Aires de Libertad

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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC) - Página 36 Empty

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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC)

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Mensaje por Maria Lua Vie 25 Nov 2022, 08:05

352.


Não é nos Largos campos ou nos jardins grandes que vejo chegar a
primavera. É nas poucas árvores pobres de um largo pequeno da cidade. Ali a
verdura destaca como uma dádiva e é alegre como uma boa tristeza.
Amo esses largos solitários, intercalados entre ruas de pouco trânsito, e eles
mesmos sem mais trânsito que as ruas. São clareiras inúteis, coisas que
esperam, entre tumultos longínquos. São de aldeia na cidade.
Passo por eles, subo qualquer das ruas suas afluentes, depois desço de novo
essa rua, para a eles regressar. Visto do outro lado é diferente, mas a mesma
paz deixa dourar de saudade súbita — sol no ocaso — o lado que não vira na
ida.
Tudo é inútil, e eu o sinto como tal. Quanto vivi se me esqueceu como se o
ouvira distraído. Quanto serei me não lembra como se o tivera vivido e
esquecido.
Um ocaso de mágoa leve paira vago no meu torno. Tudo esfria, não porque
esfrie, mas porque entrei numa rua estreita e o largo cessou


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Mensaje por Maria Lua Vie 25 Nov 2022, 08:06

353.


A manhã, meio fria, meio morna, alava-se pelas casas raras das encostas no
extremo da cidade. Uma névoa ligeira, cheia de despertar, esfarrapava-se, sem
contornos, no adormecimento das encostas. (Não fazia frio, salvo em ter que
recomeçar a vida.) E tudo aquilo – toda esta frescura lenta da manhã leve, era
análogo a uma alegria que ele nunca pudera ter.

O carro descia lentamente, a caminho das avenidas. À medida que se
aproximava do maior aglomeramento das casas, uma sensação de perda
tomava-lhe o espírito vagamente. A realidade humana começava a despontar.
Nestas horas matinais, em que a sombra já desapareceu, mas não ainda o
seu peso leve, a o espírito que se deixa levar pelos incitamentos da hora
apetece a chegada e o porto antigo ao sol. Alegraria, não que o instante se
fixasse, como nos momentos solenes da paisagem, ou no luar calmo sobre o
rio, mas que a vida tivesse sido outra, de modo que este momento pudesse ter
um outro sabor que se lhe reconhece mais próprio.
Adelgaçava-se mais a névoa incerta. O sol invadia mais as coisas. Os sons
da vida acentuavam-se no arredor.

Seria certo, por uma hora como estas, não chegar nunca à realidade humana
para que a nossa vida se destina. Ficar suspenso, entre a névoa e a manhã,
imponderavelmente, não em espírito, mas em corpo espiritualizado, em vida
real alada, aprazia, mais do que outra coisa, ao nosso desejo de buscar um
refúgio, mesmo sem razão para o buscar.
Sentir tudo subtilmente torna-nos indiferentes, salvo para o que se não
pode obter — sensações por chegar a uma alma ainda em embrião para elas,
atividades humanas congruentes com sentir profundamente, paixões e
emoções perdidas entre conseguimentos de outras espécies.
As árvores, no seu alinhamento pelas avenidas, eram independentes de tudo
isto.

A hora acabou na cidade, como a encosta do outro lado do rio quando o
barco toca no cais. Ele trouxe consigo, enquanto não tocou na margem, a
paisagem da outra banda pegada à amurada; ela despegou-se quando se deu o
som da amurada a tocar nas pedras. O homem de calças arregaçadas sobre o
joelho deitou um grampo ao cabo, e foi definitivo e concludente o seu gesto
natural. Terminou metafisicamente na impossibilidade na nossa alma de
continuarmos a ter a alegria de uma angústia duvidosa. Os garotos no cais
olhavam para nós como para qualquer outra pessoa, que não tivesse aquela
emoção imprópria para a parte útil dos embarques


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Mensaje por Maria Lua Vie 25 Nov 2022, 08:07

354.


O calor, como uma roupa invisível, dá vontade de o tirar.


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Mensaje por Maria Lua Vie 25 Nov 2022, 08:08

355.


Senti-me inquieto já. De repente, o silêncio deixara de respirar.


Súbito, de aço, um dia infinito’ estilhaçou-se. Agachei-me, animal, sobre a
mesa, com as mãos garras inúteis sobre a tábua lisa. Uma luz sem alma entrara
nos recantos e nas almas, e um som de montanha próxima desabara do alto,
rasgando num grito sedas do abismo. O meu coração parou. Bateu-me a
garganta. A minha consciência viu só um borrão de tinta num papel.





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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:43

356.


Depois que o calor cessou, e o princípio leve da chuva cresceu para ouvirse,
ficou no ar uma tranquilidade que o ar do calor não tinha, uma nova paz
em que a água punha uma brisa sua. Tão clara era a alegria desta chuva
branda, sem tempestade nem escuridão, que aqueles mesmos, que eram quase
todos, que não tinham guarda-chuva ou roupa de defesa, estavam rindo a falar
no seu passo rápido pela rua lustrosa.
Num intervalo de indolência cheguei à janela aberta do escritório – o calor
a fizera abrir, a chuva não a fizera fechar — e contemplei com a atenção
intensa e indiferente, que é o meu modo, aquilo mesmo que acabo de
descrever com justeza antes de o ter visto. Sim, lá ia a alegria aos dois banais,
falando a sorrir pela chuva miúda, com passos mais rápidos que apressados,
na claridade limpa do dia que se velara.

