Aires de Libertad

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    Mensaje por Maria Lua Miér 17 Feb 2021, 10:05

    Adormecida





    Ses longs cheveux épars la couvrent tout entière

    La croix de son collier repose dans sa main,

    Comme pour témoigner qu'elle a fait sa prière.

    Et qu'elle va la faire en s'éveillant demain.



    A DE MUSSET





    Uma noite eu me lembro... Ela dormia

    Numa rede encostada molemente...

    Quase aberto o roupão... solto o cabelo

    E o pé descalço do tapete rente.





    'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste

    Exalavam as silvas da campina...

    E ao longe, num pedaço do horizonte

    Via-se a noite plácida e divina.





    De um jasmineiro os galhos encurvados,

    Indiscretos entravam pela sala,

    E de leve oscilando ao tom das auras

    Iam na face trêmulos — beijá-la.





    Era um quadro celeste!... A cada afago

    Mesmo em sonhos a moça estremecia...

    Quando ela serenava... a flor beijava-a...

    Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...





    Dir-se-ia que naquele doce instante

    Brincavam duas cândidas crianças...

    A brisa, que agitava as folhas verdes,

    Fazia-lhe ondear as negras tranças!





    E o ramo ora chegava ora afastava-se...

    Mas quando a via despeitada a meio,

    P'ra não zangá-la... sacudia alegre

    Uma chuva de pétalas no seio...





    Eu, fitando esta cena, repetia

    Naquela noite lânguida e sentida:

    "ó flor! — tu és a virgem das campinas!

    "Virgem! — tu és a flor da minha vida!..."



    _________________



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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Jue 18 Feb 2021, 15:29

    Alma das flores — quando as flores morrem,
    Os perfumes emigram para as belas,
    Trocam lábios de virgens — por boninas,
    Trocam lírios — por seios de donzelas!


    E ali — silfos travessos, traiçoeiros
    Voam cantando em lânguido compasso
    Ocultos nesses cálices macios
    Das covinhas de um rosto ou dum regaço.


    Vós, que não entendeis a lenda oculta,
    A linguagem mimosa dos aromas,
    De Madalena a urna olhais apenas
    Como um primor de orientais redomas;


    _________________



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    y en ese vuelo y en ese sueño
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    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Feb 2021, 04:58

    Jesuítas

    (SÉCULO XIII)





    O mes frères, je viens vous apporter mon Dieu,

    Je viens vous apporter ma tête!

    V. HUGO (Châtiments)





    Quando o vento da Fé soprava Europa,

    Como o tufão, que impele ao ar a tropa

    Das águias, que pousavam no alcantil;

    Do zimbório de Roma — a ventania

    O bando dos Apóst'los sacudia

    Aos cerros do Brasil.





    Tempos idos! Extintos luzimentos!

    O pó da catequese aos quatro ventos

    Revoava nos céus...

    Floria após na Índia, ou na Tartária,

    No Mississipi, no Peru, na Arábia

    Uma palmeira — Deus! —





    O navio maltês, do Lácio a vela,

    A lusa nau, as quinas de Castela,

    Do Holandês a galé

    Levava sem saber ao mundo inteiro

    Os vândalos sublimes do cordeiro,

    Os átilas da fé.





    Onde ia aquela nau? — Ao Oriente.

    A outra? — Ao pólo. A outra? — Ao ocidente.

    Outra? — Ao norte. Outra? — Ao sul.

    E o que buscava? A foca além no pólo;

    O âmbar, o cravo no indiano solo

    Mulheres em 'Stambul.





    Grandes homens! Apóstolos heróicos!...

    Eles diziam mais do que os estóicos:

    "Dor, — tu és um prazer!

    "Grelha, — és um leito! Brasa, — és uma gema!

    Cravo, — és um cetro! Chama, — um diadema

    Ó morte, — és o viver!"





    Outras vezes no eterno itinerário

    O sol, que vira um dia no Calvário

    Do Cristo a santa cruz,

    Enfiava de vir achar nos Andes

    A mesma cruz, abrindo os braços grandes

    Aos índios rubros, nus.





    Eram eles que o verbo do Messias

    Pregavam desde o vale às serranias,

    Do pólo ao Equador...

    E o Niagara ia contar aos mares...

    E o Chimborazo arremessava aos ares

    O nome do Senhor!...













    Poesia e Mendicidade

    (NO álbum da Ex.ma Sr.a D. MARIA JUSTINA PROENÇA PEREIRA PEIXOTO)



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    Mensaje por Maria Lua Lun 22 Feb 2021, 05:32

    As Trevas

    (Traduzido de LORD BYRON)





    A meu amigo, o DR. FRANCO MEIRELES, inspirado tradutor das "Melodias Hebraicas".





    Tive um sonho que em tudo não foi sonho! ..





    O sol brilhante se apagava: e os astros,

    Do eterno espaço na penumbra escura,

    Sem raios, e sem trilhos, vagueavam.

    A terra fria balouçava cega

    E tétrica no espaço ermo de lua.

    A manhã ia, vinha... e regressava...

    Mas não trazia o dia! Os homens pasmos

    Esqueciam no horror dessas ruínas

    Suas paixões: E as almas conglobadas

    Gelavam-se num grito de egoísmo

    Que demandava "luz". Junto às fogueiras

    Abrigavam-se... e os tronos e os palácios,

    Os palácios dos reis, o albergue e a choça

    Ardiam por fanais. Tinham nas chamas

    As cidades morrido. Em torno às brasas

    Dos seus lares os homens se grupavam,

    P'ra à vez extrema se fitarem juntos.

    Feliz de quem vivia junto às lavas

    Dos vulcões sob a tocha alcantilada!





    Hórrida esp'rança acalentava o mundo!

    As florestas ardiam!... de hora em hora

    Caindo se apagavam; creditando,

    Lascado o tronco desabava em cinzas.

    E tudo... tudo as trevas envolviam.

    As frontes ao clarão da luz doente

    Tinham do inferno o aspecto... quando às vezes

    As faíscas das chamas borrifavam-nas.

    Uns, de bruços no chão, tapando os olhos

    Choravam. Sobre as mãos cruzadas  —  outros  —

    Firmando a barba, desvairados riam.

    Outros correndo à toa procuravam

    O ardente pasto p'ra funéreas piras.

    Inquietos, no esgar do desvario,

    Os olhos levantavam p'ra o céu torvo,

    Vasto sudário do universo - —  espectro  — ,

    E após em terra se atirando em raivas,

    Rangendo os dentes, blásfemos, uivavam!





    Lúgubre grito os pássaros selvagens

    Soltavam, revoando espavoridos

    Num vôo tonto co'as inúteis asas!

    As feras 'stavam mansas e medrosas!

    As víboras rojando s'enroscavam

    Pelos membros dos homens, sibilantes,

    Mas sem veneno ... a fome lhes matavam!

    E a guerra, que um momento s'extinguira,

    De novo se fartava. Só com sangue





    Comprava-se o alimento, e após à parte

    Cada um se sentava taciturno,

    P'ra fartar-se nas trevas infinitas!

    Já não havia amor!... O mundo inteiro

    Era um só pensamento, e o pensamento

    Era a morte sem glória e sem detença!

    O estertor da fome apascentava-se

    Nas entranhas... Ossada ou carne pútrida

    Ressupino, insepulto era o cadáver.





    Mordiam-se entre si os moribundos:

    Mesmo os cães se atiravam sobre os donos,

    Todos exceto um só... que defendia

    O cadáver do seu, contra os ataques

    Dos pássaros, das feras e dos homens,

    Até que a fome os extinguisse, ou fossem

    Os dentes frouxos saciar algures!

    Ele mesmo alimento não buscava...

    Mas, gemendo num uivo longo e triste,

    Morreu lambendo a mão, que inanimada

    Já não podia lhe pagar o afeto.





