Aires de Libertad

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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:01 pm

    HISTÓRIA PASSIONAL, HOLLYWOOD, CALIFÓRNIA



    Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
    Depois te levarei a comer um shop-suey
    Se a tarde também for loura abriremos a capota
    Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.

    Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
    E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
    Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
    Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.

    Mascaremos cada um uma caixa de goma
    E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
    A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
    Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.

    De novo no automóvel perguntarei se queres
    Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
    Tua fome reclama uma salada mista
    Verei teu rosto através do suco de tomate.

    Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
    Na saída constatarei tuas nylon 57
    Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
    Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.

    Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
    Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
    Cheirarás levemente a cachorro lavado
    Possuis cem rotações de quadris por minuto.

    De novo no automóvel perguntarei se queres
    Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
    Fazes a cigarreira num clube de má fama
    E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.

    Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
    No escritório esperarei que tomes sal de frutas
    Vem-te um súbito desejo de comida italiana
    Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!

    À porta de tua casa perguntarei se queres
    Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
    De longe acenarás um adeus sutilíssimo
    Ao constatares que estou com a bateria gasta.

    Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
    Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
    Virás então dizer que tens comida em casa
    De avental abrirei latas e enxugarei pratos.

    Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
    Direi que há cinco anos e ela fica calada
    Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
    Sairemos de automóvel para uma volta rápida.

    No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
    Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
    Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
    E acabo machucando os dedos na tua cinta.

    Dia seguinte vens com um suéter elástico
    Sapatos mocassim e meia curta vermelha
    Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
    Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.

    Na saída te vem um desejo de boliche
    Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
    Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
    Finjo que não me importo e dou saída no carro.

    Estás louca para tomar uma coca gelada
    Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
    Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
    Perdido de repente numa grande piedade.

    Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
    Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
    Dou um soco na perna e aperto o acelerador
    Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.

    Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
    Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
    “Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
    E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”

    Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
    Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
    Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
    Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.

    No carro distraído deixo a mão na tua perna
    Depois vou te levando para o alto de um morro
    Em cima tiro o anel, quero casar contigo
    Dizes que só acedes depois do meu divórcio.

    Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
    Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
    Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
    E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.

    Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
    E mascas furiosamente dizendo barbaridades
    Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
    De fazer tais propostas a uma moça solteira.

    Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
    Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
    Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
    E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.

    Me pedes para te levar a comer uma salada
    Mas de súbito me vem uma consciência estranha
    Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
    E odeio-te de ruminares assim a minha carne.

    Então fico possesso, dou-te um murro na cara
    Destruo-te a carótida a violentas dentadas
    Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
    E te possuo assim, morta e desfigurada.

    Depois arrependido choro sobre o teu corpo
    E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
    Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
    E seis meses depois morro na câmara de gás.


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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:02 pm

    EPITALÂMIO


    Esta manhã a casa madruguei.
    Havia elfos alados nos gelados
    Raios de sol da sala quando entrei.
    Sentada na cadeira de balanço
    Resplendente, uma fada balançava-se
    Numa poça de luz. Minha chegada
    Gigantesca assustou os gnomos mínimos
    Que vertiginosamente se escoaram
    Pelas frinchas dos rodapés. A estranha
    Presença matinal do ser noturno
    Desencadeou no cerne da matéria
    O entusiasmo dos átomos. Coraram
    Os móveis decapês, tremeram os vidros
    Estalaram os armários de alegria.
    Eram os claros cristais de luz tão frágeis
    Que ao tocar um, desfez-se nos meus dedos
    Em poeira translúcida, vibrando
    Tremulinas e harpejos inefáveis.
    Era o inverno, ainda púbere. Bebi
    Sofregamente um grande copo de ar
    E recitei o meu epitalâmio.
    Nomes como uma flor, uma explosão
    De flor, vieram da infância envolta em trevas
    Penetrados de vozes. Num segundo
    Pensei ver o meu próprio nascimento
    Mas fugi, tive medo. Não devera
    A poesia...
    Tão extremo era o transe matutino
    Que pareceu-me haver perdido o peso
    E esquecido dos meus trinta e quatro anos
    Da clássica ruptura do menisco
    E das demais responsabilidades
    Pus-me a correr à volta do sofá
    Atrás de prima Alice, a que morreu
    De consumpção e me deixava triste.
    Infelizmente acrescentei em quilos
    E logo me cansei; mas as asinhas
    Nos calcanhares eram bimotores
    A querer arrancar. Pé ante pé
    Fui esconder-me atrás da geladeira
    O corpo em bote, os olhos em alegria
    Para esperar a entrada de Maria
    A empregada da Ilha, também morta
    Mas de doença de homem — que era aquela
    Confusão de querer-se e malquerer-se
    Aquela multiplicação de seios
    Aquele desperdício de saliva
    E mãos, transfixiantes, nomes feios
    E massas pouco a pouco se encaixando
    Em decúbito, até a grande inércia
    Cheia de mar (Maria era mulata!).
    Depois foi Nina, a plácida menina
    Dos pulcros atos sem concupiscência
    Que me surgiu. Mandava-me missivas
    Cifradas que eu, terrível flibusteiro
    Escondia no muro de uma casa
    (Esqueci de que casa...) Mas surpresa
    Foi quando vi Alba surgir da aurora
    Alba, a que me deixou examiná-la
    Grande obstetra, com a lente de aumento
    Dos textos em latim de meu avô
    Alba, a que amava as largatixas secas
    Alba, a ridícula, morta de crupe.
    Milagre da manhã recuperada!
    A infância! Sombra, és tu? Até tu, Sombra...
    Sombra, contralto, entre os paralelepípedos
    Do coradouro do quintal. Oh, tu
    Que me violaste, negra, sobre o linho
    Muito obrigado, tenebroso Arcanjo
    De ti me lembrarei! Bom dia, Linda
    Como estás bela assim descalça, Linda
    Vem comigo nadar! O mar é agora
    A piscina de Onã, de lodo e alga...
    Quantos cajus tu me roubaste, feia
    Quanto silêncio em teus carinhos, Linda
    Longe, nas águas...Sim! é a minha casa
    É a minha casa, sim, a um grito apenas
    Da praia! Alguém me chama, é a gaivota
    Branca, é Marina! (A doida já chegava
    Desabotoando o corpete de menina...)
    Marina, como vais, jovem Marina
    Deslembrada Marina... Vejo Vândala
    A rústica, a operária, a compulsória
    Que nos levava aos dez para os baldios
    Da Fábrica, e como aos bilros, hábil
    Aos dez de uma só vez manipulava
    Em francas gargalhadas, e dizia
    De mim: Ai, que este é o mais levado!
    (Pela mulher, sim, Vândala, obrigado...)