Mas, de repente, da surpresa de uma esquina que já lá estava, rodou para a
minha vista um homem velho e mesquinho, pobre e não humilde, que seguia
impaciente sob a chuva que havia abrandado. Esse, que por certo não tinha
fito, tinha ao menos impaciência. Olhei-o com a atenção, não já desatenta, que
se dá às coisas, mas definidora, que se dá aos símbolos. Era o símbolo de
ninguém; por isso tinha pressa. Era o símbolo de quem nada fora; por isso
sofria. Era parte, não dos que sentem a sorrir a alegria incómoda da chuva,
mas da mesma chuva – um inconsciente, tanto que sentia a realidade.

Não era isto, porém, que eu queria dizer. Entre a minha observação do
transeunte que, afinal, perdi logo de vista, por não ter continuado a olhá-lo, e
o nexo destas observações inseriu-se-me qualquer mistério da desatenção,
qualquer emergência da alma que me deixou sem prosseguimento. E ao fundo
da minha desconexão, sem que eu os oiça, oiço’ os sons das falas dos moços
da embalagem, lá no fundo do escritório, na parte que é o princípio do
armazém, e vejo sem ver os cordéis enfardadores das encomendas postais,
passados duas vezes, com os nós duas vezes corridos, à roda dos embrulhos
em papel pardo forte, na mesa ao pé da janela para o saguão, entre piadas e
tesouras.
Ver é ter visto.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:44

357.



Regra é da vida que podemos, e devemos, aprender com toda a gente. Há
coisas da seriedade da vida que podemos aprender com charlatães e bandidos,
há filosofias que nos ministram os estúpidos, há lições de firmeza e de lei que
vêm no acaso e nos que são do acaso. Tudo está em tudo.
Em certos momentos muito claros da meditação, como aqueles em que,
pelo princípio da tarde, vagueio observante pelas ruas, cada pessoa me traz
uma notícia, cada casa me dá uma novidade, cada cartaz tem um aviso para
mim.
O meu passeio calado é uma conversa contínua, e todos nós, homens,
casas, pedras, cartazes e céu, somos uma grande multidão amiga,
acotovelando-se de palavras na grande procissão do Destino.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:45

358.


Vi e ouvi ontem um grande homem. Não quero dizer um grande homem
atribuído, mas um grande homem que verdadeiramente o é. Tem valia, se a há
neste mundo; conhecem que tem valia; e ele sabe que o conhecem. Tem, pois,
todas as condições para que eu o chame um grande homem. E, efetivamente,
o que o chamo.

O aspeto físico é de um comerciante cansado. A cara tem traços de fadiga,
mas tanto poderiam ser de pensar de mais como de não viver higienicamente.
Os gestos são quaisquer. O olhar tem uma certa viveza — privilégio de quem
não é míope. A voz é um pouco embrulhada, como se os inícios da paralisia
geral estragassem essa emissão da alma. E a alma emitida discursa sobre a
política de partidos, sobre a desvalorização do escudo, e sobre o que há de
reles nos colegas da grandeza.

Se eu não soubesse quem ele é, não o conheceria pela estampa. Sei bem que
não há que fazer dos grandes homens aquela ideia heroica que as almas
simples formam: que um grande poeta há de ser um Apoio de corpo e um
Napoleão de expressão; ou, com menos exigências, um homem de distinção e
um rosto expressivo. Sei bem que estas coisas são humanidades naturais e
absurdas. Mas, se não se espera tudo ou quase tudo, espera-se todavia alguma
coisa. E, quando se passa da figura vista para a alma falada, não há sem dúvida
que esperar espírito ou vivacidade, mas há ao menos que contar com
inteligência, com, ao menos, a sombra da elevação.

Tudo isto — estas desilusões humanas — nos faz pensar no que pode
realmente haver de verdade no conceito vulgar de inspiração. Parece que este
corpo destinado a comerciante e esta alma destinada a homem educado são,
quando estão a sós, investidos misteriosamente de qualquer coisa interior que
lhes é externa, e que não falam, senão que se fala neles, e a voz diz o que fora
mentira que eles dissessem.

São especulações casuais e inúteis. Chego a ter pena de as ter. Não diminui
com elas a valia do homem; não aumenta com elas a expressão do seu corpo.
Mas, na verdade, nada altera nada, e o que dizemos ou fazemos roça só os
cimos dos montes, em cujos vale
s dormem as coisas.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:46

359.


Ninguém compreende outro. Somos, como disse o poeta, ilhas no mar da
vida; corre entre nós o mar que nos define e separa. Por mais que uma alma se
esforce por saber o que é outra alma, não saberá senão o que lhe diga uma
palavra — sombra disforme no chão do seu entendimento.
Amo as expressões porque não sei nada do que exprimem. Sou como o
mestre de Santa Marta: contento-me com o que me é dado. Vejo, e já é muito.
Quem é capaz de entender?

