Aires de Libertad

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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:47

    430.


    Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si
    próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura
    certeza da lucidez da minha lucidez


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:47

    431.


    Uma das grandes tragédias da minha vida — porém daquelas tragédias que
    se passam na sombra e no subterfúgio — é a de não poder sentir qualquer
    coisa naturalmente. Sou capaz de amar e odiar, como todos, de, como todos,
    recear e entusiasmar-me; mas nem meu amor, nem meu ódio, nem meu
    receio, nem meu entusiasmo, são exatamente aquelas mesmas coisas que são.
    Ou lhes falta qualquer elemento, ou se lhes acrescenta algum. O certo é que
    são qualquer outra coisa, e o que sinto não está certo com a vida.
    Nos espíritos a que chamam calculistas — e a palavra é muito bem
    delineada -, os sentimentos sofrem a delimitação do cálculo, do escrúpulo
    egoísta, e parecem outros. Nos espíritos a que chamam propriamente
    escrupulosos, a mesma deslocação dos instintos naturais se nota. Em mim
    nota-se igual perturbação da certeza do sentimento, mas nem sou calculista
    nem sou escrupuloso. Não tenho desculpa para sentir mal. Por instinto
    desnaturo os instintos. Sem querer, quero erradamente.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:48

    432.



    Escravo do temperamento como das circunstâncias, insultado pela
    indiferença dos homens como pela sua afeição a quem supõem que sou — os
    insultos humanos do Destino.


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     FERNANDO PESSOA II   (13/ 06/1888- 30/11/1935) ) - Página 2 Empty Re: FERNANDO PESSOA II (13/ 06/1888- 30/11/1935) )

    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:48

    433.



    Passei entre eles estrangeiro porém nenhum viu que eu o era. Vivi entre
    eles espião, e ninguém, nem eu, suspeitou que eu o fosse. Todos me tinham
    por parente: nenhum sabia que me tinham trocado à nascença. Assim fui igual
    aos outros sem semelhança, irmão de todos sem ser da família.
    Vinha de prodigiosas terras, de paisagens melhores que a vida, mas das
    terras nunca falei, senão comigo, e das paisagens, vistas se sonhava, nunca lhes
    dei notícia. Os meus passos eram como os deles nos soalhos e nas lajes, mas o
    meu coração estava longe, ainda que batesse perto, senhor falso de um corpo
    desterrado e estranho.
    Ninguém me conheceu sob a máscara da igualha, nem soube nunca que era
    máscara, porque ninguém sabia que neste mundo há mascarados. Ninguém
    supôs que ao pé de mim estivesse sempre outro, que afinal era eu. Julgaramme sempre idêntico a mim.
    Abrigaram-me as suas casas, as suas mãos apertaram a minha, viram-me
    passar na rua como se eu lá estivesse; mas quem sou não esteve nunca
    naquelas salas, quem vivo não tem mãos que outros apertem, quem me
    conheço não tem ruas por onde passe, a não ser que sejam todas as ruas, nem
    que nelas o veja, a não ser que ele mesmo seja todos os outros.
    Vivemos todos longínquos e anónimos; disfarçados, sofremos
    desconhecidos. A uns, porém, esta distância entre um ser e ele mesmo nunca
    se revela; para outros é de vez em quando iluminada, de horror ou de mágoa,
    por um relâmpago sem limites; mas para outros ainda é essa a dolorosa
    constância e quotidianidade da vida.
    Saber bem quem somos não é connosco, que o que pensamos ou sentimos
    é sempre uma tradução, que o que queremos o não quisemos, nem porventura
    alguém o quis — saber tudo isto a cada minuto, sentir tudo isto em cada
    sentimento, não será isto ser estrangeiro na própria alma, exilado nas próprias
    sensações?
    Mas a máscara, que estive fitando inerte, que falava à esquina com um
    homem sem máscara nesta noite de fim de Carnaval, por fim estendeu a mão
    e se despediu rindo. O homem natural seguiu à esquerda, pela travessa a cuja
    esquina estava. A máscara — dominó sem graça — caminhou em frente,
    afastando-se entre sombras e acasos de luzes, numa despedida definitiva e
    alheia ao que eu estava pensando. Só então reparei que havia mais na rua que
    os candeeiros acesos, e, a turvar onde eles não estavam, um lugar vago, oculto,
    mudo, cheio de nada como a vida...


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:49

    434.



    Luares


    ... Molhadamente sujo de castanho morto
    ... Nos resvalamentos nítidos dos telhados sobrepostos, branco cinzento,
    molhadamente sujo de castanho morto.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:49

    435.



    ... E desnivela-se em conglomerados de sombra, recortados de um lado a
    branco, com diferenças azuladas de madrepérola fria.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:50

    436.


    (chuva)


