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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC) - Página 35 Empty

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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC)

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Mensaje por Maria Lua Mar Nov 22, 2022 11:14 am

322.

Por fácil que seja, todo o gesto representa a violação de um segredo
espiritual. Todo o gesto é um acto revolucionário; um exílio, talvez, da
verdadeira dos nossos propósitos.
A ação é uma doença do pensamento, um cancro da imaginação. Agir é
exilar-se. Toda a ação é incompleta e imperfeita. O poema que eu sonho não
tem falhas senão quando tento realizá-lo. No mito de Jesus está escrito isto;
Deus, ao tornar-se homem, não pode acabar senão pelo martírio. O supremo
sonhador tem por filho o martírio supremo.
As sombras rotas das folhagens, o canto trémulo das aves, os braços
estendidos dos rios, trepidando ao sol o seu luzir fresco, as verduras, as
papoilas, e a simplicidade das sensações — ao sentir isto, sinto dele saudades,
como se ao senti-lo o não sentisse.

As horas, como um carro ao entardecer, regressam chiando pelas sombras
dos meus pensamentos. Se ergo os olhos de sobre o meu pensamento, elas
ardem-me do espetáculo do mundo.
Para realizar um sonho é preciso esquecê-lo, distrair dele a atenção. Por isso
realizar é não realizar. A vida está cheia de paradoxos como as rosas de
espinhos.
Eu desejaria fazer a apoteose de uma incoerência nova, que ficasse sendo
como que a constituição negativa da nova anarquia das almas. Compilar um
digesto dos meus sonhos pareceu-me sempre que seria útil à humanidade. Por
isso mesmo me abstive de o tentar. A ideia de que o que eu fazia pudesse ser
aproveitável magoou-me, secou-me para mim.

Tenho quintas nos arredores da vida. Passo ausências de cidade da minha
Ação entre as árvores e as flores do meu devaneio. Ao meu retiro verde nem
chegam os ecos da vida dos meus gestos. Durmo a minha memória como
procissões infinitas. Nos cálices da minha meditação só bebo o sorriso do
vinho louro; só o bebo com os olhos, fechando-os, e a Vida passa como uma
vela longínqua.
Os dias de sol sabem-me ao que eu não tenho. O céu azul, e as nuvens
brancas, as árvores, a flauta que ali falta — éclogas incompletas pelo
estremecimento dos ramos... Tudo isto é a harpa muda por onde eu roço a
leveza dos meus dedos.

A academia vegetal dos silêncios... O teu nome soando como as papoilas...
Os tanques... O meu regresso... O padre louco que endoideceu na missa. Estas
recordações são dos meus sonhos... Não fecho os olhos mas não vejo nada...
Não estão aqui as coisas que vejo... Águas ...
Numa confusão de emaranhamentos, o verdor das árvores é parte do meu
sangue. Bate-me a vida no coração distante. Eu não fui destinado à realidade,
e a vida quis vir ter comigo.
A tortura do destino! Quem sabe se morrerei amanhã! Quem sabe se não
vai acontecer-me hoje qualquer coisa de terrível para a minha alma!... As
vezes, quando penso nestas coisas, apavora-me a tirania suprema que nos faz
ter de olhar puros não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai
ao encontro.


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Recomendado Re: FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC)

Mensaje por Maria Lua Mar Nov 22, 2022 11:15 am

323.



... A chuva caía ainda triste, mas mais branda, como num cansaço universal;
não havia relâmpagos, e apenas, de vez em quando, com o som de já longe,
um trovão curto resmungava duro, e às vezes como que se interrompia,
cansado também. Como que subitamente, a chuva abrandou mais ainda. Um
dos empregados abriu as janelas para a Rua dos Douradores. Um ar fresco,
com restos mortos de quente, insinuou-se na sala grande. A voz do patrão
Vasques soou alta no telefone do gabinete: "Então, ainda está a falar?" E
houve um som de fala seca e à parte — comentário, obsceno (adivinha-se), à
menina longínqua.






397


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Mensaje por Maria Lua Miér Nov 23, 2022 12:01 am

324.



Saber não ter ilusões é absolutamente necessário para se poder ter sonhos.
Atingirás assim o ponto supremo da abstenção sonhadora, onde
os sentilos se mesclam, os sentimentos se extravasam, as ideias se entrepenetram.
Assim como as cores e os sons sabem uns a outros, os ódios sabem a amores,
e as coisas concretas a abstratas, e as abstratas a concretas. Quebram-se os
laços que, ao mesmo tempo que ligavam tudo, separavam tudo, isolando cada
elemento. Tudo se funde e confunde.


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Mensaje por Maria Lua Miér Nov 23, 2022 12:02 am

325.



Ficções do interlúdio, cobrindo coloridamente o marasmo e a desídia da
nossa íntima descrença.


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Mensaje por Maria Lua Miér Nov 23, 2022 12:03 am

326.


