramos uno sólo.
    Amiga, amada, amada amiga, así el amor
    disuelve el mezquino deseo de existir de cara al mundo
    con la mirada perdida y la ancha ciencia de las cosas.
    Ya no enfrentamos al mundo: en él nos diluimos,
    y la pura esencia en que nos transmutamos perdona
    alegorías, circunstancias, referencias temporales,
    imaginaciones oníricas,
    el vuelo del Pájaro Azul, la aurora boreal,
    las llaves de oro de los sonetos y de los castillos medievales,
    todos los engaños de la razón y de la experiencia,
    para existir en sí y para sí,
    con la rebeldía de cuerpos amantes,
    pues ya ni somos nosotros,
    somos el número perfecto: Uno.
    Tomó su tiempo, yo se, para que el «Yo» renunciase
    a la vacuidad de persistir, fijo y solar,
    y se confesara jubilosamente vencido,
    hasta respirar el más grande júbilo de la integración.
    Ahora, amada mía para siempre,
    ni mirada tenemos para ver, ni oídos para captar la melodía,
    el paisaje, la transparencia de la vida,
    perdidos como estamos en la concha ultramarina de mar.








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    Mensaje por Maria Lua Lun 13 Feb 2023, 07:29

    RECORDATORIO

    Si busca bien usted acaba encontrando.
    No la explicación (dudosa) de la vida,
    Sino la poesía (inexplicable) de la vida.




    RECORDATORIO

    Se procurar bem você acaba encontrando.
    Não a explicação (duvidosa) da vida,
    Mas a poesia (inexplicável) da vida.




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    Mensaje por Maria Lua Lun 13 Feb 2023, 07:32

    Los hombros soportan el mundo

    Llega un tiempo en que no se dice más: Dios mío.
    Tiempo de absoluta depuración.
    Tiempo en que no se dice más: amor mío.
    Porque el amor resultó inútil.
    Y los ojos no lloran.
    Y las manos tejen apenas el rudo trabajo
    y el corazón está seco.

    En vano las mujeres golpean a la puerta, no abrirás.
    Quedaste solo, la luz se apagó,
    mas en la sombra tus ojos resplandecen enormes.
    Eres todo certeza, ya no sabes sufrir.
    Y nada esperas de tus amigos.

    Poco importa que venga la vejez, ¿qué es la vejez?
    Tus hombros soportan el mundo
    y él no pesa más que la mano de un niño.
    Las guerras, las hambres, las discusiones dentro de los edificios
    prueban apenas que la vida prosigue

    y no todos se libertarán aún.
    Algunos, hallando bárbaro el espectáculo,
    preferirían (los delicados) morir.
    Llegó un tiempo en que no se anticipa morir.
    Llegó un tiempo en que la vida es una orden.
    La vida apenas, sin mistificación.



    (De Sentimiento del mundo; 1935-1940)



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    Mensaje por Maria Lua Lun 13 Feb 2023, 07:34

