Aires de Libertad

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    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 05, 2022 2:53 pm

    BALADA DOS MORTOS DOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO



    Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald!
    Ocos, flácidos cadáveres
    Como espantalhos, largados
    Na sementeira espectral
    Dos ermos campos estéreis
    De Buchenwald e Dachau.
    Cadáveres necrosados
    Amontoados no chão
    Esquálidos enlaçados
    Em beijos estupefatos
    Como ascetas siderados
    Em presença da visão.
    Cadáveres putrefatos
    Os magros braços em cruz
    Em vossas faces hediondas
    Há sorrisos de giocondas
    E em vossos corpos, a luz
    Que da treva cria a aurora.
    Cadáveres fluorescentes
    Desenraizados do pó
    Que emoção não dá-me o ver-vos
    Em vosso êxtase sem nervos
    Em vossa prece tão-só
    Grandes, góticos cadáveres!
    Ah, doces mortos atônitos
    Quebrados a torniquete
    Vossas louras manicuras
    Arrancaram-vos as unhas
    No requinte de tortura
    Da última toalete...
    A vós vos tiraram a casa
    A vós vos tiraram o nome
    Fostes marcados a brasa
    Depois voz mataram de fome!
    Vossa peles afrouxadas
    Sobre os esqueletos dão-me
    A impressão que éreis tambores —
    Os instrumentos do Monstro —
    Desfibrados a pancada:
    Ó mortos de percussão!
    Cadáveres de Nordhausen Erla, Belsen e Buchenwald!
    Vós sois o húmus da terra
    De onde a árvore do castigo
    Dará madeira ao patíbulo
    E de onde os frutos da paz
    Tombarão no chão da guerra!


    _________________



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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    VINICIUS DE MORAES  - Página 22 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 05, 2022 2:54 pm

    REPTO


    Vossos olhos raros
    Jovens guerrilheiros
    Aos meus, cavalheiros
    Fazem mil reparos...
    Se entendeis amor
    Com vero brigar
    Combates de olhar
    Não quero propor.
    Sei de um bom lugar
    Onde contender
    E haveremos de ver
    Quem há de ganhar.
    Não sirvo justar
    Em pugna tão vã...
    Que tal amanhã
    Lutarmos de amar?
    Em campos de paina
    Pretendo reptar-vos
    E em seguida dar-vos
    Muita, muita faina
    Guerra sem quartel
    E tréguas só se
    Pedires mercê
    Com os olhos no céu.
    Exaustão de gozo
    Que tal seja a regra
    E longa a refrega
    Que aguardo ansioso
    E caiba dizer-vos
    Que inda vencedor
    Sou, de vossos servos
    O mais servidor...



    _________________



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 22 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 05, 2022 2:55 pm

    O POETA E A LUA


    Em meio a um cristal de ecos
    O poeta vai pela rua
    Seus olhos verdes de éter
    Abrem cavernas na lua.
    A lua volta de flanco
    Eriçada de luxúria
    O poeta, aloucado e branco
    Palpa as nádegas da lua.
    Entre as esferas nitentes
    Tremeluzem pelos fulvos
    O poeta, de olhar dormente
    Entreabre o pente da lua.
    Em frouxos de luz e água
    Palpita a ferida crua
    O poeta todo se lava
    De palidez e doçura.
    Ardente e desesperada
    A lua vira em decúbito
    A vinda lenta do espasmo
    Aguça as pontas da lua.
    O poeta afaga-lhe os braços
    E o ventre que se menstrua
    A lua se curva em arco
    Num delírio de volúpia.
    O gozo aumenta de súbito
    Em frêmitos que perduram
    A lua vira o outro quarto
    E fica de frente, nua.
    O orgasmo desce do espaço
    Desfeito em estrelas e nuvens
    Nos ventos do mar perspassa
    Um salso cheiro de lua
    E a lua, no êxtase, cresce
    Se dilata e alteia e estua
    O poeta se deixa em prece
    Ante a beleza da lua.
    Depois a lua adormece
    E míngua e se apazigua...
    O poeta desaparece
    Envolto em cantos e plumas
    Enquanto a noite enlouquece
    No seu claustro de ciúmes.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 05, 2022 2:56 pm

    SONETO DA ROSA


    Mais um ano na estrada percorrida
    Vem, como o astro matinal, que a adora
    Molhar de puras lágrimas de aurora
    A morna rosa escura e apetecida.

    E da fragrante tepidez sonora
    No recesso, como ávida ferida
    Guardar o plasma múltiplo da vida
    Que a faz materna e plácida, e agora

    Rosa geral de sonho e plenitude
    Transforma em novas rosas de beleza
    Em novas rosas de carnal virtude

    Para que o sonho viva da certeza
    Para que o tempo da paixão não mude
    Para que se una o verbo à natureza.





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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 06, 2022 9:25 am

    VALSA À MULHER DO POVO
    Oferenda

    Oh minha amiga da face múltipla
    Do corpo periódico e geral!
    Lúdica, efêmera, inconsútil
    Musa central-ferroviária!
    Possa esta valsa lenta e súbita
    Levemente copacabanal
    Fazer brotar do povo a flux
    A tua imagem abruptamente
    Ó antideusa!


    Valsa

    Te encontrarei na barca Cubango, nas amplas salas da Cubango
    Vestida de tangolomango
    Te encontrarei!
    Te encontrarei nas brancas praias, pelas pudendas brancas praias
    Itinerante de gandaias
    Te encontrarei.
    Te encontrarei nas feiras-livres
    Entre moringas e vassouras, emolduradas de cenouras
    Te encontrarei.
    Te encontrarei tarde na rua
    De rosto triste como a lua, passando longe como a lua
    Te encontrarei.
    Te encontrarei, te encontrarei
    Nos longos footings suburbanos, tecendo os sonhos mais humanos
    Capaz de todos os enganos
    Te encontrarei.
    Te encontrarei nos cais noturnos
    Junto a marítimos soturnos, sombras de becos taciturnos
    Te encontrarei.
    Te encontrarei, oh mariposa
    Oh taxi-girl, oh virginete pregada aos homens a alfinete
    De corpo saxe e clarinete
    Te encontrarei.
    Oh pulcra, oh pálida, oh pudica
    Oh grã-cupincha, oh nova-rica
    Que nunca sais da minha dica: sim, eu irei
    Ao teu encontro onde estiveres
    Pois que assim querem os malmequeres
    Porque és tu santa entre as mulheres
    Te encontrarei!