    Faminta a multidão morrera aos poucos.

    Escaparam dous homens tão-somente

    De uma grande cidade. E se odiavam....

    Foi junto dos lições quase apagados

    De um altar, sobre o qual se amontoaram

    Sacros objetos p'ra um profano uso,

    Que encontraram-se os dous... e, as cinzas mornas

    Reunindo nas mãos frias de espectros,

    De seus sopros exaustos ao bafejo

    Uma chama irrisória produziram!...

    Ao clarão que tremia sobre as cinzas

    Olharam-se e morreram dando um grito.

    Mesmo da própria hediondez morreram,

    Desconhecendo aquele em cuja fronte

    Traçara a fome o nome de Duende!





    O mundo fez-se um vácuo. A terra esplêndida,

    Populosa tornou-se numa massa

    Sem estações, sem árvores, sem erva.

    Sem verdura, sem homens e sem vida,

    Caos de morte, inanimada argila!

    Calaram-se o Oceano, o rio, os lagos!

    Nada turbava a solidão profunda!

    Os navios no mar apodreciam

    Sem marujos! os mastros desabando

    Dormiam sobre o abismo, sem que ao menos

    Uma vaga na queda alevantassem,

    Tinham morrido as vagas! e jaziam

    As marés no seu túmulo... antes dela

    A lua que as guiava era já morta!

    No estagnado céu murchara o vento;

    Esvaíram-se as nuvens. E nas trevas

    Era só trevas o universo inteiro.














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    Mensaje por Maria Lua Miér 24 Feb 2021, 06:45

    As horas passam longas, sonolentas...
    Desce a tarde no carro vaporoso...
    D'Ave-Maria o sino, que soluça,
    É por ti que soluça mais queixoso.


    E não Vens te sentar perto, bem perto
    Nem derramas ao vento da tardinha,
    A caçoula de notas rutilantes
    Que tua alma entornava sobre a minha.


    E, quando uma tristeza irresistível
    Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
    Como a harpa de Davi teu riso santo
    Meu acerbo sofrer já não acalma.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 06:46

    Quando Eu Morrer





    Eu morro, eu morro. A matutina brisa

    Já não me arranca um riso. A rósea tarde

    Já não me doura as descoradas faces

    Que gélidas se encovam.



    JUNQUEIRA FREIRE




    Quando eu morrer... não lancem meu cadáver

    No fosso de um sombrio cemitério...

    Odeio o mausoléu que espera o morto

    Como o viajante desse hotel funéreo.





    Corre nas veias negras desse mármore

    Não sei que sangue vil de messalina,

    A cova, num bocejo indiferente,

    Abre ao primeiro o boca libertina.





    Ei-la a nau do sepulcro — o cemitério...

    Que povo estranho no porão profundo!

    Emigrantes sombrios que se embarcam

    Para as plagas sem fim do outro mundo.





    Tem os fogos — errantes — por santelmo.

    Tem por velame — os panos do sudário...

    Por mastro — o vulto esguio do cipreste,

    Por gaivotas — o mocho funerário...





    Ali ninguém se firma a um braço amigo

    Do inverno pelas lúgubres noitadas...

    No tombadilho indiferentes chocam-se

    E nas trevas esbarram-se as ossadas...





    Como deve custar ao pobre morto

    Ver as placas da vida além perdidas,

    Sem ver o branco fumo de seus lares

    Levantar-se por entre as avenidas!...





    Oh! perguntai aos frios esqueletos

    Por que não têm o coração no peito...

    E um deles vos dirá "Deixei-o há pouco

    De minha amante no lascivo leito."





    Outro: "Dei-o a meu pai". Outro: "Esqueci-o

    Nas inocentes mãos de meu filhinho"...

    ... Meus amigos! Notai... bem como um pássaro

    O coração do morto volta ao ninho!...





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    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 07:38

    Onde Estás





    É meia-noite... e rugindo

    Passa triste a ventania,

    Como um verbo de desgraça,

    Como um grito de agonia.

    E eu digo ao vento, que passa

    Por meus cabelos fugaz:

    "Vento frio do deserto,

    Onde ela está? Longe ou perto?

    " Mas, como um hálito incerto,

    Responde-me o eco ao longe:

    "Oh! minh'amante, onde estás?...





    Vem! É tarde! Por que tardas?

    São horas de brando sono,

    Vem reclinar-te em meu peito

    Com teu lânguido abandono!...

    'Stá vazio nosso leito...

    'Stá vazio o mundo inteiro;

    E tu não queres qu'eu fique

    Solitário nesta vida...

    Mas por que tardas, querida?...

    Já tenho esperado assaz...

    Vem depressa, que eu deliro

    Oh! minh'amante, onde estás?..





    Estrela — na tempestade,

    Rosa — nos ermos da vida,

    Íris — do náufrago errante,

    Ilusão — d'alma descrida!

    Tu foste, mulher formosa!

    Tu foste, ó filha do céu!...

    ... E hoje que o meu passado

    Para sempre morto jaz...

    Vendo finda a minha sorte,

    Pergunto aos ventos do Norte...

    "Oh! minh'amante, onde estás?..."



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    Mensaje por Maria Lua Dom 28 Feb 2021, 10:39

    Era um quadro celeste!… A cada afago
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    Quando ela serenava… a flor beijava-a…
    Quando ela ia beijar-lhe… a flor fugia…

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    Mas quando a via despeitada a meio,
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    “Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
    “Virgem! – tu és a flor da minha vida!…”


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    Mensaje por Maria Lua Mar 02 Mar 2021, 10:05

    O Coração





    O Coração é o colibri dourado

    Das veigas puras do jardim do céu.

    Um — tem o mel da granadilha agreste,

    Bebe os perfumes, que a bonina deu.





    O outro — voa em mais virentes balças,

    Pousa de um riso na rubente flor.

    Vive do mel — a que se chama — crenças — ,

    Vive do aroma — que se diz — amor. —



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    Mensaje por Maria Lua Mar 02 Mar 2021, 10:06

    O Tonel das Danaides

    DIÁLOGO





    Na torrente caudal de seus cabelos negros

    Alegre eu embarquei da vida a rubra flor.





    — Poeta! Eras o Doge o anel lançando às ondas ...

    Ao fundo de um abismo... arremessaste c amor.





    Depois minh'alma ao som da Lira de cem vozes

    Sublimes fantasias em notas desfolhou.





    — Cleópatra também p'ra erguer no Tibre a espuma

    As pér'las do colar nas vagas desfiou!





    Depois fiz de meu verso a púrpura escarlate

    Por onde ela pisasse em marcha triunfal!





    — Como Hércules, volveste aos pós da insana Onfália

    O fuso feminil de uma paixão fatal.





    Um dia ela me disse: "Eu sou uma exilada!"

    Ergui-me... e abandonei meu lar e meu país...





    — Assim o filho pródigo atira as vestes quentes

    E treme no caminho aos pés da meretriz.





    E quando debrucei-me à beira daquela alma

    P'ra ver toda riqueza e afetos que lhe dei! ...





    — Ai! nada mais achaste! o abismo 05 devorara...

    O pego se esqueceu da dádiva do Rei!





    Na gruta do chacal ao menos restam ossos...

    Mas tudo sepultou-me aquele amor cruel!





    — Poeta! O coração da fria Messalina

    É das fatais Danaides o pérfido Tonel!





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    Mensaje por Maria Lua Mar 09 Mar 2021, 12:55

    “E amamos – Este amor foi um delírio...
    Foi ela minha crença, foi meu lírio,

    Minha estrela sem véu...
    Seu nome era o meu canto de poesia,
    Que com o sol – pena de ouro – eu escrevia
    Nas lâminas do céu.

