Aires de Libertad

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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun 01 Feb 2021, 10:14

    INTROSPECÇÃO

    Nuvens lentas passavam
    Quando eu olhei o céu.
    Eu senti na minha alma a dor do céu
    Que nunca poderá ser sempre calmo.

    Quando eu olhei a árvore perdida
    Não vi ninhos nem pássaros.
    Eu senti na minha alma a dor da árvore
    Esgalhada e sozinha
    Sem pássaros cantando nos seus ninhos.

    Quando eu olhei minha alma
    Vi a treva.
    Eu senti no céu e na árvore perdida
    A dor da treva que vive na minha alma.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun 01 Feb 2021, 10:15

    INATINGÍVEL

    O que sou eu, gritei um dia para o infinito
    E o meu grito subiu, subiu sempre
    Até se diluir na distância.
    Um pássaro no alto planou voo
    E mergulhou no espaço.
    Eu segui porque tinha que seguir
    Com as mãos na boca, em concha
    Gritando para o infinito a minha dúvida.

    Mas a noite espiava a minha dúvida
    E eu me deitei à beira do caminho
    Vendo o vulto dos outros que passavam
    Na esperança da aurora.
    Eu continuo à beira do caminho
    Vendo a luz do infinito
    Que responde ao peregrino a imensa dúvida.

    Eu estou moribundo à beira do caminho.
    O dia já passou milhões de vezes
    E se aproxima a noite do desfecho.
    Morrerei gritando a minha ânsia
    Clamando a crueldade do infinito
    E os pássaros cantarão quando o dia chegar
    E eu já hei de estar morto à beira do caminho.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun 01 Feb 2021, 10:16

    REVOLTA


    Alma que sofres pavorosamente
    A dor de seres privilegiada
    Abandona o teu pranto, sê contente
    Antes que o horror da solidão te invada.

    Deixa que a vida te possua ardente
    Ó alma supremamente desgraçada.
    Abandona, águia, a inóspita morada
    Vem rastejar no chão como a serpente.

    De que te vale o espaço se te cansa?
    Quanto mais sobes mais o espaço avança...
    Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

    Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
    O mundo é bom, o espaço é muito triste...
    Talvez tu possas ser feliz um dia.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Mar 02 Feb 2021, 08:00

    ÂNSIA


    Na treva que se fez em torno a mim
    Eu vi a carne.
    Eu senti a carne que me afogava o peito
    E me trazia à boca o beijo maldito.

    Eu gritei.

    De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
    E ninguém me atendeu.

    Eu me debati em ânsias impuras
    A treva ficou rubra em torno a mim
    E eu caí!

    As horas longas passaram.

    O pavor da morte me possuiu.

    No vazio interior ouvi gritos lúgubres
    Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.

    Tudo quedou na prostração.

    O movimento da treva cessou ante mim.

    A carne fugiu
    Desapareceu devagar, sombria, indistinta
    Mas na boca ficou o beijo morto.

    A carne desapareceu na treva

    E eu senti que desaparecia na dor
    Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
    Na violência da posse.

    Olhos que olharam a carne
    Por que chorais?
    Chorais talvez a carne que foi
    Ou chorais a carne que jamais voltará?
    Lábios que beijaram a carne
    Por que tremeis?
    Não vos bastou o afago de outros lábios
    Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
    Ou tremeis no balbucio da oração?
    Carne que possui a carne
    Onde o frio?
    Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
    Gritam luxúria nesse vento
    Onde o frio?

    Pela noite quente eu caminhei...
    Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
    Que eu ouvia, do mar.
    Caminhei talvez para a carne
    Que vira fugir de mim.

    No desespero das árvores paradas busquei consoloção
    E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
    Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
    E de pavor fugi.

    Nada mais existe para mim
    Só talvez tu, Senhor.
    Mas eu sinto em mim o aniquilamento...

    Dá-me apenas a aurora, Senhor
    Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 03 Feb 2021, 05:53

    PURIFICAÇÃO

    Senhor, logo que eu vi a natureza
    As lágrimas secaram.
    Os meus olhos pousados na contemplação
    Viveram o milagre de luz que explodia no céu.

    Eu caminhei, Senhor.
    Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
    Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
    Eu caminhei.
    Nem senti a derrota tremenda
    Do que era mau em mim.
    A luz cresceu, cresceu interiormente
    E toda me envolveu.

    A ti, Senhor, gritei que estava puro
    E na natureza ouvi a tua voz.
    Pássaros cantaram no céu
    Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
    Senti a alegria da vida
    Que vivia nas flores pequenas
    Senti a beleza da vida
    Que morava na luz e morava no céu
    E cantei e cantei.

    A minha voz subiu até ti, Senhor
    E tu me deste a paz.
    Eu te peço, Senhor
    Guarda meu coração no teu coração
    Que ele é puro e simples.
    Guarda a minha alma na tua alma
    Que ela é bela, Senhor.
    Guarda o meu espírito no teu espírito
    Porque ele é a minha luz
    E porque só a ti ele exalta e ama.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:08

    A FLORESTA

    Sobre o dorso possante do cavalo
    Banhado pela luz do sol nascente
    Eu penetrei o atalho, na floresta.
    Tudo era força ali, tudo era força
    Força ascencional da natureza.
    A luz que em torvelinhos despenhava
    Sobre a coma verdíssima da mata
    Pelos claros das árvores entrava
    E desenhava a terra de arabescos.
    Na vertigem suprema do galope
    Pelos ouvidos, doces, perpassavam
    Cantos selvagens de aves indolentes.
    A branda aragem que do azul descia
    E nas folhas das árvores brincava
    Trazia à boca um gosto saboroso
    De folha verde e nova e seiva bruta.
    Vertiginosamente eu caminhava
    Bêbado da frescura da montanha
    Bebendo o ar estranguladamente.
    Às vezes, a mão firme apaziguava
    O impulso ardente do animal fogoso
    Para ouvir de mais perto o canto suave
    De alguma ave de plumagem rica
    E após, soltando as rédeas ao cavalo
    Ia de novo loucamente à brida.

    De repente parei. Longe, bem longe
    Um ruído indeciso, informe ainda
    Vinha às vezes, trazido pelo vento.
    Apenas branda aragem perpassava
    E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
    Que seria? De novo caminhando
    Mais distinto escutava o estranho ruído
    Como que o ronco baixo e surdo e cavo
    De um gigante de lenda adormecido.

    A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
    Era ela. Meu Deus, que majestade!
    Desmontei. Sobre a borda da montanha
    Vendo a água lançando-se em peitadas
    Em contorções, em doidos torvelinhos
    Sobre o rio dormente e marulhoso
    Eu tive a estranha sensação da morte.

    Em cima o rio vinha espumejante
    Apertado entre as pedras pardacentas
    Rápido e se sacudindo em branca espuma.
    De repente era o vácuo embaixo, o nada
    A queda célere e desamparada
    A vertigem do abismo, o horror supremo
    A água caindo, apavorada, cega
    Como querendo se agarrar nas pedras
    Mas caindo, caindo, na voragem
    E toda se estilhaçando, espumecente.

    Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
    Ouvindo o grande grito que subia
    Cheio, eu também, de gritos interiores.
    Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
    Sufocando no peito o sofrimento
    Caudal de dor atroz e inapagável
    Bem mais forte e selvagem do que a outra.
    Feita ela toda da desesperança
    De não poder sentir a natureza
    Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

    Quando voltei, já vinha o sol mais alto
    E alta vinha a tristeza no meu peito.
    Eu caminhei. De novo veio o vento
    Os pássaros cantaram novamente
    De novo o aroma rude da floresta
    De novo o vento. Mas eu nada via.
    Eu era um ser qualquer que ali andava
    Que vinha para o ponto de onde viera
    Sem sentido, sem luz, sem esperança
    Sobre o dorso cansado de um cavalo.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:09

    TARDE

    Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
    Meu espírito te sentiu.
    Ele te sentiu imensamente triste
    Imensamente sem Deus
    Na tragédia da carne desfeita.

    Ele te quis, hora sem tempo
    Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
    Ele te amou
    E te plasmou na visão da manhã e do dia
    Na visão de todas as horas
    Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:10

    RUA DA AMARGURA

    A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
    E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
    Quando a minha angústia passa olhando o alto.
    A minha rua tem avenidas escuras e feias
    De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
    E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
    A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
    Tem árvores grandes que tremem na noite silente
    Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
    A minha rua é soturna...
    Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
    Sozinha e prostrada diante da imagem
    Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.

    A minha rua tem um lampião apagado
    Na frente da casa onde a filha matou o pai
    Porque não queria ser dele.
    No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.

    A minha rua é a expiação de grandes pecados
    De homens ferozes perdendo meninas pequenas
    De meninas pequenas levando ventres inchados
    De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
    É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

    É a impossibilidade de fuga diante da vida
    É o pecado e a desolação do pecado
    É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
    Como negação do aniquilamento.

    É uma rua como tantas outras
    Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
    É a rua por onde eu passo a minha angústia
    Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
    É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
    Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
    Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

    Rua da amargura...


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    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:10

    VIGÍLIA

    Eu às vezes acordo e olho a noite estrelada
    E sofro doidamente.
    A lágrima que brilha nos meus olhos
    Possui por um segundo a estrela que brilha no céu.

    Eu sofro no silêncio
    Olhando a noite que dorme iluminada
    Pavorosamente acordado à dor e ao silêncio
    Pavorosamente acordado!

    Tudo em mim sofre.
    Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noite
    Ao coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,
    E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.
    Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vago
    Como que uma presença indefinida
    Que eu sinto mas não tenho.

    Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentos
    Porque ele não precisou a visão que flutua
    E não a precisará jamais.
    A dor estará em mim e eu estarei na dor
    Em todas as minhas vigílias...
    Eu sofrerei até o último dia
    Porque será meu último dia o último dia da minha mocidade.

    ---



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    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:11

    O POETA

    A vida do poeta tem um ritmo diferente
    É um contínuo de dor angustiante.
    O poeta é o destinado do sofrimento
    Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
    E a sua alma é uma parcela do infinito distante
    O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

    Ele é o eterno errante dos caminhos
    Que vai, pisando a terra e olhando o céu
    Preso pelos extremos intangíveis
    Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
    O poeta tem o coração claro das aves
    E a sensibilidade das crianças.
    O poeta chora.
    Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
    Olhando o espaço imenso da sua alma.
    O poeta sorri.
    Sorri à vida e à beleza e à amizade
    Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
    O poeta é bom.
    Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
    Sua alma as compreende na luz e na lama
    Ele é cheio de amor para as coisas da vida
    E é cheio de respeito para as coisas da morte.
    O poeta não teme a morte.
    Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
    E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
    A sua poesia é a razão da sua existência
    Ela o faz puro e grande e nobre
    E o consola da dor e o consola da angústia.

    A vida do poeta tem um ritmo diferente
    Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
    Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.

    ---


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    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:32

    EL POETA




    Cuántos somos, no sé… Somos uno, tal vez dos; tres, tal vez cuatro;

    cinco, tal vez nada.

    Tal vez la multiplicación de cinco por cinco mil y cuyos restos

    llenarían doce Tierras.

    Cuántos, no sé… Sólo sé que somos muchos – la desesperación

    del decimal infinito.

    Y que somos bellos como dioses, aunque trágicos.



    Vinimos de lejos… Puede ser que en el sueño de Dios hayamos

    aparecido como espectros

    de la boca ardiente de los volcanes o de la órbita ciega

    de los lagos desaparecidos.

    Puede ser que hayamos germinado misteriosamente del suelo asolado

    por las batallas

    o del vientre de las ballenas quién sabe si surgimos.



    Vinimos de lejos – traemos en nosotros el orgullo del ángel

    rebelado,

    del que creó o hizo nacer el fuego de la ilimitada y altísima

    misericordia.

    Traemos en nosotros el orgullo de ser úlceras en el eterno

    cuerpo de Job,

    y no oro y púrpura en el cuerpo efímero del Faraón.



    Nacimos de la fuente y vinimos puros porque somos herederos

    de la sangre

    y también deformes porque – ¡ay de los esclavos!, no hay

    belleza en los orígenes.

    Volábamos – Dios les dio el ala del bien y el ala del mal a nuestras

    formas impalpables,

    recogiendo el alma de las cosas para el castigo y la perfección

    en la vida eterna.



    Nacimos de la fuente y dentro de las eras vagamos como semillas

    invisibles por el corazón de los mundos y de los hombres,

    dejando atrás de nosotros el espacio y la memoria latente

    de nuestra vida anterior.

    Porque el espacio es el tiempo muerto – y el espacio es la memoria

    del poeta,

    como el tiempo vivo es la memoria del hombre sobre la Tierra.



    Fue mucho antes de los pájaros – apenas rodaban en la esfera

    los cantos de Dios,

    apenas su sombra inmensa cruzaba el aire como un faro

    alucinado…

    Existíamos ya… En el caos de Dios girábamos como el polvo

    prisionero del vértigo,

    ¿pero de dónde veníamos y por qué privilegio recibido?



    Y entretanto el Eterno sacaba de la música vacía la armonía

    creadora,

    y de la armonía creadora el orden de los seres y del orden de los seres

    el amor,

    y del amor la muerte y de la muerte el tiempo, y del tiempo

    el sufrimiento

    y del sufrimiento la contemplación y de la contemplación

    la serenidad imperecedera.



    Nosotros recorríamos como extrañas larvas la forma patética

    de los astros

    asistiendo a todo y oyendo todo y rememorando todo eternamente.

    ¿Cómo? No sé… Éramos la primera manifestación de la divinidad,

    éramos el primer huevo fecundándose al calor de la centella.

    Vivimos el inconsciente de las edades en los brazos palpitantes

    de los ciclones,

    y las germinaciones de la carne en el dorso descarnado del fulgor lunar.

    Asistimos al misterio de la revelación de los Trópicos y de los signos,

    y al espantoso encantamiento de los eclipses y de las esfinges.



    Descendimos a lo largo del espejo contemplativo de las aguas

    de los ríos del Edén

    y vimos, entre los animales, al hombre poseer furiosamente

    a la hembra sobre el pasto.

    Seguimos… Y cuando el decurión hirió el pecho de Dios crucificado,

    como mariposas de sangre brotamos de la carne abierta

    y volamos hacia el amor celestial.