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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 06, 2022 9:26 am

    CINEPOEMA


    O preto no branco
    Manuel Bandeira


    O preto no banco
    A branca na areia
    O preto no banco
    A branca na areia
    Silêncio na praia
    De Copacabana.
    A branca no branco
    Dos olhos do preto
    O preto no banco
    A branca no preto
    Negror absoluto
    Sobre um mar de leite.
    A branca de bruços
    O preto pungente
    O mar em soluços
    A espuma inocente
    Canícula branca
    Pretidão ardente.
    A onda se alteia
    Na verde laguna
    A branca se enfuna
    Se afunda na areia
    O colo é uma duna
    Que o sol incendeia.
    O preto no branco
    Da espuma da onda
    A branca de flanco
    Brancura redonda
    O preto no banco
    A gaivota ronda.
    O negro tomado
    Da linha do asfalto
    O espaço imantado:
    De súbito um salto
    E um grito na praia
    De Copacabana.
    Pantera de fogo
    Pretidão ardente
    Onda que se quebra
    Violentamente
    O sol como um dardo
    Vento de repente.
    E a onda desmaia
    A espuma espadana
    A areia ventada
    De Copacabana
    Claro-escuro rápido
    Sombra fulgurante.
    Luminoso dardo
    O sol rompe a nuvem
    Refluxo tardo
    Restos de amarugem
    Sangue pela praia
    De Copacabana...



    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 06, 2022 9:26 am

    MENSAGEM À POESIA


    Não posso
    Não é possível
    Digam-lhe que é totalmente impossível
    Agora não pode ser
    É impossível
    Não posso.
    Digam-lhe que estou tristíssimo, mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
    Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
    Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
    Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
    E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
    A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
    Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
    Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares, e é preciso reconquistar a vida.
    Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta, voltado para todos os caminhos
    Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
    Ponderem-lhe, com cuidado — não a magoem... — que se não vou
    Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
    Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
    Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
    Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
    Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
    E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
    Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
    Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
    A terrível participação, e que possivelmente

    Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
    Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.

    Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
    Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
    Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
    Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
    Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
    Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
    Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
    Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
    Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
    Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
    Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
    Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
    Há fantasmas que me visitam de noite
    E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
    No amanhã
    Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
    Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
    Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
    Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
    De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
    Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
    Por um momento, que não me chame
    Porque não posso ir
    Não posso ir
    Não posso.
    Mas não a traí.
    Em meu coração
    Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
    Envergonhá-la.
    A minha ausência.
    É também um sortilégio
    Do seu amor por mim.
    Vivo do desejo de revê-la
    Num mundo em paz.
    Minha paixão de homem
    Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
    Loucura resta comigo.
    Talvez eu deva
    Morrer sem vê-la mais, sem sentir mais
    O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
    Livre e nua nas praias e nos céus
    E nas ruas da minha insônia.
    Digam-lhe que é esse
    O meu martírio; que às vezes
    Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
    Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
    Mas que eu devo resistir, que é preciso...
    Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
    Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
    Num amor cheio de renúncia.
    Oh, peçam a ela
    Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
    A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
    A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
    Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
    A quem foi dado se perder de amor pelo direito
    De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
    E uma menininha de vermelho; e se perdendo
    Ser-lhe doce perder-se...
    Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
    Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
    Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
    É mais forte do que eu, não posso ir
    Não é possível
    Me é totalmente impossível
    Não pode ser não
    É impossível
    Não posso.


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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 06, 2022 9:27 am

    O TEMPO NOS PARQUES



    O tempo nos parques é íntimo, inadiável, imparticipante, imarcescível.
    Medita nas altas frondes, na última palma da palmeira
    Na grande pedra intacta, o tempo nos parques.
    O tempo nos parques cisma no olhar cego dos lagos
    Dorme nas furnas, isola-se nos quiosques
    Oculta-se no torso muscular dos fícus, o tempo nos parques.
    O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
    Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
    É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
    É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
    A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
    Deixam um frêmito no espaço do tempo nos parques.
    O tempo nos parques envolve de redomas invisíveis
    Os que se amam; eterniza os anseios, petrifica
    Os gestos, anestesia os sonhos, o tempo nos parques.
    Nos homens dormentes, nas pontes que fogem, na franja
    Dos chorões, na cúpula azul o tempo perdura
    Nos parques; e a pequenina cutia surpreende
    A imobilidade anterior desse tempo no mundo
    Porque imóvel, elementar, autêntico, profundo
    É o tempo nos parques.





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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 08, 2022 2:50 pm

    A MANHÃ DO MORTO

    O poeta, na noite de 25 de fevereiro de 1945,
    sonha que vários amigos seus perderam a vida num desastre de avião,
    em meio a uma inexplicável viagem para São Paulo.

    Noite de angústia: que sonho
    Que debater-se, que treva...

    ...é um grande avião que leva amigos meus no seu bojo...
    ...depois, a horrível notícia:
    FOI UM DESASTRE MEDONHO!

    A mulher do poeta dá-lhe a dolorosa nova às oito da manhã,
    depois de uma telefonada de Rodrigo M. F. de Andrade.

    Me acordam numa carícia...
    O que foi que aconteceu? Rodrigo telefonou:

    MÁRIO DE ANDRADE MORREU.

    Ao se levantar, o poeta sente incorporar-se a ele o amigo morto.

    Ergo-me com dificuldade
    Sentindo a presença dele
    Do morto Mário de Andrade
    Que muito maior do que eu
    Mal cabe na minha pele.

    Escovo os dentes na saudade
    Do amigo que se perdeu
    Olho o espelho: não sou eu
    É o morto Mário de Andrade
    Me olhando daquele espelho
    Tomo o café da manhã:
    Café, de Mário de Andrade.

    A necessidade de falar com o amigo denominador comum,
    e o eco de Manuel Bandeira.

    Não, meu caro, que eu me digo
    Pensa com serenidade
    Busca o consolo do amigo
    Rodrigo M. F. de Andrade

    Telefono para Rodrigo
    Ouço-o; mas na realidade
    A voz que me chega ao ouvido
    É a voz de Mário de Andrade.

    O passeio com o morto
    Remate de males

    E saio para a cidade
    Na canícula do dia
    Lembro o nome de Maria
    Também de Mário de Andrade
    Do poeta Mário de Andrade.

    Gesto familiar

    Com grande dignidade
    A dignidade de um morto
    Anda a meu lado, absorto
    O poeta Mário de Andrade
    Com a manopla no meu ombro.

