Aires de Libertad

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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:02

    459.



    Gostava de estar no campo para poder gostar de estar na cidade. Gosto,
    sem isso, de estar na cidade, porém com isso o meu gosto seria dois.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:02

    460.


    Quanto mais alta a sensibilidade, e mais subtil a capacidade de sentir, tanto
    mais absurdamente vibra e estremece com as pequenas coisas. É precisa uma
    prodigiosa inteligência para ter angústia ante um dia escuro. A humanidade,
    que é pouco sensível, não se angustia com o tempo, porque faz sempre
    tempo; não sente a chuva senão quando lhe cai em cima.
    O dia baço e mole escalda humidamente. Sozinho no escritório, passo em
    revista a minha vida, e o que vejo nela é como o dia que me oprime e me
    aflige. Vejo-me criança contente de nada, adolescente aspirando a tudo, viril
    sem alegria nem aspiração. E tudo isto se passou na moleza e no embaciado,
    como o dia que mo faz ver ou lembrar.
    Qual de nós pode, voltando-se no caminho onde não há regresso, dizer que
    o seguiu como o devia ter seguido?


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:03

    461.


    Sabendo como as coisas mais pequenas têm com facilidade a arte de me
    torturar, de propósito me esquivo ao toque das coisas mais pequenas. Quem,
    como eu, sofre porque uma nuvem passa diante do sol, como não há de sofrer
    no escuro do dia sempre encoberto da sua vida?
    O meu isolamento não é uma busca de felicidade, que não tenho alma para
    conseguir; nem de tranquilidade, que ninguém obtém senão quando nunca a
    perdeu — mas de sono, de apagamento, de renúncia pequena.
    As quatro paredes do meu quarto pobre são-me, ao mesmo tempo, cela e
    distância, cama e caixão. As minhas horas mais felizes são aquelas em que não
    penso nada, não quero nada, não sonho sequer, perdido num torpor de
    vegetal errado, de mero musgo que crescesse na superfície da vida. Gozo sem
    amargor a consciência absurda de não ser nada, o antessabor da morte e do
    apagamento.
    Nunca tive alguém a quem pudesse chamar "Mestre". Não morreu por mim
    nenhum Cristo. Nenhum Buda me indicou um caminho. No alto dos meus
    sonhos nenhum Apolo ou Atena me apareceu, para que me iluminasse a alma.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:04

    462.


    Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a rutura,
    que procurei, do meu contacto com as coisas levou-me precisamente àquilo a
    que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas,
    sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que
    a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto,
    isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se
    fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha
    sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que
    eu faça, respiro; por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo
    exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos
    mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes.
    Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar
    onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.
    Nunca encarei o suicídio como uma solução, porque eu odeio a vida por
    amor a ela. Levei tempo a convencer-me deste lamentável equívoco em que
    vivo comigo. Convencido dele, fiquei desgostoso, o que sempre me acontece
    quando me convenço de qualquer coisa, porque o convencimento é em mim
    sempre a perda de uma ilusão.
    Matei a vontade a analisá-la. Quem me tornara a infância antes da análise,
    ainda que antes da vontade!
    Nos meus parques, sono morto, a sonolência dos tanques ao sol-alto,
    quando os rumores dos insetos chusmam na hora e me pesa viver, não como
    uma mágoa, mas como uma dor física por concluir.
    Palácios muito longe, parques absortos, a estreiteza das áleas ao longe, a
    graça morta dos bancos de pedra para os que foram — pompas mortas, graça
    desfeita, ouropel perdido. O meu anseio que esqueço, quem me dera
    recuperar a mágoa com que te sonhei.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:05

    463.