    Cuántos somos, no sé… Somos uno, tal vez dos; tres, tal vez cuatro;

    cinco, tal vez nada.

    Tal vez la multiplicación de cinco por cinco mil y cuyos restos

    llenarían doce Tierras.

    Cuántos, no sé… Somos la constelación perdida que camina

    lanzando estrellas,

    somos la estrella perdida que camina deshecha en luz.



    ********


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Vie 05 Feb 2021, 06:27

    MORMAÇO


    No silêncio morno das coisas do meio-dia
    Eu me esvaio no aniquilamento dos agudíssimos do violino
    Que a menina pálida estuda há anos sem compreender.
    Eu sinto o letargo das dissonâncias harmônicas
    Do vendedor de modinhas e da pedra do amolador
    Que trazem a visão de mulheres macilentas dançando no espaço
    Na moleza das espatifadas da carne.

    Eu vou pouco a pouco adormecendo
    Sentindo os gritos do violino que penetram em todas as frestas
    E ressecam os lábios entreabertos na respiração
    Mas que dão a impressão da mediocridade feliz e boa.

    Que importa que a imagem do Cristo pregada na parede seja a verdade...

    Eu sinto que a verdade é a grande calma do sono
    Que vem com o cantar longínquo dos galos
    E que me esmaga nos cílios longos beijos luxuriosos...

    Eu sinto a queda de tudo na lassidão...
    Adormeço aos poucos na apatia dos ruídos da rua
    E na constância nostálgica da tosse do vizinho tuberculoso
    Que há um ano espera a morte que eu morro no sono do meio-dia.

    ---


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 06 Feb 2021, 05:35

    ROMANZA


    Branca mulher de olhos claros
    De olhar branco e luminoso
    Que tinhas luz nas pupilas
    E luz nos cabelos louros
    Onde levou-te o destino
    Que te afastou para longe
    Da minha vista sem vida
    Da minha vida sem vista?

    Andavas sempre sozinha
    Sem cão, sem homem, sem Deus
    Eu te seguia sozinho
    Sem cão, sem mulher, sem Deus
    Eras a imagem de um sonho
    A imagem de um sonho eu era
    Ambos levando a tristeza
    Dos que andam em busca do sonho.

    Ias sempre, sempre andando
    E eu ia sempre seguindo
    Pisando na tua sombra
    Vendo-a às vezes se afastar
    Nem sabias quem eu era
    Não te assustavam meus passos
    Tu sempre andando na frente
    Eu sempre atrás caminhando.

    Toda a noite em minha casa
    Passavas na caminhada
    Eu te esperava e seguia
    Na proteção do meu passo
    E após o curto caminho
    Da praia de ponta a ponta
    Entravas na tua casa
    E eu ia, na caminhada.

    Eu te amei, mulher serena
    Amei teu vulto distante
    Amei teu passo elegante
    E a tua beleza clara
    Na noite que sempre vinha
    Mas sempre custava tanto
    Eu via a hora suprema
    Das horas da minha vida.

    Eu te seguia e sonhava
    Sonhava que te seguia
    Esperava ansioso o instante
    De defender-te de alguém
    E então meu passo mais forte
    Dizia: quero falar-te
    E o teu, mais brando, dizia:
    Se queres destruir... vem.

    Eu ficava. E te seguia
    Pelo deserto da praia
    Até avistar a casa
    Pequena e branca da esquina.
    Entravas. Por um momento
    Esperavas que eu passasse
    Para o olhar de boa-noite
    E o olhar de até-amanhã.

    Quase um ano o nosso idílio.
    Uma noite... não passaste.
    Esperei-te ansioso, inquieto
    Mas não vieste. Por quê?
    Foste embora? Procuraste
    O amor de algum outro passo
    Que em vez de seguir-te sempre
    Andasse sempre ao teu lado?

    Eu ando agora sozinho
    Na praia longa e deserta
    Eu ando agora sozinho
    Por que fugiste? Por quê?
    Ao meu passo solitário
    Triste e incerto como nunca
    Só responde a voz das ondas
    Que se esfacelam na areia.

    Branca mulher de olhos claros
    Minha alma ainda te deseja
    Traze ao meu passo cansado
    A alegria do teu passo
    Onde levou-te o destino
    Que te afastou para longe
    Da minha vista sem vida
    Da minha vida sem vista?

    ---


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Feb 2021, 09:18

    QUIETAÇÃO


    No espaço claro e longo
    O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
    Eu sinto tudo pousado dentro da noite
    E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
    Como desesperados de melancolia
    Uivam na estrada cães cheios de lua.
    O silêncio pesado que desce
    Curva todas as coisas religiosamente
    E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...

    Eu penso em ti.
    Minha boca cicia longamente o teu nome
    E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
    Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
    Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
    Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
    Ouvindo, junto de mim, a angústia apaixonada da minha voz
    Num desfalecimento.

    Pelo espaço claro e longo
    Vibra a luz branca das estrelas.
    Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
    Tudo imensamente repousado.
    E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
    Pensando em ti.

    ---


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    Mensaje por Maria Lua Jue 11 Feb 2021, 04:47

    Vive tu vida
    Tu camino es de paz y amor
    Vive tu vida, una linda canción de amor
    Abre tus brazos
    Y canta la última esperanza
    La esperanza divina de amar en paz
    Si todos fuesen iguales a ti
    Qué maravilla vivir
    Una canción al llegar
    Una mujer al cantar
    Una ciudad al cantar
    Al reír, al cantar, al pedir
    La belleza de amar
    Como el sol
    O la flor
    O la luz
    Amar sin mentir
    Ni sufrir
    Existiría la verdad
    Verdad que no hay por ahí
    Si todos fuesen un día iguales a ti.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Feb 2021, 06:27

    OLHOS MORTOS


    Algum dia esses olhos que beijavas tanto
    Numa carícia sem mistérios
    Olharão para o céu e pararão.
    Nesse dia nem o teu beijo angelizante
    Poderá novamente despertá-los.
    A luz que lhes boiava nas pupilas
    Tu a verás talvez na face magra
    Do Cristo prisioneiro entre as mãos crispadas.
    Eles serão brancos — a imagem desse céu alto e suspenso
    Que foi a sua última visão.
    Eles não te dirão mais nada.
    Não te falarão aquela linguagem extraordinária
    Que te repousava como uma música longínqua.
    Não olharão mais nada que uma distância qualquer, longe
    Uma distância que nem tu nem ninguém saberá qual é.
    Eles estarão abertos, compreensivos da morte, parados
    Nem tu conseguirás mais despertá-los.
    E eu te peço — tu que tanto amavas repousá-los
    Com a luz clara do teu olhar sem martírios —
    Não os prendas à angústia triste do teu pranto.
    Silêncio... silêncio... Beija-os ainda e vai...
    Deixa-os fitando eternamente o céu.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Feb 2021, 21:58

    A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

    A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
    o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 05:18

    A QUE HÁ DE VIR

    Aquela que dormirá comigo todas as luas
    É a desejada de minha alma.
    Ela me dará o amor do seu coração
    E me dará o amor da sua carne.
    Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
    E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
    Ela é a querida da minha alma
    Que me fará longos carinhos nos olhos
    Que me beijará longos beijos nos ouvidos
    Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
    Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
    Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
    Ela abandonará filho e esposo
    Abandonará o mundo e o prazer do mundo
    Abandonará Deus e a Igreja de Deus
    E virá a mim me olhando de olhos claros
    Se oferecendo à minha posse
    Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
    Cheia de uma pureza luminosa.
    Ela é a amada sempre nova do meu coração
    Ela ficará me olhando calada
    Que ela só crerá em mim
    Far-me-á a razão suprema das coisas.
    Ela é a amada da minha alma triste
    É a que dará o peito casto
    Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração.

