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    Mensaje por Maria Lua Mar 20 Feb 2024, 20:05

    Preparativos para a viagem



    Uns vão de guarda-chuva e galochas,
    outros arrastam um baú de guardados...
    Inúteis precauções!
    Mas,
    se levares apenas as visões deste lado,
    nada te será confiscado:
    todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
    — a sua única felicidade!
    E os próprios Anjos, esses que fitam eternamente a face
    [do
    Senhor...
    os próprios Anjos te invejarão


    *********************

    Preparativos para el viaje


    Algunos van con paraguas y botas de agua,
    otros arrastran un baúl de guardados...
    ¡inútiles Precauciones!
    Pero,
    si solo llevas las visiones de este lado,
    nada te será confiscado:
    todos respetan los sueños de un ciego
    ¡su única felicidad!
    Y los mismos Ángeles, esos que miran eternamente a la cara
    [del
    Señor...
    los mismos ángeles te envidiarán


    _________________


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Vie 23 Feb 2024, 10:22

    Intermezzo



    Nem tudo pode estar sumido
    ou consumido...
    Deve — forçosamente — a qualquer instante
    formar-se, pobre amigo, uma bolha de tempo nessa
    [Eternidade..e conde
    — o mesmo barman no mesmo balcão,
    por trás a esplêndida biblioteca de garrafas,
    fonte da nossa colorida erudição —
    haveremos de continuar aquela nossa velha discussão
    sobre tudo e nada
    até
    que, fartos de tudo e nada,
    desta e da outra vida,
    a rir como uns perdidos,
    a chorar como uns danados,
    beberemos os dois nos crânios um do outro...
    até o teto desabar!
    (Perdão! até a bolha rebentar...)


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    Mensaje por Maria Lua Lun 26 Feb 2024, 21:35

    Tempestade Noturna

    Noite alta,
    na soçobrante Nau exposta aos quatro ventos,
    em pleno céu sulcado de relâmpagos,
    os marinheiros mortos trovejam palavrões.
    Ó velhos marinheiros meus avós…
    para eles ainda não terminou a espantosa Era dos Descobrimentos!

    Santa Bárbara
    e São Jerônimo,
    transidos de divino amor,
    escutam suas pragas como orações.

    Quando eu acordar amanhã, livre e liberto como uma asa,
    vou rezar a São Jerônimo
    vou rezar a Santa Bárbara
    por este nosso fim de século – pobre Nau perdida no nevoeiro –
    que em vão busca o rumo

    das eternas, das misteriosas Américas ainda por descobrir!






    ( Mario Quintana )
    (Poema publicado originalmente no livro Baú de Espantos, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 579.)

    **********************



    A luta amorosa com as palavras



    Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Há! Mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas… Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a eternidade.

    Nasci do rigor do inverno, temperatura: 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton! Excusez du peu.

    Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! Sou é caladão, introspectivo. Não sei por que sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros ?

    Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante 5 anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Erico Veríssimo – que bem sabem (ou souberam), o que é a luta amorosa com as palavras.

    ( Mario Quintana )

    (texto escrito pelo poeta para a revista “Isto É” de 14/11/1984)





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    Mensaje por Maria Lua Miér 28 Feb 2024, 16:53

    Mario Quintana. Puntos Suspensivos...




    Esos libros que se nos quedan en las manos emitiendo calor, esos libros que vibran al tacto, como prometiémdonos algo, así son los poemas y es la edición de 2007 de Puntos Suspensivos del poeta brasileño Mario Quintana a la que ahora vuelvo para "dejar recado" en este blog. De su poesía, con decir que es luminosa, fresca, arrumbada, imaginativa, que sonríe el texto para nosotros, que suena a verdad, baste, no necesita más adornos. Y como nota, aquí queden unos poemas en portugúes y en castellano, traducidos para la edición por Enrique García-Máiquez.

    ACUARELA DE APÓS - CHUVA

    No peitoril de todas as janelas
    Há una flor convalescente...
    No céu desenha-se um pálido sorriso...
    Só o teu nome, que estava quase desmaiado no meu peito,
    Aviva-se em brasa como una cicatriz!


    ACUARELA DESPUÉS DE LA LLUVIA

    En el pretil de todas las ventanas,
    hay una flor convaleciente...
    se dibuja en el cielo una sonrisa pálida...
    Sólo tu nombre que estaba desmayado en mi pecho
    se pone al rojo vivo como una cicatriz.