    Sossego enfim. Tudo quanto foi vestígio e desperdício some-se-me da alma
    como se não fora nunca. Fico só e calmo. A hora que passo é como aquela em
    que me convertesse a uma religião. Nada porém me atrai para o alto, ainda
    que nada já me atraia para baixo. Sinto-me livre, como se deixasse de existir,
    conservando a consciência disso.
    Sossego, sim, sossego. Uma grande calma, suave como uma inutilidade,
    desce em mim ao fundo do meu ser. As páginas lidas, os deveres cumpridos,
    os passos e os acasos de viver — tudo isso se me tornou numa vaga
    penumbra, num halo mal visível, que cerca qualquer coisa tranquila que não
    sei o que é. O esforço, em que pus, uma ou outra vez, o esquecimento da
    alma; o pensamento, em que pus, uma vez ou outra, o esquecimento da ação
    — ambos se me volvem numa espécie de ternura sem sentimento, de
    compaixão fruste e vazia.
    Não é o dia lento e suave, nublado e brando. Não é a aragem imperfeita,
    quase nada, pouco mais do que o ar que já se sente. Não é a cor anónima do
    céu aqui e ali azul, frouxamente. Não. Não, porque não sinto. Vejo sem
    intenção nem remédio. Assisto atento a espetáculo nenhum. Não sinto alma,
    mas sossego. As coisas externas, que estão nítidas e paradas, ainda as que se
    movem, são para mim como para o Cristo seria o mundo, quando, da altura
    de tudo, Satã o tentou. São nada, e compreendo que o Cristo se não tentasse.
    São nada, e não compreendo como Satã, velho de tanta ciência, julgasse que
    com isso tentaria.
    Corre leve, vida que se não sente, riacho em silêncio móbil sob árvores
    esquecidas! Corre branda, alma que se não conhece, murmúrio que se não vê
    para além de grandes ramos caídos! Corre inútil, corre sem razão, consciência
    que o não é de nada, vago brilho ao longe, entre clareiras de folhas, que não se
    sabe de onde vem nem onde vai! Corre, corre, e deixa-me esquecer!
    Vago sopro do que não ouso viver, hausto frustei do que não pôde sentir,
    murmúrio inútil do que não quis pensar, vai lento, vai frouxo, vai em
    torvelinhos que tens que ter e em declives que te dão, vai para a sombra ou
    para a luz, irmão do mundo, vai para a glória ou para o abismo, filho do Caos
    e da Noite, lembrando ainda, em qualquer recanto teu, de que os Deuses
    vieram depois, e de que os Deuses passam também.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:05

    464.



    Quem tenha lido as páginas deste livro, que estão antes desta, terá sem
    dúvida formado a ideia de que sou um sonhador. Ter-se-ia enganado se a
    formou. Para ser sonhador falta-me o dinheiro.
    As grandes melancolias, as tristezas cheias de tédio, não podem existir
    senão com um ambiente de conforto e de sóbrio luxo. Por isso o Egeus de
    Poe, concentrado horas e horas numa absorção doentia, o faz num castelo
    antigo, ancestral, onde, para além das portas da grande sala onde jaz a vida,
    mordomos invisíveis administram a casa e a comida.
    O grande sonho requer certas circunstâncias sociais. Um dia que,
    embevecido por certo movimento rítmico e dolente do que escrevera, me
    recordei de Chateaubriand, não tardou que me lembrasse de que eu não era
    visconde, nem sequer bretão. Outra vez que julguei sentir, no sentido do que
    dissera, uma semelhança com Rousseau, não tardou, também, que me
    ocorresse que, não tendo tido o privilégio de ser fidalgo e castelão, também o
    não tivera de ser suíço e vagabundo.
    Mas, enfim, também há universo na Rua dos Douradores. Também aqui
    Deus concede que não falte o enigma de viver. E por isso, se são pobres,
    como a paisagem de carroças e caixotes, os sonhos que consigo extrair de
    entre as rodas e as tábuas, ainda assim são para mim o que tenho, e o que
    posso ter.
    Alhures, sem dúvida, é que os poentes são. Mas até deste quarto andar
    sobre a cidade se pode pensar no infinito. Um infinito com armazéns em
    baixo, é certo, mas com estrelas ao fim... E o que me ocorre, neste acabar de
    tarde, à janela alta, na insatisfação do burguês que não sou e na tristeza do
    poeta que nunca poderei ser.
    46


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:06

    465.