    Goza a delícia de ver
    Em seus menores resquícios.
    Seus olhos refletem assombro.
    Depois me fala: Vinicius
    Que ma-ra-vilha é viver!

    A cara do morto

    Olho o grande morto enorme
    Sua cara colossal
    Nessa cara lábios roxos
    E a palidez sepulcral
    Específica dos mortos.

    Essa cara me comove
    De beatitude tamanha.
    Chamo-o: Mário! ele não ouve
    Perdido no puro êxtase
    Da beleza da manhã.

    Mas caminha com hombridade
    Seus ombros suportam o mundo
    Como no verso inquebrável
    De Carlos Drummond de Andrade
    E o meu verga-se ao defunto...

    O eco de Pedro Nava

    Assim passeio com ele
    Vou ao dentista com ele
    Vou ao trabalho com ele
    Como bife ao lado dele
    O gigantesco defunto
    Com a sua gravata brique
    E a sua infantilidade.

    À tarde o morto abandona subitamente
    o poeta para ir enterrar-se.

    Somente às cinco da tarde
    Senti a pressão amiga
    Desfazer-se do meu ombro...
    Ia o morto se enterrar
    No seu caixão de dois metros.

    Não pude seguir o féretro
    Por circunstâncias alheias
    À minha e à sua vontade
    (De fato, é grande a distância
    Entre uma e outra cidade...
    Aliás, teria medo
    Porque nunca sei se um sonho
    Não pode ser realidade).
    Mas sofri na minha carne
    O grande enterro da carne
    Do poeta Mário de Andrade
    Que morreu de angina pectoris:

    Vivo na imortalidade.




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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:35 am

    MENSAGEM A RUBEM BRAGA


    Os doces montes cônicos de feno
    (Decassílabo solto num postal de Rubem Braga, da Itália.)

    A meu amigo Rubem Braga
    Digam que vou, que vamos bem: só não tenho é coragem de escrever
    Mas digam-lhe. Digam-lhe que é Natal, que os sinos
    Estão batendo, e estamos no Cavalão: o Menino vai nascer
    Entre as lágrimas do tempo. Digam-lhe que os tempos estão duros
    Falta água, falta carne, falta às vezes o ar: há uma angústia
    Mas fora isso vai-se vivendo. Digam-lhe que é verão no Rio
    E apesar de hoje estar chovendo, amanhã certamente o céu se abrirá de azul
    Sobre as meninas de maiô. Digam-lhe que Cachoeiro continua no mapa
    E há meninas de maiô, altas e baixas, louras e morochas
    E mesmo negras, muito engraçadinhas. Digam-lhe, entretanto
    Que a falta de dignidade é considerável, e as perspectivas pobres
    Mas sempre há algumas, poucas. Tirante isso, vai tudo bem
    No Vermelhinho. Digam-lhe que a menina da caixa
    Continua impassível, mas Caloca acha que ela está melhorando
    Digam-lhe que o Ceschiatti continua tomando chope, e eu também
    Malgrado uma avitaminose B e o fígado ligeiramente inchado.
    Digam-lhe que o tédio às vezes é mortal; respira-se com a mais extrema
    Dificuldade; bate-se, e ninguém responde. Sem embargo
    Digam-lhe que as mulheres continuam passando no alto de seus saltos, e a moda das saias curtas
    E das mangas japonesas dão-lhes um novo interesse: ficam muito provocantes.
    O diabo é de manhã, quando se sai para o trabalho, dá uma tristeza, a
    rotina: para a tarde melhora.
    Oh, digam a ele, digam a ele, a meu amigo Rubem Braga
    Correspondente de guerra, 250 FEB, atualmente em algum lugar da Itália
    Que ainda há auroras apesar de tudo, e o esporro das cigarras
    Na claridade matinal. Digam-lhe que o mar no Leblon
    Porquanto se encontre eventualmente cocô boiando, devido aos despejos
    Continua a lavar todos os males. Digam-lhe, aliás
    Que há cocô boiando por aí tudo, mas que em não havendo marola
    A gente se aguenta. Digam-lhe que escrevi uma carta terna
    Contra os escritores mineiros: ele ia gostar. Digam-lhe
    Que outro dia vi Elza-Simpatia-é-quase-Amor. Foi para os Estados Unidos
    E riu muito de eu lhe dizer que ela ia fazer falta à paisagem carioca
    Seu riso me deu vontade de beber: a tarde
    Ficou tensa e luminosa. Digam-lhe que outro dia, na rua Larga
    Vi um menino em coma de fome (coma de fome soa esquisito, parece
    Que havendo coma não devia haver fome: mas havia).
    Mas em compensação estive depois com o Aníbal
    Que embora não dê para alimentar ninguém, é um amigo.
    Digam-lhe que o Carlos
    Drummond tem escrito ótimos poemas, mas eu larguei o Suplemento.
    Digam-lhe que está com cara de que vai haver muita miséria-de-fim-de-ano
    Há, de um modo geral, uma acentuada tendência para se beber e uma ânsia
    Nas pessoas de se estrafegarem. Digam-lhe que o Compadre está na insulina
    Mas que a Comadre está linda. Digam-lhe que de quando em vez o Miranda passa
    E ri com ar de astúcia. Digam-lhe, oh, não se esqueçam de dizer
    A meu amigo Rubem Braga, que comi camarões no Antero
    Ovas na Cabaça e vatapá na Furna, e que tomei plenty coquinho
    Digam-lhe também que o Werneck prossegue enamorado, está no tempo
    De caju e abacaxi, e nas ruas
    Já se perfumam os jasmineiros. Digam-lhe que tem havido
    Poucos crimes passionais em proporção ao grande número de paixões
    À solta. Digam-lhe especialmente
    Do azul da tarde carioca, recortado
    Entre o Ministério da Educação e a ABI. Não creio que haja igual
    Mesmo em Capri. Digam-lhe porém que muito o invejamos
    Tati e eu, e as saudades são grandes, e eu seria muito feliz
    De poder estar um pouco a seu lado, fardado de segundo sargento. Oh
    Digam a meu amigo Rubem Braga
    Que às vezes me sinto calhorda mas reajo, tenho tido meus maus momentos
    Mas reajo. Digam-lhe que continuo aquele modesto lutador
    Porém batata. Que estou perfeitamente esclarecido
    E é bem capaz de nos revermos na Europa. Digam-lhe, discretamente,
    Que isso seria uma alegria boa demais: que se ele
    Não mandar buscar Zorinha e Roberto antes, que certamente
    Os levaremos conosco, que quero muito
    Vê-lo em Paris, em Roma, em Bucareste. Digam, oh digam
    A meu amigo Rubem Braga que é pena estar chovendo aqui
    Neste dia tão cheio de memórias. Mas
    Que beberemos à sua saúde, e ele há de estar entre nós
    O bravo capitão Braga, seguramente o maior cronista do Brasil
    Grave em seu gorro de campanha, suas sobrancelhas e seu bigode circunflexos
    Terno em seus olhos de pescador de fundo
    Feroz em seu focinho de lobo solitário
    Delicado em suas mãos e no seu modo de falar ao telefone
    E brindaremos à sua figura, à sua poesia única, à sua revolta, e ao seu cavalheirismo
    Para que lá, entre as velhas paredes renascentes e os doces montes cônicos de feno
    Lá onde a cobra está fumando o seu moderado cigarro brasileiro
    Ele seja feliz também, e forte, e se lembre com saudades
    Do Rio, de nós todos e ai! de mim.