    OS POEMAS

    Os poemas sao pássaros que chegam
    nao se sabe de onde e pousam
    no livro que lês.
    Quando fechas o livro, eles alçam vôo
    como de um alçapao.
    Eles nao têm pouso
    nem porto;
    alimentam-se um instante em cada
    par de maos e partem.
    E olhas, entao, essas tuas maos vazias,
    no maravilhado espanto de saberes
    que o alimento deles já estava em ti...


    LOS POEMAS

    Los poemas son pájaros que llegan
    -no se sabe de dónde- y se posasn
    en el libro que lees.
    Cuando cierras el libro, alzan el vuelo
    como si huyesen de una trampa.
    Ellos no tienen nido
    ni refugio,
    se alimentan, inquietos, en cada par de manos
    y parten...
    Entonces, miras esas manos tuyas, vacías,
    con el maravilloso asombro de saber
    que el alimento de los pájaros ya estaba en ti.


    Puntos Suspensivos de Mario Quintana ha sido editado por Los Papeles del Sitio, Valencina, Sevilla, 2007. Traducción y edición de Enrique García Máiquez.




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    Mensaje por Maria Lua Dom 03 Mar 2024, 11:23

    Retrato do poeta na idade ingrata



    A minha alma era uma paisagem hirsuta:
    cactos, palmas híspidas,
    estranhas flores que atemorizavam (seriam aranhas
    carnívoras?) parecia
    um texto obscuro com pontuação excessiva:
    tudo porque me estavam apontando alguns fios de barba:
    e cada fio era uma baioneta-calada contra o mundo:

    tu
    com
    a graça aérea de um helicóptero ou de uma libélula
    soubeste achar — naquilo — onde o campo de pouso,
    soubeste ouvir onde cantava
    pura
    a fonte oculta...
    Só tu soubeste achar-me... e te foste!


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    Mensaje por Maria Lua Lun 04 Mar 2024, 19:32

    Noturno


    O gato, que mora no mundo para sempre perdido do cinema silencioso,
    atravessa o país do tapete, onde se abrem flores falsamente tropicais.
    Ao pé da escada, por força do hábito, a avozinha morta começa a tricotar
    mais um pulôver.
    Por trás de suas barbas, no retrato da parede, o olhar do avô indaga: — para
    quê?
    De repente, na copa, o refrigerador compõe ruidosamente a garganta,
    enquanto estremecem de medo os frágeis habitantes do porta-cristais: — Meu
    Deus, meu Deus, ele agora vai fazer um discurso!


    ********************

    Nocturno


    El gato, que vive en el mundo para siempre perdido del cine silencioso,
    atraviesa el país de la alfombra, donde se abren falsas flores tropicales.
    Al pie de la escalera, por costumbre, la abuelita muerta comienza a tejer
    un jersey más.
    Detrás de su barba, en el retrato de la pared, la mirada del abuelo pregunta: — a
    ¿qué?
    De repente, en la despensa, el refrigerador compone ruidosamente la garganta,
    mientras tiemblan de miedo los frágiles habitantes del portacristales : —
    ¡Dios mío, Dios mío, ahora él va a dar un discurso!


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    Mensaje por Maria Lua Jue 07 Mar 2024, 09:20

    Deixa-me seguir para o mar


    Tenta esquecer-me... Ser lembrado é como
    evocar-se um fantasma... Deixa-me ser
    o que sou, o que sempre fui, um rio que vai fluindo...

    Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
    me recamarei de estrelas como um manto real,
    me bordarei de nuvens e de asas,
    às vezes virão em mim as crianças banhar-se...

    Um espelho não guarda as coisas refletidas!
    E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar, as imagens perdendo no caminho...
    Deixa-me fluir, passar, cantar...

    toda a tristeza dos rios é não poderem parar!



    ***********************


    Seiscentos e Sessenta e Seis



    A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

    Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
    Quando se vê, já é 6ª-feira…
    Quando se vê, passaram 60 anos!
    Agora, é tarde demais para ser reprovado…
    E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
    eu nem olhava o relógio
    seguia sempre em frente…

    E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.



    *******************


    O pobre poema



    Eu escrevi um poema horrível!
    É claro que ele queria dizer alguma coisa...
    Mas o quê?
    Estaria engasgado?
    Nas suas meias-palavras havia no entanto uma ternura mansa como a que se vê nos olhos de uma criança doente, uma precoce, incompreensível gravidade
    de quem, sem ler os jornais,
    soubesse dos seqüestros
    dos que morrem sem culpa
    dos que se desviam porque todos os caminhos estão tomados...
    Poema, menininho condenado,

    bem se via que ele não era deste mundo nem para este mundo...
    Tomado, então, de um ódio insensato,
    esse ódio que enlouquece os homens ante a insuportável
    verdade, dilacerei-o em mil pedaços.