    “Em teu seio escondi-me ... como a noite
    Incauto colibri, temendo o açoite
    Das iras do tufão,
    A cabecinha esconde sob asas,
    Faz seu leito gentil por entre as gazas
    Da rosa do Japão”.

    (Dalila, p. 130)


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mar 2021, 07:18

    Alma das flores — quando as flores morrem,
    Os perfumes emigram para as belas,
    Trocam lábios de virgens — por boninas,
    Trocam lírios — por seios de donzelas!


    E ali — silfos travessos, traiçoeiros
    Voam cantando em lânguido compasso
    Ocultos nesses cálices macios
    Das covinhas de um rosto ou dum regaço.


    Vós, que não entendeis a lenda oculta,
    A linguagem mimosa dos aromas,
    De Madalena a urna olhais apenas
    Como um primor de orientais redomas;


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mar 2021, 08:20

    O livro e a América (trecho)


    Talhado para as grandezas,
    P'ra crescer, criar, subir,
    O Novo Mundo nos músculos
    Sente a seiva do porvir.
    —Estatuário de colossos —
    Cansado doutros esboços
    Disse um dia Jeová:
    "Vai, Colombo, abre a cortina
    "Da minha eterna oficina...
    "Tira a América de lá".

    Molhado inda do dilúvio,
    Qual Tritão descomunal,
    O continente desperta
    No concerto universal.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mar 2021, 08:22

    A Um Coração

    "Coração de Filigrana de Oiro"

    Ai! Pobre coração! Assim vazio
    E frio
    Sem guardar a lembrança de um amor!
    Nada em teu seio os dias hão deixado!…
    É fado?
    Nem relíquias de um sonho encantador? Não, frio coração! É que na terra
    Ninguém te abriu…Nada teu seio encerra!
    O vácuo apenas queres tu conter!
    Não te faltam suspiros delirantes,
    Nem lágrimas de afeto verdadeiro…
    - É que nem mesmo o oceano inteiro
    Poderia te encher!


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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:53



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:54



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:55



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:56



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:57



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:58



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 04:59



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    Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 05:02



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    Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Mar 2021, 04:50

    Ó sono! Unge-me as pálpebras..
    Entorna o esquecimento
    Na luz do pensamento,
    Que abrasa o crânio meu.
    Como o pastor da Arcádia,
    Que uma ave errante aninha...
    Minh'alma é uma andorinha...
    Abre-lhe o seio teu.


    Tu, que fechaste as pétalas
    Do lírio, que pendia,
    Chorando a luz do dia
    E os raios do arrebol,
    Também fecha-me as pálpebras...
    Sem Ela o que é a vida?
    Eu sou a flor pendida
    Que espera a luz do sol.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Mar 2021, 04:52

    O Livro e a América



    Ao Grêmio Literário









    Talhado para as grandezas,

    P'ra crescer, criar, subir,

    O Novo Mundo nos músculos

    Sente a seiva do porvir.

    — Estatuário de colossos —

    Cansado doutros esboços

    Disse um dia Jeová:

    "Vai, Colombo, abre a cortina

    "Da minha eterna oficina...

    "Tira a América de lá".





    Molhado inda do dilúvio,

    Qual Tritão descomunal,

    O continente desperta

    No concerto universal.

    Dos oceanos em tropa

    Um — traz-lhe as artes da Europa,

    Outro — as bagas de Ceilão...

    E os Andes putrificados,

    Como braços levantados,

    Lhe apontam para a amplidão.





    Olhando em torno então brada:

    "Tudo marcha!... O grande Deus!

    As cataratas — p'ra terra,

    As estrelas — para os céus

    Lá, do pólo sobre as plagas,

    O seu rebanho de vagas

    Vai o mar apascentar...

    Eu quero marchar com os ventos,

    Com os mundos... co'os firmamentos!!!

    E Deus responde — "Marchar!"





    "Marchar!... Mas como?... Da Grécia

    Nos dóricos Partenons

    A mil deuses levantando

    Mil marmóreos Panteons?...

    Marchar cota espada de Roma

    — Leoa de raiva coma

    De presa enorme no chão,

    Saciando o ódio profundo...

    — Com as garras nas mãos do mundo,

    — Com os dentes no coração?...





    "Marchar!... Mas como a Alemanha

    Na tirania feudal,

    Levantando uma montanha

    Em cada uma catedral?...

    Não!... Nem templos feitos de ossos,

    Nem gládios a cavar fossos

    São degraus do progredir...

    Lá brada César morrendo:

    "No pugilato tremendo

    "Quem sempre vence é o porvir!'





    Filhos do séc'lo das luzes!

    Filhos da Grande nação!

    Quando ante Deus vos mostrardes,

    Tereis um livro na mão:

    O livro — esse audaz guerreiro

    Que conquista o mundo inteiro

    Sem nunca ter Waterloo...

    Eólo de pensamentos,

    Que abrira a gruta dos ventos

    Donde a Igualdade voou!...





    Por uma fatalidade

    Dessas que descem de além,

    O séc'lo, que viu Colombo,

    Viu Guttenberg também.

    Quando no tosco estaleiro

    Da Alemanha o velho obreiro

    A ave da imprensa gerou...

    O Genovês salta os mares...

    Busca um ninho entre os palmares

    E a pátria da imprensa achou...





    Por isso na impaciência

    Desta sede de saber,

    Como as aves do deserto —

    As almas buscam beber...

    Oh! Bendito o que semeia

    Livros... livros à mão cheia...

    E manda o povo pensar!

    O livro caindo n'alma

    É germe — que faz a palma,

    É chuva — que faz o mar.





    Vós, que o templo das idéias

    Largo — abris às multidões,

    P'ra o batismo luminoso

    Das grandes revoluções,

    Agora que o trem de ferro

    Acorda o tigre no cerro

    E espanta os caboclos nus,

    Fazei desse "rei dos ventos"

    — Ginete dos pensamentos,

    — Arauto da grande luz!...





    Bravo! a quem salva o futuro

    Fecundando a multidão!...

    Num poema amortalhada

    Nunca morre uma nação.

    Como Goethe moribundo

    Brada "Luz!" o Novo Mundo

    Num brado de Briaréu...

    Luz! pois, no vale e na serra...

    Que, se a luz rola na terra,

    Deus colhe gênios no céu! ...





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    Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Mar 2021, 04:52

    Hebréia





    Flos campi et lilium convallium



    (Cântico dos Cânticos)





    Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos!

    Lírio do vale oriental, brilhante!

    Estrela vésper do pastor errante!

    Ramo de murta a recender cheirosa!...





    Tu és, ó filha de Israel formosa...

    Tu és, ó linda, sedutora Hebréia...

    Pálida rosa da infeliz Judéia

    Sem ter o orvalho, que do céu deriva!





    Por que descoras, quando a tarde esquiva

    Mira-se triste sobre o azul das vagas?

    Serão saudades das infindas plagas,

    Onde a oliveira no Jordão se inclina?





    Sonhas acaso, quando o sol declina,

    A terra santa do Oriente imenso?

    E as caravanas no deserto extenso?

    E os pegureiros da palmeira à sombra?!...





    Sim, fora belo na relvosa alfombra,

    Junto da fonte, onde Raquel gemera,

    Viver contigo qual Jacó vivera

    Guiando escravo teu feliz rebanho..





    Depois nas águas de cheiroso banho

    — Como Susana a estremecer de frio —

    Fitar-te, ó flor do babilônio rio,

    Fitar-te a medo no salgueiro oculto...





    Vem pois!... Contigo no deserto inculto,

    Fugindo às iras de Saul embora,

    Davi eu fora, — se Micol tu foras,

    Vibrando na harpa do profeta o canto...





    Não vês?... Do seio me goteja o pranto

    Qual da torrente do Cédron deserto!...