De resto eu não sonho, eu não vivo, salvo a vida real. Todas as naus são
naus logo que esteja em nós o poder de as sonhar. O que mata o sonhador é
não viver quando sonha; o que fere o agente é não sonhar quando vive. Eu
fundi numa cor una de felicidade a beleza do sonho e a realidade da vida. Por
mais que possuamos um sonho nunca se possui um sonho tanto como se
possui o lenço que se tem na algibeira, ou, se quisermos, como se possui a
nossa própria carne. Por mais que se viva a vida em plena, desmesurada e
triunfante ação, nunca desaparecem o do contacto com os outros, o tropeçar
em obstáculos, ainda que mínimos, o sentir o tempo decorrer.

Matar o sonho é matarmo-nos. E mutilar a nossa alma. O sonho é o que
temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.
O Universo, a Vida — seja isso real ou ilusão — é de todos, todos podem
ver o que eu vejo, e possuir o que eu possuo — ou, pelo menos, pode
conceber-se vendo-o e possuindo e isso é
Mas o que eu sonho ninguém pode ver senão eu, ninguém a não ser eu
possuir. E se do mundo exterior o meu vê-lo difere de como outros o veem,
isso vem de que do sonho meu eu ponho em vê-lo, sem querer, do que do
sonho meu se cola aos meus olhos e ouvidos.





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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:01 am

327.


Na grande claridade do dia o sossego dos sons é de ouro também. Há
suavidade no que acontece. Se me dissessem que havia guerra, eu diria que
não havia guerra. Num dia assim nada pode haver que pese sobre não haver
senão suavidade


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:02 am

328.


Junta as mãos, põe-nas entre as minhas e escuta-me, ó meu amor.
Eu quero, falando numa voz suave e embaladora, como a de um confessor
que aconselha, dizer-te o quanto a ânsia de atingir fica aquém do que
atingimos.
Quero rezar contigo, a minha voz com a tua atenção, a litania da
desesperança .
Não há obra de artista que não pudera ter sido mais perfeita. Lido verso
por verso, o maior poema poucos versos tem que não pudessem ser
melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais intensos, e nunca o
seu conjunto é tão perfeito que o não pudesse ser muitíssimo mais.
Ai do artista que repara para isto! Que um dia pensa nisto! Nunca mais o
seu trabalho é alegria, nem o seu sono sossego. É moço sem mocidade e
envelhece descontente.

E para quê exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito.
Se eu bem pudesse compenetrar-me realmente de quanto a renúncia é bela,
que dolorosamente feliz para sempre que eu seria!
Porque tu não amas o que eu digo com os ouvidos com que eu me ouço
dizê-lo. Eu próprio se me ouço falar alto, os ouvidos com que me ouço falar
alto não me escutam do mesmo modo que o ouvido íntimo com que me ouço
pensar palavras. Se eu me erro, ouvindo-me, e tenho que perguntar, tantas
vezes, a mim próprio o que quis dizer, os outros quanto me não entenderão!
De quão complexas ininteligências não é feita a compreensão dos outros de
nós.

A delícia de se ver compreendido, não a pode ter quem se quer não
compreendido, porque só aos complexos e incompreendidos isso acontece; e
os outros, os simples, aqueles que os outros podem compreender — esses
nunca têm o desejo de serem compreendidos.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:03 am

329.


Pensaste já, ó Outra, quão invisíveis somos uns para os outros? Meditaste já
em quanto nos desconhecemos? Vemo-nos e não nos vemos. Ouvimo-nos e
cada um escuta apenas uma voz que está dentro de si.
As palavras dos outros são erros do nosso ouvir, naufrágios do nosso
entender. Com que confiança cremos no nosso sentido das palavras dos
outros. Sabem-nos a morte, volúpias que outros põem em palavras. Lemos
volúpia e vida no que outros deixam cair dos lábios sem intenção de dar
sentido profundo.
A voz dos regatos que interpretas, pura explicadora, a voz das árvores onde
pomos sentido no seu murmúrio — ah, meu amor ignoto, quanto tudo isso é
nós e fantasias tudo de cinza que se escoa pelas grades da nossa cela!


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:04 am

330.

Visto que talvez nem tudo seja falso, que nada, ó meu amor, nos cure do
prazer quase-espasmo de mentir.
Requinte último! Perversão máxima! A mentira absurda tem todo o encanto
do perverso com o último e maior encanto de ser inocente. A perversão de
propósito inocente — quem excederá, ó o requinte máximo disto? A
perversão que nem aspira a dar-nos gozo, que nem tem a fúria de nos causar
dor, que cai para o chão entre o prazer e a dor, inútil e absurda como um
brinquedo mal feito com que um adulto quisesse divertir-se!