    Ela é a minha poesia e a minha mocidade
    É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
    Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

    Ela é o amor vivendo de si mesmo.

    É a que dormirá comigo todas as luas
    E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

    Ela é a anunciada da minha poesia
    Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
    E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 08:51

    O POETA NA MADRUGADA



    Quando o poeta chegou à cidade
    A aurora vinha clareando o céu distante
    E as primeiras mulheres passavam levando cântaros cheios.
    Os olhos do poeta tinham as claridades da aurora
    E ele cantou a beleza da nova madrugada.
    As mulheres beijaram a fronte do poeta
    E rogaram o seu amor.
    O poeta sorriu.
    Mostrou-lhes no céu claro o pássaro que voava
    E disse que a visão da beleza era da poesia
    O poeta tem a alegria que vive na luz
    E tem a mocidade que nasce da luz.
    As mulheres seguiram o poeta
    Oferecendo a tristeza do seu amor e a alegria da sua carne
    O poeta amou a carne das mulheres
    Mas não envelheceu no amor que elas lhe davam.
    O poeta quando ama
    É como a flor que murcha sem seiva
    Porque o amor do poeta
    É a seiva do mundo
    E se o poeta amasse
    Ele não viveria eternamente jovem, brilhando na luz.

    Quando a nova madrugada raiou no céu distante
    O poeta já tinha partido
    E seguindo o poeta as mulheres de peitos fartos e de cântaros cheios
    Falavam de ardentes promessas de amor.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 15 Feb 2021, 15:00

    O VALE DO PARAÍSO

    Quando vier de novo o céu de maio largando estrelas
    Eu irei, lá onde os pinheiros recendem nas manhãs úmidas
    Lá onde a aragem não desdenha a pequenina flor das encostas
    Será como sempre, na estrada vermelha a grande pedra recolherá sol
    E os pequenos insetos irão e virão, e longe um cão ladrará
    E nos tufos dos arbustos haverá enredados de orvalho nas teias de aranha.
    As montanhas, vejo-as iluminadas, ardendo no grande sol amarelo
    As vertentes algodoadas de neblina, lembro-as suspendendo árvores nas nuvens
    As matas, sinto-as ainda vibrando na comunhão das sensações
    Como uma epiderme verde, porejada.
    Na eminência a casa estará rindo no lampejar dos vidros das suas mil janelas
    A sineta tocará matinas e a presença de Deus não permitirá a Ave-Maria
    Apenas a poesia estará nas ramadas que entram pela porta
    E a água estará fria e todos correrão pela grama
    E o pão estará fresco e os olhos estarão satisfeitos.
    Eu irei, será como sempre, nunca o silêncio sem remédio das insônias
    O vento cantará nas frinchas e os grilos trilarão folhas secas
    E haverá coaxos distantes a cada instante
    Depois as grandes chuvas encharcando o barro e esmagando a erva
    E batendo nas latas vagas monotonias de cidade.

    Eu me recolherei um minuto e escreverei: — “Onde estará a volúpia?...”
    E as borboletas se fecundando não me responderão.

    Será como sempre, será a altura, será a proximidade da suprema inexistência
    Lá onde à noite o frio imobiliza a luz cadente das estrelas
    Lá onde eu irei.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Feb 2021, 07:21

    A MÚSICA DAS ALMAS



    Le mal est dans le monde comme un esclave qui monte l’eau.
    Claudel



    Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
    E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra...

    Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
    Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
    Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Feb 2021, 07:25

    SONETO DA ESPERA

    Aguardando-te, amor, revejo os dias
    Da minha infância já distante, quando
    Eu ficava, como hoje, te esperando
    Mas sem saber ao certo se virias.

    E é bom ficar assim, quieto, lembrando
    Ao longo de milhares de poesias
    Que te estás sempre e sempre renovando
    Para me dar maiores alegrias.

    Dentro em pouco entrarás, ardente e loura
    Como uma jovem chama precursora
    Do fogo a se atear entre nós dois

    E da cama, onde em ti me dessedento
    Tu te erguerás como o pressentimento
    De uma mulher morena a vir depois.

    Rio, abril de 1963


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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Feb 2021, 07:26

    SONETO DE MAIO


    Suavemente Maio se insinua
    Por entre os véus de Abril, o mês cruel
    E lava o ar de anil, alegra a rua
    Alumbra os astros e aproxima o céu.

    Até a lua, a casta e branca lua
    Esquecido o pudor, baixa o dossel
    E em seu leito de plumas fica nua
    A destilar seu luminoso mel.

    Raia a aurora tão tímida e tão frágil
    Que através do seu corpo transparente
    Dir-se-ia poder-se ver o rosto

    Carregado de inveja e de presságio
    Dos irmãos Junho e Julho, friamente
    Preparando as catástrofes de Agosto...


    Ouro Preto, maio de 1967


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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Jue 18 Feb 2021, 15:32

    Pela noite quente eu caminhei...
    Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
    Que eu ouvia, do mar.
    Caminhei talvez para a carne
    Que vira fugir de mim.

    No desespero das árvores paradas busquei consoloção
    E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
    Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
    E de pavor fugi.

    Nada mais existe para mim
    Só talvez tu, Senhor.
    Mas eu sinto em mim o aniquilamento...

    Dá-me apenas a aurora, Senhor
    Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.


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    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Feb 2021, 05:09

    ELEGIA QUASE UMA ODE


    Meu sonho, eu te perdi; tornei-me em homem.

    O verso que mergulha o fundo de minha alma
    É simples e fatal, mas não traz carícia...
    Lembra-me de ti, poesia criança, de ti
    Que te suspendias para o poema como que para um seio no espaço.
    Levavas em cada palavra a ânsia
    De todo o sofrimento vivido.

    Queria dizer coisas simples, bem simples
    Que não ferissem teus ouvidos, minha mãe.
    Queria falar em Deus, falar docemente em Deus
    Para acalentar tua esperança, minha avó.
    Queria tornar-me mendigo, ser miserável
    Para participar de tua beleza, meu irmão.
    Queria, meus amigos... queria, meus inimigos...
    Queria...
    queria tão exaltadamente, minha amiga!

    Mas tu, Poesia
    Tu desgraçadamente Poesia
    Tu que me afogaste em desespero e me salvaste
    E me afogaste de novo e de novo me salvaste e me trouxeste
    À borda de abismos irreais em que me lançaste e que depois eram abismos verdadeiros
    Onde vivia a infância corrompida de vermes, a loucura prenhe do Espírito Santo, e idéias em lágrimas, e castigos e redenções mumificados em sêmen cru
    Tu!
    Iluminaste, jovem dançarina, a lâmpada mais triste da memória…

    Pobre de mim, tornei-me em homem.
    De repente, como a árvore pequena
    Que à estação das águas bebe a seiva do húmus farto
    Estira o caule e dorme para despertar adulta
    Assim, poeta, voltaste para sempre.