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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:36 am

    BALADA DA MOÇA DO MIRAMAR

    Silêncio da madrugada
    No Edifício Miramar...
    Sentada em frente à janela
    Nua, morta, deslumbrada
    Uma moça mira o mar.

    Ninguém sabe quem é ela
    Nem ninguém há de saber
    Deixou a porta trancada
    Faz bem uns dois cinco dias
    Já começa a apodrecer
    Seus ambos joelhos de âmbar
    Furam-lhe o branco da pele
    E a grande flor do seu corpo
    Destila um fétido mel.

    Mantém-se extática em face
    Da aurora em elaboração
    Embora formigas pretas
    Que lhe entram pelos ouvidos
    Se escapem por umas gretas
    Do lado do coração.
    Em volta é segredo: e móveis
    Imóveis na solidão...
    Mas apesar da necrose
    Que lhe corrói o nariz
    A moça está tão sem pose
    Numa ilusão tão serena
    Que, certo, morreu feliz.

    A vida que está na morte
    Os dedos já lhe comeu
    Só lhe resta um aro de ouro
    Que a morte em vida lhe deu
    Mas seu cabelo de ouro
    Rebrilha com tanta luz
    Que a sua caveira é bela
    E belo é seu ventre louro
    E seus pelinhos azuis.

    De noite é a lua quem ama
    A moça do Miramar
    Enquanto o mar tece a trama
    Desse conúbio lunar
    Depois é o sol violento
    O sol batido de vento
    Que vem com furor violeta
    A moça violentar.

    Muitos dias se passaram
    Muitos dias passarão
    À noite segue-se o dia
    E assim os dias se vão
    E enquanto os dias se passam
    Trazendo a putrefação
    À noite coisas se passam...
    A moça e a lua se enlaçam
    Ambas mortas de paixão.

    Ah, morte do amor do mundo
    Ah, vida feita de dar
    Ah, sonhos sempre nascendo
    Ah, sonhos sempre a acabar
    Ah, flores que estão crescendo
    Do fundo da podridão
    Ah, vermes, morte vivendo
    Nas flores ainda em botão
    Ah, sonhos, ah, desesperos
    Ah, desespero de amar
    Ah, vida sempre morrendo
    Ah, moça do Miramar!



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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:36 am

    BALANÇO DO FILHO MORTO


    Homem sentado na cadeira de balanço
    Sentado na cadeira de balanço
    Na cadeira de balanço
    De balanço
    Balanço do filho morto.

    Homem sentado na cadeira de balanço
    Todo o teu corpo diz que sim
    Teu corpo diz que sim
    Diz que sim
    Que sim, teu filho está morto.

    Homem sentado na cadeira de balanço
    Como um pêndulo, para lá e para cá
    O pescoço fraco, a perna triste
    Os olhos cheios de areia
    Areia do filho morto.

    Nada restituirá teu filho à vida
    Homem sentado na cadeira de balanço
    Tua meia caída, tua gravata
    Sem nó, tua barba grande
    São a morte
    são a morte
    A morte do filho morto.

    Silêncio de uma sala: e flores murchas.
    Além um pranto frágil de mulher
    Um pranto... o olhar aberto sobre o vácuo
    E no silêncio a sensação exata
    Da voz, do riso, do reclamo débil.
    Da órbita cega os olhos dolorosos
    Fogem, moles, se arrastam como lesmas
    Empós a doce, inexistente marca
    Do vômito, da queda, da mijada.

    Do braço foge a tresloucada mão
    Para afagar a imponderável luz
    De um cabelo sem som e sem perfume.
    Fogem da boca lábios pressurosos
    Para o beijo incolor na pele ausente.
    Nascem ondas de amor que se desfazem
    De encontro à mesa, à estante, à pedra mármore.
    Outra coisa não há senão o silêncio
    Onde com pés de gelo uma criança
    Brinca, perfeitamente transparente
    Sua carne de leite, rosa e talco.
    Pobre pai, pobre, pobre, pobre, pobre
    Sem memória, sem músculo, sem nada
    Além de uma cadeira de balanço
    No infinito vazio... o sofrimento
    Amordaçou-te a boca de amargura
    E esbofeteou-te palidez na cara.
    Ergues nos braços uma imagem pura
    E não teu filho; jogas para cima
    Um bocado de espaço e não teu filho
    Não são cachos que sopras, porém cinzas
    A asfixiar o ar onde respiras.
    Teu filho é morto; talvez fosse um dia
    A pomba predileta, a glória, a messe
    O teu porvir de pai; mas novo e tenro
    Anjo, levou-o a morte com cuidado
    De vê-lo tão pequeno e já exausto
    De penar — e eis que agora tudo é morte
    Em ti, não tens mais lágrimas, e amargo
    É o cuspo do cigarro em tua boca.
    Mas deixa que eu te diga, homem temente
    Sentado na cadeira de balanço
    Eu que moro no abismo, eu que conheço
    O interior da entranha das mulheres
    Eu que me deito à noite com os cadáveres
    E liberto as auroras do meu peito:
    Teu filho não morreu! a fé te salva
    Para a contemplação da sua face
    Hoje tornada a pequenina estrela
    Da tarde, a jovem árvore que cresce
    Em tua mão: teu filho não morreu!
    Uma eterna criança está nascendo
    Da esperança de um mundo em liberdade.
    Serão teus filhos, todos, homem justo
    Iguais ao filho teu; tira a gravata
    Limpa a unha suja, ergue-te, faz a barba
    Vai consolar tua mulher que chora...
    E que a cadeira de balanço fique
    Na sala, agora viva, balançando
    O balanço final do filho morto.

