Aires de Libertad

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    Mensaje por Maria Lua Lun 05 Feb 2024, 20:39

    Casamento do céu e do inferno



    No azul do céu de metileno
    a lua irônica
    diurética
    é uma gravura de sala de jantar.

    Anjos da guarda em expedição noturna
    velam sonos púberes
    espantando mosquitos
    de cortinados e grinaldas.

    Pela escada em espiral
    diz-que tem virgens tresmalhadas,
    incorporadas à Via Láctea,
    vagalumeando…

    Por uma frincha
    o diabo espreita com o olho torto.

    Diabo tem uma luneta
    que varre léguas de sete léguas
    e tem o ouvido fino
    que nem violino.

    São Pedro dorme
    e o relógio do céu ronca mecânico.

    Diabo espreita por uma frincha.
    Lá embaixo
    suspiram bocas machucadas.
    Suspiram rezas? Suspiram manso,
    de amor.

    E os corpos enrolados
    ficam mais enrolados ainda
    e a carne penetra na carne.

    Que a vontade de Deus se cumpra!
    Tirante Laura e talvez Beatriz,
    o resto vai para o inferno.



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    CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - Página 29 Empty Re: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

    Mensaje por Maria Lua Vie 09 Feb 2024, 17:50

    Retrato de uma cidade



    III



    Cada cidade tem sua linguagem

    nas dobras da linguagem transparente.

    Pula

    do cofre da gíria uma riqueza,

    do Rio apenas, de mais nenhum Brasil.

    Diamantes-minutos, palavras

    cintilam por toda parte, num relâmpago,

    e se apagam. Morre na rua a ondulação

    do signo irônico.

    Já outros vêm saltando em profusão.



    Este Rio...

    Este fingir que nada é sério, nada, nada,

    e no fundo guardar o religioso

    terror, sacro fervor

    que vai de Ogum e Iemanjá ao Menino Jesus de Praga,

    e no altar barroco ou no terreiro

    consagra a mesma vela acesa,

    a mesma rosa branca, a mesma palma à Divindade [longe.



    Este Rio peralta!

    Rio dengoso, erótico, fraterno,

    aberto ao mundo, laranja

    de cinquenta sabores diferentes

    (alguns amargos, por que não?),

    laranja toda em chama, sumarenta

    de amor.



    Repara, repara nas nuvens: vão desatando

    bandeiras de púrpura e violeta

    sobre os montes e o mar.

    Anoitece no Rio. A noite é luz sonhando.



    Discurso de primavera e algumas sombras, 1977




    ****************************



    Retrato de una ciudad



    III



    Cada ciudad tiene su lenguaje

    en los pliegues del lenguaje transparente.

    Bulle

    en el cofre de la jerga una riqueza

    de Río tan solo, de ningún otro Brasil.

    Diamantes-minutos, palabras

    centellean por todas partes, en un relámpago,

    y se apagan. Muere en la calle la ondulación

    del signo irónico.

    Ya vienen más saltando en profusión.



    Este Río…

    Este fingir que nada es serio, nada, nada,

    y guardar en el fondo el religioso

    terror, sacro fervor

    que va de Ogun y Yemanyá al Niño Jesús de Praga,

    y en el altar barroco o en el «terreiro»

    consagra la misma vela prendida,

    la misma rosa blanca, la misma palma a la divinidad [lejana.



    ¡Este Río pícaro!

    Río melindroso, erótico, fraterno,

    abierto al mundo, naranja

    de cincuenta sabores diferentes

    (algunos amargos, ¿por qué no?),

    naranja ardiendo toda, suculenta

    de amor.



    Fíjate, fíjate en las nubes: van desatando

    banderas de púrpura y violeta

    sobre los montes y el mar.