    E por fim, sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã
    tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da
    claridade que aumenta. E outra vez o horror de sempre — o dia, a vida, a
    utilidade fictícia, a atividade sem remédio. E outra vez a minha personalidade
    física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável
    pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual
    não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as
    frinchas das portas das janelas — tão longe de herméticas, meu Deus! -, vou
    sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não
    estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há
    verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um
    desconhecimento, salvo de conforto, da existência do meu corpo. Vou
    sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha
    consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato
    ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida Vou
    sentindo sumirem-se-me os privilégios da penumbra, e os rios lentos sob as
    árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o
    som do sangue lento ‘ nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me
    perdendo até vivo.
    Não sei se durmo, ou se só sinto que durmo. Não sonho o intervalo certo,
    mas reparo, como se começasse a despertar de um sono não dormido, os
    primeiros ruídos da vida da cidade, a subir, como uma cheia do lugar vago, lá
    em baixo, onde ficam as ruas que Deus fez. São sons alegres, coados pela
    tristeza da chuva que há, ou, talvez, que houve — pois a não oiço agora -. Só
    o cinzento excessivo da luz frinchada até mais longe que me dá, nas sombras
    de uma claridade frouxa, insuficiente para a altura da madrugada, que não sei
    qual é... São sons alegres e dispersos e doem-me no coração como se me
    viessem, com eles, chamar a um exame ou a uma execução. Cada dia, se o
    oiço raiar da cama onde ignoro, me parece o dia de um grande acontecimento
    meu que não terei coragem para enfrentar. Cada dia, se o sinto erguer-se do
    leito das sombras, com um cair de roupas da cama pelas ruas e pelas vielas,
    vem chamar-me a um tribunal. Vou ser julgado em cada hoje que há. E o
    condenado perene que há em mim agarra-se ao leito como à mãe que perdeu,
    e acaricia o travesseiro como se a ama o defendesse de gentes.
    A sesta feliz do bicho grande à sombra de árvores, o cansaço fresco do
    esfarrapado entre a erva alta, o torpor do negro na tarde morna e longínqua, a
    delícia do bocejo que pesa nos olhos frouxos tudo que acaricia o
    esquecimento, sono, o sossego do repouso na cabeça, encostando, pé ante pé,
    as portas da janela na alma, o afago anónimo de dormir.
    Dormir, ser longínquo sem o saber, estar distante, esquecer com o próprio
    corpo; ter a liberdade de ser inconsciente, um refúgio de lago esquecido,
    estagnado entre frondes árvores, nos vastos afastamentos das florestas.
    Um nada com respiração por fora, uma morte leve de que se desperta com
    saudade e frescura, um ceder dos tecidos da alma à massagem do
    esquecimento.
    Ah, e de novo, como o protesto reatado de quem se não convenceu, oiço o
    alarido brusco da chuva chapinhar no universo aclarado. Sinto um frio até aos
    ossos supostos, como se tivesse medo. E agachado, nulo, humano a sós
    comigo na pouca treva que ainda me resta, choro. Sim, choro, choro de
    solidão e de vida, e a minha mágoa fútil como um carro sem rodas jaz à beira
    da realidade entre os estercos do abandono. Choro de tudo, entre perda do
    regaço, a morte da mão que me davam, os braços que não soube como me
    cingissem, o ombro que nunca poderia ter... E o dia que raia definitivamente,
    a mágoa que raia em mim como a verdade crua do dia, o que sonhei, o que
    pensei, o que se esqueceu em mim — tudo isso, numa amálgama de sombras,
    de ficções e de remorsos, se mistura no rastro em que vão os mundos e cai
    entre as coisas da vida como o esqueleto de um cacho de uvas, comido à
    esquina pelos garotos que o roubaram.
    O ruído do dia humano aumenta de repente, como um som de sineta de
    chamada. Estala adentro da casa o fecho suave da primeira porta que se abre
    para viverem. Oiço chinelos num corredor absurdo que conduz até meu
    coração. E num gesto brusco, como quem enfim se matasse, arrojo de sobre o
    corpo duro as roupas profundas da cama que me abriga. Despertei. O som da
    chuva esbate-se para mais alto no exterior indefinido. Sinto-me mais feliz.
    Cumpri uma coisa que ignoro. Ergo-me, vou à janela, abro as portas com uma
    decisão de muita coragem. Luze um dia de chuva clara que me afoga os olhos
    em luz baça. Abro as próprias janelas de vidro. O ar fresco humedece-me a
    pele quente. Chove, sim, mas ainda que seja o mesmo é afinal tão menos!
    Quero refrescar-me, viver, e inclino o pescoço à vida, como a uma canga
    imensa .


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:51

    437.



    Há sossegos do campo na cidade. Há momentos, sobretudo nos meios-dias
    de estio, em que, nesta Lisboa luminosa, o campo, como um vento, nos
    invade. E aqui mesmo, na Rua dos Douradores, temos o bom sono.
    Que bom à alma ver calar, sob um sol alto quieto, estas carroças com palha,
    estes caixotes por fazer, estes transeuntes lentos, de aldeia transferida! Eu
    mesmo, olhando-os da janela do escritório, onde estou só, me transmuto:
    estou numa vila quieta da província, estagno numa aldeola incógnita, e porque
    me sinto outro sou feliz.
    Bem sei: se ergo os olhos, está diante de mim a linha sórdida da casaria, as
    janelas por lavar de todos os escritórios da Baixa, as janelas sem sentido dos
    andares mais altos onde ainda se mora, e, ao alto, no angular das trapeiras, a
    roupa de sempre, ao sol entre vasos e plantas. Sei isto, mas é tão suave a luz
    que doura tudo isto, tão sem sentido o ar calmo que me envolve, que não
    tenho razão sequer visual para abdicar da minha aldeia postiça, da minha vila
    de província onde o comércio é um sossego.
    Bem sei, bem sei... Verdade seja que é a hora de almoço, ou de repouso, ou
    de intervalo. Tudo vai bem pela superfície da vida. Eu mesmo durmo, ainda
    que me debruce da varanda, como se fosse a amurada de um barco sobre uma
    paisagem nova. Eu mesmo nem cismo, como se estivesse na província. E,
    subitamente, outra coisa me surge, me envolve, me comanda: vejo por detrás
    do meio-dia da vila toda a vida em tudo da vila; vejo a grande felicidade
    estúpida da vida doméstica, a grande felicidade estúpida da vida nos campos, a
    grande felicidade estúpida do sossego na sordidez. Vejo, porque vejo. Mas não
    vi e desperto. Olho em roda, sorrindo, e, antes de mais nada, sacudo dos
    cotovelos do fato, infelizmente escuro, todo o pó do apoio da varanda, que
    ninguém limpou, ignorando que teria um dia, um momento que fosse, que ser
    a amurada sem pó possível de um barco singrando num turismo infinito.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:51

    438

    .
    Um azul esbranquiçado de verde noturno punha em recorte castanho
    negro, vagamente aureolado de cinzento amarelecido, a irregularidade fria dos
    edifícios que estavam de encontro ao horizonte do estio.
    Dominámos outrora o mar físico, criando a civilização universal;
    dominaremos agora o mar psíquico, a emoção, a mãe temperamento, criando
    a civilização intelectual’.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 09:52

    439.