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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:37 am

    BALADA DAS ARQUIVISTAS

    Oh jovens anjos cativos
    Que as asas vos machucais
    Nos armários dos arquivos!
    Delicadas funcionárias
    Designadas por padrões
    Prisioneiras honorárias
    Da mais fria das prisões
    É triste ver-vos, suaves
    Entre monstros impassíveis
    Trancadas a sete chaves:
    Oh, puras e imarcescíveis!
    Dizer que vós, bem-amadas
    Conservai-vos impolutas
    Mesmo fazendo a juntada
    De processos e minutas!
    Não se amargam vossas bocas
    De índices e prefixos
    Nem lembram os olhos das loucas
    Vossos doces olhos fixos.
    Curvai-vos para colossos
    Hollerith, de aço hostil
    Como se fora ante moços
    Numa pavana gentil.
    Antes não classificásseis
    Os maços pelos assuntos
    Criando a luta de classes
    Num mundo de anseios juntos!
    Enfermeiras de ambições
    Conheceis, mudas, a nu
    O lixo das promoções
    E das exonerações
    A bem do serviço público.
    Ó Florences Nightingale
    De arquivos horizontais:
    Com que zelo alimentais
    Esses eunucos letais
    Que se abrem com chave yale!
    Vossa linda juventude
    Clama de vós, bem-amadas!
    No entanto, viveis cercadas
    De coisas padronizadas
    Sem sexo e sem saúde...
    Ah, ver-nos em primavera
    Sobre papéis de ocasião
    Na melancólica espera
    De uma eterna certidão!
    Ah, saber que em vós existe
    O amor, a ternura, a prece
    E saber que isso fenece
    Num arquivo feio e triste!
    Deixai-me carpir, crianças
    A vossa imensa desdita
    Prendestes as esperanças
    Numa gaiola maldita.
    Do fundo do meu silêncio
    Eu vos incito a lutardes
    Contra o Prefixo que vence
    Os anjos acorrentados
    E ir passear pelas tardes
    De braço com os namorados.



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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:38 am

    A VERLAINE



    Em memória de uma poesia
    Cuja iluminação maldita
    Lembra a da estrela que medita
    Sobre a putrefação do dia:

    Verlaine, pobre alma sem rumo
    Louco, sórdido, grande irmão
    Do sangue do meu coração
    Que te despreza e te compreende
    Humildemente se desprende
    Esta rosa para o teu túmulo.


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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:38 am

    A BOMBA ATÔMICA I

    e = mc2
    Einstein

    Deusa, visão dos céus que me domina
    … tu que és mulher e nada mais!
    (Deusa, valsa carioca.)

    Dos céus descendo
    Meu Deus eu vejo
    De paraquedas?
    Uma coisa branca
    Como uma forma
    De estatuária
    Talvez a forma
    Do homem primitivo
    A costela branca!
    Talvez um seio
    Despregado à lua
    Talvez o anjo
    Tutelar cadente
    Talvez a Vênus
    Nua, de clâmide
    Talvez a inversa
    Branca pirâmide
    Do pensamento
    Talvez o troço
    De uma coluna
    Da eternidade
    Apaixonado
    Não sei indago
    Dizem-me todos
    É A BOMBA ATÔMICA.

    Vem-me uma angústia.

    Quisera tanto
    Por um momento
    Tê-la em meus braços
    A coma ao vento
    Descendo nua
    Pelos espaços
    Descendo branca
    Branca e serena
    Como um espasmo
    Fria e corrupta
    Do longo sêmen
    Da Via Láctea
    Deusa impoluta
    O sexo abrupto
    Cubo de prata
    Mulher ao cubo
    Caindo aos súcubos
    Intemerata
    Carne tão rija
    De hormônios vivos
    Exacerbada
    Que o simples toque
    Pode rompê-la
    Em cada átomo
    Numa explosão
    Milhões de vezes
    Maior que a força
    Contida no ato
    Ou que a energia
    Que expulsa o feto
    Na hora do parto.

    II

    A bomba atômica é triste
    Coisa mais triste não há
    Quando cai, cai sem vontade
    Vem caindo devagar
    Tão devagar vem caindo
    Que dá tempo a um passarinho
    De pousar nela e voar...
    Coitada da bomba atômica
    Que não gosta de matar!

    Coitada da bomba atômica
    Que não gosta de matar
    Mas que ao matar mata tudo
    Animal e vegetal
    Que mata a vida da terra
    E mata a vida do ar
    Mas que também mata a guerra...
    Bomba atômica que aterra!
    Pomba atônita da paz!

    Pomba tonta, bomba atômica
    Tristeza, consolação
    Flor puríssima do urânio
    Desabrochada no chão
    Da cor pálida do helium
    E odor de radium fatal
    Lœlia mineral carnívora
    Radiosa rosa radical.

    Nunca mais, oh bomba atômica
    Nunca, em tempo algum, jamais
    Seja preciso que mates
    Onde houve morte demais:
    Fique apenas tua imagem
    Aterradora miragem
    Sobre as grandes catedrais:
    Guarda de uma nova era
    Arcanjo insigne da paz!

    III

    Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
    E branca como a estrela vespertina
    E por branca eu te amo, e por donzela
    De dois milhões mais bélica e mais bela
    Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
    Atroz, visão dos céus que me domina
    Da cabeleira loura de platina
    E das formas aerodivinais
    — Que és mulher, que és mulher e nada mais!
    Eu te amo, bomba atômica, que trazes
    Numa dança de fogo, envolta em gazes
    A desagregação tremenda que espedaça
    A matéria em energias materiais!
    Oh energia, eu te amo, igual à massa
    Pelo quadrado da velocidade
    Da luz! alta e violenta potestade
    Serena! Meu amor, desce do espaço
    Vem dormir, vem dormir no meu regaço
    Para te proteger eu me encouraço
    De canções e de estrofes magistrais!
    Para te defender, levanto o braço
    Paro as radiações espaciais
    Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
    Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
    Para te defender, matéria dura
    Que és mais linda, mais límpida e mais pura
    Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
    Que emoção não me dá ver-te suspensa
    Sobre a massa que vive e se condensa
    Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
    Matar, com tua graça e teu sorriso
    Para vencer? Tua enérgica poesia
    Fora preciso, oh deslembrada e fria
    Para a paz? Tua fragílima epiderme
    Em cromáticas brancas de cristais
    Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
    Da união que liberta da miséria!
    Oh vida palpitando na matéria
    Oh energia que és o que não eras
    Quando o primeiro átomo incriado
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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 09, 2022 10:39 am

    AURORA, COM MOVIMENTO
    (Posto 3)

    A linha móvel do horizonte
    Atira para cima o sol em diabolô
    Os ventos de longe
    Agitam docemente os cabelos da rocha
    Passam em fachos o primeiro automóvel, a última estrela
    A mulher que avança
    Parece criar esferas exaltadas pelo espaço
    Os pescadores puxando o arrastão parecem mover o mundo
    O cardume de botos na distância parece mover o mar.