    No entanto, era mais belo o tempo em que sonhavas...

    Que sonho é minha vida?
    A ti direi que és tu, Maria Aparecida!
    A vós, no pudor de falar ante a vossa grandeza
    Direi que é esquecer todos os sonhos, meus amigos.
    Ao mundo, que ama a lenda dos destinos
    Direi que é o meu caminho de poeta.
    A mim mesmo, hei de chamá-lo inocência, amor, alegria, sofrimento, morte, serenidade
    Hei de chamá-lo assim que sou fraco e mutável
    E porque é preciso que eu não minta nunca para poder dormir.
    Ah
    Devesse eu jamais atender aos apelos do íntimo...

    Teus braços longos, coruscantes; teus cabelos de oleosa cor; tuas mãos musicalíssimas; teus pés que levam a dança prisioneira; teu corpo grave de graça instantânea; o modo com que olhas o âmago da vida; a tua paz, angústia paciente; o teu desejo irrevelado; o grande, o infinito inútil poético! tudo isso seria um sonho a sonhar no teu seio que é tão pequeno...

    Ó, quem me dera não sonhar mais nunca
    Nada ter de tristezas nem saudades
    Ser apenas Moraes sem ser Vinicius!
    Ah, pudesse eu jamais, me levantando
    Espiar a janela sem paisagem
    O céu sem tempo e o tempo sem memória!
    Que hei de fazer de mim que sofro tudo
    Anjo e demônio, angústias e alegrias
    Que peco contra mim e contra Deus!
    Às vezes me parece que me olhando
    Ele dirá, do seu celeste abrigo:
    Fui cruel por demais com esse menino...
    No entanto, que outro olhar de piedade
    Curará neste mundo as minhas chagas?
    Sou fraco e forte, venço a vida: breve
    Perco tudo; breve, não posso mais...
    Oh, natureza humana, que desgraça!
    Se soubesses que força, que loucura
    São todos os teus gestos de pureza
    Contra uma carne tão alucinada!
    Se soubesses o impulso que te impele
    Nestas quatro paredes de minha alma
    Nem sei o que seria deste pobre
    Que te arrasta sem dar um só gemido!
    É muito triste se sofrer tão moço
    Sabendo que não há nenhum remédio
    E se tendo que ver a cada instante
    Que é assim mesmo, que mais tarde passa
    Que sorrir é questão de paciência
    E que a aventura é que governa a vida
    Ó ideal misérrimo, te quero:
    Sentir-me apenas homem e não poeta!

    E escuto... Poeta! triste Poeta!
    Não, foi certamente o vento da manhã nas araucárias
    Foi o vento... sossega, meu coração; às vezes o vento parece falar...
    E escuto... Poeta! pobre Poeta!
    Acalma-te, tranqüilidade minha... é um passarinho, só pode ser um passarinho
    Eu nem me importo... e se não for um passarinho, há tantos lamentos nesta terra...
    E escuto... Poeta! sórdido Poeta!
    Oh angústia! desta vez... não foi a voz da montanha? Não foi o eco distante
    Da minha própria voz inocente?

    Choro.
    Choro atrozmente, como os homens choram.
    As lágrimas correm milhões de léguas no meu rosto que o pranto faz gigantesco.
    Ó lágrimas, sois como borboletas dolorosas
    Volitais dos meus olhos para os caminhos esquecidos…
    Meu pai, minha mãe, socorrei-me!
    Poetas, socorrei-me!
    Penso que daqui a um minuto estarei sofrendo
    Estarei puro, renovado, criança, fazendo desenhos perdidos no ar…
    Venham me aconselhar, filósofos, pensadores
    Venham me dizer o que é a vida, o que é o conhecimento, o que quer dizer a memória
    Escritores russos, alemães, franceses, ingleses, noruegueses
    Venham me dar idéias como antigamente, sentimentos como antigamente
    Venham me fazer sentir sábio como antigamente!
    Hoje me sinto despojado de tudo que não seja música
    Poderia assoviar a idéia da morte, fazer uma sonata de toda a tristeza humana
    Poderia apanhar todo o pensamento da vida e enforcá-lo na ponta de uma clave de Fá!

    Minha Nossa Senhora, dai-me paciência
    Meu Santo Antônio, dai-me muita paciência
    Meu São Francisco de Assis, dai-me muitíssima paciência!
    Se volto os olhos tenho vertigens
    Sinto desejos estranhos de mulher grávida
    Quero o pedaço de céu que vi há três anos, atrás de uma colina que só eu sei
    Quero o perfume que senti não me lembro quando e que era entre sândalo e carne de seio.
    Tanto passado me alucina
    Tanta saudade me aniquila
    Nas tardes, nas manhãs, nas noites da serra.
    Meu Deus, que peito grande que eu tenho
    Que braços fortes que eu tenho, que ventre esguio que eu tenho!
    Para que um peito tão grande
    Para que uns braços tão fortes
    Para que um ventre tão esguio
    Se todo meu ser sofre da solidão que tenho
    Na necessidade que tenho de mil carícias constantes da amiga?
    Por que eu caminhando
    Eu pensando, eu me multiplicando, eu vivendo
    Por que eu nos sentimentos alheios
    E eu nos meus próprios sentimentos
    Por que eu animal livre pastando nos campos
    E príncipe tocando o meu alaúde entre as damas do senhor rei meu pai
    Por que eu truão nas minhas tragédias
    E Amadis de Gaula nas tragédias alheias?

    Basta!
    Basta, ou dai-me paciência!
    Tenho tido muita delicadeza inútil
    Tenho me sacrificado muito demais, um mundo de mulheres em excesso tem me vendido
    Quero um pouso
    Me sinto repelente, impeço os inocentes de me tocarem
    Vivo entre as águas torvas da minha imaginação
    Anjos, tangei sinos
    O anacoreta quer a sua amada
    Quer a sua amada vestida de noiva
    Quer levá-la para a neblina do seu amor...

    Mendelssohn, toca a tua marchinha inocente
    Sorriam pajens, operárias curiosas
    O poeta vai passar soberbo
    Ao seu abraço uma criança fantástica derrama os óleos santos das últimas lágrimas
    Ah, não me afogueis em flores, poemas meus, voltai aos livros
    Não quero glórias, pompas, adeus!
    Solness, voa para a montanha, meu amigo
    Começa a construir uma torre bem alta, bem alta...



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun 22 Feb 2021, 05:43

    ELEGIA LÍRICA


    Um dia, tendo ouvido bruscamente o apelo da amiga desconhecida
    Pus-me a descer contente pela estrada branca do sul
    E em vão eram tristes os rios e torvas as águas
    Nos vales havia mais poesia que em mil anos.

    Eu devia ser como o filósofo errante à imagem da Vida
    O riso me levava nas asas vertiginosas das andorinhas
    E em vão eram tristes os rios e torvas as águas
    Sobre o horizonte em fogo cavalos vermelhos pastavam.