    Como lutara o patriarca incerto

    Lutei, meu anjo, mas caí vencido.





    Eu sou o lótus para o chão pendido.

    Vem ser o orvalho oriental, brilhante!.

    Ai! guia o passo ao viajor perdido,

    Estrela vésper do pastor errante!...



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    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Sep 2023, 14:26


    Amar e ser amado




    Amar e ser amado! Com que anelo
    Com quanto ardor este adorado sonho
    Acalentei em meu delírio ardente
    Por essas doces noites de desvelo!
    Ser amado por ti, o teu alento
    A bafejar-me a abrasadora frente!
    Em teus olhos mirar meu pensamento,
    Sentir em mim tu’alma, ter só vida
    P’ra tão puro e celeste sentimento:
    Ver nossas vidas quais dois mansos rios,
    Juntos, juntos perderem-se no oceano —,
    Beijar teus dedos em delírio insano
    Nossas almas unidas, nosso alento,
    Confundido também, amante — amado —
    Como um anjo feliz... que pensamento!?



    ********************





    Amar y ser amado





    Amar y ser amado! Con que anhelo
    Con cuanto ardor este adorado sueño
    Acuné en mi delirio ardiente
    Por esas dulces noches de desvelo!
    Ser amado por ti, tu aliento
    que me sopla la encendida frente!
    En tus ojos mirar mi pensamiento,
    Sentir en mí tu alma, tener sólo vida
    Para tan puro y celeste sentimiento:
    Ver nuestras vidas como dos mansos ríos,
    Juntos, juntos se pierdan en el océano —,
    Besar tus dedos en delirio insano
    Nuestras almas unidas, nuestro aliento,
    Confundido también, amante — amado —
    Como un ángel feliz... que pensamiento!?


    _________________



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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    CASTRO ALVES (1847-1871) - Página 6 Empty Re: CASTRO ALVES (1847-1871)

    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Sep 2023, 14:28

    "EL NAVÍO NEGRERO"

    -I-

    Estamos en pleno mar... Audaz, en el espacio
    surge un rayo de luna –áurea mariposa–;
    Y tras él las olas corren, se fatigan,
    como niños, como una turba gozosa.

    Estamos en pleno mar... Del firmamento
    saltan los astros, tal como espumas de oro,
    y el mar enciende brillos ígneos.
    –Constelaciones de líquido tesoro...

    Estamos en pleno mar... Dos infinitos
    se estrechan en abrazo insano.
    Azules, dorados... plácidos, sublimes,
    ¿Cuál de los dos es cielo? ¿Cuál es el mar?

    Estamos en pleno mar... velas desplegadas
    al fuerte albur de la racha marina.
    El bergantín se desliza sobre el agua
    como fueran en la vela, roces de golondrina...

    ¿Dónde va? ¿Quién sabe el rumbo
    de las naves errantes en tamaño espacio?
    Los caballos del Sáhara alzan el polvo,
    galopan, vuelan, pero no hay rastros.

    Feliz el que pueda, en esta hora
    de estos trazos sentir la majestad:
    Abajo, el mar... encima el firmamento,
    y en uno y otro, la inmensidad.

    ¡Oh! ¡Qué dulce armonía me trae la brisa,
    qué música tenue el lejano cantar!
    ¡Mi Dios, qué sublime canto ardiente,
    flotando sobre el agua, en infinito azar!

    ¡Hombres de mar! ¡Oh, rudos marineros,
    quemados por el sol de cuatro mundos!
    Niños que la tempestad arrulla,
    en la cuna de este piélago profundo.

    ¡Esperad, esperad, dejad que beba,
    de esta poesía libre, salvaje,
    el viento silba entre las jarcias,
    el mar es la orquesta, que en la proa ruge.

    ¿Por qué huyes así, nave ligera?
    ¿Por qué huyes del impávido poeta?
    Quién pudiera viajar sobre tu estela,
    que en el mar parece la más audaz cometa.

    ¡Albatros, albatros! Águila de la mar,
    tú que duermes entre nubes de gasa,
    suelta las penas, Leviatán del aire,
    dame tus alas, Albatros, dame tus alas.

    *TRADUCCIÓN: Mario Catelli

    -------- ------

    O Navio Negreiro
    (Tragédia no mar)
    Antonio Castro Alves

    ‘Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
    Brinca o luar — dourada borboleta;
    E as vagas após ele correm... cansam
    Como turba de infantes inquieta.

    ‘Stamos em pleno mar... Do firmamento
    Os astros saltam como espumas de ouro...
    O mar em troca acende as ardentias,
    –Constelações do líquido tesouro...

    ‘Stamos em pleno mar... Dois infinitos
    Ali se estreitam num abraço insano,
    Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
    Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

    ‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
    Ao quente arfar das virações marinhas,
    Veleiro brigue corre à flor dos mares,
    Como roçam na vaga as andorinhas...

    Donde vem? onde vai? Das naus errantes
    Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
    Neste saara os corcéis o pó levantam,
    Galopam, voam, mas não deixam traço.

    Bem feliz quem ali pode nest’hora
    Sentir deste painel a majestade!
    Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
    E no mar e no céu — a imensidade!

    Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
    Que música suave ao longe soa!
    Meu Deus! como é sublime um canto ardente
    Pelas vagas sem fim boiando à toa!

    Homens do mar! ó rudes marinheiros,
    Tostados pelo sol dos quatro mundos!
    Crianças que a procela acalentara
    No berço destes pélagos profundos!

    Esperai! esperai! deixai que eu beba
    Esta selvagem, livre poesia,
    Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
    E o vento, que nas cordas assobia...

    Por que foges assim, barco ligeiro?
    Por que foges do pávido poeta?
    Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
    Que semelha no mar — doudo cometa!

    Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
    Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
    Sacode as penas, Leviathan do espaço,
    Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.







    "EL NAVÍO NEGRERO"

    -II-

    ¿Qué importa la cuna del marinero,
    cuál es su origen, cuál es su lar?
    Sólo la cadencia de los versos,
    que aprende del viejo mar.
    ¡Cantad: la muerte es divina!
    El bergantín navega a bolina,
    avanza, veloz delfín
    y, cautiva en la mesana,
    a sola bandera agita
    las olas que no ven fin.

    De España, las cantilenas
    con sus lánguidos requiebros,
    evocan bellas muchachas,
    las andaluzas en flor.
    De Italia el hijo indolente,
    canta Venecia durmiente,
    tierra de amor y traición,
    y del golfo, en el regazo,
    recuerda versos de Tasso,
    a los pies de aquel volcán.

    El inglés, un frío marino
    que al nacer se vio en la mar,
    (Inglaterra es un navío
    que en la Mancha se fue a anclar)
    duro entona patrias glorias
    y orgulloso evoca historias
    de Nelson o Trafalgar.
    El francés, predestinado,
    canta glorias del pasado
    y lauros del porvenir.

    ¡Oh, marineros helenos
    que la ola jónica acunó,
    bellos piratas morenos
    del mar que Ulises cruzó!
    Hombres que Fidias tallara,
    cantan en la noche clara
    versos que Homero echó al vuelo,
    navegantes de mil patrias
    sabéis hallar en las olas
    las melodías de este cielo.

    -------- ---------

    -II-

    Que importa do nauta o berço,
    Donde é filho, qual seu lar?
    Ama a cadência do verso
    Que lhe ensina o velho mar!
    Cantai! que a morte é divina!
    Resvala o brigue à bolina
    Como golfinho veloz.
    Presa ao mastro da mezena
    Saudosa bandeira acena
    As vagas que deixa após

    Do Espanhol as cantilenas
    Requebradas de langor,
    Lembram as moças morenas,
    As andaluzas em flor!
    Da Itália o filho indolente
    Canta Veneza dormente,
    — Terra de amor e traição,
    Ou do golfo no regaço
    Relembra os versos de Tasso,
    Junto às lavas do vulcão!