    ... A acuidade dolorosa das minhas sensações, ainda das que sejam de
    alegria; a alegria da acuidade das minhas sensações, ainda que sejam de
    tristeza.
    Escrevo num domingo, manhã alta, num dia amplo de luz suave, em que,
    por sobre os telhados da cidade interrompida, o azul do céu sempre inédito
    fecha no esquecimento a existência misteriosa de astros...
    É domingo em mim também...
    Também meu coração vai a uma igreja que não sabe onde é, e vai vestido
    de um traje de veludo infante, com a cara corada das primeiras impressões a
    sorrir sem olhos tristes por cima do colarinho muito grande.




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    522


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    Mensaje por Amalia Lateano Jue 16 Nov 2023, 11:04

    Un gran escritor que me conmueve y no dejo de pensar que  Fernando Pessoa,
    el poeta portugués, es conocido por haber creado aproximadamente
    setenta y cinco heterónimos, entre los que destacan Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis y Bernardo Soares,

    Gracias por tus aportes!!
    Amalia
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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:56

    440.


    O céu do estio prolongado todos os dias despertava de azul verde baço, e
    breve se tornava de azul acinzentado de branco mudo. No ocidente, porém,
    era da cor que lhe costumam chamar, a ele todo.
    Dizer a verdade, encontrar o que se espera, negar a ilusão de tudo —
    quantos o usam na subsidência e no declive, e como os nomes ilustres
    mancham de maiúsculas, como as de terras geográficas, as agudezas das
    páginas sóbrias e lidas!
    Cosmorama de acontecer amanhã o que não poderia ter sucedido nunca!
    Lápis-lazúli das emoções descontínuas! Quantas memórias alberga uma
    suposição factícia, lembras-te, visão somente? E num delírio intersticiado de
    certezas, leve, breve, suave, o murmúrio da água de todos os parques nasce,
    emoção, do fundo da minha consciência de mim. Sem ninguém os bancos
    antigos, e as áleas alastram onde eles estão a sua melancolia de arruamentos
    vazios.
    Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Noite em Heliópolis! Quem me
    dirá as palavras inúteis, me compensará a sangue e indecisão?


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:57

    441.



    Floresce alto na solidão noturna um candeeiro incógnito por detrás de uma
    janela. Tudo mais na cidade que vejo está escuro, salvo onde reflexos frouxos
    da luz das ruas sobem vagamente e fazem aqui e ali pairar um luar inverso,
    muito pálido. Na negrura da noite, a própria casaria destaca pouco, entre si, as
    suas diversas cores, ou tons de cores: só diferenças vagas, dir-se-ia abstratas,
    irregularizam o conjunto atropelado.
    Um fio invisível me liga ao dono anónimo do candeeiro. Não é a comum
    circunstância de estarmos ambos acordados: não há nisso uma reciprocidade
    possível, pois, estando eu à janela no escuro, ele nunca poderia ver-me. E
    outra coisa, minha só, que se prende um pouco com a sensação de
    isolamento, que participa da noite e do silêncio, que escolhe aquele candeeiro
    para ponto de apoio porque é o único ponto de apoio que há. Parece que é
    por ele estar aceso que a noite é tão escura. Parece que é por eu estar
    desperto, sonhando na treva, que ele está iluminado.
    Tudo o que existe, existe talvez porque outra coisa existe. Nada é, tudo
    coexiste: talvez assim seja certo. Sinto que eu não existiria, nesta hora — que
    não existiria, ao menos, do modo em que estou existindo, com esta
    consciência presente de mim, que por ser consciência e presente é neste
    momento inteiramente eu -, se aquele candeeiro não estivesse aceso além,
    algures, farol não indicando nada num falso privilégio de altura. Sinto isto
    porque não sinto nada. Penso isto porque isto é nada. Nada, nada, parte da
    noite e do silêncio e do que com eles eu sou de nulo, de negativo, de
    intervalar, espaço entre mim e mim, coisa esquecimento de qualquer deus...


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:57

    442.



    Releio, num a destas sonolências sem sono, em que nos entretemos
    inteligentemente sem a inteligência, algumas das páginas que formarão, todas
    juntas, o meu livro de impressões sem nexo. E delas me sobe, como um
    cheiro de coisa conhecida, uma impressão deserta de monotonia. Sinto que,
    ainda ao dizer que sou sempre diferente, disse sempre a mesma coisa; que sou
    mais análogo a mim mesmo do que quereria confessar; que, em fecho de
    contas, nem tive a alegria de ganhar nem a emoção de perder. Sou uma
    ausência de saldo de mim mesmo, de um equilíbrio involuntário que me
    desola e enfraquece.
    Tudo, quanto escrevi, é pardo. Dir-se-ia que a minha vida, ainda a mental,
    era um dia de chuva lenta, em que tudo é desacontecimento e penumbra,
    privilégio vazio e razão esquecida. Desolo-me a seda rota. Desconheço-me a
    luz e tédio.
    O meu esforço humilde, de sequer dizer quem sou, de registar, como uma
    máquina de nervos, as impressões mínimas da minha vida subjetiva e aguda,
    tudo isso se me esvaziou como um balde em que esbarrassem, e se molhou
    pela terra como a água de tudo. Fabriquei-me a tintas falsas, resultei a império
    de trapeira. O meu coração, de quem fiei os grandes acontecimentos da prosa
    vivida, parece-me hoje, escrito na distância destas páginas relidas com outra
    alma, uma bomba de quintal de província, instalada por instinto e manobrada
    por serviço. Naufraguei sem tormenta num mar onde se pode estar de pé.
    E pergunto, ao que me resta de consciente nesta série confusa de intervalos
    entre coisas que não existem, de que me serviu encher tantas páginas de frases
    em que acreditei como minhas, de emoções que senti como pensadas, de
    bandeiras e pendões de exércitos que são, afinal, papéis colados com cuspo
    pela filha do mendigo debaixo dos beirais.
    Pergunto ao que me resta de mim a que vêm estas páginas inúteis,
    consagradas ao lixo e ao desvio, perdidas antes de ser entre os papéis rasgados
    do Destino.
    Pergunto, e prossigo. Escrevo a pergunta, embrulho-a em novas frases,
    desmeando-a de novas emoções. E amanhã tornarei a escrever, na sequência
    do meu livro estúpido, as impressões diárias do meu desconvencimento com
    frio.
    Sigam, tais como são. Jogado o dominó, e ganho o jogo, ou perdido, as
    pedras viram-se para baixo e o jogo findo é negro.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:58