    E tu, Santa, casada, que me deste
    O Coração, posto que de De Amicis
    Tu que calçavas longamente as meias
    Pretas que me tiraram o medo à treva
    E às aranhas... some, jetatura
    Masturbação, desassossego, insônia!
    Mas tu, pequena Maja, sê bem-vinda:
    Lembra-me tuas tranças; recitavas
    Fazias ponto-à-jour, tocavas piano
    Pequena Maja... Foi preciso um ano
    De namoro fechado, irmão presente
    Para me dares, louco, de repente
    Tua mão, como um pássaro assustado.
    No entanto te esqueci ao ver Altiva
    Princesa absurda, cega, surda e muda
    Ao meu amor, embora me adorando
    De adoração tão pura. Tua cítara
    Me ensinou um ódio estúpido à Elegia
    De Massenet. Confesso, dispensava a cítara
    Ia beber desesperado. Mas
    Foi contigo, Suave, que o poeta
    Apreendeu o sentido da humildade.
    Estavas sempre à mão. Telefonava:
    Vamos? Vinhas. Inda virias. Tinhas
    Um riso triste. Foi o nada quereres
    Que tão pouco te deu, tristonha ave...
    Quanta melancolia! No cenário
    Púrpura, surges, Pútrida, luética
    Deusa amarela, circunscrita imagem...
    Obrigado no entanto pelos êxtases
    Aparentes; lembro-me que brilhava
    Na treva antropofágica teu dente
    De ouro, como um fogo em terra firme
    Para o homem a nadar-te, extenuado.
    Mas que não fuja ainda a enunciada
    Visão... Clélia, adeus minha Clélia, adeus!
    Vou partir, pobre Clélia, navegar
    No verde mar... vou me ausentar de ti!
    Vejo chegar alguém que me procura
    Alguém à porta, alguma desgraçada
    Que se perdeu, a voz no telefone
    Que não sei de quem é, a com que moro
    E a que morreu... Quem és, responde!
    És tu a mesma em todas renovada?


    Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu!


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:03 pm

    ONJUGAÇÃO DA AUSENTE


    Foram precisos mais dez anos e oito quilos
    Muitas cãs e um princípio de abdômen
    (Sem falar na Segunda Grande Guerra,
    na descoberta da penicilina e na desagregação do átomo)
    Foram precisos dois filhos e sete casas
    (Em lugares como São Paulo, Londres, Cascais, Ipanema e Hollywood)
    Foram precisos três livros de poesia e uma operação de apendicite
    Algumas prevaricações e um exequatur
    Fora preciso a aquisição de uma consciência política
    E de incontáveis garrafas; fora preciso um desastre de avião
    Foram precisas separações, tantas separações
    Uma separação...

    Tua graça caminha pela casa
    Moves-te blindada em abstrações, como um T. Trazes
    A cabeça enterrada nos ombros qual escura
    Rosa sem haste. És tão profundamente
    Que irrelevas as coisas, mesmo do pensamento.
    A cadeira é cadeira e o quadro é quadro
    Porque te participam. Fora, o jardim
    Modesto como tu, murcha em antúrios
    A tua ausência. As folhas te outonam, a grama te
    Quer. És vegetal, amiga...
    Amiga! direi baixo o teu nome
    Não ao rádio ou ao espelho, mas à porta
    Que te emoldura, fatigada, e ao
    Corredor que para
    Para te andar, adunca, inutilmente
    Rápida. Vazia a casa
    Raios, no entanto, desse olhar sobejo
    Oblíquos cristalizam tua ausência.
    Vejo-te em cada prisma, refletindo
    Diagonalmente a múltipla esperança
    E te amo, te venero, te idolatro
    Numa perplexidade de criança.



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:04 pm

    O FILHO DO HOMEM


    O mundo parou
    A estrela morreu
    No fundo da treva
    O infante nasceu.

    Nasceu num estábulo
    Pequeno e singelo
    Com boi e charrua
    Com foice e martelo.

    Ao lado do infante
    O homem e a mulher
    Uma tal Maria
    Um José qualquer.

    A noite o fez negro
    Fogo o avermelhou
    A aurora nascente
    Todo o amarelou.

    O dia o fez branco
    Branco como a luz
    À falta de um nome
    Chamou-se Jesus.

    Jesus pequenino
    Filho natural
    Ergue-te, menino
    É triste o Natal.

    Natal de 1947



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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:05 pm

    SONETO DE ANIVERSÁRIO


    Passem-se dias, horas, meses, anos
    Amadureçam as ilusões da vida
    Prossiga ela sempre dividida
    Entre compensações e desenganos.

    Faça-se a carne mais envilecida
    Diminuam os bens, cresçam os danos
    Vença o ideal de andar caminhos planos
    Melhor que levar tudo de vencida.

    Queira-se antes ventura que aventura
    À medida que a têmpora embranquece
    E fica tenra a fibra que era dura.

    E eu te direi: amiga minha, esquece...
    Que grande é este amor meu de criatura
    Que vê envelhecer e não envelhece.