    O Inglês — marinheiro frio,
    Que ao nascer no mar se achou,
    (Porque a Inglaterra é um navio,
    Que Deus na Mancha ancorou),
    Rijo entoa pátrias glórias,
    Lembrando, orgulhoso, histórias
    De Nelson e de Aboukir.. .
    O Francês — predestinado —
    Canta os louros do passado
    E os loureiros do porvir!

    Os marinheiros Helenos,
    Que a vaga jônia criou,
    Belos piratas morenos
    Do mar que Ulisses cortou,
    Homens que Fídias talhara,
    Vão cantando em noite clara
    Versos que Homero gemeu...
    Nautas de todas as plagas,
    Vós sabeis achar nas vagas
    As melodias do céu!...





    *****************


    "EL NAVÍO NEGRERO"

    -III-

    Baja del espacio inmenso, el águila de la mar.
    Baja más, todavía más... no ve el humano mirar,
    lo que tus ojos persiguen, del bergantín volador.
    ¿Pero qué ven mis ojos! ¡Todo un cuadro de amarguras!
    ¡Es un canto funerario! ¡Y qué tétricas figuras!
    ¡Una escena vil e infame! ¡Mi Dios, mi Dios, el horror!

    ------- -----------

    -III-

    Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
    Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
    Como o teu mergulhar no brigue voador!
    Mas que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras!
    É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
    Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!



    ******************


    "EL NAVÍO NEGRERO"

    -IV-

    La cubierta era un sueño dantesco,
    y enrojecía el brillo de las luces
    al quedar bañada en sangre.
    Tañir de hierros, estallar de azotes,
    legiones de hombres negros cual la noche,
    en tétrico danzar.

    Mujeres negras. Niños enjutos
    colgando de sus tetas, y sus negras bocas
    regadas de sangre materna.
    Otras más mozas, desnudas, espantadas,
    vanamente se lamentan, arrastradas
    a un torbellino fantasmal.

    Y ríe la orquesta, irónica, estridente,
    y gira extraordinaria la serpiente
    en locas espirales.
    Si quiebra el viejo, si también resbala,
    se escuchan gritos, el látigo estalla,
    y giran más y más.

    Sujetos todos, una sola cadena:
    la multitud hambrienta tambalea
    y llora y danza y sigue.
    Uno de rabia delira, otro enloquece,
    otro, al que el martirio lo embrutece,
    cantando gime y ríe.

    Y mientras tanto, el capitán manda maniobra,
    y al ver que el cielo se desdobla
    tan puro sobre el mar,
    dice, mientras surge entre la niebla:
    ¡que se tense el cuero, marineros!
    ¡Quiero verlos bailar más!

    Y ríe la orquesta, irónica, estridente,
    y gira extraordinaria la serpiente
    en locas espirales.
    ¡Como en un sueño dantesco vuelan sombras!
    ¡Suenan gritos, ays, maldiciones,
    y ríese Satanás!

    -----------

    -IV-

    Era um sonho dantesco... o tombadilho
    Que das luzernas avermelha o brilho.
    Em sangue a se banhar.
    Tinir de ferros... estalar de açoite...
    Legiões de homens negros como a noite,
    Horrendos a dançar...

    Negras mulheres, suspendendo às tetas
    Magras crianças, cujas bocas pretas
    Rega o sangue das mães:
    Outras moças, mas nuas e espantadas,
    No turbilhão de espectros arrastadas,
    Em ânsia e mágoa vãs!

    E ri-se a orquestra irônica, estridente...
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais ...
    Se o velho arqueja, se no chão resvala,
    Ouvem-se gritos... o chicote estala.
    E voam mais e mais...

    Presa nos elos de uma só cadeia,
    A multidão faminta cambaleia,
    E chora e dança ali!
    Um de raiva delira, outro enlouquece,
    Outro, que martírios embrutece,
    Cantando, geme e ri!

    No entanto o capitão manda a manobra,
    E após fitando o céu que se desdobra,
    Tão puro sobre o mar,
    Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
    «Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
    Fazei-os mais dançar!...»

    E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
    E da ronda fantástica a serpente
    Faz doudas espirais...
    Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
    Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
    E ri-se Satanás!...



    *******************


    "EL NAVÍO NEGRERO"

    -V-

    ¡Oh, Dios de los desgraciados!
    Dímelo tú, señor Dios:
    ¿Es mentira o es verdad,
    tanto horror ante este cielo?
    ¡Oh, mar, porqué no lavas,
    con la esponja de tus olas,
    de tu manto el deshonor.
    ¡Astros, noche, tempestades!
    ¡Surgid de la inmensidad!
    ¡Barre los mares, tifón!

    ¿Quiénes son los desgraciados
    que sólo encuentran en vos,
    el reír calmo de la turba
    que excita la furia del verdugo?
    ¿Quiénes son? Y si la estrella se esconde,
    y si la ola se escapa
    como un cómplice fugaz
    ante la noche confusa...
    ¡Dilo tú, severa musa,
    musa libérrima, audaz!

    Son los hijos del desierto,
    donde se unen tierra y luz,
    donde vive bajo el cielo,
    la tribu de hombres desnudos.
    Son los guerreros osados,
    que con los tigres manchados
    combaten en soledad.
    Ayer simples, fuertes, bravos,
    hoy son míseros esclavos,
    sin luz, ni aire ni razón...

    Son mujeres desgraciadas,
    como Agar también lo fue,
    que sedientas, arrasadas,
    de lejos van a llegar,
    trayendo con tibios pasos,
    grilletes e hijos en los brazos
    y en el alma lágrimas y hiel.
    Como Agar, que al sufrir tanto,
    ya ni leche de su llanto
    tiene que darle a Ismael.

    Sobre arenas infinitas
    del país de las palmeras,
    nacieron bellas criaturas,
    vivieron mozas gentiles.
    Pasó un día una caravana,
    Y dijo en la noche oscura,
    la virgen de la cabaña:
    ¡Adiós, oh choza del monte!
    ¡Adiós, palmeras de la fuente!
    ¡Adiós, amores, adiós!





    V

    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus!
    Se é loucura... se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    De teu manto este borrão?...
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão!
    Quem são estes desgraçados
    Que não encontram em vós
    Mais que o rir calmo da turba
    Que excita a fúria do algoz?
    Quem são? Se a estrela se cala,
    Se a vaga à pressa resvala
    Como um cúmplice fugaz,
    Perante a noite confusa...
    Dize-o tu, severa Musa,
    Musa libérrima, audaz!...
    São os filhos do deserto,
    Onde a terra esposa a luz.
    Onde vive em campo aberto
    A tribo dos homens nus...
    São os guerreiros ousados
    Que com os tigres mosqueados
    Combatem na solidão.
    Ontem simples, fortes, bravos.
    Hoje míseros escravos,
    Sem luz, sem ar, sem razão. . .
    São mulheres desgraçadas,
    Como Agar o foi também.
    Que sedentas, alquebradas,
    De longe... bem longe vêm...
    Trazendo com tíbios passos,
    Filhos e algemas nos braços,
    N'alma — lágrimas e fel...
    Como Agar sofrendo tanto,
    Que nem o leite de pranto
    Têm que dar para Ismael.
    Lá nas areias infindas,
    Das palmeiras no país,
    Nasceram crianças lindas,
    Viveram moças gentis...
    Passa um dia a caravana,
    Quando a virgem na cabana
    Cisma da noite nos véus ...
    ... Adeus, ó choça do monte,
    ... Adeus, palmeiras da fonte!...
    ... Adeus, amores... adeus!...
    Depois, o areal extenso...
    Depois, o oceano de pó.
    Depois no horizonte imenso
    Desertos... desertos só...
    E a fome, o cansaço, a sede...
    Ai! quanto infeliz que cede,
    E cai p'ra não mais s'erguer!...
    Vaga um lugar na cadeia,
    Mas o chacal sobre a areia
    Acha um corpo que roer.
    Ontem a Serra Leoa,
    A guerra, a caça ao leão,
    O sono dormido à toa
    Sob as tendas d'amplidão!
    Hoje... o porão negro, fundo,
    Infecto, apertado, imundo,
    Tendo a peste por jaguar...
    E o sono sempre cortado
    Pelo arranco de um finado,
    E o baque de um corpo ao mar...
    Ontem plena liberdade,
    A vontade por poder...
    Hoje... cúm'lo de maldade,
    Nem são livres p'ra morrer. .
    Prende-os a mesma corrente
    — Férrea, lúgubre serpente —
    Nas roscas da escravidão.
    E assim zombando da morte,
    Dança a lúgubre coorte
    Ao som do açoute... Irrisão!...
    Senhor Deus dos desgraçados!
    Dizei-me vós, Senhor Deus,
    Se eu deliro... ou se é verdade
    Tanto horror perante os céus?!...
    Ó mar, por que não apagas
    Co'a esponja de tuas vagas
    Do teu manto este borrão?
    Astros! noites! tempestades!
    Rolai das imensidades!
    Varrei os mares, tufão! ...