    Quando o estio entra entristeço. Parece que a luminosidade, ainda que acre,
    das horas estivais devera acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim
    não me acarinha. Há um contraste demasiado entre a vida externa que exubera
    e o que sinto e penso, sem saber sentir nem pensar – o cadáver perenemente
    insepulto das minhas sensações. Tenho a impressão de que vivo, nesta pátria
    informe chamada o universo, sob uma tirania política que, ainda que me não
    oprima diretamente, todavia ofende qualquer oculto princípio da minha alma.
    E então desce em mim, surdamente, lentamente, a saudade antecipada do
    exílio impossível.
    Tenho principalmente sono. Não um sono que traz latente, como todos os
    sonos, ainda os mórbidos, o privilégio físico do sossego. Não um sono que,
    porque vai esquecer a vida, e porventura trazer sonhos, traz na bandeja com
    que nos vem até à alma as oferendas plácidas de uma grande abdicação. Não:
    este é um sono que não consegue dormir, que pesa nas pálpebras sem as
    fechar, que junta num gesto que se sente ser de estupidez e repulsa as
    comissuras sentidas dos beiços descrentes. Este é um sono como o que pesa
    inutilmente sobrei o corpo nas grandes insónias da alma.
    Só quando vem a noite de algum modo sinto, não uma alegria, mas um
    repouso que, por outros repousos serem contentes, se sente contente por
    analogia dos sentidos. Então o sono passa, a confusão do lusco-fusco mental
    que esse sono dera esbate-se, esclarece-se, quase se ilumina. Vem, um
    momento, a esperança de outras coisas. Mas essa esperança é breve. O que
    sobrevém é um tédio sem sono nem esperança, o mau despertar de quem não
    chegou a dormir. E da janela do meu quarto fito, pobre alma cansada de
    corpo, muitas estrelas; muitas estrelas, nada, o nada, mas muitas estrelas...



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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:28

    466.


    O homem não deve poder ver a sua própria cara. Isso é o que há de mais
    terrível. A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver, assim como de não
    poder fitar os seus próprios olhos.
    Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto. E a postura,
    mesmo, que tinha de tomar, era simbólica. Tinha de se curvar, de se baixar
    para cometer a ignomínia de se ver.
    O criador do espelho envenenou a alma humana















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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:31

    467.



    Ouvia-me lendo os meus versos — que nesse dial li bem, porque me distraí
    — e disse-me, com a simplicidade de uma lei natural: "Você, assim, e com
    outra cara, seria um grande fascinador." A palavra «cara», mais que a
    referência que continha, ergueu-me de mim pela gola do que me não conheço.
    Vi o espelho do meu quarto, o meu pobre rosto de mendigo sem pobreza;
    e de repente o espelho virou-se e o espectro da Rua dos Douradores abriu-se
    diante de mim como um nirvana do carteiro.
    A acuidade das minhas sensações chega a ser uma doença que me é alheia.
    Sofre-a outro de quem eu sou a parte doente, porque verdadeiramente sinto
    como em dependência de uma maior capacidade de sentir. Sou como um
    tecido especial, ou até uma célula, sobre a qual pesasse toda a responsabilidade
    de um organismo.
    Se penso, é porque divago; se sonho, é porque estou desperto. Tudo em
    mim se embrulha comigo, e não tem forma de saber de ser.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:32

    468.


    Quando vivemos constantemente no abstrato — seja o abstrato do
    pensamento, seja o da sensação pensada -, não tarda que, contra nosso mesmo
    sentimento ou vontade, se nos tornem fantasmas aquelas coisas da vida real
    que, em acordo com nós mesmos, mais deveríamos sentir.
    Por mais amigo, e verdadeiramente amigo, que eu seja de alguém, o saber
    que ele está doente, ou que morreu, não me dá mais que uma impressão vaga,
    incerta, apagada, que me envergonho de sentir. Só a visão direta do caso, a sua
    paisagem, me daria emoção. À força de viver de imaginar, gasta-se o poder de
    imaginar, sobretudo o de imaginar o real. Vivendo mentalmente do que não
    há nem pode haver, acabamos por não poder cismar o que pode haver.
    Disseram-me hoje que tinha entrado para o hospital, para ser operado, um
    velho amigo meu, que não vejo há muito tempo, mas que sinceramente
    lembro sempre com o que suponho ser saudade. A única sensação que recebi,
    de positiva e de clara, foi a da maçada que forçosamente me daria o ter de ir
    visitá-lo, com a alternativa irónica de, não tendo paciência para a visita, ficar
    arrependido de a não fazer.
    Nada mais... De tanto lidar com sombras, eu mesmo me converti numa
    sombra — no que penso, no que sinto, no que sou. A saudade do normal que
    nunca fui entra então na substância do meu ser. Mas é ainda isso, e só isso,
    que sinto. Não sinto propriamente pena do amigo que vai ser operado. Não
    sinto propriamente pena de todas as pessoas que vão ser operadas, de todos
    quantos sofrem e penam neste mundo. Sinto pena, tão-somente, de não saber
    ser quem sentisse pena.
    E, num momento, estou pensando em outra coisa, inevitavelmente, por um
    impulso que não sei o que é. E então, como se estivesse delirando, mistura-seme com o que não cheguei a sentir, com o que não pude ser, um rumor de
    árvores, um som de água correndo para tanques, uma quinta inexistente...
    Esforço-me por sentir, mas já não sei como se sente. Tornei-me a sombra de
    mim mesmo, a quem entregasse o meu ser. Ao contrário daquele Peter
    Schlemil do conto alemão, não vendi ao Diabo a minha sombra, mas a minha
    substância. Sofro de não sofrer, de não saber sofrer. Vivo ou finjo que vivo?
    Durmo ou estou desperto? Uma vaga aragem, que sai fresca do calor do dia,
    faz-me esquecer tudo. Pesam-me as pálpebras agradavelmente... Sinto que este
    mesmo sol doira os campos onde não estou e onde não quero estar... Do
    meio dos ruídos da cidade sai um grande silêncio... Que suave! Mas que mais
    suave, talvez, se eu pudesse sentir!...