    E respirei...
    Também! quem mandou ter ele nascido no mundo errado?




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    Mensaje por Maria Lua Sáb 09 Mar 2024, 08:28

    Soneto XXXV "Quando Eu Morrer..." | Poema de Mário Quintana com narração de Mundo Dos Poemas





    Soneto XXXV – de A Rua dos Cataventos


    Quando eu morrer e no frescor de Lua
    Da casa nova me quedar a sós,
    Deixa-me em paz na minha quieta rua…
    Nada mais quero com nenhum de vós!

    Quero é ficar com alguns poemas tortos
    Que andei tentando endireitar em vão…
    Que lindo a Eternidade, amigos mortos,
    Para as torturas lentas da Expressão!…

    Eu lavarei comigo as madrugadas,
    Pôr de sóis, algum luar, asas em bando,
    Mais o rir das primeiras namoradas…

    E um dia a morte há de fitar com espanto
    Os fios da vida que eu urdi, cantando,
    Na orla negra do seu negro manto…



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    Mensaje por Maria Lua Dom 10 Mar 2024, 09:01

    As falsas recordações




    Se a gente pudesse escolher a infância que teria vivido, com que enternecimento eu não recordaria agora aquele velho tio de perna de pau, que nunca existiu na família, e aquele arroio que nunca passou aos fundos do quintal, e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão, sob o zumbido inquietante dos besouros...




    ******************


    Los falsos recuerdos




    Si pudiéramos elegir la infancia que habríamos vivido, con qué ternura recordaría ahora a ese tío viejo de la pata de palo, que nunca existió en la familia, y ese arroyo que nunca corría por el fondo del patio, y a donde íbamos a pescar y hacer la siesta en las tardes de verano, bajo el inquietante zumbido de los escarabajos...



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    Mensaje por Maria Lua Mar 12 Mar 2024, 19:24

    O vento e eu





    O vento morria de tédio

    Porque apenas gostava de cantar

    Mas não tinha letra alguma para a sua própria voz,

    Cada vez mais vazia…

    Tentei então compor-lhe uma canção

    Tão comprida como a minha vida

    E com aventuras espantosas que eu inventava de súbito,

    Como aquela em que menino eu fui roubado pelos ciganos

    E fiquei vagando sem pátria, sem família, sem nada neste vasto mundo…

    Mas o vento, por isso

    Me julga agora como ele…

    E me dedica um amor solidário, profundo!






    – Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.

    §





    Nos salões do sonho





    Mas vocês não repararam, não?!

    Nos salões do sonho nunca há espelhos…

    Por quê?

    Será porque somos tão nós mesmos

    Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?

    Ou, então

    – e aqui começa um arrepio –

    Seremos acaso tão outros?

    Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,

    Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,

    Se espelhos houvesse!

    Ninguém pode saber… Só o diria

    Mas nada diz,

    Por motivos que só ele conhece,

    O misterioso Cenarista dos Sonhos!








    – Mario Quintana, do livro “Velório sem defunto”, 1990.


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Jue 14 Mar 2024, 10:17

    CANÇÃO PARALELA






    Por uma escada que levava até o rio...

    Por uma escarpa que subia até as nuvens...

    Pezinhos nus

    Desceram...

    Mãos nodosas

    Grimparam...

    E havia um coraçãozinho que batia assustado, assustado...

    E um coração tão duro que era como se estivesse parado...

    Um escorria fel...

    O outro, lágrimas...

    No rosto dele havia sulcos como de arado...

    No rosto dela a boca era uma flor machucada...



    E até a morte os separou!





    ______________________________



    CANCIÓN PARALELA





    Por una escalera que llevaba hasta el río...

    Por una escarpa que subía hasta las nubes...

    Pequeños pies descalzos

    Bajaron...

    Manos callosas

    Treparon...

    Y había un corazoncito que latía asustado, asustado...

    Y un corazón tan duro que era como si estuviese parado...

    De uno escurría hiel...

    Del otro, lágrimas...

    En el rostro de él había surcos como de arado...

    En el rostro de ella la boca era una flor machucada...



    ¡Y hasta la muerte los separó!