    Por todos os lados flores, não flores ardentes, mas outras flores
    Singelas, que se poderiam chamar de outros nomes que não os seus
    Flores como borboletas prisioneiras, algumas pequenas e pobrezinhas
    Que lá aos vossos pés riam-se como orfãozinhas despertadas.

    Que misericórdia sem termo vinha se abatendo sobre mim!
    Meus braços se fizeram longos para afagar os seios das montanhas
    Minhas mãos se tornaram leves para reconduzir o animalzinho transviado
    Meus dedos ficaram suaves para afagar a pétala murcha.

    E acima de tudo me abençoava o anjo do amor sonhado...
    Seus olhos eram puros e mutáveis como profundezas de lago
    Ela era como uma nuvem branca num céu de tarde
    Triste, mas tão real e evocativa como uma pintura.

    Cheguei a querê-la em lágrimas, como uma criança
    Vendo-a dançar ainda quente de sol nas gazes frias da chuva
    E a correr para ela, quantas vezes me descobri confuso
    Diante de fontes nuas que me prendiam e me abraçavam...

    Meu desejo era bom e meu amor fiel
    Versos que outrora fiz vinham-me sorrir à boca...
    Oh, doçura! que colméia és de tanta abelha
    Em meu peito a derramares mel tão puro!

    E vi surgirem as luzes brancas da cidade
    Que me chamavam; e fui... Cheguei feliz
    Abri a porta... ela me olhou e perguntou meu nome:
    Era uma criança, tinha olhos exaltados, parecia me esperar.

    *

    A minha namorada é tão bonita, tem olhos como besourinhos do céu
    Tem olhos como estrelinhas que estão sempre balbuciando aos passarinhos...
    É tão bonita! tem um cabelo fino, um corpo de menino e um andar pequenino
    E é a minha namorada... vai e vem como uma patativa, de repente morre de amor
    Tem fala de S e dá a impressão que está entrando por uma nuvem adentro...
    Meu Deus, eu queria brincar com ela, fazer comidinha, jogar nai-ou-nentes
    Rir e num átimo dar um beijo nela e sair correndo
    E ficar de longe espiando-lhe a zanga, meio vexado, meio sem saber o que faça...
    A minha namorada é muito culta, sabe aritmética, geografia, história, contraponto
    E se eu lhe perguntar qual a cor mais bonita ela não dirá que é a roxa porém brique.
    Ela faz coleção de cactos, acorda cedo vai para o trabalho
    E nunca se esquece que é a menininha do poeta.
    Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer ir à Europa? ela diz: Quero se mamãe for!
    Se eu lhe perguntar: Meu anjo, quer casar comigo? ela diz... - não, ela não acredita.
    É doce! gosta muito de mim e sabe dizer sem lágrimas: Vou sentir tantas saudades quando você for...
    É uma nossa senhorazinha, é uma cigana, é uma coisa
    Que me faz chorar na rua, dançar no quarto, ter vontade de me matar e de ser presidente da república.
    É boba, ela! tudo faz, tudo sabe, é linda, ó anjo de Domremy!
    Dêem-lhe uma espada, constrói um reino; dêem-lhe uma agulha, faz um crochê
    Dêem-lhe um teclado, faz uma aurora, dêem-lhe razão, faz uma briga...!
    E do pobre ser que Deus lhe deu, eu, filho pródigo, poeta cheio de erros
    Ela fez um eterno perdido...

    "Meu benzinho adorado minha triste irmãzinha eu te peço por tudo o que há de mais sagrado que você me escreva uma cartinha sim dizendo como é que você vai que eu não sei eu ando tão zaranza por causa do teu abandono eu choro e um dia pego tomo um porre danado que você vai ver e aí nunca mais mesmo que você me quer e sabe o que eu faço eu vou-me embora para sempre e nunca mas vejo esse rosto lindo que eu adoro porque você é toda a minha vida e eu só escrevo por tua causa ingrata e só trabalho para casar com você quando a gente puder porque agora tudo está tão difícil mas melhora não se afobe e tenha confiança em mim que te quero acima do próprio Deus que me perdoe eu dizer isso mais é sincero porque ele sabe que ontem pensei todo o dia em você e acabei chorando no rádio por causa daquele estudo de Chopin que você tocou antes de eu ir-me embora e imagina só que estou fazendo uma história para você muito bonita e quando chega de noite eu fico tão triste que até dá pena e tenho vontade de ir correndo te ver e beijo o ar feito bobo com uma coisa no coração que já fui até no médico mas ele disse que é nervoso e me falou que eu sou emotivo e eu peguei ri na cara dele e ele ficou uma fera que a medicina dele não sabe que o meu bem está longe melhor para ele eu só queria te ver uma meia hora eu pedia tanto que você acabava ficando enfim adeus que já estou até cansado de tanta saudade e tem gente aqui perto e fica feio eu chorar na frente deles eu não posso adeus meu rouxinol me diz boa-noite e dorme pensando neste que te adora e se puder pensa o menos possível no teu amigo para você não se entristecer muito que só mereces felicidade do teu definitivo e sempre amigo..."

    Tudo é expressão.

    Neste momento, não importa o que eu te diga
    Voa de mim como uma incontensão de alma ou como um afago.
    Minhas tristezas, minhas alegrias
    Meus desejos são teus, toma, leva-os contigo!
    És branca, muito branca
    E eu sou quase eterno para o teu carinho.
    Não quero dizer nem que te adoro
    Nem que tanto me esqueço de ti
    Quero dizer-te em outras palavras todos os votos de amor jamais sonhados

    Alóvena, ebaente
    Puríssima, feita para morrer...


    Crucificado estou
    Na ânsia deste amor
    Que o pranto me transporta sobre o mar
    Pelas cordas desta lira
    Todo o meu ser delira
    Na alma da viola a soluçar!"
    Bordões, primas
    Falam mais que rimas.
    É estranho
    Sinto que ainda estou longe de tudo
    Que talvez fosse cantar um blues
    Yes!
    Mas
    O maior medo é que não me ouças
    Que estejas deitada sonhando comigo
    Vendo o vento soprar o avental da tua janela
    Ou na aurora boreal de uma igreja escutando se erguer o sol de Deus.
    Mas tudo é expressão!
    Insisto nesse ponto, senhores jurados
    O meu amor diz frases temíveis:
    Angústia mística
    Teorema poético
    Cultura grega dos passeios no parque...

    No fundo o que eu quero é que ninguém me entenda Para eu poder te amar tragicamente!