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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:32

    469.



    O próprio escrever perdeu a doçura para mim. Banalizou-se tanto, não só o
    acto de dar expressão a emoções como o de requintar frases, que escrevo
    como quem come ou bebe, com mais ou menos atenção, mas meio alheado e
    desinteressado, meio atento, e sem entusiasmo nem fulgor.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:33

    470.



    Falar é ter demasiada consideração pelos outros. Pela boca morrem o peixe
    e Óscar Wilde


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:33

    471.


    Desde que possamos considerar este mundo uma ilusão e um fantasma,
    poderemos considerar tudo que nos acontece como um sonho, coisa que
    fingiu ser porque dormíamos. E então nasce em nós uma indiferença subtil e
    profunda para com todos os desaires e desastres da vida. Os que morrem
    viraram a uma esquina, e por isso os deixámos de ver; os que sofrem passam
    perante nós, se sentimos, como um pesadelo, se pensamos, como um
    devaneio ingrato. E o nosso próprio sofrimento não será mais que esse nada.
    Neste mundo dormimos sobre o lado esquerdo e ouvimos nos sonhos a
    existência opressa do coração.
    Mais nada... Um pouco de sol, um pouco de brisa, umas árvores que
    emolduram a distância, o desejo de ser feliz, a mágoa de os dias passarem, a
    ciência sempre incerta e a verdade sempre por descobrir... Mais nada, mais
    nada... Sim, mais nada...


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:34

    472.


    Atingir, no estado místico, só o que esse estado tem de grato sem o que
    tem de exigente; ser o extático de deus nenhum, o místico ou epopta’ sem
    iniciação; passar o curso dos dias na meditação de um paraíso em que se não
    crê — isto tudo sabe bem à alma, se ela conhece o que é desconhecer.
    Vão altas, por cima de onde estou, corpo dentro de uma sombra, as nuvens
    silenciosas; vão altas, por cima de onde estou, alma cativa num corpo, as
    verdades incógnitas... Vai alto tudo... E tudo passa no alto como em baixo,
    sem nuvem que deixe mais do que chuva ou verdade que deixe mais do que
    dor... Sim, tudo o que é alto passa alto, e passa; tudo o que é de apetecer esta
    longe e passa longe... Sim, tudo atrai, tudo é alheio e tudo passa.
    Que me importa saber, ao sol ou à chuva, corpo ou alma, que passarei
    também? Nada, salvo a esperança de que tudo seja nada e portanto o nada
    seja tudo.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:34

    473.


    Em qualquer espírito, que não seja disforme, existe a crença em Deus. Em
    qualquer espírito, que não seja disforme, não existe crença num Deus
    definido. É qualquer ente, existente e impossível, que rege tudo; cuja pessoa,
    se a tem, ninguém pode definir; cujos fins, se deles usa, ninguém pode
    compreender. Chamando-lhe Deus dizemos tudo, porque, não tendo a
    palavra Deus sentido algum preciso, assim o afirmamos sem dizer nada. Os
    atributos de infinito, de eterno, de omnipotente, de sumamente justo ou
    bondoso, que por vezes lhe colamos, descolam-se por si como todos os
    adjetivos desnecessários quando o substantivo basta. E Ele, a que, por
    indefinido, não podemos dar atributos, é, por isso mesmo, o substantivo
    absoluto. A mesma certeza e o mesmo vago existem quanto à sobrevivência
    da alma. Todos nós sabemos que morremos; todos nós sentimos que não
    morreremos. Não é bem um desejo, nem uma esperança, que nos traz essa
    visão no escuro de que a morte é um mal-entendido: é um raciocínio feito
    com as entranhas, que repudia


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:35

    474.