Talvez seja por este ceticismo do inteligível que eu encaro de igual modo
uma árvore e uma cara, um cartaz e um sorriso. (Tudo é natural, tudo
artificial, tudo igual.) Tudo o que vejo é para mim o só visível, seja o céu alto
azul de verde branco da manhã que há de vir, seja o esgar falso em que se
contrai o rosto de quem está a sofrer perante testemunhas a morte de quem
ama.
Bonecos, ilustrações, páginas que existem e se voltam. O meu coração não
está neles nem quase minha atenção, que os percorre de fora, como uma
mosca por um papel.
Sei eu sequer se sinto, se penso, se existo? Nada: só um esquema objetivo
de cores, de formas, de expressões de que sou o espelho oscilante por vender
inútil.
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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:47

360.


Comparados com os homens simples e autênticos, que passam pelas ruas
da vida, com um destino natural e calhado, essas figuras dos cafés assumem
um aspeto que não sei definir senão comparando-as a certos duendes de
sonhos — figuras que não são de pesadelo nem de mágoa, mas cuja
recordação, quando acordamos, nos deixa, sem que saibamos porquê, um
sabor a um nojo passado, um desgosto de qualquer coisa que está com eles
mas que se não pode definir como sendo deles.

Vejo os vultos dos génios e dos vencedores reais, mesmo pequenos, singrar
na noite das coisas sem saber o que cortam as suas proas altivas, nesse’ mar de
sargaço de palha de embalagem e aparas de cortiça.
Ali se resume tudo, como no chão do saguão do prédio do escritório, que,
visto através das grades da janela do armazém, parece uma cela para prender
lixo.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:48

361.


A procura da verdade — seja a verdade subjetiva do convencimento, a
objetiva da realidade, ou a social do dinheiro ou do poder – traz sempre
consigo, se nela se emprega quem merece prémio, o conhecimento último da
sua inexistência. A sorte grande da vida sai somente aos que compraram por
acaso.
A arte tem valia porque nos tira de aqui.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:48

362.


É legitima toda a violação da lei moral que é feita em obediência a uma lei
moral superior. Não é desculpável roubar um pão por ter fome. É desculpável
a um artista roubar dez contos para garantir por dois anos a sua vida e
tranquilidade, desde que a sua obra tenda a um fim civilizacional; se é uma
mera obra estética, não vale o argumento.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 26 Nov 2022, 07:50

363.

Nós não podemos amar, filho. O amor é a mais carnal das ilusões. Amar é
possuir, escuta. E o que possui quem ama? O corpo? Para o possuir seria
preciso tornar nossa a sua matéria, comê-lo, incluí-lo em nós... E essa
impossibilidade seria temporária, porque o nosso próprio corpo passa e se
transforma, porque nós não possuímos o nosso corpo (possuímos apenas a
nossa sensação dele), e porque, uma vez possuído esse corpo amado,
tornarse-ia nosso, deixaria de ser outro, e o amor, por isso, com o desaparecimento
do outro ente, desapareceria...

Possuímos a alma? Ouve-me em silêncio: Nós não a possuímos. Nem a
nossa alma é nossa sequer. Como, de resto, possuir uma alma? Entre alma e
alma há o abismo de serem almas’.
Que possuímos? Que possuímos? Que nos leva a amar? A beleza? E nós
possuímo-la amando? A mais feroz e dominadora posse de um corpo o que
possui dele? Nem o corpo, nem a alma, nem a beleza sequer. A posse de um
corpo lindo não abraça a beleza, abraça a carne celulada e gordurosa; o beijo
não toca na beleza da boca, mas na carne húmida dos lábios perecíveis e
mucosas; a própria cópula é um contacto apenas, um contacto esfregado e
próximo, mas não uma penetração real, sequer de um corpo por outro
corpo... Que possuímos nós? Que possuímos?

As nossas sensações, ao menos? Ao menos o amor é um meio de nos
possuirmos, a nós, nas nossas sensações? É, ao menos, um modo de
sonharmos nitidamente, e mais gloriosamente portanto, o sonho de
existirmos? E, ao menos, desaparecida a sensação, fica a memória dela
connosco sempre, e assim, realmente possuímos...
Desenganemos até disto. Nós nem as nossas sensações possuímos. Não
fales. A memória, afinal, é a sensação do passado... E toda a sensação é uma
ilusão.

— Escuta-me, escuta-me sempre. Escuta-me e não olhes pela janela aberta
a plana outra margem do rio, nem o crepúsculo nem esse silvo de um
comboio que corta o longe vago . — Escuta-me em silêncio...
Nós não possuímos as nossas sensações... Nós não nos possuímos nelas.
(Urna inclinada, o crepúsculo verte sobre nós um óleo de onde as horas,
pétalas de rosas, boiam espaçadamente.)







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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:38

364.


Eu não possuo o meu corpo — como posso eu possuir com ele? Eu não
possuo a minha alma — como posso possuir com ela? Não compreendo o
meu espírito — como através dele compreender’?
Não possuímos nem o corpo nem uma verdade — nem sequer uma ilusão.
Somos fantasmas de mentiras, sombras de ilusões, e a nossa vida é oca por
fora e por dentro.
Conhece alguém as fronteiras à sua alma, para que possa dizer — eu sou
eu?
Mas sei que o que eu sinto, sinto-o eu.
Quando outrem possui esse corpo, possui nele o mesmo que eu? Não.
Possui outra sensação.
Possuímos nós alguma coisa? Se nós não sabemos o que somos, como
sabemos nós o que possuímos?
Se do que comes, dissesses, "eu possuo isto", eu compreendia-te. Porque
sem dúvida o que comes, tu o incluis em ti, tu o transformas em matéria tua,
tu o sentes entrar em ti e pertencer-te. Mas do que comes não falas tu de
"posse". A que chamas tu possuir?