    Anochece en Río. La noche es luz soñando.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Lun 12 Feb 2024, 10:39

    Reconhecimento do Amor



    Amiga, como são desnorteantes
    os caminhos da amizade.
    Apareceste para ser o ombro suave
    onde se reclina a inquietação do forte
    (ou que forte se pensava ingenuamente).
    Trazias nos olhos pensativos
    a bruma da renúncia:
    não querias a vida plena,
    tinhas o prévio desencanto das uniões para toda a vida,
    não pedias nada,
    não reclamavas teu quinhão de luz.
    E deslizavas em ritmo gratuito de ciranda.

    Descansei em ti meu feixe de desencontros
    e de encontros funestos.
    Queria talvez — sem o perceber, juro —
    sadicamente massacrar-te
    sob o ferro de culpas e vacilações e angústias que doíam
    desde a hora do nascimento,
    senão desde o instante da concepção em certo mês perdido na História,
    ou mais longe, desde aquele momento intemporal
    em que os seres são apenas hipóteses não formuladas
    no caos universal.

    Como nos enganamos fugindo ao amor!
    Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
    sua espada coruscante, seu formidável
    poder de penetrar o sangue e nele imprimir
    uma orquídea de fogo e lágrimas.
    Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
    em doçura e celestes amavios.
    Não queimava, não siderava; sorria.
    Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso.
    Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
    que trazias para mim e que teus dedos confirmavam
    ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
    o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
    quando — por esperteza do amor — senti que éramos um só.

    Amiga, amada, amada amiga, assim o amor
    dissolve o mesquinho desejo de existir em face do mundo
    com olhar pervagante e larga ciência das coisas.
    Já não defrontamos o mundo: nele nos diluímos,
    e a pura essência em que nos transmutamos dispensa
    alegorias, circunstâncias, referências temporais,
    imaginações oníricas,
    o voo do Pássaro Azul, a aurora boreal,
    as chaves de ouro dos sonetos e dos castelos medievos,
    todas as imposturas da razão e da experiência,
    para existir em si e por si,
    à revelia de corpos amantes,
    pois já nem somos nós, somos o número perfeito:
    UM.

    Levou tempo, eu sei, para que o Eu renunciasse
    à vacuidade de persistir, fixo e solar,
    e se confessasse jubilosamente vencido,
    até respirar o júbilo maior da integração.
    Agora, amada minha para sempre,
    nem olhar temos de ver nem ouvidos de captar
    a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
    perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.



    *******************



    Reconocimiento del amor



    Amiga, cómo carecen de norte
    los caminos de la amistad.
    Apareciste para ser el hombro suave
    donde se reclina la inquietud del fuerte
    (o que ingenuamente se pensaba fuerte).
    Traías en los ojos pensativos
    la bruma de la renuncia:
    no querías la vida plena,
    tenías el previo desencanto de las uniones para toda la vida,
    no pedías nada,
    no reclamabas tu cota de luz.
    Y te deslizabas en ritmo gratuito de ronda.
    Descansé en ti mi fajo de desencuentros
    y de encuentros funestos.
    Quería tal vez -sin percibirlo, lo juro-
    sádicamente masacrarte
    bajo el hierro de culpas y vacilaciones y angustias que dolían
    desde la hora del nacimiento,
    estigma desde el momento de la concepción
    en cierto mes perdido en la Historia,
    o más lejos, desde aquel momento intemporal
    en que los seres son apenas hipótesis no formuladas
    en el caos universal.
    ¡Cómo nos engañamos huyéndole al amor!
    Cómo lo desconocimos, tal vez con recelo de enfrentar
    su espada reluciente, su formidable
    poder de penetrar la sangre y en ella
    imprimir una orquídea de fuego y lágrimas.
    Pero, él llegó mansamente y me envolvió
    en dulzura y celestes hechizos.
    No quemaba, no brillaba, sonreía.
    No entendí, tonto que fui, esa sonrisa.
    Me herí con mis propias manos, no por el amor
    que traías para mí y que tus dedos confirmaban
    al juntarse a los míos, en la infantil búsqueda del Otro,
    el Otro que yo me suponía, el Otro que te imaginaba,
    cuando -por agudeza del amor- sentí que éramos uno sólo.
    Amiga, amada, amada amiga, así el amor
    disuelve el mezquino deseo de existir de cara al mundo
    con la mirada perdida y la ancha ciencia de las cosas.
    Ya no enfrentamos al mundo: en él nos diluimos,
    y la pura esencia en que nos transmutamos perdona
    alegorías, circunstancias, referencias temporales,
    imaginaciones oníricas,
    el vuelo del Pájaro Azul, la aurora boreal,
    las llaves de oro de los sonetos y de los castillos medievales,
    todos los engaños de la razón y de la experiencia,
    para existir en sí y para sí,
    con la rebeldía de cuerpos amantes,
    pues ya ni somos nosotros,
    somos el número perfecto: Uno.
    Tomó su tiempo, yo se, para que el «Yo» renunciase
    a la vacuidad de persistir, fijo y solar,
    y se confesara jubilosamente vencido,
    hasta respirar el más grande júbilo de la integración.
    Ahora, amada mía para siempre,
    ni mirada tenemos para ver, ni oídos para captar la melodía,
    el paisaje, la transparencia de la vida,
    perdidos como estamos en la concha ultramarina de mar.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 14 Feb 2024, 09:33