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Feb 2021, 05:45

    ELEGIA DESESPERADA

    Alguém que me falasse do mistério do Amor
    Na sombra — alguém; alguém que me mentisse
    Em sorrisos, enquanto morriam os rios, enquanto morriam
    As aves do céu! e mais que nunca
    No fundo da carne o sonho rompeu um claustro frio
    Onde as lúcidas irmãs na branca loucura das auroras
    Rezam e choram e velam o cadáver gelado ao sol!
    Alguém que me beijasse e me fizesse estacar
    No meu caminho — alguém! — as torres ermas
    Mais altas que a lua, onde dormem as virgens
    Nuas, as nádegas crispadas no desejo
    Impossível dos homens — ah! deitariam a sua maldição!
    Ninguém... nem tu, andorinha, que para seres minha
    Foste mulher alta, escura e de mãos longas...
    Revesti-me de paz? — não mais se me fecharão as chagas
    Ao beijo ardente dos ideais — perdi-me
    De paz! sou rei, sou árvore
    No plácido país do Outono; sou irmão da névoa
    Ondulante, sou ilha no gelo, apaziguada!
    E no entanto, se eu tivesse ouvido em meu silêncio uma voz
    De dor, uma simples voz de dor... mas! fecharam-me
    As portas, sentaram-se todos à mesa e beberam o vinho
    Das alegrias e penas da vida (e eu só tive a lua
    Lívida, a lésbica que me poluiu da sua eterna
    Insensível polução...) Gritarei a Deus? — ai dos homens!
    Aos homens? — ai de mim! Cantarei
    Os fatais hinos da redenção? Morra Deus
    Envolto em música! — e que se abracem
    As montanhas do mundo para apagar o rasto do poeta!

    *

    E o homem vazio se atira para o esforço desconhecido
    Impassível. A treva amarga o vento. No silêncio
    Troa invisível o tantã das tribos bárbaras
    E descem os rios loucos para a imaginação humana.

    Do céu se desprende a face maravilhosa de Canópus
    Para o muito fundo da noite... — e um grito cresce desorientado
    Um grito de virgem que arde... — na copa dos pinheiros
    Nem um piar de pássaro, nem uma visão consoladora da lua.

    É o instante em que o medo poderia ser para sempre
    Em que as planícies se ausentam e deixam as entranhas cruas da terra
    Para as montanhas, a imagem do homem crispado, correndo
    É a visão do próprio desespero perdido na própria imobilidade.

    Ele traz em si mesmo a maior das doenças
    Sobre o seu rosto de pedra os olhos são órbitas brancas
    À sua passagem as sensitivas se fecham apavoradas
    E as árvores se calam e tremem convulsas de frio.

    O próprio bem tem nele a máscara do gelo
    E o seu crime é cruel, lúcido e sem paixão
    Ele mata a avezinha só porque a viu voando
    E queima florestas inteiras para aquecer as mãos.

    Seu olhar que rouba às estrelas belezas recônditas
    Debruça-se às vezes sobre a borda negra dos penhascos
    E seu ouvido agudo escuta longamente em transe
    As gargalhadas cínicas dos vampiros e dos duendes.

    E se acontece encontrar em seu fatal caminho
    Essas imprudentes meninas que costumam perder-se nos bosques
    Ele as apaixona de amor e as leva e as sevicia
    E as lança depois ao veneno das víboras ferozes.

    Seu nome é terrível. Se ele o grita silenciosamente
    Deus se perde de horror e se destrói no céu.
    Desespero! Desespero! Porta fechada ao mal
    Loucura do bem, desespero, criador de anjos!

    *

    (O desespero da piedade)

    Meu senhor, tende piedade dos que andam de bonde
    E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
    Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
    Quando enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

    Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
    E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
    Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
    E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina.

    Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
    Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
    Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
    E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

    Tende imensa piedade dos músicos dos cafés e casas de chá
    Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
    Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
    E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

    Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
    E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
    Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
    E tornam-se heroicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

    Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
    Que em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
    E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
    Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe aonde vão...

    Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
    Que se efeminam por profissão mas que são humildes nas suas carícias
    Mas tende mais piedade ainda dos que cortam o cabelo:
    Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

    Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
    Que lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
    Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
    Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

    Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
    Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
    Mas tende mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
    Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

    Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
    Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
    Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
    Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

    E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tende piedade das mulheres
    Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
    Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
    Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

    Tende piedade da moça feia que serve na vida
    De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
    Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
    Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

    Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
    Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
    E sonham exaltadas nos quartos humildes
    Os olhos perdidos e o seio na mão.

    Tende piedade da mulher no primeiro coito
    Onde se cria a primeira alegria da Criação
    E onde se consuma a tragédia dos anjos
    E onde a morte encontra a vida em desintegração.

    Tende piedade da mulher no instante do parto
    Onde ela é como a água explodindo em convulsão
    Onde ela é como a terra vomitando cólera
    Onde ela é como a lua parindo desilusão.

    Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
    Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
    Mas tende piedade também das mulheres casadas
    Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

    Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
    Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
    Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
    E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

    Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
    De corpo hermético e coração patético
    Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
    Que se creem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

    Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
    Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
    Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
    Que ninguém mais precisa tanto de alegria e serenidade.

    Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
    Que são crianças e são trágicas e são belas
    Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
    E que têm a única emoção da vida nelas.

    Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
    Ter piedade de si mesma e de sua louca mocidade
    E outra, à simples emoção do amor piedoso
    Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

    Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
    A vida fere mais fundo e mais fecundo
    E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
    E a loucura reside nesse mundo.

    Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
    Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
    Piedoso com todos, que tudo merece piedade
    E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!



    _________________



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Miér 24 Feb 2021, 07:03

    ELEGIA AO PRIMEIRO AMIGO

    Seguramente não sou eu
    Ou antes: não é o ser que eu sou, sem finalidade e sem história.
    É antes uma vontade indizível de te falar docemente
    De te lembrar tanta aventura vivida, tanto meandro de ternura
    Neste momento de solidão e desmesurado perigo em que me encontro.
    Talvez seja o menino que um dia escreveu um soneto para o dia de teus anos
    E te confessava um terrível pudor de amar, e que chorava às escondidas
    Porque via em muitos dúvidas sobre uma inteligência que ele estimava genial.
    Seguramente não é a minha forma.
    A forma que uma tarde, na montanha, entrevi, e que me fez tão tristemente temer minha própria poesia.
    É apenas um prenúncio do mistério
    Um suspiro da morte íntima, ainda não desencantada...
    Vim para ser lembrado
    Para ser tocado de emoção, para chorar
    Vim para ouvir o mar contigo
    Como no tempo em que o sonho da mulher nos alucinava, e nós
    Encontrávamos força para sorrir à luz fantástica da manhã.
    Nossos olhos enegreciam lentamente de dor
    Nossos corpos duros e insensíveis
    Caminhavam léguas — e éramos o mesmo afeto
    Para aquele que, entre nós, ferido de beleza
    Aquele de rosto de pedra
    De mãos assassinas e corpo hermético de mártir
    Nos criava e nos destruía à sombra convulsa do mar.
    Pouco importa que tenha passado, e agora
    Eu te possa ver subindo e descendo os frios vales
    Ou nunca mais irei, eu
    Que muita vez neles me perdi para afrontar o medo da treva...
    Trazes ao teu braço a companheira dolorosa
    A quem te deste como quem se dá ao abismo, e para quem cantas o teu desespero como um grande pássaro sem ar.
    Tão bem te conheço, meu irmão; no entanto
    Quem és, amigo, tu que inventaste a angústia
    E abrigaste em ti todo o patético?
    Não sei o que tenho de te falar assim: sei
    Que te amo de uma poderosa ternura que nada pede nem dá
    Imediata e silenciosa; sei que poderias morrer
    E eu nada diria de grave; decerto
    Foi a primavera temporã que desceu sobre o meu quarto de mendigo
    Com seu azul de outono, seu cheiro de rosas e de velhos livros...
    Pensar-te agora na velha estrada me dá tanta saudade de mim mesmo
    Me renova tanta coisa, me traz à lembrança tanto instante vivido:
    Tudo isso que vais hoje revelar à tua amiga, e que nós descobrimos numa incomparável aventura
    Que é como se me voltasse aos olhos a inocência com que um dia dormi nos braços de uma mulher que queria me matar.
    Evidentemente (e eu tenho pudor de dizê-lo)
    Quero um bem enorme a vocês dois, acho vocês formidáveis
    Fosse tudo para dar em desastre no fim, o que não vejo possível
    (Vá lá por conta da necessária gentileza...)
    No entanto, delicadamente, me desprenderei da vossa companhia, deixar-me-ei ficar para trás, para trás...
    Existo também; de algum lugar
    Uma mulher me vê viver; de noite, às vezes
    Escuto vozes ermas
    Que me chamam para o silêncio.
    Sofro
    O horror dos espaços
    O pânico do infinito
    O tédio das beatitudes.
    Sinto
    Refazerem-se em mim mãos que decepei de meus braços
    Que viveram sexos nauseabundos, seios em putrefação.
    Ah, meu irmão, muito sofro! de algum lugar, na sombra
    Uma mulher me vê viver... — perdi o meio da vida
    E o equilíbrio da luz; sou como um pântano ao luar.