Não conheces, ó Deliciosa, o prazer de comprar coisas que não são
precisas? Sabes o sabor aos caminhos que, se os tomássemos esquecidos’, era
por erro que os tomaríamos? Que acto humano tem uma cor tão bela como
os actos espúrios — que mentem à sua própria natureza e desmentem o que
lhes é a intenção?
A sublimidade de desperdiçar uma vida que podia ser útil, de nunca
executar uma obra que por força seria bela, de abandonar a meio caminho a
estrada certa da vitória!
Ah, meu amor, a glória das obras que se perderam e nunca se acharão, dos
tratados que são títulos apenas hoje, das bibliotecas que arderam, das estátuas
que foram partidas.

Que santificados de Absurdo os artistas que queimaram uma obra muito
bela, daqueles que, podendo fazer uma obra bela, de propósito a fizeram
imperfeita, daqueles poetas máximos do Silêncio que, reconhecendo que
poderiam fazer obra de todo perfeita, preferiram coroá-la de nunca a fazer.
(Se fora imperfeita, vá.)
Quão mais bela a Gioconda desde que a não pudéssemos ver! E se quem a
roubasse a queimasse, quão artista seria, que maior artista que aquele que a
pintou!

Por que é bela a arte? Porque é inútil. Porque é feia a vida? Porque é toda
fins e propósitos e intenções. Todos os seus caminhos são para ir de um
ponto para o outro. Quem nos dera o caminho feito de um lugar donde
ninguém parte para um lugar para onde ninguém vai! Quem desse a sua vida a
construir uma estrada começada no meio de um campo e indo ter ao meio de
um outro; que, prolongada, seria útil, mas que ficou, sublimemente, só o meio
de uma estrada.

A beleza das ruínas? O não servirem já para nada.
A doçura do passado? O recordá-lo, porque recordá-lo é torná-lo presente,
e ele nem o é, nem o pode ser — o absurdo, meu amor, o absurdo.
E eu que digo isto — porque escrevo eu este livro? Porque o reconheço
imperfeito. Calado seria a perfeição; escrito, imperfeiçoa-se; por isso o
escrevo.

E, sobretudo, porque defendo a inutilidade, o absurdo, — eu escrevo este
livro para mentir a mim próprio, para trair a minha própria teoria.
E a suprema glória disto tudo, meu amor, é pensar que talvez isto não seja
verdade, nem eu o creia verdadeiro.
E quando a mentira começar a dar-nos prazer, falemos a verdade para lhe
mentirmos. E quando nos causar angústia, paremos, para que o sofrimento
nos não signifique nem perversamente prazer...


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:05 am

331.


Doem-me a cabeça e o universo. As dores físicas, mais nitidamente dores
que as morais, desenvolvem, por um reflexo no espírito, tragédias incontidas
nelas. Trazem uma impaciência de tudo que, como é de tudo, não exclui
nenhuma das estrelas.
Não comungo, não comunguei nunca, não poderei, suponho, alguma vez
comungar aquele conceito bastardo pelo qual somos, como almas,
consequências de uma coisa material chamada cérebro, que existe, por
nascença dentro de outra coisa material chamada crânio. Não posso ser
materialista, que é o que, creio, se chama àquele conceito, porque não posso
estabelecer uma relação nítida — uma relação visual direi — entre uma massa
visível de matéria cinzenta, ou de outra cor qualquer, e esta coisa eu que por
detrás do meu olhar vê os céus e os pensa, e imagina céus que não existem.

Mas, ainda que nunca possa cair no abismo de supor que uma coisa possa ser
outra só porque estão no mesmo lugar, como a parede e a minha sombra nela,
ou que depender a alma do cérebro seja mais que depender eu, para o meu
trajeto, do veículo em que vou, creio, todavia, que há entre o que em nós é só
espírito e o que em nós é espírito do corpo uma relação de convívio em que
podem surgir discussões. E a que surge vulgarmente é a de a pessoa mais
ordinária incomodar a que o é menos.

Dói-me a cabeça hoje, e é talvez do estômago que me dói. Mas a dor, uma
vez sugerida do estômago à cabeça, vai interromper as meditações que tenho
por detrás de ter cérebro. Quem me tapa os olhos não me cega, porém
impede-me de ver. E assim agora, porque me dói a cabeça, acho sem valia
nem nobreza o espetáculo, neste momento monótono e absurdo, do que aí
fora mal quero ver como mundo. Dói-me a cabeça, e isto quer dizer que
tenho consciência de uma ofensa que a matéria me faz, e que, porque como
todas as ofensas, me indigna, me predispõe para estar mal com toda a gente,
incluindo a que está próxima porém me não ofendeu.