    Poesia


    Gastei uma hora pensando um verso
    que a pena não quer escrever.
    No entanto ele está cá dentro
    inquieto, vivo.
    Ele está cá dentro
    e não quer sair.
    Mas a poesia deste momento
    inunda minha vida inteira.


    ****************

    Poesía

    Gasté una hora pensando un verso
    que la pluma no quiere escribir.
    No obstante él está aquí dentro
    inquieto, vivo.
    Él está aquí dentro
    y no quiere salir.
    Pero la poesía de este momento
    inunda mi vida entera.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Feb 2024, 08:26

    Mundo grande (Poema da obra Sentimento do mundo), de Carlos Drummond de Andrade


    "Não, meu coração não é maior que o mundo.

    Ê muito menor.

    Nele não cabem nem as minhas dores.

    Por isso gosto tanto de me contar.

    Por isso me dispo.

    Por isso me grito,

    por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:

    preciso de todos.

    Sim, meu coração é muito pequeno.

    Só agora vejo que nele não cabem os homens.

    Os homens estão cá fora, estão na rua.

    A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.

    Mas também a rua não cabe todos os homens.

    A rua é menor que o mundo.

    O mundo é grande.

    Tu sabes como é grande o mundo.

    Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.

    Viste as diferentes cores dos homens.

    as diferentes dores dos homens.

    sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso

    num só peito de homem... sem que elo estale.

    Fecha os olhos e esquece.

    Escuta a água nos vidros,

    tão calma. Não anuncia nada.

    Entretanto escorre nas mãos,

    tão calma! vai’ inundando tudo...

    Renascerão as cidades submersas?

    Os homens submersos —— voltarão?

    Meu coração não sabe.

    Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.

    Só agora descubro

    como é triste ignorar certas coisas.

    (Na solidão de invidíduo

    desaprendi a linguagem

    com que homens se comunicam.)

    Outrora escutei os anjos,

    as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.

    Nunca escutei voz de gente.

    Em verdade sou muito pobre.

    Outrora viajei

    países imaginários, fáceis de habitar.

    ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio

    Meus amigos foram às ilhas.

    Ilhas perdem o homem.

    Entretanto alguns se salvaram e

    trouxeram a notícia

    de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,

    entre o fogo e o amor.

    Então, meu coração também pode crescer.

    Entre o amor e o fogo,

    entre a vida e o fogo,

    meu coração cresce dez metros e explode.