    Rio, 1942


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    Mensaje por Maria Lua Dom Nov 20, 2022 10:05 pm

    POÉTICA



    De manhã escureço
    De dia tardo
    De tarde anoiteço
    De noite ardo.

    A oeste a morte
    Contra quem vivo
    Do sul cativo
    O este é meu norte.

    Outros que contem
    Passo por passo:
    Eu morro ontem

    Nasço amanhã
    Ando onde há espaço:
    — Meu tempo é quando.

    Nova York, 1950





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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:24 am

    ELEGIA NA MORTE DE CLODOALDO PEREIRA DA SILVA MORAES, POETA E CIDADÃO



    A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
    Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
    De repente não tinha pai.
    No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor tua lembrança
    Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
    Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
    Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
    Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
    De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
    Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
    Rangia nos trilhos a muitas praias de distância
    Dizíamos: “E-vem meu pai!”. Quando a curva
    Se acendia de luzes semoventes, ah, corríamos
    Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
    Mas ser marraio em teus braços, sentir por último
    Os doces espinhos da tua barba.
    Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e paciência
    Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
    De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
    Se curvavam como ao peso da enorme poesia
    Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
    Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
    Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo
    Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
    Mirando o mar). Dize-me, meu pai
    Que viste tantos anos através do teu óculo-de-alcance
    Que nunca revelaste a ninguém?
    Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta exausto no último lance da maratona.
    Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
    Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa humilde
    A um gesto do mar. A noite se fechava
    Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.

    *

    Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando o mar
    Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
    Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis
    Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
    E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes
    Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
    Dos mais provectos. Muitas vezes te vi, comandante
    Comandar, batido de ventos, perdido na fosforescência
    De vastos e noturnos oceanos
    Sem jamais.

    Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
    A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
    Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
    Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
    Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
    Movida a água: foi reta para o fundo.
    Partiste um dia
    Para um brasil além, garimpeiro, sem medo e sem mácula.
    Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —
    Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas águas-marinhas.
    Não eram, meu pai. A mim me deste
    Águas-marinhas grandes, povoadas de estrelas, ouriços
    E guaiamus gigantes. A mim me deste águas-marinhas
    Onde cada concha carregava uma pérola. As águas-marinhas que me deste
    Foram meu primeiro leito nupcial.

    *

    Eras, meu pai morto
    Um grande Clodoaldo
    Capaz de sonhar
    Melhor e mais alto
    Precursor do binômio
    Que reverteria
    Ao nome original
    Semente do sêmen
    Revolucionário
    Gentil-homem insigne
    Poeta e funcionário
    Sempre preterido
    Nunca titular
    Neto de Alexandre
    Filho de Maria
    Cônjuge de Lydia
    Pai da Poesia.

    *

    Diante de ti homem não sou, não quero ser. És pai do menino que eu fui.
    Entre minha barba viva e a tua morta, todavia crescendo
    Há um toque irrealizado. No entanto, meu pai
    Quantas vezes ao ver-te dormir na cadeira de balanço de muitas salas
    De muitas casas de muitas ruas
    Não te beijei em meu pensamento! Já então teu sono
    Prenunciava o morto que és, e minha angústia
    Buscava ressuscitar-te. Ressuscitavas. Teu olhar
    Vinha de longe, das cavernas imensas do teu amor, aflito
    Como a querer defender. Vias-me e sossegavas.
    Pouco nos dizíamos: “Como vai?”. Como vais, meu pobre pai
    No teu túmulo? Dormes, ou te deixas
    A contemplar acima — eu bem me lembro! — perdido
    Na decifração de como ser?
    Ah, dor! Como quisera
    Ser de novo criança em teus braços e ficar admirando tuas mãos!
    Como quisera escutar-te de novo cantar criando em mim
    A atonia do passado! Quantas baladas, meu pai
    E que lindas! Quem te ensinou as doces cantigas
    Com que embalavas meu dormir? Voga sempre o leve batel
    A resvalar macio pelas correntezas do rio da paixão?
    Prosseguem as donzelas em êxtase na noite à espera da barquinha
    Que busca o seu adeus? E continua a rosa a dizer à brisa
    Que já não mais precisa os beijos seus?
    Calaste-te, meu pai. No teu ergástulo
    A voz não é — a voz com que me apresentavas aos teus amigos:
    “Esse é meu filho FULANO DE TAL”. E na maneira
    De dizê-lo — o voo, o beijo, a bênção, a barba
    Dura rocejando a pele, ai!

    *

    Tua morte, como todas, foi simples.
    É coisa simples a morte. Dói, depois sossega. Quando sossegou —
    Lembro-me que a manhã raiava em minha casa — já te havia eu
    Recuperado totalmente: tal como te encontras agora, vestido de mim.
    Não és, como não serás nunca para mim
    Um cadáver sob um lençol.
    És para mim aquele de quem muitos diziam: “É um poeta...”
    Poeta foste, e és, meu pai. A mim me deste
    O primeiro verso à namorada. Furtei-o
    De entre teus papéis: quem sabe onde andará... Fui também
    Verso teu: lembro ainda hoje o soneto que escreveste celebrando-me
    No ventre materno. E depois, muitas vezes
    Vi-te na rua, sem que me notasses, transeunte
    Com um ar sempre mais ansioso do que a vida. Levava-te a ambição
    De descobrir algo precioso que nos dar.
    Por tudo o que não nos deste
    Obrigado, meu pai.
    Não te direi adeus, de vez que acordaste em mim
    Com uma exatidão nunca sonhada. Em mim geraste
    O Tempo: aí tens meu filho, e a certeza
    De que, ainda obscura, a minha morte dá-lhe vida
    Em prosseguimento à tua; aí tens meu filho
    E a certeza de que lutarei por ele. Quando o viste a última vez
    Era um menininho de três anos. Hoje cresceu
    Em membros, palavras e dentes. Diz de ti, bilíngue:
    “Vovô was always teasing me...”
    É meu filho, teu neto. Deste-lhe, em tua digna humildade
    Um caminho: o meu caminho. Marcha ela na vanguarda do futuro
    Para um mundo em paz: o teu mundo — o único em que soubeste viver;
    aquele que, entre lágrimas, cantos e martírios, realizaste à tua volta.