O meu desejo é de morrer, pelo menos temporariamente, mas isto, como
disse, só porque me dói a cabeça. E neste momento, de repente, lembra-me
com que melhor nobreza um dos grandes prosadores diria isto. Desenrolaria,
período a período, a mágoa anónima do mundo; aos seus olhos imaginadores
de parágrafos surgiriam, diversos, os dramas humanos que há na terra, e
através do latejar das fontes febris erguer-se-ia no papel toda uma metafísica
da desgraça. Eu, porém, não tenho nobreza estilística. Dói-me a cabeça
porque me dói a cabeça. Dói-me o universo porque a cabeça me dói. Mas o
universo que realmente me dói não é o verdadeiro, o que existe porque não
sabe que existo, mas aquele, meu de mim, que, se eu passar as mãos pelos
cabelos, me faz parecer sentir que eles sofrem todos só para me fazerem
sofrer.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:06 am

332.


O pasmo que me causa a minha capacidade para a angústia. Não sendo, de
natureza, um metafísico, tenho passado dias de angústia aguda, física mesmo,
com a indecisão dos problemas metafísicos e religiosos... Vi depressa que o
que eu tinha por a solução do problema religioso era resolver um problema
emotivo em termos da razão.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 12:10 am

333.

Nenhum problema tem solução. Nenhum de nós desata o nó górdio; todos
nós ou desistimos ou o cortamos. Resolvemos bruscamente, com o
sentimento, os problemas da inteligência, e fazemo-lo ou por cansaço de
pensar, ou por timidez de tirar conclusões, ou pela necessidade absurda de
encontrar um apoio, ou pelo impulso gregário de regressar aos outros e à vida.
Como nunca podemos conhecer todos os elementos de uma questão,
nunca a podemos resolver.
Para atingir a verdade faltam-nos dados que bastem, e processos
intelectuais que esgotem a interpretação desses dados.






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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 6:06 am

334.


Passaram meses sobre o último que escrevi. Tenho estado num sono do
entendimento pelo qual tenho sido outro na vida. Uma sensação de felicidade
translata tem-me sido frequente. Não tenho existido, tenho sido outro, tenho
vivido sem pensar.
Hoje, de repente, voltei ao que sou ou me sonho. Foi um momento de
grande cansaço, depois de um trabalho sem relevo. Pousei a cabeça contra as
mãos, fincados os cotovelos na mesa alta inclinada. E, fechados os olhos,
retrovei-me.
Num sono falso longínquo relembrei tudo quanto fora, e foi com uma
nitidez de paisagem vista que se me ergueu de repente, antes ou depois de
tudo, o lado largo da quinta velha, de onde, a meio da visão, a eira se erguia
vazia.

Senti imediatamente a inutilidade da vida. Ver, sentir, lembrar, esquecer —
tudo isso se me confundiu, numa vaga dor nos cotovelos, com o murmúrio
incerto da rua próxima e os pequenos ruídos do trabalho sossegado no
escritório quedo. Quando, depostas as mãos sobre a mesa ao alto, lancei sobre
o que lá via o olhar que deveria ser de um cansaço cheio de mundos mortos, a
primeira coisa que vi, com ver, foi uma mosca varejeira (aquele vago zumbido
que não era do escritório!) Poisada em cima do tinteiro. Contemplei-a do
fundo do abismo, anónimo e desperto. Ela tinha tons verdes de azul preto e
era lustrosa de um nojo que não era feio. Uma vida!

Quem sabe para que forças supremas, deuses ou demónios da Verdade em
cuja sombra erramos, não serei senão a mosca lustrosa que poisa um
momento diante deles? Reparo fácil? Observação já feita? Filosofia sem
pensamento? Talvez, mas eu não pensei: senti. Foi carnalmente, diretamente,
com um horror profundo e escuro, que fiz a comparação risível. Fui mosca
quando me comparei à mosca. Senti-me mosca quando supus que me o senti.
E senti-me uma alma à mosca, dormi-me mosca, senti-me fechado mosca. E o
horror maior é que no mesmo tempo me senti eu. Sem querer, ergui os olhos
para a direção do teto, não baixasse sobre mim uma régua suprema, a
esmagar-me, como eu poderia esmagar aquela mosca. Felizmente, quando
baixei os olhos, a mosca, sem ruído que eu ouvisse, desaparecera. O escritório
involuntário estava outra vez sem filosofia.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 6:07 am

335.



"Sentir é uma maçada." Estas palavras casuais de não sei que conviva à
conversa de uns minutos, ficou-me sempre brilhando no chão da memória. A
própria forma plebeia da frase lhe dá sal e pimenta’


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 6:08 am

336.


Não sei quantos terão contemplado, com o olhar que merece, uma rua
deserta com gente nela. Já este modo de dizer parece querer dizer qualquer
outra coisa, e efetivamente a quer dizer. Uma rua deserta não é uma rua onde
não passa ninguém, mas uma rua onde os que passam, passam nela como se
fosse deserta. Não há dificuldade em compreender isto desde que se o tenha
visto: uma zebra é impossível para quem não conheça mais que um burro.
As sensações ajustam-se, dentro de nós, a certos graus e tipos da
compreensão delas. Há maneiras de entender que têm maneiras de ser
entendidas.
Há dias em que sobe em mim, como que da terra alheia à cabeça própria,
um tédio, uma mágoa, uma angústia de viver que só me não parece
insuportável porque de facto a suporto. E um estrangulamento da vida em
mim mesmo, um desejo de ser outra pessoa em todos os poros, uma breve
notícia do fim.