    — Ó vida futura! nós te criaremos



    *******************************



    No, mi corazón no es más grande que el mundo




    No, mi corazón no es más grande que el mundo.
    Es mucho más pequeño.
    En él no caben ni mis dolores.
    Por eso me gusta tanto contarme a mí mismo
    por eso me desvisto, por eso me grito,
    por eso frecuento los diarios,
    me expongo crudamente en las librerías:
    necesito de todos.
    Sí, mi corazón es muy pequeño.
    Sólo ahora veo que en él caben los hombres.
    Los hombres están aquí afuera, están en la calle.
    La calle es enorme. Más grande, mucho más grande
    de lo que yo esperaba.
    Mas en la calle tampoco caben todos los hombres.
    La calle es más pequeña que el mundo.
    El mundo es grande.
    Tú sabes como es grande el mundo.
    Conoces los navíos que llevan petróleo y libros, carne y algodón.
    Viste los diferentes colores de los hombres,
    los diferentes dolores de los hombres,
    sabes cómo es difícil sufrir todo eso, amontonar todo eso
    en un solo pecho de hombre… sin que estalle.
    Cierra los ojos y olvida.
    Escucha el agua en los vidrios tan calmada. No anuncia nada.
    Sin embargo, se escurre en las manos,
    ¡tan calmada! va inundando todo…
    ¿Renacerán las ciudades sumergidas?
    ¿Los hombres sumergidos -volverán?
    Mi corazón no sabe.
    Estúpido, ridículo y frágil es mi corazón.
    Sólo ahora descubro cómo es triste ignorar ciertas cosas.
    (En la soledad de individuo
    desaprendí el lenguaje
    con que los hombres se comunican).
    Otrora escuché a los ángeles, las sonatas, los poemas,
    las confesiones patéticas.
    Nunca escuché voz de gente. En verdad soy muy pobre.
    Otrora viajé por países imaginarios, fáciles de habitar,
    islas sin problemas, no obstante exhaustivas
    y convocando al suicidio.
    Mis amigos se fueron a las islas.
    Las islas pierden al hombre.
    Sin embargo algunos se salvaron y trajeron la noticia
    de que el mundo, el gran mundo está creciendo todos los días,
    entre el fuego y el amor.
    Entonces, mi corazón también puede crecer.
    Entre el amor y el fuego,
    entre la vida y el fuego,
    mi corazón crece diez metros y explota.
    -¡Oh vida futura! nosotros te crearemos.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 19 Feb 2024, 19:48




    RECORDATORIO

    Se procurar bem você acaba encontrando.
    Não a explicação (duvidosa) da vida,
    Mas a poesia (inexplicável) da vida.





    *****************




    RECORDATORIO

    Si busca bien usted acaba encontrando.
    No la explicación (dudosa) de la vida,
    Sino la poesía (inexplicable) de la vida.




    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Miér 21 Feb 2024, 19:41


    Que lembrança darei ao país que me deu
    tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
    Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
    minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

    E mereço esperar mais do que os outros, eu?
    Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
    Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
    a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

    Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
    uma voz matinal palpitando na bruma
    e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

    De tudo quanto foi meu passo caprichoso
    na vida, restará, pois o resto se esfuma,
    uma pedra que havia em meio do caminho.

    — Carlos Drummond de Andrade, no livro “Claro Enigma”.



    ****************

    LEGADO


    ¿Qué recuerdo dejaré al país que me dio
    todo lo que recuerdo y soy, todo cuanto sentí?
    En la noche infinita, el tiempo breve olvidó
    mi incierta medalla, y mi nombre se ridiculiza.

    ¿Merezco esperar más que los otros?
    Tú no me engañas mundo, y yo no te engaño a ti.
    Esos monstruos actuales, no los cautiva Orfeo,
    vagan taciturnos, en lo incierto.

    No dejaré ningún canto radiante,
    una voz matinal palpitando en la bruma
    que arranque a cualquiera su más secreta espina.

    De todo cuanto fue mi paso caprichoso
    en esta vida, quedará, una piedra en medio del camino:
    el resto se esfuma.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Lun 26 Feb 2024, 21:25




    Poema de Sete Faces


    Quando nasci, um anjo torto
    desses que vivem na sombra
    disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

    As casas espiam os homens
    que correm atrás de mulheres.
    A tarde talvez fosse azul,
    não houvesse tantos desejos.