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:39

365.


A loucura chamada afirmar, a doença chamada crer, a infâmia chamada ser
feliz — tudo isto cheira a mundo, sabe à triste coisa que é a terra.
Sê indiferente. Ama o poente e o amanhecer, porque não há utilidade, nem
para ti, em amá-los. Veste teu ser do ouro da tarde morta, como um rei
deposto numa manhã de rosas, com Maio nas nuvens brancas e o sorriso das
virgens nas quintas afastadas. A tua ânsia morra entre mirtos, teu tédio cesse
entre tamarindos e o som da água acompanhe tudo isto como um entardecer
ao pé de margens, e o rio, sem sentido salvo correr, eterno, para marés
longínquas. O resto é a vida que nos deixa, a chama que morre no nosso
olhar, a púrpura gasta antes de a vestirmos, a lua que vela o nosso abandono,
as estrelas que estendem o seu silêncio sobre a nossa hora de desengano.
Assídua, a mágoa estéril e amiga que nos aperta ao peito com amor.
O meu destino é a decadência.

O meu domínio foi outrora em vales fundos. O som de águas que nunca
sentiram sangue rega o ouvido dos meus sonhos. O copado das árvores que
esquece a vida era verde sempre nos meus esquecimentos. A lua era fluida
como água entre pedras. O amor nunca veio àquele vale e por isso tudo ali era
feliz. Nem sonho, nem amor, nem deuses em templo, passando entre a brisa e
a hora una e sem que soubesse saudades das crenças mais bêbadas, mais
escusas.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:40

366.


Paisagens inúteis como aquelas que dão a volta às chávenas chinesas,
partindo da asa e vindo acabar na asa, de repente. As chávenas são sempre tão
pequenas... Para onde se prolongaria, e com que de porcelana, a paisagem que
não se prolongou para além da asa da chávena?
É possível a certas almas sentir uma dor profunda por a paisagem pintada
num abano chinês não ter três dimensões.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:40

367.


... E os crisântemos adoecem a sua vida lassa em jardins apenumbrados de
contê-los.
... A luxúria japonesa de ter evidentemente duas dimensões apenas.
... A existência colorida sobre transparências baças das figuras japonesas nas
chávenas.
... Uma mesa posta para um chá discreto — mero pretexto para conversas
inteiramente estéreis — teve sempre para mim qualquer coisa de ente e
individualidade com alma. Forma, como um organismo, um todo sintético!
Que não é a pura soma das partes que o compõem.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:41

368.

E os diálogos nos jardins fantásticos que contornam nada definidamente
certas chávenas? Que palavras sublimes não devem estar trocando as duas
figuras que se assentam no lado de lá daquele bule! E eu sem ouvidos
apropriados para as ouvir, morto na policroma humanidade!
Deliciosa psicologia das coisas deveras estáticas! A eternidade tece-a e o
gesto que uma figura pintada tem desdenha, do alto da sua eternidade visível,
a nossa transitória febre, que nunca se fixa numa atitude nem se demora’ nos
portões de um esgar .

Que curioso deve ser o folclore do colorido povo dos painéis! Os amores
das figuras bordadas — amores de duas dimensões, de uma castidade
geométrica — devem ser para entretenimento dos psicólogos ouvidos.
Não amamos, senão que fingimos amar. O verdadeiro amor, o imortal e
inútil, pertence àquelas figuras em que a mudança não entra, pela sua natureza
de estáticas. Desde que eu o conheço, o japonês que se senta na convexa do
meu bule não mudou ainda... Não saboreou nunca as mãos da mulher que
está a um distar errado dele. Um colorido extinto como de um sol despejado,
entornado, irrealiza eternamente as encostas desse monte. E tudo aquilo
obedece a um instante de pena — pena mais fiel do que esta que inutilmente
preenchesse a fragilidade das minhas horas exaustas.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:42

369.


Nesta era metálica dos bárbaros só um culto metodicamente excessivo das
nossas faculdades de sonhar, de analisar e de atrair pode servir de salvaguarda
à nossa personalidade, para que se não desfaça ou para nula ou para idêntica
às outras.
O que as nossas sensações têm de real é precisamente o que têm de não
nossas. O que há de comum nas sensações é que forma a realidade. Por isso a
nossa individualidade nas nossas sensações está só na parte enorme delas. A
alegria que eu teria se visse um dia o sol escarlate. Seria tão meu aquele sol, só
meu!


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:44

370.


Nunca deixo saber aos meus sentimentos o que lhes vou fazer sentir...
Brinco com as minhas sensações como uma princesa cheia de tédio com os
seus grandes gatos prontos e cruéis...
Fecho subitamente portas dentro de mim, por onde certas sensações iam
passar para se realizarem. Retiro bruscamente do seu caminho os objetos
espirituais que lhes vão vincar certos gestos.
Pequenas frases sem sentido, metidas nas conversas que supomos estar
tendo; afirmações absurdas feitas com cinzas de outras que já de si não
significam nada...