    *

    Falarei baixo
    Para não perturbar tua amiga adormecida
    Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
    Tudo me merece um olhar. Trago
    Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
    Um constante beijo para beijar; meus olhos
    Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
    Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
    E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
    Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
    Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
    Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
    Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
    Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
    Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
    Mas com singular delicadeza. Não sou bom
    Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
    Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
    Como um lobo. Se não fosse delicado
    Já não seria mais. Ninguém me injuria
    Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
    Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
    A liberdade alheia; não existe
    Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
    Sou um mártir da delicadeza; sou
    Um monstro de delicadeza.

    *

    Seguramente não sou eu:
    É a tarde, talvez, assim parada
    Me impedindo de pensar. Ah, meu amigo
    Quisera poder dizer-te tudo; no entanto
    Preciso desprender-me de toda lembrança; de algum lugar
    Uma mulher me vê viver, que me chama; devo
    Segui-la, porque tal é o meu destino. Seguirei
    Todas as mulheres em meu caminho, de tal forma
    Que ela seja, em sua rota, uma dispersão de pegadas
    Para o alto, e não me reste de tudo, ao fim
    Senão o sentimento desta missão e o consolo de saber
    Que fui amante, e que entre a mulher e eu alguma coisa existe
    Maior que o amor e a carne, um secreto acordo, uma promessa
    De socorro, de compreensão e de fidelidade para a vida.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 12 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 08:13

    O MÁGICO

    Diante do mágico a multidão boquiaberta se esquece. Não há mais lugar na Grande Praça: as ruas adjacentes se cobrem de uma negra onda humana. Em todas as casas a curiosidade do mistério abriu todas as janelas. A espantosa fachada da Catedral se apinha de garotos acrobatas que se penduram nos relevos como anjos. É talvez Paris do Terror, porque os velhos pardieiros como que se inclinam para o espetáculo incessante e na porta das hospedarias há velhas tabuletas pendentes, mas também pode ser uma vila alemã, onde as campainhas das lojas tilintam alegremente, ou mesmo o Rio do tempo dos Vice-Reis, com os seus Capitães-Mores traficando em suas redes e fitando duramente o artista.

    O mágico está sobre o antigo pelourinho ou forca ou guilhotina por onde muitas gerações passaram.

    As abas da sua casaca vão ao vento — é uma negra andorinha saltitante! As brancas mãos se misturam em ondulantes movimentos de dança.

    É de tarde, hora do trabalho. Na primeira fila estão os senhores e na última os escravos do dever. Os senhores procuram adivinhar, os escravos procuram rir. O mágico se diverte com a multidão, a multidão se diverte com o mágico. Um filósofo e um dançarino perdidos confundem a multidão com o mágico e aguardam.

    Todos se divertem à sua maneira.

    *

    Silêncio, o mágico fala, todos escutam! “Ahora, presentaré el famoso entretenimiento de las palomas.” A dama oriental faz uma pirueta ágil e mostra ao público a cartola milagrosa. O mágico faz passes, cobre a cartola com um lenço vermelho de seda. “Un dos y...!” voam pombas brancas para o céu de safira. A multidão olha para cima, as mãos aparando o sol. O movimento prossegue. Toda a praça, toda a rua, toda a cidade olha para cima, o subúrbio olha para cima, os camponeses olham para cima. “O que estará para acontecer? Dizem que um tufão caminha do levante!” Acendem-se ícones nas isbás da estepe russa, fazem-se procissões em Portugal. O chefe guerreiro da tribo vê o sinal da guerra no céu, rugem os trocanos. O mágico joga a cartola para a multidão, que aplaude. O poeta apanha a cartola e recolhe nela o encantamento que se processou. As pombas invisíveis voltam, o poeta as contempla. Só elas são o Íntimo da Vida.

    *

    E o tufão cai de súbito, vindo do Levante. Os garotos escorrem pelas colunas, formigam pelas escadarias, escondem-se nos nichos. O povo se escoa como uma água lodosa pelas portas das casas que abrem e fecham. A um gesto de guignol todas as janelas se retraem e após um minuto de rumor intenso desce uma eternidade de silêncio. Uma procelária passando em busca do mar só vê da cidade as suas torres acima do grande nevoeiro. Os rios rugem, as pontes desabam, nas sarjetas boiam cadáveres de crianças ciganas. O dilúvio leva a música do mágico, leva as pinturas do mágico, leva as bonecas do mágico, só não leva o mágico na torrente.
    O poeta sobe ao palanque, castiga o mágico, possui a mulher do mágico, apresenta ao alto a cabeça e o coração, onde surgem e desaparecem pombas brancas e onde a realidade efêmera floresce no mistério perpétuo.
    Mágico do inescrutável, o poeta aguarda o raio de Deus.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 08:14

    A MÁSCARA DA NOITE

    Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos
    Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios
    Sob esse céu como uma visão azul de incenso
    As estrelas são perfumes passados que me chegam...

    Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
    E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
    Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores
    Nuvens como velas abertas para o tempo...

    Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
    É como um pressentimento de inocência, como um apelo...
    Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
    E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora...

    Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
    Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
    Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
    Faz-se surgir diamante dentro do sol!

    Lembro-me!... como se fosse a hora da memória
    Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
    O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento
    Seios crescendo para o poente como salmos...

    Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
    Vagam placidamente navios fantásticos de prata
    E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
    Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!

    Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
    Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo
    Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
    Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!

    És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea
    Com teus longos xales campestres e com teus cânticos
    És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
    Em longas escalas cromáticas fragrantes...

    Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! — primaveras!
    Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero
    Visões de rios plácidos e matas adormecidas
    Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!

    Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
    Por que não te esvais — espectro — nesse perfume tenro de rosas?
    Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses
    Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!

    Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência
    Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos
    O teu céu, a tua luz, a tua calma
    São a palavra da morte e do sonho em mim!



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