    443.


    Que de Infernos e Purgatórios e Paraísos tenho em mim — e quem me
    conhece um gesto discordando da vida.., a mim tão calmo e tão plácido?
    Eu não escrevo em português. Escrevo eu mesmo.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:59

    444.


    Tudo se me tornou insuportável, exceto a vida. O escritório, a casa, as ruas
    — o contrário até, se o tivesse — me sobrebasta e oprime; só o conjunto me
    alivia. Sim, qualquer coisa de tudo isto é bastante para me consolar. Um raio
    de sol que entre eternamente no escritório morto; um pregão atirado que sobe
    rápido até à janela do meu quarto; a existência de gente; o haver clima e
    mudança de tempo, a espantosa objetividade do mundo...
    O raio de sol entrou de repente para mim, que de repente o vi... Era,
    porém, um risco de luz muito agudo, quase sem cor a cortar à faca nua o chão
    negro e madeirento, a avivar, à roda de onde passava, os pregos velhos e os
    sulcos entre as tábuas, negras pautas do não-branco.
    Minutos seguidos segui o efeito insensível da penetração do sol no
    escritório quieto... Ocupações do cárcere! Só os enclausurados veem assim o
    sol mover-se, como quem olha para formigas


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 21:59

    445.


    Dizem que o tédio é uma doença de inertes, ou que ataca só os que nada
    têm que fazer. Essa moléstia da alma é porém mais subtil: ataca os que têm
    disposição para ela, e poupa menos os que trabalham, ou fingem que
    trabalham (o que para o caso é o mesmo) que os inertes deveras.
    Nada há pior que o contraste entre o esplendor natural da vida interna, com
    as suas Índias naturais e os seus países incógnitos, e a sordidez, ainda que em
    verdade não seja sórdida, de quotidianidade da vida. O tédio pesa mais
    quando não tem a desculpa da inércia. O tédio dos grandes esforçados é o
    pior de todos.
    Não é o tédio a doença do aborrecimento de nada ter que fazer, mas a
    doença maior de se sentir que não vale a pena fazer nada. E, sendo assim,
    quanto mais há que fazer, mais tédio há que sentir.
    Quantas vezes ergo do livro onde estou escrevendo e que trabalho a cabeça
    vazia de todo o mundo! Mais me valera estar inerte, sem fazer nada, sem ter
    que fazer nada, porque esse tédio, ainda que real, ao menos o gozaria. No meu
    tédio presente não há repouso, nem nobreza, nem bem-estar em que haja malestar: há um apagamento enorme de todos os gestos feitos, não um cansaço
    virtual dos gestos por não fazer.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 22:00

    446.



    Omar Khayyam


    O tédio de Khayyam não é o tédio de quem não sabe o que faça, porque na
    verdade nada pode ou sabe fazer. Esse é o tédio dos que nasceram mortos, e
    dos que legitimamente se orientam para a morfina ou a cocaína. É mais
    profundo e mais nobre o tédio do sábio persa. E o tédio de quem pensou
    claramente e viu que tudo era obscuro, de quem mediu todas as religiões e
    todas as filosofias e depois disse, como Salomão: "Vi que tudo era vaidade e
    aflições de ânimo", ou como, ao despedir-se do poder e do mundo, outro rei,
    que era imperador, nele, Septímio Severo: "Omnia fui, nihil. .." "Fui tudo;
    nada vale a pena".
    A vida, disse Tardei, é a busca do impossível através do inútil; assim diria,
    se o houvesse dito, Omar Khayyam.
    Daí a insistência do persa no uso do vinho. Bebe! Bebe! É toda a sua
    filosofia prática. Não é o beber da alegria, que bebe porque mais se alegre,
    porque mais seja ela mesma. Não é o beber do desespero, que bebe para
    esquecer, para ser menos ele mesmo. Ao vinho junta a alegria, a ação e o
    amor; e há que reparar que não há em Khayyam nota alguma de energia,
    nenhuma frase de amor. Aquela Sàki, cuja figura grácil entrevista surge (mas
    surge pouco) nos rubaiyat, não é senão a "rapariga que serve o vinho". O
    poeta é grato à sua esbelteza como o fora à esbelteza da ânfora, onde o vinho
    se contivesse.
    A alegria fala, do vinho, como o Deão Aldrich :
    A filosofia prática de Khayyam reduz-se pois a um epicurismo suave,
    esbatido até ao mínimo do desejo de prazer. Basta-lhe ver rosas e beber vinho.
    Uma brisa leve, uma conversa sem intuito nem propósito, um púcaro de
    vinho, flores, em isso, e em não mais do que isso, põe o sábio persa o seu
    desejo máximo. O amor agita e cansa, a ação dispersa e falha, ninguém sabe
    saber e pensar embacia tudo. Mais vale pois cessar em nós de desejar ou de
    esperar, de ter a pretensão fútil de explicar o mundo, ou o propósito estulto
    de o emendar ou governar. Tudo é nada, ou, como se diz na Antologia Grega,
    "tudo vem da sem-razão", e é um grego, e portanto um racional, que o diz.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 22:00

    447.