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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 10, 2022 10:37 am

    BALADA DO MORTO VIVO



    Tatiana, hoje vou contar
    O caso do Inglês espírito
    Ou melhor: do morto vivo.

    Diz que mesmo sucedeu
    E a dona protagonista
    Se quiser pode ser vista
    No hospício mais relativo
    Ao sítio onde isso se deu.

    Diz também que é muito raro
    Que por mais cético o ouvinte
    Não passe uma noite em claro:
    Sendo assim, por conseguinte
    Se quiser diga que eu paro.

    Se achar que é mentira minha
    Olhe só para essa pele
    Feito pele de galinha...

    Dou início: foi nos faustos
    Da borracha do Amazonas.
    Às margens do Rio Negro
    Sobre uma balsa habitável
    Um dia um casal surgiu
    Ela chamada Lunalva
    Formosa mulher de cor
    Ele por alcunha Bill
    Um Inglês comercial
    Agente da “Rubber Co.”

    Mas o fato é que talvez
    Por ter nascido na Escócia
    E ser portanto escocês
    Ninguém de Bill o chamava
    Com exceção de Lunalva
    Mas simplesmente de Inglês.

    Toda manhã que Deus dava
    Lunalva com muito amor
    Fazia um café bem quente
    Depois o Inglês acordava
    E o homem saía contente
    Fumegando o seu cachimbo
    Na sua lancha a vapor.

    Toda a manhã que Deus dava.

    Somente com o sol-das-almas
    O Inglês à casa voltava.

    Que coisa engraçada: espia
    Como só de pensar nisso
    Meu cabelo se arrepia...

    Um dia o Inglês não voltou.

    A janta posta, Lunalva
    Até o cerne da noite
    Em pé na porta esperou.

    Uma eu lhe digo, Tatiana:
    A lua tinha enloucado
    Nesse dia da semana...
    Era uma lua tão alva
    Era uma lua tão fria
    Que até mais frio fazia
    No coração de Lunalva.
    No rio negroluzente
    As árvores balouçantes
    Pareciam que falavam
    Com seus ramos tateantes
    Tatiana, do incidente.

    Um constante balbucio
    Como o de alguém muito em mágoa
    Parecia vir do rio.

    Lunalva, num desvario
    Não tirava os olhos da água.

    Às vezes, dos igapós
    Subia o berro animal
    De algum jacaré feroz
    Praticando o amor carnal
    Depois caía o silêncio...

    E então voltava o cochicho
    Da floresta, entrecortado
    Pelo rir mal-assombrado
    De algum mocho excomungado
    Ou pelo uivo de algum bicho.
    Na porta em luzcancarada
    Só Lunalva lunalvada.

    Súbito, ó Deus justiceiro!
    Que é esse estranho ruído?
    Que é esse escuro rumor?
    Será um sapo-ferreiro
    Ou é o moço meu marido
    Na sua lancha a vapor?

    Na treva sonda Lunalva...
    Graças, meu Pai! Graças mil!
    Aquele vulto... era o Bill
    A lancha... era a Arimedalva!

    “Ah, meu senhor, que desejo
    De rever-te em casa em paz...
    Que frio que está teu beijo!
    Que pálido, amor, que estás!”

    Efetivamente o Bill
    Talvez devido à friagem
    Que crepitava do rio
    Voltara dessa viagem
    Muito branco e muito frio.

    “Tenho nada, minha nega
    Senão fome e amor ardente
    Dá-me um trago de aguardente
    Traz o pão, passa manteiga!
    E aproveitando do ensejo
    Me apaga esse lampião
    Estou morrendo de desejo
    Amemos na escuridão!”

    Embora estranhando um pouco
    A atitude do marido
    Lunalva tira o vestido
    Semilouca de paixão.

    Tatiana, naquele instante
    Deitada naquela cama
    Lunalva se surpreendeu

    Não foi mulher, foi amante
    Agiu que nem mulher-dama
    Tudo o que tinha lhe deu.

    No outro dia, manhãzinha
    Acordando estremunhada
    Lunalva soltou risada
    Ao ver que não estava o Bill.

    Muito Lunalva se riu
    Vendo a mesa por tirar.

    Indo se mirar ao espelho
    Lunalva mal pôde andar
    De fraqueza no joelho.

    E que olhos pisados tinha!

    Não rias, pobre Lunalva
    Não rias, morena flor
    Que a tua agora alegria
    Traz a semente do horror!

    Eis senão quando, no rio
    Um barulho de motor.

    À porta Lunalva voa
    A tempo de ver chegando
    Um bando de montarias
    E uns cabras dentro remando
    Tudo isso acompanhando
    A lancha a vapor do Bill
    Com um corpo estirado à proa.

    Tatiana, põe só a mão:
    Escuta como dispara
    De medo o meu coração.

    E frente da balsa para
    A lancha com o corpo em cima
    Os caboclos se descobrem
    Lunalva que se aproxima
    Levanta o pano, olha a cara
    E dá um medonho grito.

    “Meu Deus, o meu Bill morreu!
    Por favor me diga, mestre
    O que foi que aconteceu?”

    E o mestre contou contado:
    O Inglês caíra no rio
    Tinha morrido afogado.

    Quando foi?... ontem de tarde.

    Diz — que ninguém esqueceu
    A gargalhada de louca
    Que a pobre Lunalva deu.

    Isso não é nada, Tatiana:
    Ao cabo de nove luas
    Um filho varão nasceu.