409


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:34 am

337.


O que tenho sobretudo é cansaço, e aquele desassossego que é gémeo do
cansaço quando este não tem outra razão de ser senão o estar sendo. Tenho
um receio íntimo dos gestos a esboçar, uma timidez intelectual das palavras a
dizer. Tudo me parece antecipadamente fruste. O insuportável tédio de todas
estas caras, alvares de inteligência ou de falta dela, grotescas até à náusea de
felizes ou infelizes, horrorosas porque existem, maré separada de coisas vivas
que me são alheias...


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:35 am

338.


Sempre me tem preocupado, naquelas horas ocasionais de desprendimento
em que tomamos consciência de nós mesmos como indivíduos que somos
outros para os outros, a imaginação da figura que farei fisicamente, e até
moralmente, para aqueles que me contemplam e me falam, ou todos os dias
ou por acaso.

Estamos todos habituados a considerar-nos como
primordialmente realidades mentais, e aos outros como diretamente realidades
físicas; vagamente nos consideramos como gente física, para efeitos nos olhos
dos outros; vaga- mente consideramos os outros como realidades mentais,
mas só no amor ou no conflito tomamos verdadeira consciência de que os
outros têm sobretudo alma, como nós para nós. Perco-me, por isso, às vezes,
numa imaginação fútil de que espécie de gente serei para os que me veem,
como é a minha voz, que tipo de figura deixo escrita na memória involuntária
dos outros, de que maneira os meus gestos, as minhas palavras, a minha vida
aparente, se gravam nas retinas da interpretação alheia. Não consegui nunca
ver-me de fora. Não há espelho que nos dê a nós como foras, porque não há
espelho que nos tire de nós mesmos.

Era precisa outra alma, outra colocação
do olhar e do pensar. Se eu fosse ator prolongado de cinema, ou gravasse em
discos audíveis a minha voz alta, estou certo que do mesmo modo ficaria
longe de saber o que sou do lado de lá, pois, queira o que queira, grave-se o
que de mim se grave, estou sempre aqui dentro, na quinta de muros altos da
minha consciência de mim.

Não sei se os outros serão assim, se a ciência da vida não consistirá
essencialmente em ser tão alheio a si mesmo que instintivamente se consegue
um alheamento e se pode participar da vida como estranho à consciência; ou
se os outros, mais ensimesmados do que eu, não serão de todo a bruteza de
não serem senão eles, vivendo exteriormente por aquele milagre pelo qual as
abelhas formam sociedades mais organizadas que qualquer nação, e as
formigas comunicam entre si com uma fala de antenas mínimas que excede
nos resultados a nossa complexa ausência de nos entendermos.

A geografia da consciência da realidade é de uma grande complexidade de
costas, acidentadíssima de montanhas e de lagos. E tudo me parece, se medito
de mais, uma espécie de mapa como o do Pays du Tendre ou das Viagens de
Gulliver, brincadeira da exatidão inscrita num livro irónico ou fantasista para
gáudio de entes superiores, que sabem onde é que as terras são terras.
Tudo é complexo para quem pensa, e sem dúvida o pensamento o torna
mais complexo por volúpia própria. Mas quem pensa tem a necessidade de
justificar a sua abdicação com um vasto programa de compreender, exposto,
como as razões dos que mentem, com todos os pormenores excessivos que
descobrem, com o espalhar da terra, a raiz da mentira.

Tudo é complexo, ou sou eu que o sou. Mas, de qualquer modo, não
importa porque, de qualquer modo, nada importa. Tudo isto, todas estas
considerações extraviadas da rua larga, vegeta nos quintais dos deuses
exclusos como trepadeiras longe das paredes. E sorrio, na noite em que
concluo sem fim estas considerações sem engrenagem, da ironia vital que as
faz surgir de uma alma humana, órfã, de antes dos astros, das grandes razões
do Destino.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:36 am

339.


Paira-me à superfície do cansaço qualquer coisa de áureo que há sobre as
águas quando o sol findo as abandona. Vejo-me como ao lago que imaginei, e
o que vejo nesse lago sou eu. Não sei como explique esta imagem, ou este
símbolo, ou este eu em que me figuro. Mas o que tenho por certo é que vejo,
como se de facto visse, um sol por trás de montes, dando raios perdidos sobre
o lago que os recebe a ouro escuro.