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:25 am

    DESERT HOT SPRINGS



    Na piscina pública de Desert Hot Springs
    O homem, meu heroico semelhante
    Arrasta pelo ladrilho deformidades insolúveis.
    Nesta, como em outras lutas
    Sua grandeza reveste-se de uma humilde paciência
    E a dor física esconde sua ridícula pantomima
    Sob a aparência de unhas feitas, lábios pintados e outros artifícios de vaidade.

    Macróbios espetaculares
    Espapaçam ao sol as juntas espinhosas como cactos
    Enquanto adolescências deletérias passeiam nas águas balsâmicas
    Seus corpos, ah, seus corpos incapazes de nunca amar.
    As cálidas águas minerais
    Com que o deserto impôs às Câmaras de Comércio
    Sua dura beleza outramente inabitável
    Acariciam aleivosamente seios deflatados
    Pernas esquálidas, gótico americano
    De onde protuberam dolorosas cariátides patológicas.
    Às bordas da piscina
    A velhice engruvinhada morcega em posições fetais
    Enquanto a infância incendida atira-se contra o azul
    Estilhaçando gotas luminosas e libertando rictos
    De faces mumificadas em sofrimentos e lembranças.
    A Paralisia Infantil, a quem foi poupada um rosto talvez belo
    Inveja, de seu líquido nicho, a Asma tensa e esquelética
    Mas que conseguiu despertar o interesse do Reumatismo Deformante.
    Deitado num banco de pedra, a cabeça no colo de sua mãe, o olhar infinitamente ausente
    Um blue boy extingue em longas espirais invisíveis
    A cera triste de sua matéria inacabada — a culpa hereditária
    Transformou a moça numa boneca sem cabimento.
    O banhista, atlético e saudável
    Recolhe periodicamente nos braços os despojos daquelas vidas
    Coloca-os em suas cadeiras de rodas, devolve-os a guardiães expectantes.
    E lá se vão eles a enfrentar o que resta de mais um dia
    E dos abismos de memória, sentados contra o deserto
    O grande deserto nu e só, coberto de calcificações anômalas
    E arbustos ensimesmados; o grande deserto antigo e áspero
    Testemunha das origens; o grande deserto em luta permanente contra a morte
    Habitado por plantas e bichos que ninguém sabe como vivem
    Varado por ventos que vêm ninguém sabe donde.



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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:26 am

    RETRATO, À SUA MANEIRA



    Magro entre pedras
    Calcárias possível
    Pergaminho para
    A anotação gráfica

    O grafito Grave
    Nariz poema o
    Fêmur fraterno
    Radiografável a

    Olho nu Árido
    Como o deserto
    E além Tu
    Irmão totem aedo

    Exato e provável
    No friso do tempo
    Adiante Ave
    Camarada diamante!









    FIN de ANTOLOGIA POÉTICA
    Rio de Janeiro, A Noite, 1954




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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:28 am

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    LIVRO DE SONETOS


    Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1957

    Após a sua temporada na Embaixada de Paris, Vinicius é transferido para Montevidéu, com breve passagem pelo Brasil. No ano anterior, tinha encenado no Teatro Municipal a histórica montagem de Orfeu da Conceição. Vinicius estava às vésperas de iniciar sua série de composições com Antonio Carlos Jobim, canções que seriam o marco fundador da Bossa Nova.

    A primeira edição deste Livro de sonetos trazia três desenhos e um retrato (de Vinicius), feitos por Carlos Scliar (que tinha feito, no ano anterior, o programa e um dos cartazes de Orfeu). Traz também um texto introdutório de Luiz Santa Cruz. Na segunda edição, em 1967, o livro saiu pela editora Sabiá, de Rubem Braga e Fernando Sabino. A nova edição tinha o prefácio de amigo, Otto Lara Resende e continha 25 novos sonetos, inseridos por Vinicius.





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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:29 am

    SONETO DE OXFORD



    Oh, partir pela noite enluarada
    No puro anseio de chegar lá onde
    A minha doce e fugitiva amada
    Na madrugada, trêmula, se esconde...

    Oh, sentir palpitar em cada fronde
    O amor, oculto; e ouvir a voz velada
    Da última estrela que do céu responde
    Numa cintilação inesperada...

    Oh, cruzar solidões, viver soturnas
    Magias, e entre lágrimas noturnas
    Ver o tempo passar, hora por hora

    Para o instante em que, isenta de desejo
    Ela despertará sob o meu beijo
    Enquanto a treva se desfaz lá fora...

    Oxford, 1938




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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 5:53 am

    SONETINHO A PORTINARI


    O pintor pequeno
    O grande pintor
    Ruim como um veneno
    Bom como uma flor

    Vi-o da Inglaterra
    Uma tarde, vi-o
    No ermo, vadio
    Brodóvski onde a terra

    É cor de pintura
    Muito louro, vi-o
    Dentro da moldura

    De um quadro de aurora
    O olhar azul frio:
    — Lá ia ele embora...

    Oxford, 1939


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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 5:53 am

    SONETO A LASAR SEGALL



    De inescrutavelmente no que pintas
    Como num amplo espaço de agonias
    Imarcescível música de tintas
    A arder na lucidez das coisas frias:

    Tão patéticas sois, tão sonolentas
    Cores que o meu olhar mortificais
    Entre verdes crestados e cinzentas
    Ferrugens no prelúdio dos metais.