    O filho que ela pariu
    Diz-que, Tatiana, diz-que era
    A cara escrita do Bill:

    A cara escrita e escarrada...

    Diz-que até hoje se escuta
    O riso da louca insana
    No hospício, de madrugada.

    É o que lhe digo, Tatiana...



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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 10, 2022 10:38 am

    SACRIFÍCIO DA AURORA



    Um dia a aurora chegou-se
    Ao meu quarto de marfim
    E com seu riso mais doce
    Deitou-se junto de mim
    Beijei-lhe a boca orvalhada
    E a carne tímida e exangue
    A carne não tinha sangue
    A boca sabia a nada.

    Apaixonei-me da Aurora
    No meu quarto de marfim
    Todo o dia à mesma hora
    Amava-a só para mim
    Palavras que me dizia
    Transfiguravam-se em neve
    Era-lhe o peso tão leve
    Era-lhe a mão tão macia.

    Às vezes me adormecia
    No meu quarto de marfim
    Para acordar, outro dia
    Com a Aurora longe de mim
    Meu desespero covarde
    Levava-me dia afora
    Andando em busca da Aurora
    Sem ver Manhã, sem ver Tarde.

    Hoje, ai de mim, de cansado
    Há dias que até da vida
    Durmo com a Noite, ausentado
    Da minha Aurora esquecida...
    É que apesar de sombria
    Prefiro essa grande louca
    À Aurora, que além de pouca
    É fria, meu Deus, é fria!



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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 10, 2022 10:39 am

    CREPÚSCULO EM NEW YORK



    Com um gesto fulgurante o Arcanjo Gabriel
    Abre de par em par o pórtico do poente
    Sobre New York. A gigantesca espada de ouro
    A faiscar simetria, ei-lo que monta guarda
    A Heavens, Incorporations. Do crepúsculo
    Baixam serenamente as pontes levadiças
    De U.S.A. Sun até a ilha da Manhattan.
    Agora é tudo anúncio, irradiação, promessa
    Da Divina Presença. No imo da matéria
    Os átomos aquietam-se e cria-se o vazio
    Em cada coração de bicho, coisa e gente.

    E o silêncio se deixa assim, profundamente...

    Mas súbito sobe do abismo um som crestado
    De saxofone, e logo a atroz polifonia
    De cordas e metais, síncopas, arreganhos
    De jazz negro, vindos de Fifty Second Street.
    New York acorda para a noite. Oito milhões
    De solitários se dissolvem pelas ruas
    Sem manhã. New York entrega-se.
    Do páramo Balizas celestiais põem-se a brotar, vibrantes
    À frente da parada, enquanto anjos em nylon
    As asas de alumínio, as coxas palpitantes
    Fluem langues da Grande Porta diamantina.

    Cai o câmbio da tarde. O Sublime Arquiteto
    Satisfeito, do céu admira sua obra.
    A maquete genial reflete em cada vidro
    O olho meigo de Deus a dardejar ternuras.
    Como é bela New York!
    Aço e concreto armado
    A erguer sempre mais alto eternas estruturas!
    Deus sorri complacente. New York é muito bela!
    Apesar do East Side, e da mancha amarela
    De China Town, e da mancha escura do Harlem
    New York é muito bela! As primeiras estrelas Afinam na amplidão cantilenas singelas...
    Mas Deus, que mudou muito, desde que enriqueceu
    Liga a chave que acende a Broadway e apaga o céu
    Pois às constelações que no espaço esparziu
    Prefere hoje os ersätze sobre La Guardia Field.



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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 10, 2022 10:40 am

    SONETO DA MULHER INÚTIL



    De tanta graça e de leveza tanta
    Que quando sobre mim, como a teu jeito
    Eu tão de leve sinto-te no peito
    Que o meu próprio suspiro te levanta.

    Tu, contra quem me esbato liquefeito
    Rocha branca! brancura que me espanta
    Brancos seios azuis, nívea garganta
    Branco pássaro fiel com que me deito.

    Mulher inútil, quando nas noturnas
    Celebrações, náufrago em teus delírios
    Tenho-te toda, branca, envolta em brumas.

    São teus seios tão tristes como urnas
    São teus braços tão finos como lírios
    É teu corpo tão leve como plumas.

    Rio, maio de 1943


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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 10, 2022 10:40 am

    O RIO


    Uma gota de chuva
    A mais, e o ventre grávido
    Estremeceu, da terra.
    Através de antigos
    Sedimentos, rochas
    Ignoradas, ouro
    Carvão, ferro e mármore
    Um fio cristalino
    Distante milênios
    Partiu fragilmente
    Sequioso de espaço
    Em busca de luz.

    Um rio nasceu.




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    Mensaje por Maria Lua Vie Nov 11, 2022 9:06 pm

    BILHETE A BAUDELAIRE



    Poeta, um pouco à tua maneira
    E para distrair o spleen
    Que estou sentindo vir a mim
    Em sua ronda costumeira

    Folheando-te, reencontro a rara
    Delícia de me deparar
    Com tua sordidez preclara
    No velha foto de Carjat

    Que não revia desde o tempo
    Em que te lia e te relia
    A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

    Como passou depressa o tempo
    Como mudou a poesia
    Como teu rosto não mudou!

    Los Angeles, 1947


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    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 12, 2022 7:50 am

    O ASSASSINO


    Meninas de colégio
    Apenas acordadas
    Desuniformizadas
    Em vossos uniformes
    Anjos longiformes
    De faces rosadas
    E pernas enormes
    Quem vos acompanha?

    Quem vos acompanha
    Colegiais aladas
    Nas longas estradas
    Que vão da campanha
    Às vossas moradas?
    Onde está o pastor
    Que vos arrebanha
    Rebanho de risos?

    Rebanho de risos
    Que tingem o poente
    Da cor impudente
    Das coisas contadas
    Entre tanto riso!
    Meninas levadas
    Não tendes juízo
    Nas vossas cabeças?

    Nas vossas cabeças
    Como um cata-vento
    Nem por um momento
    A ideia vos passa
    Do grande perigo
    Que vos ameaça
    E a que não dais tento
    Meninas sem tino!

    Pois não tendes tino
    Brotos malfadados
    Que aí pelos prados
    Há um assassino
    Que à vossa passagem
    Põe olhos malvados
    Por entre a folhagem...

    Cuidado, meninas!