    Quedar-nos-emos indiferentes à verdade ou mentira de todas as religiões,
    de todas as filosofias, de todas as hipóteses inutilmente verificáveis a que
    chamamos ciências. Tão-pouco nos preocupará o destino da chamada
    humanidade, ou o que sofra ou não sofra no seu conjunto. Caridade, sim, para
    com o "próximo" como no Evangelho se diz, e não com o homem, de que
    nele se não fala. E todos, até certo ponto, assim somos: que nos pesa, ao
    melhor de nós, um massacre na China? Mais nos dói, ao que de nós mais
    imagine, a bofetada injusta que vimos dar na rua a uma criança.
    Caridade para com todos, intimidade com nenhum. Assim interpreta
    fitzgerald’, num passo de uma sua nota, qualquer coisa da ética de Khayyam.
    Recomenda o Evangelho amor ao próximo: não diz amor ao homem ou à
    humanidade, de que verdadeiramente ninguém pode curar.
    Perguntar-se-á talvez se faço minha a filosofia de Khayyam, tal como aqui,
    creio que com justeza, a escrevi de novo e interpreto. Responderei que não
    sei. Há dias em que essa me parece a melhor, e até a única, de todas as
    filosofias práticas. Há outros dias em que me parece nula, morta, inútil, como
    um copo vazio. Não me conheço, porque penso. Não sei pois o que
    verdadeiramente penso. Não seria assim se tivesse fé; mas também não seria
    assim se estivesse louco. Na verdade, se fosse outro seria outro.
    Para além destas coisas do mundo profano, há, é certo, as lições secretas
    das ordens iniciáticas, os mistérios declarados quando secretos, ou velados,
    quando os figuram ritos públicos. Há o que está oculto ou meio oculto nos
    grandes ritos católicos, seja no Ritual de Maria na Igreja Romana, seja a
    Cerimónia do Espírito na Franco-Maçonaria. Mas quem nos diz, afinal, que o
    iniciado, quando íncola dos penetrais dos mistérios, não é senão avara presa
    da nossa nova face da ilusão? Que é a certeza que tem, se mais firme que ele a
    tem um louco no que lhe é loucura? Dizia Spencer que o que sabemos é uma
    esfera que, quanto mais se alarga, em tantos mais pontos tem contacto com o
    que não sabemos. Nem me esquecem, neste capítulo do que as iniciações
    podem ministrar, as palavras terríveis de um Mestre da Magia. "Já vi Ísis" diz,
    "já toquei em Ísis: não sei contudo se ela existe".


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 22:01

    448.


    Omar Khayyam


    Ornar tinha uma personalidade; eu, feliz ou infelizmente, não tenho
    nenhuma. Do que sou numa hora na hora seguinte me separo; do que fui num
    dia no dia seguinte me esqueci. Quem, como Omar, é quem é, vive num só
    mundo, que é o externo; quem, como eu, não é quem é, vive não só no
    mundo externo, mas num sucessivo e diverso mundo interno. A sua filosofia,
    ainda que queira ser a mesma que a de Ornar, forçosamente o não poderá ser.
    Assim, sem que deveras o queira, tenho em mim, como se fossem almas, as
    filosofias que critique; Ornar podia rejeitar a todas, pois lhe eram externas,
    não as posso eu rejeitar, porque são eu.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 22:02

    449.



    Há mágoas íntimas que não sabemos distinguir, por o que contêm de subtil
    e de infiltrado, se são da alma ou do corpo, se são o mal-estar de se estar
    sentindo a futilidade da vida, se são a má disposição que vem de qualquer
    abismo orgânico — estômago, fígado ou cérebro. Quantas vezes se me tolda a
    consciência vulgar de mim mesmo, num sedimento torvo de estagnação
    inquieta! Quantas vezes me dói existir, numa náusea a tal ponto incerta que
    não sei distinguir se é um tédio, se um prenúncio de vómito! Quantas vezes...
    A minha alma está hoje triste até ao corpo. Todo eu me doo, memória,
    olhos e braços. Há como que um reumatismo em tudo quanto sou. Não me
    influi no ser a clareza límpida do dia, céu de grande azul puro, maré alta
    parada de luz difusa. Não me abranda nada o leve sopro fresco, outonal como
    se o estio não esquecesse, com que o ar tem personalidade. Nada me é nada.
    Estou triste, mas não com’ uma tristeza definida, nem sequer com uma
    tristeza indefinida. Estou triste ali fora, na rua juncada de caixotes.
    Estas expressões não traduzem exatamente o que sinto porque sem dúvida
    nada pode traduzir exatamente o que alguém sente. Mas de algum modo tento
    dar a impressão do que sinto, mistura de várias espécies de eu e da rua alheia,
    que, porque a vejo, também, de um modo íntimo que não sei analisar, me
    pertence, faz parte de mim.
    Quisera viver diverso em países distantes. Quisera morrer outro entre
    bandeiras desconhecidas. Quisera ser aclamado imperador em outras eras,
    melhores hoje porque não são de hoje, vistas em vislumbre e colorido,
    inéditas a esfinges. Quisera tudo quanto pode tornar ridículo o que sou, e
    porque torna ridículo o que sou. Quisera, quisera... Mas há sempre o sol
    quando o sol brilha e a noite quando a noite chega. Há sempre a mágoa
    quando a mágoa nos dói e o sonho quando o sonho nos embala. Há sempre o
    que há, e nunca o que deveria haver, não por ser melhor ou por ser pior, mas
    por ser outro. Há sempre...
    Na rua cheia de caixotes vão os carregadores limpando a rua. Um a um,
    com risos e ditos, vão pondo os caixotes nas carroças. Do alto da minha janela
    do escritório eu os vou vendo, com olhos tardos em que as pálpebras estão
    dormindo. E qualquer coisa de subtil, de incompreensível, liga o que sinto aos
    fretes que estou vendo fazer, qualquer sensação desconhecida faz caixote de
    todo este meu tédio, ou angústia, ou náusea, e o ergue, em ombros de quem
    chalaceia alto, para uma carroça que não está aqui. E a luz do dia, serena como
    sempre, luze obliquamente, porque a rua é estreita, sobre onde estão erguendo
    os caixotes — não sobre os caixotes, que estão na sombra, mas sobre o
    ângulo lá ao fim onde os moços de fretes estão a fazer não fazer nada,
    indeterminadamente.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 16 Nov 2023, 22:03