    ***************



    VI

    Existe um povo que a bandeira empresta
    P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
    E deixa-a transformar-se nessa festa
    Em manto impuro de bacante fria!...
    Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
    Que impudente na gávea tripudia?
    Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
    Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...
    Auriverde pendão de minha terra,
    Que a brisa do Brasil beija e balança,
    Estandarte que a luz do sol encerra
    E as promessas divinas da esperança...
    Tu que, da liberdade após a guerra,
    Foste hasteado dos heróis na lança
    Antes te houvessem roto na batalha,
    Que servires a um povo de mortalha!...
    Fatalidade atroz que a mente esmaga!
    Extingue nesta hora o brigue imundo
    O trilho que Colombo abriu nas vagas,
    Como um íris no pélago profundo!
    Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
    Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
    Andrada! arranca esse pendão dos ares!
    Colombo! fecha a porta dos teus mares!


    _________________



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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    CASTRO ALVES (1847-1871) - Página 6 Empty Re: CASTRO ALVES (1847-1871)

    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Sep 2023, 14:29



    É TARDE!





    Olha-me, Ó virgem, a fronte!
    Olha-me os olhos sem luz!
    A palidez do infortúnio
    Por minhas faces transluz;
    Olha, ó virgem - não te iludas
    Eu só tenho a lira e a cruz.
    JUNQUEIRA FREIRE

    É tarde! É muito tarde!
    MONT’ ALVERNE



    E tarde! E muito tarde! O templo é negro...
    O fogo-santo já no altar não arde.
    Vestal! não venhas tropeçar nas piras ...
    É tarde! É muito tarde!

    Treda noite! E minh'alma era o sacrário,
    A lâmpada do amor velava entanto,
    Virgem flor enfeitava a borda virgem
    Do vaso sacrossanto.

    Quando Ela veio — a negra feiticeira —
    A libertina, lúgubre bacante,
    Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
    A roupa gotejante.

    Foi minha crença — o vinho dessa orgia,
    Foi minha vida — a chama que apagou-se,
    Foi minha mocidade — o touro lúbrico,
    Minh'alma - o tredo alcouce.

    E tu, visão do céu! Vens tateando
    O abismo onde uma luz sequer não arde?
    Ai! não vás resvalar no chão lodoso ...
    É tarde! É muito tarde!

    Ai! não queiras os restos do banquete!
    Não queiras esse leito conspurcado!
    Sabes? meu beijo te manchara os lábios
    Num beijo profanado.

    A flor do lírio de celeste alvura
    Quer da lucíola o pudico afago ...
    O cisne branco no arrufar das plumas
    Quer o aljôfar do lago.

    É tarde! A rola meiga do deserto
    Faz o ninho na moita perfumada ...
    Rola de amor! não vás ferir as asas
    Na ruína gretada.

    Como o templo, que o crime encheu de espanto,
    Ermo e fechado ao fustigar do norte,
    Nas ruínas desta alma a raiva geme ...
    E cresce o cardo — a morte —.

    Ciúme! dor! sarcasmo! - Aves da noite!
    Vós povoais-me a solidão sombria,
    Quando nas trevas a tormenta ulula
    Um uivo de agonia! ...

    * * *

    É tarde! Estrela-d'alva! o lago é turvo.
    Dançam fogos no pântano sombrio ..
    Pede a Deus que dos céus as cataratas
    Façam do brejo - um rio!

    Mas não ...! Somente as vagas do sepulcro
    Hão de apagar o fogo que em mim arde .
    Perdoa-me, Senhora! ... Eu sei que morro .
    É tarde! É muito tarde! ...



    Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869.
    (De Espumas Flutuantes)






    ¡ES TARDE!



    Trad. de Arturo Corchera

    ¡Es tarde! ¡Ya es muy tarde! El templo a oscuras
    En el altar el fuego santo no arde.
    ¡No tropieces, Vestal, entre Las brasas ...!
    ¡Es tarde! ¡Ya es muy tarde!

    ¡Traidora noche! Mi alma era un sagrario,
    Su lámpara el amor velaba, en tanto
    Virgen flor adornaba el borde virgen
    Del vaso sacrosanto.

    Cuando Ella vino —fúnebre hechicera—
    La libertina, lúgubre bacante,
    Mirar lascivo, trenza desgreñada,
    EI traje deleznante.

    Mi religión —el vino de esa orgía.
    No un incendio mi vida —un apagar,
    Y fue mi mocedad —lúbrico toro.
    Y mi alma un lupanar.

    Visión del cielo! ¿Vienes tanteando
    Abismos donde ya la lumbre no arde?
    No vayas, ay, a sepultarte en fango ...
    Es tarde. Ya es muy tarde.

    ¡No quieras, no, las sobras del banquete!
    ¡Ni el pervertido lecho del malsano!
    Mi boca -entiende- manchará tu beso
    Con su beso profano.

    La flor del lirio de celeste albura
    Busca de la luciérnaga un halago.
    El cisne quiere en su agitar de plumas
    La perla de los lagos.

    ¡Es tarde! La paloma del desierto
    Su nido hace en la fronda perfumada ...
    ¡Paloma del amor! Cuida tus alas
    De los boscajes yertos.

    Templo que el crimen asoló de espanto,
    Cerrado al fustigar del viento, inerte
    Alma hecha ruinas, donde mi alma gime
    Crece un cardo — la muerte.

    ¡Sarcasmos! ¡Celos! ¡Aves de la noche
    Que me pobláis la soledad umbría
    Cuando en tinieblas de tormenta ululan
    Aullares de agonía! ...

    ***

    ¡Es tarde! !Luz del alba! ¡Lago turbio!
    Danzan fuegos en lodazal sombrío.
    Pide a Dios que del cielo las cascadas
    Hagan del yermo —un rio.

    Mas no. Sólo las olas del sepulcro
    Han de apagar en mí el infierno que arde .
    ¡Perdonadme, Señora!. .. Yo ya he muerto .
    ¡Es tarde! ¡Ya es muy tarde!. ..





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    "Ser como un verso volando
    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    CASTRO ALVES (1847-1871) - Página 6 Empty Re: CASTRO ALVES (1847-1871)

    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Sep 2023, 14:30



    Poema Vozes D’África - Português/Español

    VOZES D’ÁFRICA /VOCES DE AFRICA

    Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? / !Dios! !Oh Dios! Dónde estás que no respondes?
    Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes / En qué mundo, en qué estrella te escondes
    Embuçado nos céus? / embozado en el cielo?
    Há dois mil anos te mandei meu grito, / Hace dos mil años exclamo mi grito,
    Que embalde desde então corre o infinito… Que en vano desde entonces recorre el infinito…
    Onde estás, Senhor Deus?… / Dónde estás señor mío?