— O seu olhar tem qualquer coisa de música tocada a bordo de um barco,
no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta...
— Não diga que é fria uma noite de luar. Abomino as noites de luar... Há
quem costume realmente tocar música nas noites de luar... — Isso também é
possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo
de ser saudoso de qualquer coisa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho
na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...
— Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo
com o olhar.
..
— Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o
que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem
visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.
— Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando
consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um
livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes
exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade
excessiva e um pouco forçada...

Acho que a única coisa digna de uma mulher
contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança queria ser a
rainha de um naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia na minha
casa... Achava esse mister de uma heráldica realmente compassiva... Mas
quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em
que as nossas aspirações são todas imorais, é que pensamos nisso a serto...
— Eu, como nunca falo a crianças, creio no instinto artista delas... Sabe,
enquanto estou falando, agora mesmo, eu estou querendo penetrar o íntimo
sentido dessas coisas que me estava dizendo... Perdoa-me?

— Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros
fingem que têm. São sempre demasiadamente íntimos... Acredite que me dói
realmente estar-lhe estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas
falsas, representam verdadeiros farrapos da minha pobre alma... No fundo,
acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as
nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós .
— Isso é tão verdadeiro... Para que dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à
nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa
possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador
de sensações.

— Sim, sim... É a minha vez de pedir perdão... Mas olhe que eu estava
distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma coisa justa...
Mudemos de assunto... Que tarde que é sempre!... Não se torne a zangar...
Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum...
— Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando... Toda a
boa conversa deve ser um monólogo de dois... Devemos, no fim, não poder
ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos
totalmente a conversa... As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo
as menos moralmente instrutivas, são aquelas que os romancistas têm entre
duas personagens das suas novelas... Como exemplo...

— Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo... Isso só se
faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca as lemos.
— Leu alguma vez uma gramática?
— Eu nunca. Tive sempre uma aversão profunda a saber como se dizem
as coisas... A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as exceções e para
os pleonasmos... Escapar às regras e dizer coisas inúteis resume bem a atitude
essencialmente moderna... Não é assim que se diz?...
— Absolutamente... O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na
deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) — o que há de
mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos... São as palavras que dão
sentido às frases... Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos...
Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou — cada vez que tenho uma
conversa um pouco longa suicido um amigo — tinha tencionado dedicar toda
a sua vida a destruir os verbos.
..
— Ele porque se suicidou?
— Espere, ainda não sei... Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não
completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que
procurava o micróbio da significação... Suicidou-se, é claro, porque um dia
reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si... A importância do
problema deu-lhe cabo do cérebro... Um revólver e...
— Ah, não... Isso de modo algum... Não vê que não podia ser um
revólver?... Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça... O senhor pouco
se entende com os amigos que nunca teve... É um defeito grande, sabe?... A
minha melhor amiga — uma deliciosa rapaz que eu inventei -

— Dão-se bem?
— Tanto quanto é possível... Mas essa rapariga, não imagina,
As duas criaturas que estavam à mesa de chá não tiveram com certeza esta
conversa. Mas estavam tão alinhadas e bem vestidas que era pena que não
falassem assim... Por isso escrevi esta conversa para elas a terem tido... As suas
atitudes, os seus pequenos gestos, as suas criancices de olhares e sorrisos,
momentos de conversa que ambos entendemos no sentimento de existirmos,
disseram nitidamente o que falsamente finjo que reporto... Quando eles um
dia forem ambos e sem dúvida casados cada um para seu lado — em intentos
de mais juntos, para poderem casar um com o outro -, se eles por acaso
olharem para estas páginas, acredito que reconhecerão o que nunca disseram e
que não deixarão de me ser gratos por eu ter interpretado tão bem, não só o
que eles são realmente, mas o que eles nunca desejaram ser nem sabiam que
eram..
.
Eles, se me lerem, acreditem que foi isto que realmente disseram. Na
conversa aparente que eles escutaram um ao outro faltavam tantas coisas que
— faltou o perfume da hora, o aroma do chá, a significação para o caso do
ramo de que ela tinha ao peito... Tudo isso, que assim formou parte da
conversa, eles se esqueceram de dizer... Mas tudo isto lá estava e o que eu faço
é, mais do que um trabalho literário, um trabalho de historiador. Reconstruo,
completando... E isso me servirá de desculpa junto deles, de ter estado tão
fixamente a escutar-lhes o que diziam e não queriam dizer.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:45

371.

Apoteose do absurdo

Falo a sério e tristemente; este assunto não é para alegria, porque as alegrias
do sonho são contraditórias e entristecidas e por isso aprazíveis de uma
misteriosa maneira especial.
Sigo às vezes em mim, imparcialmente, essas coisas deliciosas e absurdas
que eu não posso poder ver, porque são ilógicas à vista — pontes sem donde
nem para onde, estradas sem princípio nem fim, paisagens invertidas — o
absurdo, o ilógico, o contraditório, tudo quanto nos desliga e afasta do real e
do seu séquito disforme de pensamentos práticos e sentimentos humanos e
desejos de ação útil e profícua. O absurdo salva de chegar apesar de tédio
aquele estado de alma que começa por se sentir a doce fúria de sonhar.
E eu chego a ter não sei que misterioso modo de visionar esses absurdos —
não sei explicar, mas eu vejo essas coisas inconcebíveis à visão .