    Um dia
    Em vez de almoçar — necessidade que tenho de fazer acontecer-me todos
    os dias — fui ver o Tejo, e voltei a vaguear pelas ruas sem mesmo supor que
    achei útil à alma vê-lo. Ainda assim...
    Viver não vale a pena. Só olhar é que vale a pena. Poder olhar sem viver
    realizaria a felicidade, mas é impossível, como tudo quanto costuma ser o que
    sonhamos. O êxtase que não incluísse a vida!...
    Criar ao menos um pessimismo novo, uma nova negação, para que
    tivéssemos a ilusão que de nós alguma coisa, ainda que para mal, ficava!


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:35

    475.



    De que é que você está a rir?, perguntou-me sem mal a voz do Moreira de
    entre para lá das duas prateleiras do meu alçado. Era uma troca de nomes que
    eu ia..., e acalmei os pulmões ao falar. Ah, disse o Moreira rapidamente, e a
    paz poeirosa desceu de novo sobre o escritório e sobre mim.
    O senhor Visconde de Chateaubriand aqui a fazer contas! O senhor
    professor Amiel aqui num banco alto real! O senhor Conde Alfred de Vigny a
    debitar o Grandela! Senancour nos Douradores! Nem o Bourget, coitado, que
    custa a ler como uma escada sem elevador... Volto-me para trás do parapeito
    para ver bem de novo o meu Boulevard de Saint Germain, e justamente nesta
    altura o sócio do roceiro está cuspindo para a rua. E entre pensar tudo isto e
    estar fumando, e não ligar bem uma coisa e outra, o riso mental encontra o
    fumo, e, embrulhando-se na garganta, expande-se num ataque tímido de riso
    audível.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:36

    476.


    Parecerá a muitos que este meu diário, feito para mim, é artificial de niais.
    Mas é do meu natural ser artificial. Com que hei de eu entreter-me, depois,
    senão com escrever cuidadosamente estes apontamentos espirituais? De resto,
    não cuidadosamente os escrevo. E, mesmo, sem cuidado limador que os
    agrupo. Penso naturalmente nesta minha linguagem requintada. Sou um
    homem para quem o mundo exterior é uma realidade interior. Sinto isto não
    metafisicamente, mas com os sentidos usuais com que colhemos a realidade.
    A nossa frivolidade de ontem é hoje uma saudade constante que me rói a vida.
    Há claustros na hora. Entardeceu nas esquivanças. Nos olhos azuis dos
    tanques um último desespero reflete a morte do sol. Nós éramos tanta coisa
    dos parques antigos; de tão voluptuoso modo estávamos incorporados na
    presença das estátuas, no talhado inglês das áleas. Os vestidos, os espadins, as
    perruques, os meneios e os cortejos pertenciam tanto à substância de que o
    nosso espírito era feito! Nós quem? O repuxo apenas, no jardim deserto, água
    alada indo já menos alta no seu acto triste de querer voar.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:36

    477.


    ... E os lírios nas margens de rios remotos, frios e solenes, numa tarde
    eterna no fundo de continentes verdadeiros. Sem mais nada e contudo
    verdadeiros.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:36

    478.


    (lunar scene)


    Toda a paisagem não está em parte nenhuma.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:37

    479.


    Em baixo, afastando-se do alto onde estou em desnivelamentos de sombra,
    dorme ao luar, álgida, a cidade inteira. Um desespero de mim, uma angústia de
    existir preso a mim extravasa-se por mim todo sem me exceder, compondome o ser em ternura, medo, dor e desolação. Um tão inexplicável excesso de
    mágoa absurda, uma dor tão desolada, tão órfã, tão metafisicamente minha


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 18 Nov 2023, 10:38

    480.




