Aires de Libertad

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      VINICIUS DE MORAES  - Página 18 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

      Mensaje por Maria Lua Lun 12 Sep 2022, 16:14

      O ESCRAVO



      J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans.
      Baudelaire

      A grande Morte que cada um traz em si.
      Rilke

      Quando a tarde veio o vento veio e eu segui levado como uma folha
      E aos poucos fui desaparecendo na vegetação alta de antigos campos de batalha
      Onde tudo era estranho e silencioso como um gemido.
      Corri na sombra espessa longas horas e nada encontrava
      Em torno de mim tudo era desespero de espadas estorcidas se desvencilhando
      Eu abria caminho sufocado mas a massa me confundia e se apertava impedindo meus passos
      E me prendia as mãos e me cegava os olhos apavorados.
      Quis lutar pela minha vida e procurei romper a extensão em luta
      Mas nesse momento tudo se virou contra mim e eu fui batido
      Fui ficando nodoso e áspero e começou a escorrer resina do meu suor
      E as folhas se enrolavam no meu corpo para me embalsamar.
      Gritei, ergui os braços, mas eu já era outra vida que não a minha
      E logo tudo foi hirto e magro em mim e longe uma estranha litania me fascinava.
      Houve uma grande esperança nos meus olhos sem luz
      Quis avançar sobre os tentáculos das raízes que eram meus pés
      Mas o vale desceu e eu rolei pelo chão, vendo o céu, vendo o chão, vendo o céu, vendo o chão
      Até que me perdi num grande país cheio de sombras altas se movendo...

      Aqui é o misterioso reino dos ciprestes...
      Aqui eu estou parado, preso à terra, escravo dos grandes príncipes loucos.
      Aqui vejo coisas que mente humana jamais viu
      Aqui sofro frio que corpo humano jamais sentiu.
      É este o misterioso reino dos ciprestes
      Que aprisionam os cravos lívidos e os lírios pálidos dos túmulos
      E quietos se reverenciam gravemente como uma corte de almas mortas.
      Meu ser vê, meus olhos sentem, minha alma escuta
      A conversa do meu destino nos gestos lentos dos gigantes inconscientes
      Cuja ira desfolha campos de rosas num sopro trêmulo...
      Aqui estou eu pequenino como um musgo mas meu pavor é grande e não conhece luz
      É um pavor que atravessa a distância de toda a minha vida.

      É este o feudo da morte implacável...
      Vede — reis, príncipes, duques, cortesãos, carrascos do grande país sem mulheres
      São seus míseros servos a terra que me aprisionou nas suas entranhas
      O vento que a seu mando entorna da boca dos lírios o orvalho que rega o seu solo
      A noite que os aproxima no baile macabro das reverências fantásticas
      E os mochos que entoam lúgubres cantochões ao tempo inacabado...
      É aí que estou prisioneiro entre milhões de prisioneiros
      Pequeno arbusto esgalhado que não dorme e que não vive
      À espera da minha vez que virá sem objeto e sem distância.
      É aí que estou acorrentado por mim mesmo à terra que sou eu mesmo
      Pequeno ser imóvel a quem foi dado o desespero
      Vendo passar a imensa noite que traz o vento no seu seio
      Vendo passar o vento que entorna o orvalho que a aurora despeja na boca dos lírios
      Vendo passar os lírios cujo destino é entornar o orvalho na poeira da terra que o vento espalha
      Vendo passar a poeira da terra que o vento espalha e cujo destino é o meu, o meu destino
      Pequeno arbusto parado, poeira da terra preso à poeira da terra, pobre escravo dos príncipes loucos.


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      o un ciego soñando
      y en ese vuelo y en ese sueño
      compartir contigo sol y luna,
      siendo guardián en tu cielo
      y tren de tus ilusiones."
      (Hánjel)





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      VINICIUS DE MORAES  - Página 18 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

      Mensaje por Maria Lua Lun 12 Sep 2022, 16:15

      O OUTRO



      Às vezes, na hora trêmula em que os espaços desmancham-se em neblina
      E a gaze da noite se esgarça suspensa na bruma dormente
      Eu sinto sobre o meu ser uma presença estranha que me faz despertar angustiado
      E me faz debruçar à janela sondando os véus que se emaranham dentre as folhas...
      Fico... e muita vez os meus olhos se desprendem misteriosamente das minhas órbitas
      E presos a mim vão penetrando a noite e eu vou me sentindo encher da visão que os leva.
      Vozes e imagens chegam a mim, mas eu inda sou e por isso não vejo
      Vozes enfermas chegam a mim — são como vozes de mães e de irmãs chorando
      Corpos nus de crianças, seios estrangulados, bocas opressas na última angústia
      Mulheres passando atônitas, espectros confusos, diluídos como as visões lacrimosas.
      E de repente eu sou arrancado como um grito e parto e penetro em meus olhos
      E estou sobre o ponto mais alto, sobre o abismo que desce para a aurora que sobe
      Onde na hora extrema o rio humano se despeja vertiginosamente e de onde surgirá
      Lívido e descarnado, quando o pálido sangue do Sol morrendo escorrer da face verde das montanhas.