    ______________________________






    MARIO QUINTANA
    “CANÇÃO PARALELA”: del poemario “CANÇÕES” (1946)
    Traducción: Juan Martín


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    Mensaje por Maria Lua Jue 14 Mar 2024, 10:24

    NOS SALÕES DO SONHO




    Mas vocês não repararam, não?!
    Nos salões do sonho nunca há espelhos…
    Por quê?
    Será porque somos tão nós mesmos
    Que dispensamos o vão testemunho dos reflexos?
    Ou, então
    – e aqui começa um arrepio –
    Seremos acaso tão outros?
    Tão outros mesmos que não suportaríamos a visão daquilo,
    Daquela coisa que nos estivesse olhando fixamente do outro lado,
    Se espelhos houvesse!
    Ninguém pode saber… Só o diria
    Mas nada diz,
    Por motivos que só ele conhece,
    O misterioso Cenarista dos Sonhos!




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    Mensaje por Maria Lua Vie 15 Mar 2024, 21:13

    A casa grande


    ... mas eu queria ter nascido numa dessas casas de meia-água
    com o telhado descendo logo após as fachadas
    só de porta e janela
    e que tinham, no século, o carinhoso apelido
    de cachorros sentados.
    Porém nasci em um solar de leões.
    (... escadarias, corredores, sótãos, porões, tudo isso...)
    Não pude ser um menino da rua...
    Aliás, a casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.
    A casa era maior do que o mundo!
    E até hoje
    — mesmo depois que destruíram a casa grande —
    até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...


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    Mensaje por Maria Lua Lun 18 Mar 2024, 10:01

    Interlúdio


    A noite se estende ao rés-do-chão como um lençol, que os cachorros
    puxam, do horizonte. Puxam, esticam, sem rasgar.
    Porque a Lua vai saltar.
    E ficará pulando, ao centro, para cima, para baixo, para cima, para baixo,
    como Sancho Pança no capítulo XLV do Dom Quixote.


    *****************


    Interludio


    La noche se extiende en la planta baja como una sábana que los perros
    tiran, desde el horizonte. Tiran, estiran, sin romperse.
    Porque la luna va a saltar.
    Y estará saltando, en el centro, arriba, abajo, arriba, abajo,
    como Sancho Panza en el capítulo XLV de Don Quijote.




    ********************


    ******************


    Antemanhã


    Trotam, trotam, desbarrancando o meu sono, os burrinhos inumeráveis
    da madrugada.
    Carregam laranjas? Carregam repolhos? Carregam abóboras?
    Não. Carregam cores. Verdes tenros. Amarelos Vivos. Vermelhos,
    roxos, acres.
    São os burrinhos-pintores.



    **********


    Antes de la mañana


    Trotan, trotan, perturbando mi sueño, los innumerables burritos
    del alba.
    ¿Llevan naranjas? ¿Llevan coles? ¿Llevan calabazas?
    No. Llevan colores. Verdes tiernos. Amarillos brillantes. Rojos,
    morado, acre.
    Son los burritos pintores.



    ****************


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    Mensaje por Maria Lua Miér 20 Mar 2024, 10:21

    RBTD


    Ha ocasiões em que não consegues nada, nem um sorriso, outras em
    que consegues tudo, até cartas de recomendação. Não te queixes, nem te
    gabes. Era que os anjos estavam brincando de rapa-bota-tira-deixa...
    E a tua história quotidiana é tecida ao acaso dos lances.
    Até que sobrevenha o R do rapa-tudo.
    (Aí então os anjos te recolherão.)


    ***************
    RBTD



    Hay momentos en los que no consigues nada, ni siquiera una sonrisa, otros en los que
    que consigues todo, incluso cartas de recomendación. No te quejes, no
    gabes. Era solo que los ángeles estaban jugando a "rapa-bota-tira-deixa"...
    Y tu historia diaria está tejida por el azar.
    Hasta que llega la R del rapa-tudo.
    (Entonces los ángeles te recogerán).





    ***********************

    **********************



    As falsas recordações


    Se a gente pudesse escolher a infância que teria vivido, com que
    enternecimento eu não recordaria agora aquele velho tio de perna de pau, que
    nunca existiu na família, e aquele arroio que nunca passou aos fundos do quintal,
    e onde íamos pescar e sestear nas tardes de verão, sob o zumbido inquietante
    dos besouros...