    Un son de vida resonando

    De los héroes que cantaste, ¿qué quedó sino la melodía de tu canto?
    Las armas en herrumbre se deshacen, los barones en la sepultura dicen nada.
    Y tu verso, tu rudo y tu suave balance de consonantes y vocales,
    tu ritmo de océano sufriendo que los recordará aún y siempre recordará.
    Tú eres la historia que narraste, no el simple narrador.
    Ella persiste más en tu poema que el tiempo neutro,
    universal sepulcro de la memoria.
    Bardo, fuiste de los dioses más que de las ninfas, las ondas en furor,
    cielos en delirio, astucias, plagas, guerras y codicias,
    lodoso material fundido en oro.
    Multisexual germinador de asombros, en la hoja blanca
    viniste demostrando lo que a los hombres,
    en la lucha contra el destino, cabe tentar, cabe vencer,
    perder, y en esto se resume la irresumible condición
    humana en el eterno juego sin sentido mayor que el de jugar.
    Y cuando de altos hechos te entendías y volvías al común
    sufrir pedestre del desamado, no te veo
    a ti perdido de nostalgias y desdenes.
    Luis, hombre extraño, que por el verbo es, más
    que un amador del propio amor palpitante, olvidado,
    revoltoso, sumiso, renaciente, refloreciendo
    en cien mil corazones multiplicado.
    Es el lenguaje. Dolor particular que deja existir
    para hacerse dolor de todos los hombres, musical,
    en la voz de órfico acento, peregrina.
    ¿Qué pájaro lascivo se intercala en la quejumbre
    sutil de tu estrofa y no sabe más si es dolor,
    delicia y espina, halago, y muerte, renacimiento?
    ¿Voluptuosidad y gemir, y del gemido destilar
    la canción consoladora a cuantos de consuelo carecían
    y jamás la harían por sí mismos?
    (¡Maldito día de nacer que en bendiciones para
    nosotros se convirtió!)
    Ya tengo una palabra preescrita que todo
    expresa cuanto en mí se turba.
    Por los antiguos y por los venideros, fuiste discurso
    de general amor.
    Camões —¡oh son de vida resonando en cada
    sílaba tuya trémula de amor y guerra
    y sueño entrelazados!




    (De La rosa del pueblo; 1941)




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    Mensaje por Maria Lua Miér 15 Feb 2023, 09:38

    Esas cosas

    “Usted no está más en la edad de sufrir por esas cosas”.

    Hay entonces la edad de sufrir
    ¿es la de no sufrir más por esas, esas cosas?

    ¿Las cosas sólo debían acontecer
    para hacer sufrir
    en la edad propia de sufrir?

    ¿O no se debía sufrir
    por las cosas que causan sufrimiento
    pues venían fuera de hora, y la hora es calma?

    ¿Y si no estoy más en la edad de sufrir
    es porque estoy muerto, y muerto
    es la edad de no sentir las cosas, esas cosas?




    (De Las impurezas del blanco; 1973)


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    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil, 31/10/ 1902 –  17/08/ 1987) - Página 16 Empty Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Brasil, 31/10/ 1902 – 17/08/ 1987)

    Mensaje por Maria Lua Miér 15 Feb 2023, 09:38

    Paso del año

    El último día del año
    no es el último día del tiempo.
    Otros días verás
    y nuevas cosas y vientres te comunicarán el calor de la vida.
    Besarás bocas, rasgarás papeles,
    harás viajes y tantas celebraciones
    de aniversario, licenciatura, promoción, gloria, dulce muerte
    con sinfonía y coral,
    que el tiempo dejará repleto y no escucharás el clamor,
    los irreparables aullidos del lobo, en la soledad.

    El último día del tiempo
    no es el último día de todo.

    Deja siempre una franja de vida
    donde se sientan dos hombres.
    Un hombre y su contrario,
    una mujer y su pie,
    un cuerpo y su memoria,
    un ojo y su brillo, una voz y su eco,
    y quién sabe si hasta Dios...

    Recibe con simplicidad este presente del acaso.
    Mereciste vivir más de un año.
    Desearías vivir siempre y agotar la borra de los siglos.
    Tu padre murió, tu abuelo también.
    En ti mismo muchas cosas ya expiraron, otras esperan la muerte,
    mas estás vivo. Todavía una vez estás vivo,
    y del copo en la mano esperas amanecer.

    El recurso de embriagarse.
    El recurso de la danza y del grito,
    el recurso de la bola coloreada,
    el recurso de Kant y de la poesía,
    todos ellos... y ninguno resuelve.

    Surge la mañana de un nuevo año. Las cosas están limpias, ordenadas.
    El cuerpo gastado se renueva en espuma.
    Todos los sentidos alertas funcionan.
    La boca está comiendo vida.
    La boca está tapada de vida.
    La vida te escurre en la boca,
    ensucia las manos, la calzada.
    La vida es gorda, grasienta, mortal, subrepticia.




    (De La rosa del pueblo; 1941)





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