Um dos malefícios de pensar é ver quando se está pensando. Os que
pensam com o raciocínio estão distraídos, os que pensam com a emoção estão
dormindo, os que pensam com a vontade estão mortos. Eu, porém, penso
com a imaginação, e tudo quanto deveria ser em mim ou razão, ou mágoa, ou
impulso, se me reduz a qualquer coisa indiferente e distante, como este lago
porto entre rochedos onde o último do sol paira desalongadamente.
Porque parei, estremeceram as águas. Porque refleti, o sol recolheu-se.
Cerro os olhos lentos e cheios de sono, e não há dentro de mim senão uma
região lacustre onde a noite começa a deixar de ser dia num reflexo castanho
escuro de águas de onde as algas surgem.

Porque escrevi, nada disse. A minha impressão é que o que existe é sempre
em outra região, além de montes, e que há grandes viagens por fazer se
tivermos alma com que ter passos.
Cessei, como o sol na minha paisagem. Não fica, do que foi dito ou visto,
senão uma noite já fechada, cheia de brilho morto de lagos, numa planície sem
patos bravos, morta, fluida, húmida e sinistra


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:37 am

340.


Não acredito na paisagem. Sim. Não o digo porque creia no "a paisagem é
um estado de alma" do Amiel, um dos bons momentos verbais da mais
insuportável interiorice. Digo-o porque não creio.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:38 am

341.


Na minha alma ignóbil e profunda registo, dia a dia, as impressões que
formam a substância externa da minha consciência de mim. Ponho-as em
palavras vadias, que me desertam desde que as escrevo, e erram,
independentes de mim, por encostas e relvados de imagens, por áleas de
conceitos, por azinhagas de confusões. Isto de nada me serve, pois nada me
serve de nada. Mas desapoquento-me escrevendo, como quem respira melhor
sem que a doença haja passado.
Há quem, estando distraído, escreva riscos e nomes absurdos no
mataborrão de cantos entalados. Estas páginas são os rabiscos da minha

inconsciência intelectual de mim. Traço-as numa modorra de me sentir, como
um gato ao sol, e releio-as, por vezes, com um vago pasmo tardio, como o de
me haver lembrado de uma coisa que sempre esquecera.
Quando escrevo, visito-me solenemente. Tenho salas especiais, recordadas
por outrem em interstícios da figuração, onde me deleito analisando o que não
sinto, e me examino como a um quadro na sombra.

Perdi, antes de nascer, o meu castelo antigo. Foram vendidas, antes que eu
fosse, as tapeçarias do meu palácio ancestral. O meu solar de antes da vida
caiu em ruína, e só em certos momentos, quando o luar nasce em mim de
sobre os juncos do rio, me esfria a saudade dos lados de onde o resto
desdentado das paredes recorra negro contra o céu de azul escuro
esbranquiçado a amarelo de leite.
Distingo-me a esfinges. E do regaço da rainha que me falta cai, como um
episódio do bordado inútil, o novelo esquecido da minha alma. Rola para
debaixo do contador com embutidos, e há aquilo em mim que o segue como
olhos até que se perde num grande horror de túmulo e de fim.


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Mensaje por Maria Lua Jue Nov 24, 2022 11:39 am

342.

Nunca durmo: vivo e sonho, ou antes, sonho em vida e a dormir, que
também é vida. Não há interrupção na minha consciência: sinto o que me
cerca se não durmo ainda, ou se não durmo bem; entro logo a sonhar desde
que deveras durmo. Assim, o que sou é um perpétuo desenrolamento de
imagens, conexas ou desconexas, fingindo sempre de exteriores, umas postas
entre os homens e a luz, se estou desperto, outras postas entre os fantasmas e
a sem-luz que se vê, se estou dormindo. Verdadeiramente, não sei como
distinguir uma coisa da outra, nem ouso afirmar se não durmo quando estou
desperto, se não estou a despertar quando durmo.

A vida é um novelo que alguém emaranhou. Há um sentido nela, se estiver
desenrolada e posta ao comprido, ou enrolada bem. Mas, tal como está, é um
problema sem novelo próprio, um embrulhar-se sem onde.
Sinto isto, que depois escreverei, pois que vou já sonhando as frases a dizer,
quando, através da noite de meio-dormir, sinto, junto com as paisagens de
sonhos vagos, o ruído da chuva lá fora, a tornarmos mais vagos ainda. São
adivinhas do vácuo, trémulas de abismo, e através delas se escoa, inútil, a
plangência externa da chuva constante, minúcia abundante da paisagem do
ouvido. Esperança? Nada. Do céu invisível desce em som a mágoa água que
vento alça. Continuo dormindo.

Era, sem dúvida, nas alamedas do parque que se passou a tragédia de que
resultou a vida. Eram dois e belos e desejavam ser outra coisa; o amor
tardava-lhes no tédio do futuro, e a saudade do que haveria de ser vinha já
sendo filha do amor que não tinham tido. Assim, ao luar dos bosques
próximos, pois através deles se coava a lua, passeavam, mãos dadas, sem
desejos nem esperanças, através do deserto próprio das áleas abandonadas.
Eram crianças inteiramente, pois que o não eram em verdade. De álea em
álea, silhuetas entre árvore e árvore, percorriam em papel recortado aquele
cenário de ninguém. E assim se sumiram para o lado dos tanques, cada vez
mais juntos e separados, e o ruído da vaga chuva que cessa é o dos repuxos de
para onde iam. Sou o amor que eles tiveram e por isso os sei ouvir na noite
em que não durmo, e também sei viver infeliz.