    **************


    Los falsos recuerdos

    Si pudiéramos elegir la infancia con la que habríamos vivido, con ternura
    recordaría a aquel tío viejo con las piernas de palo, que
    nunca existió en la familia, y ese arroyo que nunca corría por el patio trasero,
    y donde íbamos a pescar y beber en las tardes de verano, bajo el inquietante zumbido de
    de los escarabajos...




    ver

    112 de

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    Mensaje por Maria Lua Vie 22 Mar 2024, 18:50

    Apocalipse


    E eis que veio uma peste e acabou com todos os homens.
    Mas em compensação ficaram as bibliotecas.
    E nelas estava escrito o nome de todas as coisas.
    Mas as coisas podiam chamar-se agora como bem quisessem.
    E então o Pão de Açúcar se declarou Mancenilha.
    E o hipopótamo só atendia por tico-tico.
    E houve por tudo um grande espreguiçamento de alívio.
    E Nosso Senhor ficou para sempre livre da terrível campanha dos
    comunistas.
    E das apologéticas de Tristão de Athayde


    *******************


    Apocalipsis


    Y he aquí vino una peste y destruyó a todos los hombres.
    Pero en compensación estaban las bibliotecas.
    Y en ellos estaban escritos los nombres de todas las cosas.
    Pero ahora las cosas podían llamarse como quisieran.
    Y entonces Pão de Açúcar se declaró Mancenilha.
    Y el hipopótamo sólo respondió con tico-tico.
    Y hubo un gran suspiro de alivio por todos lados.
    Y Nuestro Señor quedó para siempre libre de la terrible campaña de los
    comunistas.
    Y la apologética de Tristán de Athayde



    *************


    ***************



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    Mensaje por Maria Lua Dom 24 Mar 2024, 15:42

    A noite grande

    Sem o coaxar dos sapos ou o cri-cri dos grilos
    como é que poderíamos dormir tranquilos
    a nossa eternidade? Imagina
    uma noite sem o palpitar das estrelas
    sem o fluir misterioso das águas.
    Não digo que a gente saiba que são águas
    estrelas
    grilos...
    — morrer é simplesmente esquecer as palavras.
    E conhecermos Deus, talvez,
    sem o terror da palavra DEUS!


    ****************


    La gran noche

    Sin el croar de las ranas ni el chirrido de los grillos
    ¿Cómo podríamos dormir tranquilos
    nuestra eternidad? Imaginemos
    una noche sin el brillo de las estrellas
    sin el misterioso fluir de las aguas.
    No digo que sepamos que son aguas.
    estrellas
    grillos...
    — morir es simplemente olvidar las palabras.
    Y podríamos conocer a Dios,
    ¡sin el terror de la palabra DIOS!


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Lun 25 Mar 2024, 20:36

    O Tempo

    O despertador é um objeto abjeto.
    Nele mora o Tempo. O Tempo não pode viver sem nós, para não parar.
    E todas as manhãs nos chama freneticamente como um velho paralítico a tocar a campainha atroz.
    Nós
    é que vamos empurrando, dia a dia, sua cadeira de rodas.
    Nós, os seus escravos.
    Só os poetas
    os amantes
    os bêbados
    podem fugir
    por instantes
    ao Velho... Mas que raiva impotente dá no Velho
    quando encontra crianças a brincar de roda
    e não há outro jeito senão desviar delas a sua cadeira de rodas!

    Porque elas, simplesmente, o ignoram...



    ******************



    EL TIEMPO





    El despertador es un objeto abyecto.

    En él mora el Tiempo. El Tiempo no puede vivir sin nosotros, para no parar.

    Y todas las mañanas nos llama frenéticamente como un viejo paralítico que toca la campana atroz.

    Nosotros

    Es que vamos empujando, día a día, su silla de ruedas.

    Nosotros, somos sus esclavos.

    Sólo los poetas

    los amantes

    los borrachos

    pueden huir

    por instantes

    del Viejo... ¡Mas qué rabia impotente le da al Viejo

    cuando encuentra niños brincando la rueda

    y no tiene otro recurso sino desviarlos de su silla de ruedas!

    Porque ellos, simplemente, lo ignoran...


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    Mensaje por Maria Lua Mar 26 Mar 2024, 20:40

    O poema interrompido


    A lâmpada abre um círculo mágico sobre o papel onde escrevo. Sinto um ruído como se alguém houvesse arremessado uma pequenina pedra contra a vidraça, ou talvez seja uma asa perdida na noite. Espreguiço-me, levanto-me e, cautelosamente, escancaro a janela. Oh! como poderia ser alguém chamando-me?