    Que segredo recobre a velha pátina
    Por onde a luz se filtra quase tímida
    Do espaço silencioso que esculpiste

    Para pintar sem gritos de escalarte
    Na profunda revolta contra o crime
    Daqueles que fizeram a vida triste?...

    Rio, 1942


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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 5:54 am

    SONETO DE UM DOMINGO



    Em casa há muita paz por um domingo assim.
    A mulher dorme, os filhos brincam, a chuva cai...
    Esqueço de quem sou para sentir-me pai
    E ouço na sala, num silêncio ermo e sem fim,

    Um relógio bater, e outro dentro de mim...
    Olho o jardim úmido e agreste: isso distrai
    Vê-lo, feroz, florir mesmo onde o sol não vai
    A despeito do vento e da terra que é ruim.

    Na verdade é o infinito essa casa pequena
    Que me amortalha o sonho e abriga a desventura
    E a mão de uma mulher fez simples, pura e amena.

    Deus que és pai como eu e a estimas, porventura:
    Quando for minha vez, dá-me que eu vá sem pena
    Levando apenas esse pouco que não dura.

    Rio, setembro de 1944


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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 5:55 am

    TRÍPTICO NA MORTE DE SERGEI MIKHAILOVITCH EISENSTEIN
    I

    Camarada Eisenstein, muito obrigado
    Pelos dilemas, e pela montagem
    De Canal de Ferghama, irrealizado
    E outras afirmações. Tu foste a imagem

    Em movimento. Agora, unificado
    À tua própria imagem, muito mais
    De ti, sobre o futuro projetado
    Nos hás de restituir. Boa viagem

    Camarada, através dos grandes gelos
    Imensuráveis. Nunca vi mais belos
    Céus que esses sob que caminhas, só

    E infatigável, a despertar o assombro
    Dos horizontes com tua câmara ao ombro...
    Spasibo, tovarishch. Khorosho.


    II

    Pelas auroras imobilizadas
    No instante anterior; pelos gerais
    Milagres da matéria; pela paz
    Da matéria; pelas transfiguradas

    Faces da História; pelo conteúdo
    Da História e em nome de seus grandes idos
    Pela correspondência dos sentidos
    Pela vida a pulsar dentro de tudo

    Pelas nuvens errantes; pelos montes
    Pelos inatingíveis horizontes
    Pelos sons; pelas cores; pela voz

    Humana; pelo Velho e pelo Novo
    Pelo misterioso amor do povo
    Spasibo, tovarishch, Khorosho.


    III

    O cinema é infinito — não se mede.
    Não tem passado nem futuro. Cada
    Imagem só existe interligada
    À que a antecedeu e à que a sucede.

    O cinema é a presciente antevisão
    Na sucessão de imagens. O cinema
    É o que não se vê, é o que não é
    Mas resulta: a indizível dimensão.

    Cinema é Odessa, imóvel na manhã
    À espera do masssacre; é Nevski; é Ivan
    O Terrível; és tu, mestre! Maior

    Entre os maiores, grande destinado...
    Muito bem, Eisenstein. Muito obrigado.
    Spasibo, tovarishch. Khorosho.

    Los Angeles, 12/2/1948




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    Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:26 am

    SONETO DE FLORENÇA


    Florença... que serenidade imensa
    Nos teus campos remotos, de onde surgem
    Em tons de terracota e de ferrugem
    Torres, cúpulas, claustros: renascença

    Das coisas que passaram mas que urgem...
    Como em teu seio pareceu-me densa
    A selva oscura onde silêncios rugem
    No meio do caminho da descrença...

    Que tristes sombras nos teus céus toscanos
    Onde, em meu crime e meu remorso humanos
    Julguei ver, na colina apascentada

    Na forma de um cipreste impressionante
    O grande vulto secular de Dante
    Carpindo a morte da mulher amada...

    Rio, janeiro de 1953


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb Nov 26, 2022 11:01 pm

    OS QUATRO ELEMENTOS
    I – O FOGO

    O sol, desrespeitoso do equinócio
    Cobre o corpo da Amiga de desvelos
    Amorena-lhe a tez, doura-lhe os pelos
    Enquanto ela, feliz, desfaz-se em ócio.

    E ainda, ademais, deixa que a brisa roce
    O seu rosto infantil e os seus cabelos
    De modo que eu, por fim, vendo o negócio
    Não me posso impedir de pôr-me em zelos.

    E pego, encaro o Sol com ar de briga
    Ao mesmo tempo que, num desafogo
    Proibo-a formalmente que prossiga

    Com aquele dúbio e perigoso jogo...
    E para protegê-la, cubro a Amiga
    Com a sombra espessa do meu corpo em fogo.


    II – A TERRA

    Um dia, estando nós em verdes prados
    Eu e a Amada, a vagar, gozando a brisa
    Ei-la que me detém nos meus agrados
    E abaixa-se, e olha a terra, e a analisa

    Com face cauta e olhos dissimulados
    E, mais, me esquece; e, mais, se interioriza
    Como se os beijos meus fossem mal dados
    E a minha mão não fosse mais precisa.

    Irritado, me afasto; mas a Amada
    À minha zanga, meiga, me entretém
    Com essa astúcia que o sexo lhe deu.

    Mas eu que não sou bobo, digo nada...
    Ah, é assim... (só penso) Muito bem:
    Antes que a terra a coma, como eu.


    III –O AR

    Com mão contente a Amada abre a janela
    Sequiosa de vento no seu rosto
    E o vento, folgazão, entra disposto
    A comprazer-se com a vontade dela.

    Mas ao tocá-la e constatar que bela
    E que macia, e o corpo que bem-posto
    O vento, de repente, toma gosto
    E por ali põe-se a brincar com ela.