    Qual Prometeu tu me amarraste um dia / Cual Prometeu me ataste un día
    Do deserto na rubra penedia / Al desierto, en la roja isla
    — Infinito: galé!… / Infinito : Galé!…
    Por abutre — me deste o sol candente, / Por buitre me diste el sol y la arena
    E a terra de Suez — foi a corrente / y la tierra de Suez- fue la cadena
    Que me ligaste ao pé… / Que me ataste al pie…

    O cavalo estafado do Beduíno / El caballo estafado del beduino
    Sob a vergasta tomba ressupino / Bajo azotes muere el equino
    E morre no areal. / tumbado en el arenal
    Minha garupa sangra, a dor poreja, / Mi lomo sangra, el dolor chorrea
    Quando o chicote do simoun dardeja / Cuando el látigo del simoun golpea
    O teu braço eternal. / A tu brazo fraternal

    Minhas irmãs são belas, são ditosas… Mis Hermanas son tan bellas, tan dichosas
    Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas Ásia duerme en las sombras voluptuosas
    Dos haréns do Sultão. De los harenes del Sultán.
    Ou no dorso dos brancos elefantes O en el dorso de blancos elefantes
    Embala-se coberta de brilhantes Se menea cubierta de brillantes
    Nas plagas do Hindustão. Entre las plagas del Hindustán

    Por tenda tem os cimos do Himalaia… Por carpa tiene la cima del Himalaya…
    Ganges amoroso beija a praia Ganges amoroso que besa la playa
    Coberta de corais … Repleta de corales…
    A brisa de Misora o céu inflama; La brisa de Misora al cielo inflama;
    E ela dorme nos templos do Deus Brama, ella duerme en los templos del Dios Brahma
    — Pagodes colossais… – Pagodes Colosales

    A Europa é sempre Europa, a gloriosa!… Europa es siempre Europa, !la gloriosa!…
    A mulher deslumbrante e caprichosa, Mujer deslumbrante y caprichosa
    Rainha e cortesã. Reina y cortesana
    Artista — corta o mármor de Carrara; Artista- corta el mármol de Carrara;
    Poetisa — tange os hinos de Ferrara, Poeta- recita himnos de Ferrara,
    No glorioso afã!… !En su glorioso afán!…

    Sempre a láurea lhe cabe no litígio… Siempre el premio cabe en el litigio…
    Ora uma c’roa, ora o barrete frígio Ora una c`roa, ora un gorro frígio
    Enflora-lhe a cerviz. Enganalándole la cerviz
    Universo após ela — doudo amante Universo después de ella- loco amante
    Segue cativo o passo delirante Sigue cautivo su paso delirante
    Da grande meretriz. De la gran meretriz

    ………………………………

    Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada !Pero yo, Señor!… Yo triste abandonada
    Em meio das areias esgarrada, En medio de arenas desgarrada,
    Perdida marcho em vão! !Perdida marcho sin sentido!
    Se choro… bebe o pranto a areia ardente; Si lloro… bebe mi llanto la arena ardiente;
    talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente! Quizás… para que mi llanto, !oh Dios clemente!
    Não descubras no chão… No lo halles en el piso…

    E nem tenho uma sombra de floresta… No tengo una sombra de floresta…
    Para cobrir-me nem um templo resta Para cubrirme, ni templo resta
    No solo abrasador… En el suelo abrasador
    Quando subo às Pirâmides do Egito Cuando subo las pirámides de Egipto
    Embalde aos quatro céus chorando grito: En vano, a los cuatro cielos, grito
    “Abriga-me, Senhor!…” “!Cobíjame Señor!…”

    Como o profeta em cinza a fronte envolve, Como el profeta que la frente envuelve
    Velo a cabeça no areal que volve Cubro la cabeza en el arenal, que devuelve
    O siroco feroz… El Siroco (viento) feroz…
    Quando eu passo no Saara amortalhada… Cuando cruzo el Sahara amortajada
    Ai! dizem: “Lá vai África embuçada Luego dicen: “Ahí va África disfrazada
    No seu branco albornoz… “ Con su blanco albornoz… “

    Nem vêem que o deserto é meu sudário, No notan que el desierto es mi sudario
    Que o silêncio campeia solitário Que el silencio deambula solitário
    Por sobre o peito meu. Dentro de ese pecho mío
    Lá no solo onde o cardo apenas medra En ese suelo donde el cardo a penas medra
    Boceja a Esfinge colossal de pedra Bosteza la esfinge colosal de piedra
    Fitando o morno céu. Encarando el cielo vacío

    De Tebas nas colunas derrocadas Desde Tebas, en las columnas derrocadas
    As cegonhas espiam debruçadas las cigueñas espían extasiadas
    O horizonte sem fim … El horizonte sin fin
    Onde branqueia a caravana errante, Donde blanquea la caravana errante
    E o camelo monótono, arquejante Y el camello monótono, jadeante
    Que desce de Efraim Que baja de Efraim
    …………………………………
    Não basta inda de dor, ó Deus terrível?! No basta ya de dolor, ¡?oh Dios terrible?!
    É, pois, teu peito eterno, inexaurível ?Es, pues, tu pecho eterno, ineroxable
    De vingança e rancor?… de venganza y rencor?
    E que é que fiz, Senhor? que torvo crime ?Qué es lo que hice Señor? Que tosco crimen
    Eu cometi jamais que assim me oprime Cometí, jamás, que de este modo me oprime
    Teu gládio vingador?! Tu sable represor?

    ………………………………….


    Foi depois do dilúvio… um viadante, Fue luego del diluvio.. un viandante
    Negro, sombrio, pálido, arquejante, Negro, sombrío, pálido, jadeante,
    Descia do Arará… Que bajaba de Arará…
    E eu disse ao peregrino fulminado: Yo le dije al peregrino fulminado:
    “Cam! … serás meu esposo bem-amado… “Cam! … serás mi esposo bienamado…
    — Serei tua Eloá. . . “ — Seré tu Eloá. . . “

    Desde este dia o vento da desgraça Desde este día el viento de la desgracia
    Por meus cabelos ululando passa Por tus pelos aullando pasa
    O anátema cruel. El anatema cruel.
    As tribos erram do areal nas vagas, Las tribus erran del arenal a la ciénaga
    E o nômade faminto corta as plagas El nómada hambriento corta las sendas
    No rápido corcel. Con su rápido corcel

    Vi a ciência desertar do Egito… Vi a la ciencia desertar a Egipto
    Vi meu povo seguir — Judeu maldito — Vi a mi Pueblo seguir- judío maldito-
    Trilho de perdição. Sendero de la perdición.
    Depois vi minha prole desgraçada Luego vi mi prole desgraciada
    Pelas garras d’Europa — arrebatada — Por las garras de Europa, arrebatada,
    Amestrado falcão! … !Amaestrado halcón!