    450.



    Como uma esperança negra, qualquer coisa de mais antecipador pairou: a
    mesma chuva pareceu intimidar-se; um negrume surdo calou-se sobre o
    ambiente. E súbito, como um grito, um formidável dia estilhaçou-se. Uma luz
    de inferno frio visitara o conteúdo de tudo, e enchera os cérebros e os
    recantos. Tudo pasmou. Um peso caiu de tudo porque o golpe passara. A
    chuva triste era alegre com o seu ruído bruto e humilde . Sem querer, o
    coração sentia-se e pensar era um estonteamento. Uma vaga religião formavase no escritório. Ninguém estava quem era, e o patrão Vasques apareceu à
    porta do gabinete para pensar em dizer qualquer coisa. O Moreira sorriu,
    tendo ainda nos arredores da cara o amarelo do medo súbito. E o seu sorriso
    dizia que sem dúvida o trovão seguinte deveria ser já mais longe. Uma carroça
    rápida estorvou alto os ruídos da rua. Involuntariamente o telefone tiritou, O
    patrão Vasques, em vez de retroceder para o escritório, avançou para o
    aparelho da sala grande. Houve um repouso e um silêncio e a chuva caía
    como um pesadelo, O patrão Vasques esqueceu-se do telefone, que não tocara
    mais. O moço mexeu-se, ao fundo da casa, como uma coisa incómoda.
    Uma grande alegria, cheia de repouso e de livração, desconcertou-nos a
    todos. Trabalhámos meio tontos, agradáveis, sociáveis com uma profusão
    natural. O moço, sem que ninguém lho dissesse, abriu amplas as janelas. Um
    cheiro a qualquer coisa fresca entrou, com o ar de água, pela grande sala
    adentro. A chuva, já leve, caía humilde. Os sons da rua, que continuavam os
    mesmos, eram diferentes. Ouvia-se a voz dos carroceiros, e eram realmente
    gente. Nitidamente, na rua ao lado, as campainhas dos elétricos tinham
    também uma socialidade connosco. Uma gargalhada de criança deserta fez de
    canário na atmosfera limpa. A chuva leve decresceu.
    Eram seis horas. Fechava-se o escritório. O patrão Vasques disse, do
    guarda-vento entreaberto, "Podem sair", e disse-o como uma bênção
    comercial. Levantei-me logo, fechei o livro e guardei-o. Pus a caneta
    visivelmente sobre a depressão do tinteiro, e, avançando para o Moreira,
    disse-lhe um "até amanhã" cheio de esperança, e apertei-lhe a mão como
    depois de um grande favor.





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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:56

    451.


    Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para
    estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as
    ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre
    diferentes, como, afinal, as paisagens são.
    Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da
    imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.
    "Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do
    mundo." Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consumou dando-lhe a
    volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo,
    como o princípio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens
    têm paisagem. Por isso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as
    como às outras. Para quê viajar? Em Madrid, em Berlim, na Pérsia, na China,
    nos Pólos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no tipo e género
    das minhas sensações?
    A vida é o que fazemos dela. As viagens são os viajantes. O que vemos, não
    é o que vemos, senão o que somos.
    452.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:57

    452.


    O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de
    escritório que havia numa outra casa, onde em tempos fui empregado. Este
    rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e companhias
    de transportes; tinha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia
    aqui e ali -; tinha, recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens,
    gravuras de costumes exóticos, retratos de barcos e navios. Ia às agências de
    turismo, em nome de um escritório hipotético, ou talvez em nome de
    qualquer escritório existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia
    folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens para a Índia, folhetos
    dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
    Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho
    conhecido: era também uma das pessoas mais felizes que me tem sido dado
    encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade,
    suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje,
    que passaram dez anos, ou mais, sobre o breve tempo em que o conheci, deve
    ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez, sustentáculo
    social de qualquer — morto, enfim, na sua mesma vida. É até capaz de ter
    viajado com o corpo, ele que tão bem viajava com a alma.
    Recordo-me de repente: ele sabia exatamente porque vias-férreas se ia de
    Paris a Bucareste, porque vias-férreas se percorria a Inglaterra, e, através das
    pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza aureolada da sua
    grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter existido para morto, mas talvez um dia,
    em velho, se lembre como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar
    com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
    E, daí, talvez isto tudo tivesse outra explicação qualquer, e ele estivesse
    somente imitando alguém. Ou... Sim, julgo às vezes, considerando a diferença
    hedionda entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos, que
    somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos
    empresta a própria inteligência astral, e que depois, talvez com pena, mas por
    uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao
    cevado que é o nosso destino.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:57

    453.