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 07:46

372.

Apoteose do absurdo

Absurdemos a vida, de leste a oeste.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:41

373.

A vida é uma viagem experimental, feita involuntariamente. É uma viagem
do espírito através da matéria, e como é o espírito que viaja, é nele que se vive.
Há, por isso, almas contemplativas que têm vivido mais intensa, mais extensa,
mais tumultuariamente do que outras que têm vivido externas. O resultado é
tudo. O que se sentiu foi o que se viveu. Recolhe-se tão cansado de um sonho
como de um trabalho visível. Nunca se viveu tanto como quando se pensou
muito.
Quem está ao canto da sala dança com todos os dançarmos. Vê tudo, e,
porque vê tudo, vive tudo. Como tudo, em súmula e ultimidade, é uma
sensação nossa, tanto vale o contacto com um corpo como a visão dele, ou,
até, a sua simples recordação. Danço, pois, quando vejo dançar. Digo, como o
poeta inglês, narrando que contemplava, deitado na erva ao longe, três
ceifeiros:

"Um quarto está ceifando, e esse sou eu."
Vem isto tudo, que vai dito como vai sentido, a propósito do grande
cansaço, aparentemente sem causa, que desceu hoje súbito sobre mim. Estou
não só cansado, mas amargurado, e a amargura é incógnita também. Estou, de
angustiado, à beira de lágrimas — não de lágrimas que se choram, mas que se
reprimem, lágrimas de uma doença da alma, que não de uma dor sensível.
Tanto tenho vivido sem ter vivido! Tanto tenho pensado sem ter pensado!
Pesam sobre mim mundos de violências paradas, de aventuras tidas sem
movimento. Estou farto do que nunca tive nem terei, tediento de deuses por
existir. Trago comigo as feridas de todas as batalhas que evitei. O meu corpo
muscular está moído do esforço que nem pensei em fazer.

Baço, mudo, nulo... O céu ao alto é de um verão morto, imperfeito. Olho-o
como se ele ali não estivesse. Durmo o que penso, estou deitado andando,
sofro sem sentir. A minha grande nostalgia é de nada, é nada, como o céu alto
que não vejo, e que estou fitando impessoalmente.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:41

374.

Na perfeição nítida do dia estagna contudo o ar cheio de sol. Não é a
pressão presente da trovoada futura, mal-estar dos corpos involuntários, vago
baço do céu azul deveras. E o torpor sensível da insinuação do ócio, pluma
roçando leve a face a adormecer. E estio mas verão. Apetece o campo até a
quem não gosta dele.

Se eu fora outro, penso, este seria para mim um dia feliz, pois o sentiria
sem pensar nele. Concluiria com uma alegria de antecipação o meu trabalho
normal — aquele que me é monotonamente anormal todos os dias. Tomaria o
carro para Benfica, com amigos combinados. Jantaríamos em pleno fim de
sol, entre hortas. A alegria em que estaríamos seria parte da paisagem, e por
todos, quantos nos vissem, reconhecida como de ali.

Como, porém, sou eu, gozo um pouco o pouco que é imaginar-me esse
outro. Sim, logo ele-eu, sob parreira ou árvore, comerá o dobro do que sei
comer, beberá o dobro do que ouso beber, rirá o dobro do que posso pensar
em rir. Logo ele, eu agora. Sim, um momento fui outro: vi, vivi, em outrem,
essa alegria humilde e humana de existir como um animal em mangas de
camisa. Grande dia que me fez sonhar assim! É tudo azul e sublime no alto
como o meu sonho efémero de ser caixeiro de praça com saúde em não sei
que férias de fim de dia.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:42

375.


O campo é onde não estamos. Ali, só ali, há sombras verdadeiras e
verdadeiro arvoredo.
A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida,
há um ponto final.
O milagre é a preguiça de Deus, ou, antes, a preguiça que Lhe atribuímos,
inventando o milagre.
Os Deuses são a encarnação do que nunca poderemos ser.
O cansaço de todas as hipóteses...


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:43

376.


A leve embriaguez da febre ligeira, quando um desconforto mole e
penetrante e frio pelos ossos doridos fora e quente nos olhos sob têmporas
que batem — a esse desconforto quero como um escravo a um tirano amado.
Dá-me aquela quebrada passividade trémula em que entrevejo visões, viro
esquinas de ideias e entre entrepolamentos de sentimentos me desconcerto’.
Pensar, sentir, querer, tornam-se uma só confusa coisa. As crenças, as
sensações, as coisas imaginadas e as atuais estão desarrumadas, são como o
conteúdo misturado no chão, de várias gavetas subvertidas


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:43

377.


A sensação da convalescença, sobretudo se se fez mal sentir nos nervos’ a
doença que a precedeu, tem qualquer coisa de alegria triste. Há um outono nas
emoções e nos pensamentos, ou, antes, um daqueles princípios de primavera
que, salvo que não caem folhas, parecem, no ar e no céu, o outono.
O cansaço sabe bem, e o bem que sabe dói um pouco. Sentimo-nos um
pouco à parte da vida, ainda que nela, como que na varanda da casa de viver.
Estamos contemplativos sem pensar, sentimos sem emoção definível. A
vontade sossega, pois não há necessidade dela.
É então que certas memórias, certas esperanças, certos vagos desejos
sobem lentamente a rampa da consciência, como caminheiros vagos vistos do
alto do monte. Memórias de coisas fúteis, esperança de coisas que não fez mal
que não fossem, desejos que não tiveram violência de natureza ou de emissão,
que nunca puderam querer ser.