    Cristo! embalde morreste sobre um monte !Cristo! En vano moriste en un monte
    Teu sangue não lavou de minha fronte Tu sangre no lavó de mi frente
    A mancha original. La mancha original.
    Ainda hoje são, por fado adverso, Aún hoy son, por sino adverso,
    Meus filhos — alimária do universo, Mis hijos- alimaña del universo,
    Eu — pasto universal… Yo- pasto universal…

    Hoje em meu sangue a América se nutre Hoy en mis venas América se nutre
    Condor que transformara-se em abutre, Condor que se convierte en buitre
    Ave da escravidão, Ave de la esclavitud,
    Ela juntou-se às mais… irmã traidora Ella se unió a las demás, hermana traidora
    Qual de José os vis irmãos outrora Como de José, sus viles hermanos otrora
    Venderam seu irmão. Vendieron su virtud (a su Hermano)

    Basta, Senhor! De teu potente braço !Basta Señor! De tu potente brazo
    Role através dos astros e do espaço Descienda a través de los astros y el espacio
    Perdão p’ra os crimes meus! Perdón para todos mis pecados
    Há dois mil anos eu soluço um grito… Hace dos mil años que exclamo y grito
    escuta o brado meu lá no infinito, Escucha mi bramar allá en el infinito,
    Meu Deus! Senhor, meu Deus!!… !DIos mío! Señor, ¡Dios mío!


    ************************

    Castro Alves (1847-1871) nasceu na fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, perto da vila de Curralinho, hoje cidade Castro Alves, no Estado da Bahia, em 14 de março de 1847. Filho do médico Antônio José Alves, e também professor da Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro.

    No ano de 1853, vai com sua família morar em Salvador. Estudou no colégio de Abílio César Borges, onde foi colega de Rui Barbosa, Demonstrou vocação apaixonada e precoce pela poesia. Em 1859 perde sua mãe. Em 24 de janeiro de 1862 seu pai casa com Maria Rosário Guimarães e nesse mesmo ano foi morar no Recife. A capital pernambucana efervecia com os ideais abolicionistas e republicanos e Castro Alves recebe influências do líder estudantil Tobias Barreto.

    Castro Alves publica em 1863, seu primeiro poema contra a escravidão “A Primavera”, nesse mesmo ano conhece a atriz portuguesa Eugênia Câmara que se apresentava no Teatro Santa Isabel no Recife. Em 1864 ingressa na Faculdade de Direito do Recife, onde participou ativamente da vida estudantil e literária, mas volta para a Bahia no mesmo ano e só retorna ao Recife em 1865, na companhia de Fagundes Varela, seu grande amigo.

    Castro Alves inicia em 1866, um intenso caso de amor com Eugênia Câmara, dez anos mais velha que ele, e em 1867 partem para a Bahia, onde ela iria representar um drama em prosa, escrito por ele “O Gonzaga ou a Revolução de Minas”. Em seguida Castro Alves parte para o Rio de Janeiro onde conhece Machado de Assis, que o ajuda a ingressar nos meios literários. Vai para São Paulo e ingressa no terceiro ano da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.

    Em 1868 rompe com Eugênia. De férias, numa caçada nos bosques da Lapa fere o pé esquerdo, com um tiro de espingarda, resultando na amputação do pé. Em 1870 volta para Salvador onde publica “Espumas Flutuantes”.

    Antônio Frederico de Castro Alves, morre em Salvador no dia 6 de julho de 1871, vitimado pela tuberculose.


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    CASTRO ALVES (1847-1871) - Página 6 Empty Re: CASTRO ALVES (1847-1871)

    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Sep 2023, 20:08

    CASTRO ALVES Y LA POESÍA ABOLICIONISTA BRASILEÑA: “EL BARCO NEGRERO, TRAGEDIA EN EL MAR”



    La lucha a favor del negro marcaba vida y obra de Castro Alves. En esa correspondencia de pensamiento y acción, se hermanaba con los poetas románticos de otras latitudes. Más aún, la importancia del papel asumido por el autor brasileño fue que en su país, en vez de sublimar la figura del indígena como lo hacían Antônio Gonçalves Dias, José de Alencar y otros románticos, prefirió dejar morar en la palabra poética al negro, un sujeto que, hasta ese momento histórico, “era una realidad degradante, sin categoría de arte, sin leyenda heroica” (Candido, 1975, p. 275). Obviamente, como lo agrega Antonio Candido, el negro ya estaba tímidamente presente en algunos poemas de Vitoriano Palhares, solo que fue Castro Alves quien “efectuó la incorporación definitiva del negro a la literatura” (p. 276), no simplemente como víctima, sino como un ser con dignidad, valores, sentidos de ternura, amor, cólera y alegría. En este sentido, podría considerarse como una figura tutelar de una larga tradición de poetas que también abordaron la figura del negro, piénsese, por ejemplo, en Jorge de Lima (1895- 1953), Gilberto Freyre (1900-1987), Adão Ventura (1946-2004), entre otros.

    Bachelard expresaba que “el poema es esencialmente una aspiración a imágenes nuevas” (2006, p. 10). Por ello, cada poeta le ofrece al lector su “invitación al viaje” (p. 12), un viaje que implica no sólo movilidad espiritual y de imágenes, sino también situaciones inesperadas. Desde esta perspectiva es oportuno abordar “El barco negrero, tragedia en el mar”, donde el poeta somete a mutaciones su propia voz, su relación con los objetos, el hombre, la naturaleza, su Dios y la historia, además de permitirse manejar una melodía armónica e idílica que será aniquilada dentro del espacio textual por otra melodía rabiosa y desencantada. Los mismos estados poéticos están encaminados a que el lector se conmocione con distintas gradaciones de la belleza y con el destino trágico que soportan los negros que son traídos desde África para convertirse en esclavos en Brasil, sufriendo vejaciones y nostalgias por haber sido arrancados de su tierra madre, padeciendo, como indica Edward Said en Reflexiones sobre el exilio, esa “grieta imposible de cicatrizar impuesta entre un ser humano y su lugar natal, entre el yo y su verdadero hogar” (2005, p. 179). Las estaciones presentes en el poema para que la tragedia de los esclavos no caiga sobre el lector en forma brusca, sino gradual, podrían ser las siguientes: a) juego-inocencia; b) contemplación y culto; c) interrogación-digresión; d) horror y cólera; e) solidaridad y nostalgia; f) indignación y desencanto. Precisamente, el juego y la inocencia son el punto de partida en ese viaje que ofrece el poeta, tal como se evidencia en los versos iniciales:


    En pleno mar… El brillo de la luna
    juega en el aire, blanca mariposa,
    como niños las olas van tras ella,
    que no se cansa, esquiva y vagarosa.

    En pleno mar… Los astros desde el cielo
    saltan cantando como espumas de oro…
    el mar a cambio asciende a sus estrellas,
    -constelación de líquido tesoro (Castro Alves, 1984, p. 71).


    En la primera parte del poema se vislumbra la “feminidad del agua” (Durand, 1981, p. 95), del mar-madre que brinda cobijo y ternura a otros elementos naturales que, ante su presencia, se entregan al juego. No se olvide que el mar “es el abismo feminizado y maternal que, para numerosas culturas, es el arquetipo del descenso y de las fuentes originales de la felicidad” (p. 214). La imagen que refiere el ascenso del mar a las estrellas en el tercer verso del segundo cuarteto, unida a las sugerencias presentes en el texto lírico en torno a que el cielo y el mar son la pareja tutelar, está referido al hecho de que en los arquetipos universales el mar es madre, como también existe “una vinculación entre el cielo y paternidad” (p. 129). Mar y cielo en estas estrofas son un solo abrazo, las aguas del mar se funden con el azul del cielo. Por eso la tercera estrofa expresa: “En pleno mar…Furiosamente se atan/ dos infinitos en abrazo humano./ Apacibles, azules, confundidos:/ ¿Cuál es el cielo y cuál es el océano?” (Castro Alves, 1984, p. 71). La inmensidad del mar y del cielo obnubila al poeta y lo hace saltar del estado de juego-inocencia a uno de contemplación y culto: “Dichoso aquel que pueda en esta hora/ de este mural sentir la majestad…./ Abajo el mar, en lo alto el firmamento/ y en el cielo y el mar la inmensidad” (p. 73). Seduce en esta estrofa la cadencia de los versos, la unión de lo alto y lo bajo ante el pasmo religioso del poeta.




    continuará


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