    Do terraço deste café olho tremulamente para a vida. Pouco vejo dela – a
    espalhada — nesta sua concentração neste largo nítido e meu. Um marasmo,
    como um começo de bebedeira, elucida-me a alma de coisas. Decorre fora de
    mim, nos passos dos que passam e na fúria regulada de movimentos, a vida
    evidente e unânime. Nesta hora dos sentidos estagnarem-me e tudo me
    parecer outra coisa — as minhas sensações um erro confuso e lúcido, abro
    asas mas não me movo, como um condor suposto.
    Homem de ideais que sou, quem sabe se a minha maior aspiração não é
    realmente não passar de ocupar este lugar a esta mesa deste café?
    Tudo é vão, como mexer em cinzas, vago como o momento em que ainda
    não é antemanhã.
    E a luz bate tão serenamente e perfeitamente nas coisas, doura-as tão de
    realidade sorridente e triste! Todo o mistério do mundo desce até ante meus
    olhos se esculpir em banalidade e rua.
    Ah, como as coisas quotidianas roçam mistérios por nós! Como à superfície
    que a luz toca, desta vida complexa de humanos, a Hora, sorriso incerto, sobe
    aos lábios do Mistério! Que moderno que tudo isto soa! E, no fundo tão
    antigo, tão oculto, tão tendo outro sentido que aquele que luze em tudo isto!


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:58

    454.


    A leitura dos jornais, sempre penosa do ponto de ver estético, é-o
    frequentemente também do moral, ainda para quem tenha poucas
    preocupações morais.
    As guerras e as revoluções — há sempre uma ou outra em curso chegam,
    na leitura dos seus efeitos, a causar não horror mas tédio. Não é a crueldade
    de todos aqueles mortos e feridos, o sacrifício de todos os que morrem
    batendo-se, ou são mortos sem que se batam, que pesa duramente na alma: e a
    estupidez que sacrifica vidas e haveres a qualquer coisa inevitavelmente inútil.
    Todos os ideais e todas as ambições são um desvairo de comadres homens.
    Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança. Não há
    ideal que mereça o sacrifício de um comboio de lata. Que império é útil ou
    que ideal profícuo? Tudo é humanidade, e a humanidade é sempre a mesma –
    variável mas inaperfeiçoável, oscilante mas improgressiva. Perante o curso
    inimplorável das coisas, a vida que tivemos sem saber como e perderemos
    sem saber quando, o jogo de dez mil xadrezes que é a vida em comum e luta,
    o tédio de contemplar sem utilidade o que se não realiza nunca — que pode
    fazer o sábio senão pedir o repouso, o não ter que pensar em viver, pois basta
    ter que viver, um pouco de lugar ao sol e ao ar e ao menos o sonho de que há
    paz do lado de lá dos montes.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:59

    455.


    Todos aqueles acasos infelizes da nossa vida, em que fomos, ou ridículos,
    ou reles, ou atrasados, consideremo-los, à luz da nossa serenidade íntima,
    como incómodos de viagem. Neste mundo, viajantes, volentes ou involentes,
    entre nada e nada ou entre tudo e tudo, somos somente passageiros, que não
    devem dar demasiado vulto aos percalços do percurso, às contundências da
    trajetória. Consolo-me com isto, não sei se porque me consolo, se porque há
    nisto que me console. Mas a consolação fictícia torna-se-me verdade se não
    penso nela.
    Depois, há tantas consolações! Há o céu azul alto, limpo e sereno, onde
    boiam sempre nuvens imperfeitas. Há a brisa leve, que agita os ramos duros
    das árvores, se é no campo; que faz oscilar as roupas estendidas, nos quartos
    andares, ou quintos, se é na cidade. Há o calor ou o fresco, se os há, e sempre,
    no fundo, vêm memórias, com as suas saudades ou sua esperança, e um
    sorriso de magia à janela do nada, o que desejamos batendo à porta do que
    somos, como pedintes que são o Cristo.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 07:59

    456.


    Há quanto tempo não escrevo! Passei, em dias, séculos de renúncia incerta.
    Estagnei, como um lago deserto, entre paisagens que não há.
    No entretanto, corria-me bem a monotonia variada dos dias, a sucessão
    nunca igual das horas iguais, a vida. Corria-me bem. Se dormisse, não me
    correria de outro modo. Estagnei, como um lago que não há, entre paisagens
    desertas.
    É frequente o desconhecer-me — o que sucede com frequência aos que se
    conhecem. Assisto a mim nos vários disfarces com que sou vivo. Possuo de
    quanto muda o que é sempre o mesmo, de quanto se faz tudo o que é nada.
    Relembro, longínquo em mim, como se viajara para dentro, a monotonia,
    todavia tão diferente, daquela casa de província... Ali passei a infância, mas
    não saberia dizer, se quisesse fazê-lo, se com mais ou menos felicidade do que
    passo a vida de hoje. Era outro o quem sou que ali vivia: são vidas diferentes,
    diversas, incomparáveis. As mesmas monotonias, que as aproximam por fora,
    eram sem dúvida diferentes por dentro. Não eram duas monotonias, mas duas
    vidas.
    A que propósito relembro?
    O cansaço. Lembrar é um repouso, porque é não agir. Que de vezes, para
    maior descanso, relembro o que nunca foi, e não há nitidez nem saudade nas
    minhas memórias das províncias onde estive como os que moram; tábua a
    tábua do soalho, oscilo o oscilar de outrem, nas vastas salas onde nunca
    morei.
    De tal modo me converti na ficção de mim mesmo que qualquer
    sentimento natural, que eu tenho, desde logo, desde que nasce, se me
    transtorna num sentimento da imaginação — a memória em sonho, o sonho
    em esquecer-me dele, o conhecer-me em não pensar em mim.
    De tal modo me desvesti do meu próprio ser que existir é vestir-me. Só
    disfarçado é que sou eu. E em torno de mim todos poentes incógnitos
    douram, morrendo, as paisagens que nunca verei


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:00

    457.

    As coisas modernas são

    A evolução dos espelhos;
    Os guarda-fatos.