    Alastra ante meus olhos a cidade incerta e silente. As casas desigualam-se
    num aglomerado retido, e o luar, com manchas de incerteza, estagna de
    madrepérola os solavancos mortos da profusão. Há telhados e sombras
    janelas e idade média. Não há de que haver arredores. Pousa no que se vê um
    vislumbre de longínquo. Por sobre de onde vejo há ramos negros de árvores,
    e eu tenho o sono da cidade inteira no meu coração dissuadido. Lisboa ao luar
    e o meu cansaço de amanhã! Que noite! Prouvera a quem causou os
    pormenores do mundo que não houvesse para mim melhor estado ou melodia
    que o momento lunar destacado em que me desconheço conhecido. Nem
    brisa, nem gente interrompe o que não penso. Tenho sono do mesmo modo
    que tenho vida. Só que sinto nas pálpebras como se houvesse o que fazer-mas
    pesar. Ouço a minha respiração. Durmo ou desperto?
    Custa-me um chumbo dos sentidos o mover-me com os pés para onde
    moro. A carícia do apagamento, a flor dada do inútil, o meu nome nunca
    pronunciado, o meu desassossego entre margens, o privilégio de deveres
    cedidos, e, na última curva do parque avoengo, o outro século como um
    roseiral.



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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 06:16

    481.



    Entrei no barbeiro no modo do costume, com o prazer de me ser fácil
    entrar sem constrangimento nas casas conhecidas. A minha sensibilidade do
    novo é angustiante: tenho calma só onde já tenho estado.
    Quando me sentei na cadeira, perguntei, por um acaso que lembra, ao rapaz
    barbeiro que me ia colocando no pescoço um linho frio e limpo, como ia o
    colega da cadeira da direita, mais velho e com espírito, que estava doente.
    Perguntei-lhe sem que me pesasse a necessidade de perguntar: ocorreu-me a
    oportunidade pelo local e a Lembrança. "Morreu ontem", respondeu sem tom
    a voz que estava por detrás da toalha e de mim, e cujos dedos se erguiam da
    última inserção na nuca, entre mim e o colarinho. Toda a minha boa
    disposição irracional morreu de repente, como o barbeiro eternamente
    ausente da cadeira ao lado. Fez frio em tudo quanto penso. Não disse nada.
    Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga
    do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas
    minhas ruas habituais — se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a
    não ser o símbolo de toda a vida.
    O velho sem interesse das polainas sujas que cruzava frequentemente
    comigo às nove e meia da manhã? O cauteleiro coxo que me maçava
    inutilmente? O velhote redondo e corado do charuto à porta da tabacaria? O
    dono pálido da tabacaria? O que é feito de todos eles, que, porque os vi e os
    tornei a ver, foram parte da minha vida? Amanhã também eu me sumirei da
    Rua da Prata, da Rua dos Douradores, da Rua dos Fanqueiros. Amanhã
    também eu a alma que sente e pensa, o universo que sou para mim — sim,
    amanhã eu também serei o que deixou de passar nestas ruas, o que outros
    vagamente evocarão com um "o que será dele?". E tudo quanto faço, tudo
    quanto sinto, tudo quanto vivo, não será mais que um transeunte a menos na
    quotidianidade de ruas de uma cidade qualquer.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 06:18

    2º PARTE


    OS GRANDES TRECHOS


    Pessoa, numa nota (ver Notas e Cartas), lançou a ideia de publicar separadamente os
    trechos grandes com títulos "grandiosos", citando, como um de dois exemplos, "Sinfonia de
    uma Noite Inquieta", que não é muito grande embora o seu título seja grandioso. Na
    presente edição inclui-se, sob esta rubrica, trechos com título, da primeira fase, que sejam
    grandes em extensão ou em intenção, ou que tenham afinidade com outros trechos aqui
    reunidos.


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    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 06:18

    A DIVINA INVEJA


    Sempre que tenho uma sensação agradável em companhia de outros,
    invejo-lhes a parte que tiveram nessa sensação. Parece-me um impudor que
    eles sentissem o mesmo do que eu, que me devassassem a alma por
    intermédio da alma, unissonamente sentindo, deles.
    A grande dificuldade do orgulho que para mim oferece a contemplação das
    paisagens, é a dolorosa circunstância de já as haver com certeza contemplado
    alguém com um intuito igual.
    A horas diferentes, é certo, e em outros dias. Mas fazer-me notar isso seria
    acariciar-me e amansar-me com uma escolástica que sou superior a merecer.
    Sei que pouco importa a diferença, que com o mesmo espírito em olhar,
    outros tiveram ante a paisagem um modo de ver, não como, mas parecido
    com o meu.
    Esforço-me por isso para alterar sempre o que vejo de modo a torná-lo
    irrefragavelmente meu — de alterar, mentindo — o momento belo e na
    mesma ordem de linha de beleza, a linha do perfil das montanhas; de
    substituir certas árvores e flores por outras, vastamente as mesmas
    diferentissimamente; de ver outras cores de efeito idêntico no poente — e
    assim crio, de educado que estou, e com o próprio gesto de olhar com que
    espontaneamente vejo, um modo interior do exterior.
    Isto, porém, é o grau ínfimo de substituição do visível. Nos meus bons e
    abandonados momentos de sonho arquiteto muito mais.
    Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens
    visuais — curioso e dificílimo triunfo do êxtase, tão difícil porque o agente
    evocativo é da mesma ordem de sensações que o que há de evocar,
    O meu triunfo máximo no género foi quando, a certa hora ambígua de
    aspeto e luz, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês
    com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos —
    curioso pagode chinês pintado no espaço, sobre o espaço-cetim, não sei
    como, sob o espaço que perdura na abominável terceira dimensão. E a hora
    cheirou-me verdadeiramente a um ruído arrastado e longínquo e com uma
    grande inveja de realidade...