    O bonde passa cheio de pernas:
    pernas brancas pretas amarelas.
    Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
    Porém meus olhos
    não perguntam nada.

    O homem atrás do bigode
    é sério, simples e forte.
    Quase não conversa.
    Tem poucos, raros amigos
    o homem atrás dos óculos e do bigode,

    Meu Deus, por que me abandonaste
    se sabias que eu não era Deus
    se sabias que eu era fraco.

    Mundo mundo vasto mundo,
    se eu me chamasse Raimundo
    seria uma rima, não seria uma solução.
    Mundo mundo vasto mundo,
    mais vasto é meu coração.

    Eu não devia te dizer
    mas essa lua
    mas esse conhaque
    botam a gente comovido como o diabo.






    ******************





    Poema de siete caras




    Cuando nací, un ángel chueco
    de esos que viven en la sombra
    dijo: Anda, ¡Carlos! a ser gauche en la vida.

    Las casas espían a los hombres
    que corren detrás de mujeres.
    La tarde tal vez fuese azul,
    si no hubiese tantos deseos.

    El tranvía pasa lleno de piernas:
    piernas blancas negras amarillas.
    Para qué tanta pierna, Dios mío, pregunta mi corazón.
    Sin embargo mis ojos no preguntan nada.

    El hombre detrás del bigote
    es serio, simple y fuerte. Casi no conversa.
    Tiene pocos, raros amigos
    el hombre detrás de los anteojos y el bigote.

    Dios mío, por qué me abandonaste
    si sabías que yo no era Dios
    si sabías que yo era débil.

    Mundo mundo vasto mundo, si me llamase Raimundo
    sería una rima, no sería una solución.
    Mundo mundo vasto mundo, más vasto es mi corazón.

    Yo no debía decírtelo
    pero esa luna
    pero ese coñac
    lo dejan a uno más conmovido que el diablo



    *************************




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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Ayer a las 16:38

    Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)