    Como poderia ser um pássaro? Na frente do quarto, acima do quarto, por baixo do quarto, só havia a solidão estrelada... Quem faz um poema não se espanta de nada. Volto ao abrigo da lâmpada e recomeço a discussão com aquele adjetivo, aquele adjetivo que teima em não expressar tudo o que pretendo dele...


    ****************


    El poema interrumpido


    La lámpara abre un círculo mágico en el papel donde escribo. Siento un ruido como si alguien hubiera tirado una pequeña piedra contra la ventana, o tal vez fuera un ala perdida en la noche. Me estiro, me levanto y abro la ventana con cautela. ¡Oh! ¿Cómo puede ser que alguien me llame?


    ¿Cómo podría ser un pájaro? Delante de la habitación, encima de la habitación, debajo de la habitación, sólo había una soledad estrellada... Quien escribe un poema no se sorprende de nada. Vuelvo al refugio de la lámpara y reinicio la discusión con aquel adjetivo, aquel adjetivo que insiste en no expresar todo lo que quiero de él...


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    Mensaje por Maria Lua Miér 27 Mar 2024, 22:13

    O confidente sumido


    Quando um amigo morre, uma coisa não lhe perdoamos: como nos deixou
    assim sem mais nem menos, assim no ar, em meio de algo que lhe queríamos
    dizer ou — pior ainda — em meio do silêncio a dois no bar costumeiro? Que
    outros hábitos, que outras relações terá ele arranjado? Que novas aventuras ou
    desventuras de que não nos conta nada?
    A nós, que sempre fomos tão bons confidentes...
    Que poderemos fazer?
    Mas, na verdade, os vivos e os mortos sempre tivemos uma coisa em
    comum: não acreditamos muito uns nos outros...



    ********************


    El confidente desaparecido


    Cuando un amigo muere, no podemos perdonarle una cosa: cómo nos dejó
    así, así, de golpe, en el aire, así en medio de algo que le queríamos
    decir o -peor aún- en medio del silencio entre dos en el bar de siempre? Qué
    otros hábitos, ¿qué otras relaciones ha arreglado? ¿Qué nuevas aventuras o
    ¿desventuras de las que no nos cuenta nada?
    A nosotros, que siempre hemos sido tan buenos confidentes...
    ¿Qué podemos hacer?
    Pero en realidad, los vivos y los muertos siempre hemos tenido una cosa en
    común: realmente no creemos el uno en el otro...


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    Mensaje por Maria Lua Jue 28 Mar 2024, 15:03

    Os arroios






    Os arroios são rios guris…
    Vão pulando e cantando dentre as pedras.
    Fazem borbulhas d’água no caminho: bonito!
    Dão vau aos burricos,
    às belas morenas,
    curiosos das pernas das belas morenas.
    E às vezes vão tão devagar
    que conhecem o cheiro e a cor das flores
    que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
    e onde parece quererem sestear.
    Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
    como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
    de um Anjo…
    Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
    Os rios tresandam óleo e alcatrão
    e refletem, em vez de estrelas,
    os letreiros das firmas que transportam utilidades.
    Que pena me dão os arroios,
    os inocentes arroios…




    – Mario Quintana, do livro “Baú de espantos”, 1986.



    ***************************


    Los arroyos






    Los arroyos son ríos niños…
    Saltan y cantan entre las piedras.
    Hacen burbujas de agua en el camino: ¡hermoso!
    Dejan paso a los burritos,
    a las hermosas morenas,
    con curiosidad por las piernas de hermosas morenas.
    Y a veces van tan despacio
    que conocen el olor y el color de las flores
    que se inclinan sobre ellos en el bosque que cruzan
    y donde parecen querer
    hacer la siesta.
    A veces un ala blanca los roza, emoción repentina
    como la nuestra si recibiéramos el golpe milagroso
    de un ángel...
    Pero ni nosotros ni los ríos sabemos nada de eso.
    Los ríos apestan a petróleo y alquitrán.
    y reflejan, en lugar de estrellas,
    los carteles de las empresas que transportan servicios públicos.
    Que pena me dan los arroyos,
    los inocentes arroyos...




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    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
    (Hánjel)





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    Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Mar 2024, 09:21

    Noturno


    O cão está ganindo para a Lua. Romantismo? Pura azia... — alguma daquelas
    abomináveis gulodices de festas de casamento abocanhada numa lata de lixo.
    A Lua, essa continua sonâmbula como sempre. Ela não sabe, a eternamente
    virgem, das titiquinhas que por lá deixaram uns escafandros do ar; ela não sabe,
    ela nunca soube das serenatas que — ainda e sempre e semprerão — cantam-lhe
    aqui da terra os poetas por demais meninos e os poetas muito velhos.
    Ela não sabe, a eternamente inédita, que cada encontro seu é como um
    assalto na esquina... e, no entanto, é como se a gente topasse cara a cara com a
    própria alma!