415


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:20 am

343.

Um dia (zig-zag)

Não ter sido Madame de harém! Que pena tenho de mim por me não ter
acontecido isso!
Afinal deste dia fica o que de ontem ficou e ficará de amanhã: a ânsia
insaciável e inúmera de ser sempre o mesmo e outro.
Por degraus de sonhos e cansaços meus desce da tua irrealidade, desce e
vem substituir o mundo.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:21 am

344.


Glorificação dos estéreis


Se dentre as mulheres da terra eu vier um dia a colher uma esposa, que a
tua prece por mim seja esta — que de qualquer modo ela seja estéril. Mas
pede também, se por mim rezares, que eu não venha nunca a tirar para mim
essa esposa suposta.
Só a esterilidade é nobre e digna. Só o matar o que nunca foi é alto e
perverso e absurdo.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:21 am

345.



Eu não sonho possuir-te. Para quê? Era traduzir para plebeu o meu sonho.
Possuir um corpo é ser banal. Sonhar possuir um corpo é talvez pior, ainda
que seja difícil sê-lo: é sonhar-se banal — horror supremo.
E já que queremos ser estéreis, sejamos também castos, porque nada pode
haver de mais ignóbil e baixo do que, renegando da Natureza o que nela é
fecundado, guardar vilãmente dela o que nos praz no que renegámos. Não há
nobrezas aos bocados.
Sejamos castos como eremitas, puros como corpos sonhados, resignados a
ser tudo isto, como freirinhas doidas...
Que o nosso amor seja uma oração... Unge-me de ver-te que eu farei dos
meus momentos de te sonhar um rosário onde os meus tédios
serão padrenossos e as minhas angústias avé-marias...

Fiquemos assim eternamente como uma figura de homem em vitral em
frente de uma figura de mulher noutro vitral... Entre nós, sombras cujos
passos soam frios, a humanidade passando... Murmúrios de rezas, segredos de
passarão entre nós... Umas vezes enche-se bem o ar de incensos. Outras
vezes, para este lado e para aquele uma figura de estátua rezará aspersões...
E nós sempre os mesmos vitrais, nas cores quando o Sol nos bata, nas
linhas quando a noite caia... Os séculos não tocarão no nosso silêncio vítreo...
Lá fora passarão civilizações, escacharão revoltas, turbilhonarão festas,

correrão mansos quotidianos povos... E nós, ó meu amor irreal, teremos
sempre o mesmo gesto inútil, a mesma existência falsa, e a mesma até que um
dia, no fim de vários séculos de impérios, a Igreja finalmente rua e tudo
acabe... Mas nós que não sabemos dela ficaremos ainda, não sei como, não sei
em que espaço, não sei porque tempo, vitrais eternos, horas de ingénuo
desenho pintado por um qualquer artista que dorme há muito sob um túmulo
godo onde dois anjos de mãos postas gelam em mármore a ideia de morte.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:22 am

346.



As coisas sonhadas só têm o lado de cá... Não se lhes pode ver o outro
lado... Não se pode andar à roda delas... O mal das coisas da vida é que as
podemos ir olhando por todos os lados... As coisas de sonho só têm o lado
que vemos... Têm amores só puros, como as nossas almas’


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:23 am

347.

Carta para não mandar

Dispenso-a de comparecer na minha ideia de si.
A sua vida Isso não é o meu amor; é apenas a sua vida.
Amo-a como ao poente ou ao luar, com o desejo de que o momento fique,
mas sem que seja meu nele mais que a sensação de tê-lo.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 12:26 am

348.



Nada pesa tanto como o afeto alheio — nem o ódio alheio, pois que o ódio
é mais intermitente que o afeto; sendo uma emoção desagradável, tende, por
instinto de quem a tem, a ser menos frequente. Mas tanto o ódio como o
amor nos oprime; ambos nos buscam e procuram, nos não deixam sós.
O meu ideal seria viver tudo em romance, repousando na vida ler as minhas
emoções, viver o meu desprezo delas. Para quem tenha a imaginação à flor da
pele, as aventuras de um protagonista de romance são emoção própria
bastante, e mais, pois que são dele e nossas. Não há grande aventura como ter
amado Lady Macbeth, com amor verdadeiro e direto; que tem que fazer que
m assim amou senão, por descanso, não amar nesta vida ninguém?