    Passámos a ser criaturas vestidas, de corpo e alma.
    E, como a alma corresponde sempre ao corpo, um traje espiritual
    estabeleceu-se. Passámos a ter a alma essencialmente vestida, assim como
    passámos — homens, corpos — à categoria de animais vestidos.
    Não é só o facto de que o nosso traje se torna uma parte de nós. É também
    a complicação desse traje e a sua curiosa qualidade de não ter quase nenhuma
    relação com os elementos da elegância natural do corpo nem com os dos seus
    movimentos.
    Se me pedissem que explicasse o que é este meu estado de alma, através de
    uma razão social, eu responderia mudamente apontando para um espelho,
    para um cabide e para uma caneta com tinta.


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    Mensaje por Maria Lua Vie 17 Nov 2023, 08:01

    458.


    No nevoeiro leve da manhã de meia-primavera, a Baixa desperta
    entorpecida e o sol nasce como que’ lento. Há uma alegria sossegada no ar
    com metade de frio, e a vida, ao sopro leve da brisa que não há, tirita
    vagamente do frio que já passou, pela lembrança do frio mais que pelo frio,
    pela comparação com o verão próximo, mais que pelo tempo que está.
    Não abriram ainda as lojas, salvas as leitarias e os cafés, mas o repouso não
    é de torpor, como o de domingo; é de repouso apenas. Um vestígio louro
    antecede-se no ar que se revela, e o azul cora palidamente através da bruma
    que se esfena. O começo do movimento rareia pelas ruas, destaca-se a
    separação dos peões, e nas poucas janelas abertas, altas, madrugam também
    aparecimentos. Os elétricos traçam a meio-ar o seu vinco móbil amarelo e
    numerado. E, de minuto a minuto, sensivelmente, as ruas desdesertam-se.
    Vogo, atenção só dos sentidos, sem pensamento nem emoção. Despertei
    cedo; vim para a rua sem preconceitos. Examino como quem cisma. Vejo
    como quem pensa. E uma leve névoa de emoção se ergue absurdamente em
    mim; a bruma que vai saindo do exterior parece que se me infiltra lentamente
    sem querer, sinto que tenho estado a pensar na minha vida. Não dei por isso,
    mas assim foi. Julguei que somente via e ouvia, que não era mais, em todo este
    meu percurso ocioso, que um reflexo de imagens dadas, um biombo branco
    onde a realidade projeta cores e luz em vez de sombras. Mas era mais, sem
    que o soubesse. Era ainda a alma que se nega, e o meu próprio abstrato
    observar era uma negação ainda.
    Tolda-se o ar de falta de névoa, tolda-se de luz pálida, em a qual a névoa
    como que se misturou. Reparo subitamente que o ruído é muito maior, que
    muito mais gente existe. Os passos dos mais transeuntes são menos
    apressados. Aparece, a quebrar a sua ausência e a menor pressa dos outros, o
    correr andado das varinas, a oscilação dos padeiros, monstruosos de cesto, e a
    igualdade divergente das vendedeiras de tudo mais desmonotoniza-se só no
    conteúdo das cestas, onde as cores divergem mais que as coisas. Os leiteiros
    chocalham, como chaves ocas e absurdas, as latas desiguais do seu ofício
    andante. Os polícias estagnam nos cruzamentos, desmentido parados da
    civilização ao movimento invisível da subida do dia.
    Quem me dera, neste momento o sinto, ser alguém que pudesse ver isto
    como se não tivesse com ele mais relação que o vê-lo — contemplar tudo
    como se fora o viajante adulto chegado hoje à superfície da vida! Não ter
    aprendido, da nascença em diante, a dar sentidos dados a estas coisas todas,
    poder vê-las na expressão que têm separadamente da expressão que lhes foi
    imposta. Poder conhecer na varina a sua realidade humana
    independentemente de se lhe chamar varina, e de saber que existe e que
    vende. Ver o polícia como Deus o vê. Reparar em tudo pela primeira vez, não
    apocalipticamente, como revelações do Mistério, mas diretamente como
    florações da Realidade.
    Soam — devem ser oito as que não conto — badaladas de horas de sino ou
    relógio grande . Acordo de mim pela banalidade de haver horas, clausura que
    a vida social impõe à continuidade do tempo fronteiro no abstrato, limite no
    desconhecido. Acordo de mim e, olhando para tudo, agora já cheio de vida e
    de humanidade costumada, vejo que a névoa que saiu de todo do céu, salvo o
    que no azul ainda paira de ainda não bem azul, me entrou verdadeiramente
    para a alma, e ao mesmo tempo entrou para a parte de dentro de todas as
    coisas, que é por onde elas têm contacto com a minha alma. Perdi a visão do
    que via. Ceguei com vista. Sinto já com a banalidade do conhecimento. Isto
    agora não é já a Realidade: é simplesmente a Vida.
    Sim, a vida a que eu também pertenço, e que também me pertence a mim;
    não já a Realidade, que é só de Deus, ou de si mesma, que não contém
    mistério nem verdade, que, pois que é real ou o finge ser, algures exista fixa,
    livre de ser temporal ou eterna, imagem absoluta, ideia de uma alma que fosse
    exterior.
    Volvo lentos os passos mais rápidos do que julgo ao portão para onde
    subirei de novo para casa. Mas não entro; hesito; sigo para diante. A Praça da
    Figueira, bocejando venderes de várias cores, cobre-me, esfreguesando-se o
    horizonte de ambulante. Avanço lentamente, morto, e a minha visão já não é
    minha, já não é nada: é só a do animal humano que herdou, sem querer, a
    cultura grega, a ordem romana, a moral cristã e todas as mais ilusões que
    formam a civilização em que sinto. Onde estarão os vivos?


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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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     FERNANDO PESSOA II   (13/ 06/1888- 30/11/1935) ) - Página 2 Empty Re: FERNANDO PESSOA II (13/ 06/1888- 30/11/1935) )

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