    *******************



    Nostalgia


    Esnobe? Nem por isso... Mas eu gosto é de filmes com cristais e duquesas. E com
    grandes lustres devoradores de reflexos. Ali onde a alegria cabe apenas num
    sorriso. E onde a tristeza é apenas uma valsa lenta.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Mar 2024, 20:16

    Poema marciano número dois



    Nós, os marcianos,
    não sabemos nada de nada,
    por isso descobrimos coisas
    que
    de tão visíveis
    vocês poderiam até sentar em cima delas...
    Não brinco! Não minto! um dia um de nós (Van Gogh) pintou
    [uma
    cadeira vulgar,
    uma dessas cadeiras de palha trançada...
    Mas, quando a viram na tela, foi aquela espantação:
    “uma cadeira!”, exclamaram.
    Uma cadeira? Não, a cadeira.
    Tudo é singular.
    Até as Autoridades sabem disso...
    Se não, me explica
    por que iriam fazer tanta questão
    das tuas impressões digitais?!


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    Mensaje por Maria Lua Dom 31 Mar 2024, 13:35

    Achados e perdidos

    Generalizando, e dando ao caso um toque emocional de exagero, levo
    metade do dia a procurar o que se extraviou na véspera.
    Não, não tentem ajudar-me, ó bem-amadas, pois não se trata de joias e, se
    por acaso eu as houvesse herdado, não teriam para mim outro valor senão o de
    empenhá-las pouco a pouco.
    O que eu perco são coisas imponderáveis, suspiros não, mas pensamentos, se
    assim posso chamar o que às vezes me borboleteia na cuca e que procuro
    transfixar no papel, antes que um súbito buzinar ou britadeira as mate de
    nascença.
    E, enquanto procuro traçá-las a lápis no papel, pois graças a Deus não
    pertenço intelectualmente à era mecânica, às vezes me parece que, por
    exemplo, um manuscrito me saiu um garrancho, ou, antes, um gancho, que faz
    pender a linha destas escrituras e por conseguinte a linha do pensamento.
    Estão vendo? De que era mesmo que eu estava falando? Ah! era dos papéis
    escritos, extraviados, esquecidos.
    Quem sabe lá como seriam bons!
    Quanto a este, que tive o cuidado de não perder, o melhor será colocar-lhe
    no fim os três pontinhos das reticências...
    Ninguém sabe ao certo o que querem dizer reticências.
    Em todo caso, desconfio muito que esses três pontinhos misteriosos foram a
    maior conquista do pensamento ocidental






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    Mensaje por Maria Lua Lun 01 Abr 2024, 19:24

    A vingança

    Se eu fosse Deus, eu mandava os comendadores mortos (ah, como nos havíamos de rir, ó Walt Disney!), eu os mandava a todos, com as suas almas graves, encasacadas e de óculos, para o doido País das Sinfonias Coloridas.


    La venganza

    Si yo fuera Dios, enviaría a los comandantes muertos (¡ay, cómo nos reiríamos, Walt Disney!), los enviaría a todos, con sus almas serias, sus abrigos y sus gafas, al loco País de las Sinfonías de Colores.


    ****************************

    Janela de abril

    Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse Ler, isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro


    ventana de abril

    ¡Todo tan claro! El cielo cerca de las rocas. Incluso se pueden ver los nombres que fueron dibujados a carboncillo en esa pared. Pero incluso si el cielo supiera leer, ahora no importaría en lo más mínimo. Y se siente que Nuestro Señor, en celebración de abril, instituirá hoy valiosos premios a la risa más despreocupada, al zapato más chirriante, a la cometa más alta del cerro.




    *****************


    Voa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro... Vontade... pata que esse pudor de certas palavras? Vontade de amar, simplesmente.


    Vuela una pareja de golondrinas, haciendo verano. Y surge el deseo de romper viejas cartas, viejos poemas, viejas facturas recibidas. Con ganas de cambiarse de camiseta, por fuera y por dentro... Queriendo... ¿por qué este pudor de ciertas palabras? El deseo de amar, simplemente.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 03 Abr 2024, 13:59

    Poema em três movimentos


    I

    Nossos gestos eram simples e transcendentais.
    Não dissemos nada
    nada de mais...
    Mas a tarde ficou transfigurada
    — como se Deus houvesse mudado
    imperceptivelmente
    um invisível cenário.