Não sei que sentido tem esta viagem que fui forçado a fazer, entre uma
noite e outra noite, na companhia do universo inteiro. Sei que posso ler para
me distrair. Considero a leitura como o modo mais simples de entreter esta,
como outra, viagem; e, de vez em quando, ergo os olhos do livro onde estou
sentindo verdadeiramente, e vejo, como estrangeiro, a paisagem que foge
campos, cidades, homens e mulheres, afeições e saudades -, e tudo isso não é
mais para mim do que um episódio do meu repouso, uma distração inerte em
que descanso os olhos das páginas demasiado lidas.

Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por
estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente. Se realizasse algum
sonho, teria ciúmes dele, pois me haveria traído com o ter-se deixado realizar.
Realizei tudo quanto quis, diz o débil, e é mentira; a verdade é que sonhou
profeticamente tudo quanto a vida realizou dele. Nada realizamos. A vida
atira-nos como uma pedra, e nós vamos dizendo no ar, "Aqui me vou
mexendo".

Seja o que for este interlúdio mimado sob o projetor do sol e as lantejoulas
das estrelas, não faz mal decerto saber que ele é um interlúdio; se o que está
para além das portas do teatro é a vida, viveremos; se é a morte, morreremos,
e a peça nada tem com isso.
Por isso nunca me sinto tão próximo da verdade, tão sensivelmente
iniciado, como quando nas raras vezes que vou ao teatro ou ao circo: sei então
que enfim estou assistindo à perfeita figuração da vida. E os atores e as atrizes,
os palhaços e os prestidigitadores são coisas importantes e fúteis, como o sol e
a lua, o amor e a morte, a peste, a fome, a guerra na humanidade. Tudo é
teatro. Ah, quero a verdade? Vou continuar o romance...





421


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Recomendado Re: FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC)

Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 11:02 pm

349.


Amais vil de todas as necessidades — a da confidência, a da confissão. E a
necessidade da alma de ser exterior.
Confessa, sim; mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do
peso dos seus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que os segredos que digas,
nunca os tenhas tido. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade.
Exprimir é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 11:03 pm

350.


Não sei o que é o tempo. Não sei qual a verdadeira medida que ele tem, se
tem alguma. A do relógio sei que é falsa: divide o tempo espacialmente, por
fora. A das emoções sei também que é falsa: divide, não o tempo, mas a
sensação dele. A dos sonhos é errada; neles roçamos o tempo, uma vez
prolongada- mente, outra vez depressa, e o que vivemos é apressado ou lento
conforme qualquer coisa do decorrer cuja natureza ignoro.

Julgo, às vezes, que tudo é falso, e que o tempo não é mais do que uma
moldura para enquadrar o que lhe é estranho. Na recordação, que tenho da
minha vida passada, os tempos estão dispostos em níveis e planos absurdos,
sendo eu mais jovem em certo episódio dos quinze anos solenes que em outro
da infância sentada entre brinquedos.
Emaranha-se-me a consciência se penso nestas coisas. Pressinto um erro
em tudo isto; não sei, porém, de que lado está. É como se assistisse a uma
sorte de prestidigitação, onde, por ser tal, me soubesse enganado, porém não
concebesse qual a técnica, ou a mecânica, do engano.

Chegam-me, então, pensamentos absurdos, que não consigo todavia repelir
como absurdos de todo. Penso se um homem que medita devagar dentro de
um carro que segue depressa está indo depressa ou devagar. Penso se serão
iguais as velocidades idênticas com que caem no mar o suicida e o que se
desequilibrou na esplanada. Penso se são realmente sincrónicos os
movimentos, que ocupam o mesmo tempo, em os quais fumo um cigarro,
escrevo este trecho e penso obscuramente.

De duas rodas no mesmo eixo podemos pensar que há sempre uma que
estará mais adiante, ainda que seja frações de milímetro. Um microscópio
exageraria este deslocamento até o tornar quase inacreditável, impossível se
não fosse real. E porque não há o microscópio de ter razão contra a má vista?
São considerações inúteis? Bem o sei. São ilusões da consideração? Concedo.
Que coisa, porém, é esta que nos mede sem medida e nos mata sem ser? E é
nestes momentos, em que nem sei se o tempo existe, que o sinto como uma
pessoa, e tenho vontade de dormir.


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Mensaje por Maria Lua Vie Nov 25, 2022 11:04 pm

351.

Paciências

As tias velhas dos que as tiveram, nos serões a petróleo das casas vagas na
província, entretinham a hora em que a criada dorme ao som crescente da
chaleira ... A fazer paciências com cartas. Tem saudades em mim desse
sossego inútil alguém que se coloca no meu lugar. Vem o chá e o baralho
velho amontoa-se regular ao canto da mesa. O guarda-louça enorme escurece
a sombra, na sala de jantar apenumbrada. A sua de sono a cara da criada
apressada lentamente por acabar. Vejo isso tudo em mim com uma angústia e
uma saudade independentes de ter relação com qualquer coisa. E, sem querer,
ponho-me a considerar qual é o estado de espírito de quem faz paciências
com cartas.




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