    Eu a princípio, não percebo nada...
    Mas ao notar depois que a Amada tem
    Um ar confuso e uma expressão corada

    A cada vez que o velho vento vem
    Eu o expulso dali, e levo a Amada:
    Também brinco de vento muito bem!


    IV – A ÁGUA

    A água banha a Amada com tão claros
    Ruídos, morna de banhar a Amada
    Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar
    Os sons como se foram luz vibrada.

    Mas são tais os cochichos e descaros
    Que, por seu doce peso deslocada
    Diz-lhe a água, que eu friamente encaro
    Os fatos, e disponho-me à emboscada.

    E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a
    A contar-me o que houve entre ela e a água:
    — Ela que me confesse! Ela que diga!

    E assim arrasto-a à câmara contígua
    Confusa de pensar, na sua mágoa
    Que não sei como a água é minha amiga.

    Montevidéu, abril de 1960







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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun Nov 28, 2022 12:06 am

    SONETO DA HORA FINAL


    Será assim, amiga: um certo dia
    Estando nós a contemplar o poente
    Sentiremos no rosto, de repente
    O beijo leve de uma aragem fria.

    Tu me olharás silenciosamente
    E eu te olharei também, com nostalgia
    E partiremos, tontos de poesia
    Para a porta de treva aberta em frente.

    Ao transpor as fronteiras do Segredo
    Eu, calmo, te direi: — Não tenhas medo
    E tu, tranquila, me dirás: — Sê forte.

    E como dois antigos namorados
    Noturnamente triste e enlaçados
    Nós entraremos nos jardins da morte.

    Montevidéu, julho de 1960


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Lun Nov 28, 2022 12:07 am

    SONETO A PABLO NERUDA


    Quantos caminhos não fizemos juntos
    Neruda, meu irmão, meu companheiro...
    Mas este encontro súbito, entre muitos
    Não foi ele o mais belo e verdadeiro?

    Canto maior, canto menor — dois cantos
    Fazem-se agora ouvir sob o Cruzeiro
    E em seu recesso as cóleras e os prantos
    Do homem chileno e do homem brasileiro

    E o seu amor — o amor que hoje encontramos...
    Por isso, ao se tocarem nossos ramos
    Celebro-te ainda além, Cantor Geral

    Porque como eu, bicho pesado, voas
    Mas mais alto e melhor do céu entoas
    Teu furioso canto material!

    Atlântico Sul, a caminho do Rio, 1960


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Lun Nov 28, 2022 12:08 am

    SONETO NO SESSENTENÁRIO DE RAFAEL ALBERTI



    A luminosa lágrima que verte
    Hoje de ti saudosa a tua Espanha
    Quero bebê-la em forma de champanha
    Na mesma taça em que bebeste, Alberti.

    E brindaremos para que desperte
    Num ímpeto feroz de touro em sanha
    Sedenta de viver a tua Espanha
    Que um mau toureiro derrotou inerte.

    Beberemos, irmão, por que bem haja
    Teu povo malferido, e que reaja
    E do encontro final, rútilo e forte

    Reste na arena o touro sobranceiro
    E pela arena, o sangue do toureiro
    Conte que a vida renasceu da morte.

    Petrópolis, 10/12/1962


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    Mensaje por Maria Lua Lun Nov 28, 2022 12:09 am

    SONETO DA ESPERA


    Aguardando-te, amor, revejo os dias
    Da minha infância já distante, quando
    Eu ficava, como hoje, te esperando
    Mas sem saber ao certo se virias.

    E é bom ficar assim, quieto, lembrando
    Ao longo de milhares de poesias
    Que te estás sempre e sempre renovando
    Para me dar maiores alegrias.

    Dentro em pouco entrarás, ardente e loura
    Como uma jovem chama precursora
    Do fogo a se atear entre nós dois

    E da cama, onde em ti me dessedento
    Tu te erguerás como o pressentimento
    De uma mulher morena a vir depois.

    Rio, abril de 1963




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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 9:32 am

    SONETO DA ROSA TARDIA


    Como uma jovem rosa, a minha amada...
    Morena, linda, esgalga, penumbrosa
    Parece a flor colhida, ainda orvalhada
    Justo no instante de tornar-se rosa.

    Ah, porque não a deixas intocada
    Poeta, tu que és pai, na misteriosa
    Fragrância do seu ser, feito de cada
    Coisa tão frágil que perfaz a rosa...

    Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
    Agora que ela é rosa comovida
    De ser na tua vida o que buscaste

    Tão dolorosamente pela vida?
    Ela é rosa, poeta... assim se chama…
    Sente bem seu perfume... Ela te ama...

    Rio, julho de 1963


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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 9:33 am

    SONETO DO GATO MORTO


    Um gato vivo é qualquer coisa linda
    Nada existe com mais serenidade
    Mesmo parado ele caminha ainda
    As selvas sinuosas da saudade

    De ter sido feroz. À sua vinda
    Altas correntes de eletricidade
    Rompem do ar as lâminas em cinza
    Numa silenciosa tempestade.

    Por isso ele está sempre a rir de cada
    Um de nós, e a morrer perde o veludo
    Fica torpe, ao avesso, opaco, torto

    Acaba, é o antigato; porque nada
    Nada parece mais com o fim de tudo
    Que um gato morto.



    Florença, novembro de 1963


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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 9:33 am

    ANFIGURI


    Aquilo que eu ouso
    Não é o que quero
    Eu quero o repouso
    Do que não espero.

    Não quero o que tenho
    Pelo que custou
    Não sei de onde venho
    Sei para onde vou.

    Homem, sou a fera
    Poeta, sou um louco
    Amante, sou pai.

    Vida, quem me dera...
    Amor, dura pouco...
    Poesia, ai!...

    Rio, 1965


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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 9:35 am

    SONETO DE MAIO


    Suavemente Maio se insinua
    Por entre os véus de Abril, o mês cruel
    E lava o ar de anil, alegra a rua
    Alumbra os astros e aproxima o céu.