Quando o dia se ajusta a estas sensações, como hoje, que, ainda que estio,
está meio nublado com azuis, e um vago vento que por não ser quente é quase
frio, então aquele estado de alma se acentua em que pensamos, sentimos,
vivemos estas impressões. Não que sejam mais claras as memórias, as
esperanças, os desejos que tínhamos. Mas sente-se mais, e a sua soma incerta
pesa um pouco, absurdamente, sobre o coração.

Há qualquer coisa de longínquo em mim neste momento. Estou de facto à
varanda da vida, mas não é bem desta vida. Estou por sobre ela, e vendo-a de
onde vejo. Jaz diante de mim, descendo em socalcos e resvalamentos, como
uma paisagem diversa, até aos fumos sobre casas brancas das aldeias do vale.
Se cerrar os olhos, continuo vendo, pois que não vejo. Se os abrir nada mais
vejo, pois que não via. Sou todo eu uma vaga saudade, nem do passado, nem
do futuro: sou uma saudade do presente, anónima, prolixa e incompreendida.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:44

378.


Os classificadores de coisas, que são aqueles homens de ciência cuja ciência
é só classificar, ignoram, em geral, que o classificável é infinito e portanto se
não pode classificar. Mas o em que vai meu pasmo é que ignorem a existência
de classificáveis incógnitos, coisas da alma e da consciência que estão nos
interstícios do conhecimento.

Talvez porque eu pense de mais ou sonhe de mais, o certo é que não
distingo entre a realidade que existe e o sonho, que é a realidade que não
existe. E assim intercalo nas minhas meditações do céu e da terra coisas que
não brilham de sol ou se pisam com pés — maravilhas fluidas da imaginação.
Douro-me de poentes supostos, mas o suposto é vivo na suposição.
Alegro-me de brisas imaginárias, mas o imaginário vive quando se imagina.
Tenho alma por hipóteses várias, mas essas hipóteses têm alma própria, e me
dão portanto a que têm.

Não há problema senão o da realidade, e esse é insolúvel e vivo. Que sei eu
da diferença entre uma árvore e um sonho? Posso tocar na árvore; sei que
tenho o sonho. Que é isto, na sua verdade?
Que é isto? Sou eu que, sozinho no escritório deserto, posso viver
imaginando sem desvantagem da inteligência. Não sofro interrupção de
pensar das carteiras abandonadas e da secção de remessas só com papel e
cordéis em rolos. Estou, não no meu banco alto, mas recostado, por uma
promoção por fazer, na cadeira de braços redondos do Moreira. Talvez seja a
influência do lugar que me unge de distraído. Os dias de grande calor fazem
sono; durmo sem dormir por falta de energia. E por isso penso assim.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:45

379.


Intervalo doloroso

Já me cansa a rua, mas não, não me cansa — tudo é rua na vida. Há a
taberna em frente, que vejo se olho por cima do ombro direito; e há o
convento em frente, que vejo se olho por cima do ombro esquerdo; e, no
meio, que não verei se me não voltar de todo, o sapateiro enche de som
regular o portão do escritório da Companhia Africana. Os outros andares são
indeterminados. No terceiro andar há uma pensão, dizem que imoral, mas isso
é como tudo, a vida.

Cansar-me a rua? Canso-me só quando penso. Quando olho a rua, ou a
sinto, não penso: trabalho com um grande repouso íntimo, último naquele
canto, escriturantemente ninguém. Não tenho alma, ninguém tem alma —
tudo é trabalho na casa larga. Onde os milionários gozam, sempre no
estrangeiro deles, também há trabalho, e também não há alma. Fica de tudo
um ou outro poeta. Quem me dera que de mim ficasse uma frase, uma coisa
dita de que se dissesse, Bem feito!, como os números que vou inscrevendo,
copiando-os, no livro da minha vida inteira.
Nunca deixarei, creio, de ser ajudante de guarda-livros de um armazém de
fazendas. Desejo, com uma sinceridade que é feroz, não passar nunca a
guarda- livros.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:46

380.

Há muito — não sei se há dias, se há meses — não registo impressão
nenhuma; não penso, portanto não existo. Estou esquecido de quem sou; não
sei escrever porque não sei ser. Por um adormecimento oblíquo, tenho sido
outro. Saber que me não lembro é despertar.
Desmaiei um bocado da minha vida. Volto a mim sem memória do que
tenho sido, e a do que fui sofre de ter sido interrompida. Há em mim uma
noção confusa de um intervalo incógnito, um esforço fútil de parte da
memória para querer encontrar a outra. Não consigo reatar-me. Se tenho
vivido, esqueci-me de o saber.

Não é que seja este primeiro dia do outono sensível — o primeiro de frio
não fresco que veste o estio morto de menos luz — que me dê, numa
transparência alheada, uma sensação de desígnio morto ou de vontade falsa.
Não é que haja, neste interlúdio de coisas perdidas, um vestígio incerto de
memória inútil. É, mais dolorosamente que isso, um tédio de estar lembrando
o que se não recorda, um desalento do que a consciência perdeu entre algas
ou juncos, a beira não sei de quê.