    Nació en la pequeña ciudad de Itabira do Mato Dentro, en el estado de Minas Gerais, hijo de un matrimonio de hacendados. Pasó su infancia en su ciudad natal y con 14 años entró como interno al Colégio Arnaldo, en Belo Horizonte, donde conoció a Gustavo Capanema y a Afonso Arinos de Melo Franco. Por problemas de salud interrumpió sus estudios y recibió clases particulares en Itabira. En 1918, ingresó como interno en el Colégio Anchieta, en Nova Friburgo, y publicó "Onda", su primer poema. Al año siguiente fue expulsado de este colegio jesuita por "insubordinación mental", después de una discusión con el profesor de portugués. En 1920, se mudó con la familia a Belo Horizonte, donde publicó sus primeros trabajos en el Diário de Minas, frecuentó el Café Estrela y la Livraria Alves --donde conoció, entre otros escritores a Emílio Moura, a Aníbal Machado y a Pedro Nava--, ganó el concurso "Novela Mineira" con el cuento "Joaquim do telhado", y se matriculó en la Escola de Odontología e Farmacia. En 1924, le escribió a Manuel Bandeira, manifestándole su admiración, y tuvo contacto con algunos integrantes del grupo de la Semana de Arte Moderno --Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral y Mário de Andrade-- que pasaban por Belo Horizonte de regreso de uno de sus viajes de "redescubrimiento" de Brasil. Al año siguiente, se casó con Dolores Dutra de Morais y fundó, con Martins de Almeida, Emílio Moura y Gregoriano Canedo, A Revista, órgano modernista que duró tres números. Terminó el curso de farmacia pero prefirió dar clases a nivel preparatoria en Itabira pues no le gustaban ni el trabajo en la hacienda familiar ni la farmacia. En 1926, regresó a Belo Horizonte para trabajar como redactor del Diário de Minas y luego como redactor en jefe. En julio de 1928, la Revista de Antropofagia publicó su famoso y escandaloso poema "No meio do caminho". Al año siguiente, dejó el Diário de Minas para trabajar en el Minas Gerais, órgano oficial del Estado. Alguma poesia (1930), su primer libro de poemas, provocó elogios y ataques, por su carácter innovador que se situaba entre el final de la fase heroica del Modernismo y las tendencias restauradoras de los antiguos moldes poéticos. Cuatro años después, Drummond regresó como redactor a los periódicos Minas Gerais, Estado de Minas y Diário da Tarde; publicó su segundo libro, Brejo das almas, en que se surge su fino humor irónico, fraterno y de gran poder de empatía que irá a consolidarse en Sentimento do mundo (1940); y se trasladó a Rio de Janeiro como jefe del gabinete de Gustavo Capanema, nombrado entonces ministro de Educación y Salud Pública. En 1945, publicó A rosa do povo, poemario que refleja las preocupaciones políticas sociales de la posguerra y, sin niguna fricción, abandonó la jefatura con Capanema, para colaborar brevemente en el diario comunista Tribuna Popular, invitado por su director, Luis Carlos Prestes. Ese mismo año ingresó a trabajar en la Direitoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, en donde fungió más tarde como jefe de la sección de historia y alcanzó su jubilación en 1962. A partir de 1950, viajó frecuentemente a Buenos Aires, pues su única hija se había casado el año anterior con el escritor y abogado Manuel Graña Etcheverry. En 1951, debutó como cuentista con el volumen Contos de aprendiz y publicó Claro enigma, poemario en el que abandona cualquier orientación política, muestra una preocupación por la metrificación y la rima y revisa a profundidad sus estrategias de composición, características que se extienden a Fazendeiro do ar (1954) y A vida passada a limpo (1959). En Lição de coisas (1962), Drummond incursiona en la segunda ola de vanguardias con poemas como "Isto é aquilo" y "A bomba", sin abandonar del todo su vena memorialística pero alejándose de la metrificación tradicional y experimentando con la fragmentación de la palabra. En 1969 deja el Correio da Manhã, pasa a colaborar en Jornal do Brasil y publica Reunião (10 libros de poesía). Durante la década de 1970, la fama de Drummond se consolida a nivel nacional e internacional. Recibe premios como el de poesía de la Asociação Paulista de Críticos Literários (1975), el Prêmio Nacional de Literatura (1975), el Estácio de Sá de periodismo y el Morgado Mateus de poesía (Portugal, 1980), entre otros, y rechaza el Prêmio Brasília de Literatura (1975) de la Fundação Cultural do Distrito Federal, por "motivo de consciencia" y el trofeo "Juca Pato" (1983). Su 70º y 80º aniversarios son celebrados ampliamente por los periódicos, las agencias culturales y las universidades. En 1986 sufre un infarto y es internado. En el mes de agosto del año siguiente, su hija Maria Julieta muere de cáncer y doce días después el poeta fallece por problemas cardiacos. Carlos Drummond de Andrade ha sido traducido a más de 15 lenguas. Otros de sus libros de poesía son Viola de bolso (1952), Versiprosa (1967), A falta que ama & Boitempo (1968), Menino antigo (Boitempo II) (1973), As impurezas do branco (1973), A paixão medida (1980), Corpo (1984), Amar se aprende amando (1985) y, ya póstumos, O amor natural (1992) y Farewell (1996). De su obra en prosa destacan los volúmenes Confissões de Minas (1944), Passeios na ilha (1952 ), Fala, amendoeira (1957), A bolsa & a vida (1962), Cadeira de balanço (1966), Caminhos de João Brandão (1970), O poder ultrajovem (1972), Os dias lindos (1977), Contos plausíveis (1980), O observador no escritório (1985) y Tempo, vida, poesia (1986).



    Publicado en la antología de Regina Crespo y Rodolfo Mata, Ensayistas brasileños. Literatura, cultura y sociedad, Coordinación de Humanidades, UNAM, México, 2005, 587 pp. Colección Poemas y Ensayos.


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