    Até a lua, a casta e branca lua
    Esquecido o pudor, baixa o dossel
    E em seu leito de plumas fica nua
    A destilar seu luminoso mel.

    Raia a aurora tão tímida e tão frágil
    Que através do seu corpo transparente
    Dir-se-ia poder-se ver o rosto

    Carregado de inveja e de presságio
    Dos irmãos Junho e Julho, friamente
    Preparando as catástrofes de Agosto...

    Ouro Preto, maio de 1967





    FIN DEL LIBRO DE SONETOS


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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 10:29 pm



    POEMA DE NACIMIENTO


    Para eso fuimos hechos:
    Para recordar y ser recordados
    Para llorar y hacer llorar
    Para enterrar nuestros muertos --
    Por eso tenemos brazos
    largos para los adioses

    Manos para coger lo que fue dado
    Dedos para cavar la tierra.
    Asi será nuestra vida:
    Una tarde siempre olvidándose
    Una estrella apagándose en la sombra
    Un camino entre dos túmulos —
    Por eso precisamos velar

    Hablar bajo, pisar leve, ver
    La noche dormir en silencio.
    No hay mucho que decir:
    Una canción sobre una cuna
    Un verso, tal vez, de amor
    Una oración por quien se va —
    Que esa hora no se olvide

    Y por ella nuestros corazones
    Se entreguen, graves y sim,ples.
    Pues para eso fuimos hechos:
    Para esperar el milagro
    Para participar de la poesía
    Para ver la cara de la muerte —
    De repente nunca más esperaremos...
    Hoy la noche es joven; de la muerte sólo
    Nacemos, inmensamente.





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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 10:32 pm

    LA MASCARA DE LA NOCHE


    5/, esa tarde conoce todos mis pensamientos
    Todos mis secretos y todos mis patéticos anhelos
    Bajo ese cielo como visión azul de incienso
    Las estrellas son pasados perfumes que me llegan..
    .
    Si, esa tarde que no conozco es una mujer que me llama
    Y he aquí que es sólo una ciudad, una ciudad dorada de astros
    Aves, hojas silenciosas, sonidos perdidos en colores
    Nubes como velas abiertas para el tiempo...

    No sé, toda esa evocación perdida, toda esa música perdida
    Es como un presentimiento de inocencia, como un llamado...
    Mas para qué buscar si la forma quedó desvanecida en el gesto
    Si la poesía quedó durmiendo en los brazos del ayer.
    ..
    ¿Cómo saber si es tarde, si habrá mañana para el crepúsculo
    En este entorpecimiento, en este filtro mágico de lágrimas?
    ¡Rocío, rocío! desciende sobre mis ojos, sobre mi sexo
    ¡Haz que surjan diamantes en el sol!

    Me acuerdo... como si fuese la hora de la memoria
    Otras tardes, otras ventanas, otras criaturas en el alma
    La mirada abandonada de un lago y el temblor del viento
    Senos creciendo hacia el poniente como salmos...

    ¡Oh, la dulce tarde! Sobre mares de hielo ardientes de reflejos
    Vagan plácidamente navios fantásticos de plata
    Y en grandes castillos de color de oro, serenos ángeles azules
    Tañen campanas de cristal que vibran en la inmensa transparencia.

    Yo siento que esa tarde me está viendo, que esa serenidad me está viendo
    Que el momento de la creación me está viendo en este doloroso
    instante de quietud en mí mismo
    ¡Oh creación que me estás viendo, tórnate mujer y bésame los ojos

    Acaricia mis cabellos, canta una canción para dormirme!
    Tú eres el bien, máscara de la noche, con tu rósea carne
    Con tus largos chales campestres y tus cánticos
    ¡Tú eres el bien! oigo tus faunos acribillando las aguas de sones de flautas

    En largas y fragantes escalas cromáticas...
    Ah, mi verso tiene palpitaciones dulcísimas! —¡primaveras!
    Sueños bucólicos nunca soñlados por el desespero
    ¡ Visiones de ríos plácidos y bosques adormecidos

    Sobre el panorama crucificado y monstruoso de los tejados!
    ¿Por qué vienes, noche? ¿Por qué no aduermes tu crespón?
    ¿Por qué no te evaporas --espectro— en ese tierno perfiíme de rosas?
    ¡Deja que la tarde envuelva eternamente el rostro de los dioses

    Noche, dolorosa noche, misteriosa noche!
    ¡Oh, tarde, máscara de la noche, tú eres la presciencia
    Sólo tú conoces y acoges todos mis pensamientos!
    ¡Tu cielo, tu luz, tu calma
    Son, en mi, la palabra de la muerte y del sueño!


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    Mensaje por Maria Lua Mar Nov 29, 2022 10:33 pm