Conheço que o dia, límpido e imóvel, tem um céu positivo e azul menos
claro que o azul profundo. Conheço que o sol, vagamente menos de ouro que
era, doura de reflexos húmidos os muros e as janelas. Conheço que, não
havendo vento ou brisa que o lembre e negue, dorme todavia uma frescura
desperta pela cidade indefinida. Conheço tudo isso, sem pensar nem querer, e
não tenho sono senão por lembrança, nem saudade senão por desassossego.
Convalesço, estéril e longínquo, da doença que não tive. Predisponho-me,
ágil de despertar, ao que não ouso. Que sono me não deixou dormir? Que
afago me não quis falar? Que bom ser outro com este hausto frio de
primavera forte! Que bom poder ao menos pensá-lo, melhor que a vida,
enquanto ao longe na imagem relembrada os juncos, sem vento que se sinta,
se inclinam glaucos da ribeira!

Quantas vezes, relembrando quem não fui, me medito jovem e esqueço! E
eram outras que foram as paisagens que não vi nunca; eram novas sem terem
sido as paisagens que deveras vi. Que me importa? Findei a acasos e
interstícios, e, enquanto o fresco do dia é o do sol mesmo, dormem frios, no
poente que vejo sem ter, os juncos escuros da ribeira.


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Mensaje por Maria Lua Dom 27 Nov 2022, 08:47

381.

Ninguém ainda definiu, com linguagem com que compreendesse quem o
não tivesse experimentado, o que é o tédio. O a que uns chamam tédio, não é
mais que aborrecimento; o que a outros o chamam, não é senão mal-estar; há
outros, ainda, que chamam tédio ao cansaço. Mas o tédio, embora participe do
cansaço, é do mal-estar, e do aborrecimento, participa deles como a água
participa do hidrogénio e oxigénio, de que se compõe. Inclui-os sem a eles se
assemelhar.

Se uns dão assim ao tédio um sentido restrito e incompleto, um ou outro
lhe presta uma significação que em certo modo o transcende — como quando
se chama tédio ao desgosto íntimo e espiritual da variedade e da incerteza do
mundo. O que faz abrir a boca, que é o aborrecimento; o que faz mudar de
posição, que é o mal-estar; o que faz não se poder mexer, que é o cansaço —
nenhuma destas coisas é o tédio; mas também o não é o sentimento profundo
da vacuidade das coisas, pelo qual a aspiração frustrada se liberta, a ânsia
desiludida se ergue, e se forma na alma a semente da qual nasce o místico ou o
santo.

O tédio é, sim, o aborrecimento do mundo, o mal-estar de estar vivendo, o
cansaço de se ter vivido; o tédio é, deveras, a sensação carnal da vacuidade
prolixa das coisas. Mas o tédio é, mais do que isto, o aborrecimento de outros
mundos, quer existam quer não; o mal-estar de ter que viver, ainda que outro,
ainda que de outro modo, ainda que noutro mundo; o cansaço, não só de
ontem e de hoje, mas de amanhã também, da eternidade, se a houver, e do
nada, se é ele que é a eternidade. Nem é só a vacuidade das coisas e dos seres
que dói na alma quando ela está em tédio: é também a vacuidade de outra
coisa qualquer, que não as coisas e os seres, a vacuidade da própria alma que
sente o vácuo, que se sente vácuo, e que nele de si se enoja e se repudia.



O tédio é a sensação física do caos, e de que o caos é tudo. O aborrecido, o
mal-estante, o cansado sentem-se presos numa cela estreita. O desgostoso da
estreiteza da vida sente-se algemado numa cela grande. Mas o que tem tédio
sente-se preso em liberdade fruste numa cela infinita. Sobre o que se aborrece,
ou tem mal-estar, ou fadiga, podem desabar os muros da cela, e soterrá-lo. Ao
que se desgosta da pequenez do mundo podem cair as algemas, e ele fugir, ou
doer de as não poder tirar, e ele, com sentir a dor, reviver-se sem desgosto.
Mas os muros da cela infinita não nos podem soterrar, porque não existem;
nem nos podem sequer fazer viver pela dor as algemas que ninguém nos pôs.
E é isto que eu sinto ante a beleza plácida desta tarde que finda

imperecivelmente. Olho o céu alto e claro, onde coisas vagas, róseas, como
sombras de nuvens, são uma penugem impalpável de uma vida alada e
longínqua. Baixo os olhos sobre o rio, onde a água, não mais que levemente
trémula, é de um azul que parece espelhado de um céu mais profundo. Ergo
de novo os olhos ao céu, há já, entre o que de vagamente colorido se esfia
sem farrapos no ar invisível, um tom algendo de branco baço, como se
alguma coisa também das coisas, onde são mais altas e frustes, tivesse um
tédio material próprio, uma impossibilidade de ser o que é, um corpo
imponderável de angústia e de desolação.

Mas quê? Que há no ar alto mais que o ar alto, que não é nada? Que há no
céu mais que uma cor que não é dele? Que há nesses farrapos de menos que
nuvens, de que já duvido, mais que uns reflexos de luz materialmente
incidentes de um sol já submisso? Que há em tudo isto senão eu? Ah, mas o
tédio é isso, é só isso. É que em tudo isto — céu, terra, mundo, — o que há
em tudo isto não é senão eu!


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