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    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 12, 2022 7:51 am

    POEMA ENJOADINHO



    Filhos... Filhos?
    Melhor não tê-los!
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Se não os temos
    Que de consulta
    Quanto silêncio
    Como os queremos!
    Banho de mar
    Diz que é um porrete...
    Cônjuge voa
    Transpõe o espaço
    Engole água
    Fica salgada
    Se iodifica
    Depois, que boa
    Que morenaço
    Que a esposa fica!
    Resultado: filho.
    E então começa
    A aporrinhação:
    Cocô está branco
    Cocô está preto
    Bebe amoníaco
    Comeu botão.
    Filhos? Filhos
    Melhor não tê-los
    Noites de insônia
    Cãs prematuras
    Prantos convulsos
    Meu Deus, salvai-o!
    Filhos são o demo
    Melhor não tê-los...
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Como saber
    Que macieza
    Nos seus cabelos
    Que cheiro morno
    Na sua carne
    Que gosto doce
    Na sua boca!
    Chupam gilete
    Bebem xampu
    Ateiam fogo
    No quarteirão
    Porém, que coisa
    Que coisa louca
    Que coisa linda
    Que os filhos são!



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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 13, 2022 12:53 pm

    SONETO DO SÓ


    (Parábola de Malte Laurids Brigge)

    Depois foi só. O amor era mais nada
    Sentiu-se pobre e triste como Jó
    Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada
    Espantado, parou. Depois foi só.

    Depois veio a poesia ensimesmada
    Em espelhos. Sofreu de fazer dó
    Viu a face do Cristo ensanguentada
    Da sua, imagem — e orou. Depois foi só.

    Depois veio o verão e veio o medo
    Desceu de seu castelo até o rochedo
    Sobre a noite e do mar lhe veio a voz

    A anunciar os anjos sanguinários...
    Depois cerrou os olhos solitários
    E só então foi totalmente a sós.

    Rio, 1946




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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 15, 2022 8:06 am

    A PERA


    Como de cera
    E por acaso
    Fria no vaso
    A entardecer

    A pera é um pomo
    Em holocausto
    À vida, como
    Um seio exausto

    Entre bananas
    Supervenientes
    E maçãs lhanas

    Rubras, contentes
    A pobre pera:
    Quem manda ser a?

    Los Angeles, 1947


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
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    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 15, 2022 8:07 am

    A PAIXÃO DA CARNE


    Envolto em toalhas
    Frias, pego ao colo
    O corpo escaldante.
    Tem apenas dois anos
    E embora não fale
    Sorri com doçura.
    É Pedro, meu filho
    Sêmen feito carne
    Minha criatura
    Minha poesia.
    É Pedro, meu filho
    Sobre cujo sono
    Como sobre o abismo
    Em noites de insônia
    Um pai se debruça.
    Olho no termômetro:
    Quarenta e oito décimos
    E através do pano
    A febre do corpo
    Bafeja-me o rosto
    Penetra-me os ossos
    Desce-me às entranhas
    Úmida e voraz
    Angina pultácea
    Estreptocócica?
    Quem sabe... quem sabe...
    Aperto meu filho
    Com força entre os braços
    Enquanto crisálidas
    Em mim se desfazem
    Óvulos se rompem
    Crostas se bipartem
    E de cada poro
    Da minha epiderme
    Lutam lepidópteros
    Por se libertar.
    Ah, que eu já sentisse
    Os êxtases máximos
    Da carne nos rasgos
    Da paixão espúria!
    Ah, que eu já bradasse
    Nas horas de exalta-
    Ção os mais lancinantes
    Gritos de loucura!
    Ah, que eu já queimasse
    Da febre mais quente
    Que jamais queimasse
    A humana criatura!
    Mas nunca como antes
    Nunca! nunca! nunca!
    Nem paixão tão alta
    Nem febre tão pura.



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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 15, 2022 8:07 am

    A AUSENTE



    Amiga, infinitamente amiga
    Em algum lugar teu coração bate por mim
    Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
    Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
    Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
    Como que cega ao meu encontro...
    Amiga, última doçura
    A tranquilidade suavizou a minha pele
    E os meus cabelos. Só meu ventre
    Te espera, cheio de raízes e de sombras.
    Vem, amiga
    Minha nudez é absoluta
    Meus olhos são espelhos para o teu desejo
    E meu peito é tábua de suplícios
    Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
    E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
    Como no mar, vem nadar em mim como no mar
    Vem te afogar em mim, amiga minha
    Em mim como no mar...



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    Mensaje por Maria Lua Miér Nov 16, 2022 8:28 am

    A ROSA DE HIROXIMA


    Pensem nas crianças
    Mudas telepáticas
    Pensem nas meninas
    Cegas inexatas
    Pensem nas mulheres
    Rotas alteradas
    Pensem nas feridas
    Como rosas cálidas
    Mas oh não se esqueçam
    Da rosa da rosa
    Da rosa de Hiroxima
    A rosa hereditária
    A rosa radioativa
    Estúpida e inválida
    A rosa com cirrose
    A antirrosa atômica
    Sem cor sem perfume
    Sem rosa sem nada.


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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 17, 2022 9:25 pm

    O CROCODILO


    O crocodilo que do Nilo
    Ainda apavora a cristandade
    Pode ser dócil como o filho
    Que chora ao ver-se desamado.

    Mas nunca como ele injusto
    Que se ergue hediondo de manhã
    E vai e espeta um grampo justo
    No umbigo de sua própria mãe.

    O crocodilo espreita a garça
    Sim, mas por fome, e se restringe
    Mas e o filho, que à pobre ave
    Acompanha no Y do estilingue?

    A lama pode ser um berço
    Para um crocodiliano
    No entanto o filho come o esterco
    Apenas porque a mãe diz não.

    Tem o crocodilo um amigo
    Num pássaro que lhe palita
    Os dentes e o alerta ao perigo:
    Mas no filho, quem acredita?

    O filho sai e esquece a mãe
    E insulta o outro e o outro o insulta
    É ver o simples caimão
    Que nunca diz: filho da puta!

    O crocodilo tem um sestro
    De cio: guia-se pelo olfato
    Mas o filho pratica o incesto
    Absolutamente ipso-facto.

    Chamam ao pequeno crocodilo
    Paleosuchus palpebrosus
    Porém o que me admira é o filho
    Que vive em pálpebras de ócio.

    O filho é um monstro. E uma vos digo
    Ainda por píssico me tomem:
    Nunca verei um crocodilo
    Chorando lágrimas de homem.





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