    MENSAJE A LA POESÍA



    No puedo
    No es posible
    Díganle que es totalmente imposible
    Ahora no puede ser
    Es imposible
    No puedo
    Díganle que estoy tristísimo, pero no puedo ir esta noche a su encuentro.
    Cuéntenle que hay millones de cuerpos que enterrar
    Muchas ciudades que reconstruir, mucha pobreza por el mundo
    Y las mujeres se están volviendo locas, y hay legiones de ellas escardando
    La añoranza de sus hombres; cuéntenle que hay un vacío
    En los ojos de los parias, y su flacura es extrema; cuéntenle
    Que la vergüenza, la deshonra, el suicidio rondan los hogares,
    y es preciso reconquistar la vida.
    Háganle ver que es necesario que yo esté alerta, de jrente a
    todos los caminos
    Presto a socorrer, a amar, a mentir, a morir si es necesario.
    Explíquenle, con cuidado —no la acongogen...— que si no voy
    No es porque no quiera: ella sabe; es porque hay un héroe en una cárcel
    Hay un labrador que fiíe agredido, hay un charco de sangre en una plaza.
    Cuéntenle, en secreto, que debo estar preparado, que mis hombros
    No se deben curvar, que mis ojos no se deben
    Dejar intimidar, que llevo a cuestas las desgracias de los hombres
    Y ahora no es el momento de parar; díganle, mientras tanto.
    Que sufro mucho, pero no puedo mostrar mi sufrimiento
    A los hombres perplejos; díganle que me fue ordenada
    La terrible participación, y que posiblemente
    Deberé engañar, fingir, hablar con palabras extrañas
    Porque sé que, a lo lejos, clarea una aurora.
    Si ella no comprende, procuren convencerla
    De ese invencible deber que tengo; pero díganle
    Que, en el fondo, todo lo que estoy dando es de ella, y que me
    Duele tener que despojarla así, en este poema; que por otro lado
    No debo usarla en su misterio: la hora es de esclarecimiento
    Ni inclinarme sobre mí cuando a mi lado
    Hay hambre y mentira y el llanto de un niño solitario en una calle
    Junto al cadáver de una madre; díganle que hay
    Un náufrago en medio del océano, un tirano en el poder, un hombre
    Arrepentido; díganle que hay una casa vacía
    Con un reloj golpeando horas; díganle que hay un gran aumento
    De abismos en la tierra, hay súplicas, hay alaridos
    Hay fantasmas que me visitan de noche
    Y que debo recibir; coméntenle mi confianza
    En la mañana
    Que siento una sonrisa en el rostro invisible de la noche
    Vivo en tensión a la espera del milagro; por eso
    Pídanle que tenga paciencia, que no me llame ahora
    Con su voz de sombra, que no me haga sentir cobarde
    Y tener que abandonarla en este instante, en su inmedible
    Soledad; pídanle, oh pídanle que se calle
    Por un momento, que no me llame
    Porque no puedo ir
    No puedo ir
    No puedo.
    No la traicioné. En mi corazón
    Vive su imagen, y nada diré que pueda
    Avergonzarla. Mi ausencia
    Es también un sortilegio
    De su amor por mí. Vivo del deseo de volverla a ver
    En un mundo en paz. Mi pasión de hombre
    Sobrevive conmigo. Tal vez yo deba
    Morir sin verla más, sin sentir más
    El gusto de sus lágrimas, sin mirarla correr
    Libre y desnuda en las playas y en los cielos
    Y en las calles de mi insomnio. Díganle que es ése
    Mi martirio; que a veces
    Me pesa en la cabeza el tiempo de la eternidad y las poderosas
    Fuerzas de la tragedia caen sobre mí y me empujan a la sombra
    Pero que debo resistir, que es preciso...
    Pero que la amo con toda la pureza de mi pasada adolescencia
    Con toda la violencia de las antiguas horas de extática contemplación
    Con un amor lleno de renuncia. Oh, pídanle a ella
    Que perdone a su triste e inconstante amigo
    A quien fue dado perderse por amor a su semejante
    A quien fue dado perderse por amor a una pequeña casa,
    A un jardín, a una muchacha vestida de rojo
    A quien fue dado perderse por amor al derecho
    De todos a tener una pequeña casa, un jardín
    Y una muchacha vestida de rojo; a quien perdiéndose
    le es dulce perderse...
    Por eso convénzala, explíquenle que es terrible
    Pídanle de rodillas que no me olvide, que me ame
    Que me espere, porque soy suyo, sólo suyo; pero que ahora
    Es más fuerte que yo, no puedo ir
    No es posible
    Me es totalmente imposible
    No puede ser, no
    Es imposible
    No puedo.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 23 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 02, 2022 11:00 pm

    Ausencia (Dejaré que muera en mí el deseo)



    Dejaré que muera en mí el deseo
    de amar tus ojos dulces,
    porque nada te podré dar sino la pena
    de verme eternamente exhausto.
    No obstante, tu presencia es algo
    como la luz y la vida.
    Siento que en mi gesto está tu gesto
    y en mi voz tu voz.
    No quiero tenerte porque en mi ser
    todo estará terminado.
    Sólo quiero que surjas en mí
    como la fe en los desesperados,
    para que yo pueda llevar una gota de rocío
    en esta tierra maldita
    que se quedó en mi carne
    como un estigma del pasado.
    Me quedaré… tu te irás,
    apoyarás tu rostro en otro rostro,
    tus dedos enlazarán otros dedos
    y te desplegarás en la madrugada,
    pero no sabrás que fui yo quien te logró,
    porque yo fui el amigo más íntimo de la noche,
    porque apoyé mi rostro en el rostro de la noche
    y escuché tus palabras amorosas,
    porque mis dedos enlazaron los dedos
    en la niebla suspendidos en el espacio
    y acerqué a mí la misteriosa esencia
    de tu abandono desordenado.
    Me quedaré solo como los veleros
    en los puertos silenciosos.
    Pero te poseeré más que nadie
    porque podré irme
    y todos los lamentos del mar,
    del viento, del cielo, de las aves,
    de las estrellas, serán tu voz presente,
    tu voz ausente, tu voz sosegada.





    Traducción: Mariano Ramos


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    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 02, 2022 11:17 pm

    Canción del demasiado amor

    Quiero llorar porque te amé demasiado,
    quiero morir porque me diste la vida,
    ay, amor mío, ¿será que nunca he de tener paz?
    Será que todo lo que hay en mí
    sólo quiere decir saudade…
    Y ya ni sé lo que va a ser de mí,
    todo me dice que amar será mi fin…
    Qué desespero trae el amor,
    yo que no sabía lo que era el amor,
    ahora lo sé porque no soy feliz.





    Traducción: Carmen Gloria Rodríguez y Vania Torres




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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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