    II

    Eu te amo tanto que
    sou capaz de nos atirarmos os dois na cratera do Fuji-Yama!
    Mas, aqui,
    o amor é um barato romance pornô esquecido em cima
    [da
    cama
    depois que cada um partiu — sem saionara nem nada —
    por uma porta diferente.

    III

    E em que mundo? Em que outro mundo vim parar,
    que nada reconheço?
    Agora, a tua voz nas minhas veias corre...
    o teu olhar imensamente verde ilumina o meu quarto.


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    Mensaje por Maria Lua Jue 04 Abr 2024, 20:42

    Viver


    Vovô ganhou mais um dia. Sentado na copa, de pijama e chinelas, enrola
    o primeiro cigarro e espera o gostoso café com leite.
    Lili, matinal como um passarinho, também espera o café com leite. Tal e
    qual vovó.
    Pois só as crianças e os velhos conhecem a volúpia de viver dia a dia,
    hora a hora, e suas esperas e desejos nunca se estendem além de cinco
    minutos...


    **************


    Vivir


    El abuelo ganó otro día. Sentado en la despensa, en pijama y pantuflas, prepara
    el primer cigarro y espera el delicioso café con leche.
    Lili, mañanera como un pájaro, también espera su café con leche. tal y
    cual el abuelo.
    Porque sólo los niños y los mayores conocen el placer de vivir el día a día,
    hora tras hora, y sus esperanzas y deseos nunca se extienden más allá de cinco
    minutos...





    **************


    ******************


    Da cor


    Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm
    todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os
    primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: a cor do tempo...



    ************


    Del color


    Hay un color que no aparece en los diccionarios. Es ese color indefinible que tienen
    todos los retratos, el vestuario de la última temporada, las voces de las ancianas, los
    los primeros zapatos, ciertas señales, ciertas calles secundarias: el color del tiempo...








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    Mensaje por Maria Lua Vie 05 Abr 2024, 22:45

    Noturno


    O relógio costura, meticulosamente, quilômetros e quilômetros do
    silêncio noturno.
    De vez em quando, os velhos armários estalam como ossos.
    Na ilha do pátio, o cachorro, ladrando.
    (É a Lua.)
    E, à lembrança da Lua, Lili arregala os olhos no escuro.




    *****************


    Nocturno




    El reloj cose minuciosamente kilómetros y kilómetros de
    silencio nocturno
    De vez en cuando, los viejos armarios se rompen como huesos.
    En la isla del patio, el perro, ladrando.
    (Es la Luna)
    Y, al recordar la Luna, los ojos de Lili se abren en la oscuridad.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 07 Abr 2024, 13:47

    Raízes


    Quando colegial, como eu gostava do cheiro úmido das raízes dos vegetais!
    Porém, ao lado desse mundo natural, queriam fazer-me acreditar no mundo seco
    das raízes quadradas, que para mim tinham algo de incompreensíveis signos de
    linguagem marciana. Mas a tortura máxima eram as raízes cúbicas. Felizmente
    agora os robôs tomaram conta disso e de outras coisas parecidas com eles...
    Felizmente não mais existe o meu velho professor de matemática. Senão ele
    morreria aos poucos de raiva e frustração por se ver sobrepujado, por me ver
    continuando a fazer coisas aparentemente insólitas porque não constam de
    currículos e compêndios, porque agora, meu caro professor, agora o marciano
    sou eu mesmo.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 08 Abr 2024, 20:14

    Pequeno esclarecimento


    Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem
    sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em
    silêncio — um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos ou
    declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que
    tu me lês.


    *************




    Pequeña aclaración

    Los poetas no son azules ni nada parecido, como piensan algunos supersticiosos, ni
    sujeto a ataques repentinos de levitación. Lo que más les gusta es estar en
    silencio: un silencio que subyace a cualquier escape de motor o
    declamatorio. Un silencio... Este silencio impoluto en el que escribo y en el que
    me lees.




    ***************


    **************


    O menino e o milagre




    O primeiro verso que um poeta faz é sempre o mais belo porque toda a
    poesia do mundo está em ser aquele o seu primeiro verso...



    ******************


    El niño y el milagro


    El primer verso que escribe un poeta es siempre el más bello porque todo
    la poesía del mundo está en ser aquel su primer verso...









    123

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