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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 06:19

    CARTA



    Assim soubesses tu compreender o teu dever de seres meramente o sonho
    de um sonhador. Seres apenas o turíbulo da catedral dos devaneios. Talhares
    os teus gestos como sonhos, para que fossem apenas janelas abertas para
    paisagens novas da tua alma. De tal modo arquitetar o teu corpo em
    arremedos de sonho que não fora possível ver-te sem pensar noutra coisa, que
    lembrasses tudo menos tu própria, que ver-te fosse ouvir música e atravessar,
    sonâmbulo, grandes paisagens de lagos mortos, vagas florestas silenciosas
    perdidas ao fundo doutras épocas, onde invisíveis pares diversos vivem
    sentimentos que não temos.
    Eu não te quereria para nada senão para te não ter. Queria que, sonhando
    eu e se tu aparecesses, eu pudesse imaginar-me ainda sonhando — nem te
    vendo talvez, mas talvez reparando que o luar enchera de os lagos mortos e
    que ecos de canções ondeavam subitamente na grande floresta inexplícita,
    perdida em épocas impossíveis.
    A visão de ti seria o leito onde a minha alma adormecesse, criança doente,
    para sonhar outra vez com outro céu. Falares? Sim, mas que ouvir-te fosse
    não te ouvir mas ver grandes pontes ao luar ligar as duas margens escuras do
    rio que vai ter ao ancião mar onde as caravelas são nossas para sempre.
    Sorris? Eu não sabia disso, mas nos meus céus interiores andavam as
    estrelas. Chamas-me dormindo. Eu não reparava nisso mas no barco
    longínquo cuja vela de sonho ia sob o luar, vejo longínquas marinhas.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 19:38

    CASCATA



    A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real, até chorá-la e se
    desgostar quando se parte. A arte da criança é de irrealizar. Bendita essa idade
    errada da vida, quando se nega a vida’ por não haver sexo, quando se nega a
    realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
    Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que importem os valores
    que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem
    entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de
    chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeito lógico para
    convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça
    para baixo?
    A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro
    vale mais? A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os
    receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e
    vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos
    amores?
    Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdadeira das coisas, que nós
    vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nós embrumamos de ideias
    nossas no mais direto olhá-las!
    Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma
    brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal, tão tão
    Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar, e vede como ao vê-la distante de mim de
    repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a
    verdade?). E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de
    angústia...
    Acordo para saber que existo...
    Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas
    cascatas, cortiçada abaixo, lá no fundo estúpido do jardim.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 19 Nov 2023, 19:39

    EXAME DE CONSCIÊNCIA


    Viver a vida em sonho e falso é sempre viver a vida. Abdicar é agir. Sonhar
    é confessar a necessidade de viver, substituindo a vida real pela vida irreal, e
    assim é uma compensação da inalienabilidade do querer viver.
    Que é tudo isto enfim senão a busca da felicidade? E busca qualquer outra
    coisa?
    O devaneio contínuo, a análise ininterrupta deram-me alguma coisa
    essencialmente diferente do que a vida me daria?
    Com separar-me dos homens não me encontrei, nem este livro é um só
    estado de alma, analisado de todos os lados, percorrido em todas as direções.
    Alguma coisa nova, ao menos, esta atitude me trouxe? Nem essa
    consolação se aproxima de mim. Estava tudo já em Heraclito e no Eclesiastes:
    A vida é um brinquedo de criança na areia... Vaidade e de espírito... E em Job
    pobre, numa só frase: A minha alma está cansada da minha vida.
    Escuto-me sonhar. Embalo-me com o som das minhas imagens... Soletrase-me em recônditas melodias o som de uma frase imageada vale tantos
    gestos! Uma metáfora consola de tantas coisas!
    Escuto-me... São cerimoniais em mim... Cortejos... Lantejoulas no meu
    tédio... Bailes de máscaras... Assisto à minha alma com deslumbramento...
    Caleidoscópio de fragmentadas sequências, de Pompa das sensações
    demasiado vívidas... Leitos régios em castelos desertos, joias de princesas
    mortas, por seteiras de castelos enseadas avistadas; virão sem dúvida as honras
    e poderio, para os mais felizes, haverá cortejos nos exílios... Orquestras
    adormecidas, fios de bordando sedas...
    Em Pascal:
    Em Vigny: Em ti
    Em Amiel, tão completamente em Amiel:
    (certas frases)...
    Em Verlaine, nos simbolistas:
    Tanto doente em mim... Nem o privilégio de uma pequena originalidade de
    doença... Faço o que tantos antes de mim fizeram... Sofro o que já é forma
    velha sofrer... Para que mesmo penso estas coisas, se já tantos as pensaram e
    as sofreram?...
    E contudo, sim, qualquer coisa de novo trouxe. Mas disso não sou
    responsável. Veio da Noite e brilha em mim como uma estrela... Todo o meu
    esforço não o produziu nem o apagou... Sou uma ponte entre dois mistérios,
    sem saber como me construíram...

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    Mensaje por Maria Lua Lun 20 Nov 2023, 10:26

    LAGOA DA POSSE


    A posse é para o meu pensar’ uma lagoa absurda — muito grande, muito
    escura, muito pouco profunda. Parece funda a água porque é falsa de suja.
    A morte? Mas a morte está dentro da vida. Morro totalmente? Não sei da
    vida. Sobrevivo-me? Continuo a viver.
    O sonho? Mas o sonho está dentro da vida. Vivemos o sonho? Vivemos.
    Sonhamo-lo apenas? Morremos. E a morte está dentro da vida.
    Como a nossa sombra a vida persegue-nos. -E só não há sombra quando
    tudo é sombra. A vida só nos não persegue quando nos entregamos a ela.
    O que há de mais doloroso no sonho é não existir. Realmente, não se pode
    sonhar.
    O que é possuir? Nós não o sabemos. Como querer então poder possuir
    qualquer coisa? Direis que não sabemos o que é a vida, e vivemos... Mas nós
    vivemos realmente? Viver sem saber o que é a vida será viver?


    ***





    Nada se penetra, nem átomos, nem almas. Por isso nada possui nada.
    Desde a verdade até a um lenço tudo é ímpossuível. A propriedade não é um
    roubo: não é nada.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Lun 20 Nov 2023, 10:27

    LENDA IMPERIAL



    A minha Imaginação é uma cidade no Oriente. Toda a sua composição de
    realidade no espaço tem a voluptuosidade de superfície de um tapete rico e
    mole. As tendas que multicoloram as suas ruas destacam-se sobre não sei que
    fundo que não é o delas, como bordados de amarelo ou vermelho sobre cetins
    azul claríssimo. Toda a história pregressa dessa cidade voa em torno à
    lâmpada do meu sonho como uma borboleta apenas ouvida na penumbra do
    quarto’. A minha fantasia habitou entre pompas outrora e recebeu das mãos
    de rainhas joias veladas de antiguidade. Atapetaram molezas íntimas os areais
    da minha inexistência e, hálitos de penumbra, as algas boiaram à ostensiva dos
    meus rios. Fui por isso pórticos em civilizações perdidas, febres de arabescos
    em frisos mortos, enegrecimentos de eternidade nos coleios das colunas
    partidas, mastros apenas nos naufrágios remotos, degraus só de tronos
    abatidos, véus nada velando, e como que velando sombras, fantasmas
    erguidos do chão como fumos de turíbulos arremessados. Funesto foi o meu
    reinado e cheia de guerras nas fronteiras longínquas a minha paz imperial no
    meu palácio. Próximo sempre o ruído indeciso das festas afastadas; procissões
    sempre para ir passar por sob as minhas janelas; mas nem peixes de ouro
    encarnado nas minhas piscinas, nem pomos entre as verduras paradas do meu
    pomar; nem mesmo, pobres choupanas onde os outros são felizes, o fumo de
    chaminés de além de árvores adormeceu com baladas de simplicidade o
    mistério congénito da minha consciência de mim .


    _________________



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