      Mas por que estranho desígnio foi diferente a angústia daquela manhã tristíssima
      Por que não vieram até mim as lamentações de todas as madrugadas
      Por que quando eu caminhei para o sofrimento, foi o meu sofrimento que
      [eu vi estendido sobre as coisas como a morte?
      Ai de mim! a piedade ferira o meu coração e eu era o mais desamparado
      O consolo estava nas minhas palavras e eu era o único inconsolável
      A riqueza estivera nas minhas mãos e eu era pobre como os olhos dos cegos...
      Na solidão absoluta de mil léguas foi o meu corpo que eu vi acorrentado ao pântano infinito
      Foi a minha boca que eu vi se abrindo ao beijo da água ulcerada de flores leprosas.
      Dormiam sapos sobre a podridão das vitórias moribundas
      E vapores úmidos subiam fétidos como as exalações dos campos de guerra.
      Eu estava só como o homem sem Deus no meio do tempo e sobre minha cabeça pairavam as aves da maldição
      E a vastidão desolada era grande demais para os meus pobres gritos de agonia.
      De fora eu vi e senti medo — como que um ávido polvo me prendia os pés ao fundo da lama
      Eu gritei para o miserável que erguesse os braços e buscasse a
      [música que estava no pântano e na pele desfeita das flores intumescidas
      Mas ele já nada parecia ouvir — era como o mau ladrão crucificado.

      Oh, não estivesse ele tão longe de meus pés e eu o calcaria como um verme
      Não fosse minha náusea e eu o iria matar no seu martírio
      Não existisse a minha incompreensão e eu lhe desfaria a carne entre meus dedos.
      Porque a sua vida está presa à minha e é preciso que eu me liberte
      Porque ele é o desespero vão que mata a serenidade que quer brotar em mim
      Porque as suas úlceras doem numa carne que não é a dele.
      Mas algum dia quando ele estiver dormindo eu esquecerei tudo e afrontarei o pântano.
      Mesmo que pereça eu o esmagarei como uma víbora e o afogarei na lama podre
      E se eu voltar eu sei que as visões passadas não mais povoarão os meus olhos distantes
      Eu sei que terei forças para comer a terra e ficar escorrendo em sangue como as árvores
      Parado diante da beleza, agasalhando os príncipes e os monges, na contemplação da poesia eterna.


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      Mensaje por Maria Lua Lun 12 Sep 2022, 16:16

      A MÚSICA DAS ALMAS


      Le mal est dans le monde comme un esclave qui monte l’eau.
      Claudel


      Na manhã infinita as nuvens surgiram como a loucura numa alma
      E o vento como o instinto desceu os braços das árvores que estrangularam a terra...

      Depois veio a claridade, o grande céu, a paz dos campos...
      Mas nos caminhos todos choravam com os rostos levados para o alto
      Porque a vida tinha misteriosamente passado na tormenta.






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      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:29

      O BERGANTIM DA AURORA



      Velho, conheces por acaso o bergantim da aurora
      Nunca o viste passar quando a saudade noturna te leva para o convés imóvel dos rochedos?
      Há muito tempo ele me lançou sobre uma praia deserta, velho lobo
      E todas as albas têm visto meus olhos nos altos promontórios, esperando.

      Sem ele, que poderei fazer, pobre velho? ele existe porque há homens que fogem
      Um dia, porque pensasse em Deus eu me vi limpo de todas as feridas
      E eu dormi — ai de mim! — não dormia há tantas noites! — dormi e eles me viram calmo
      E me deram às ondas que tiveram pena da minha triste mocidade.

      Mas que me vale, santo velho, ver o meu corpo são e a minha alma doente
      Que me vale ver minha pele unida e meu peito alto para o carinho?
      Se eu voltar os olhos, tua filha talvez os ame, que eles são belos, velho lobo
      Antes o bergantim fantasma onde as cordoalhas apodrecem no sangue das mãos...

      Nunca o conhecerás, ó alma de apóstolo, o grande bergantim da madrugada
      Ele não corre os mesmos mares que o teu valente brigue outrora viu
      O mar que perdeste matava a fome de tua mulher e de teus filhos
      O mar que eu perdi era a fome mesma, velho, a eterna fome...

      Nunca o conhecerás. Há em tuas grandes rugas a vaga doçura dos caminhos pobres
      Teus sofrimentos foram a curta ausência, a lágrima dos adeuses
      Quando a distância apagava a visão de duas mulheres paradas sobre a última rocha
      Já a visão espantosa dos gelos brilhava nos teus olhos — oh, as baleias brancas!...

      Mas eu, velho, sofri a grande ausência, o deserto de Deus, o meu deserto
      Como esquecimento tive o gelo desagregado dos seios nus e dos ventres boiando
      Eu, velho lobo, sofri o abandono do amor, tive o exaspero
      Ó solidão, deusa dos vencidos, minha deusa...

      Nunca o compreenderás. Nunca sentirás porque um dia eu corri para o vento
      E desci pela areia e entrei pelo mar e nadei e nadei.
      Sonhara...: “Vai. O bergantim é a morte longínqua, é o eterno passeio do pensamento silencioso
      É o judeu dos mares cuja alma avara de dor castiga o corpo errante...”

      E fui. Se tu soubesses que a ânsia de chegar é a maior ânsia
      Teus olhos, ó alma de crente, se fechariam como as nuvens
      Porque eu era a folha morta diante dos elementos loucos
      Porque eu era o grão de pó na réstia infinita.

      Mas sofrera demais para não ter chegado
      E um dia ele surgiu como um pássaro atroz
      Vi-lhe a negra carcaça à flor das ondas mansas
      E o branco velame inchado de cujos mastaréus pendiam corpos nus.

      Mas o homem que chega é o homem que mais sofre
      A memória é a mão de Deus que nos toca de leve e nos faz sondar o caminho atrás
      Ai! sofri por deixar tudo o que tinha tido
      O lar, a mulher e a esperança de atingir Damasco na minha fuga...

      Cheguei. Era afinal o vazio da perpétua prisão longe do sofrimento
      Era o trabalho forçado que esquece, era o corpo doendo nas chagas abertas
      Era a suprema magreza da pele contendo o esqueleto fantástico
      Era a suprema magreza do ser contendo o espírito fantástico.

      Fui. Por toda a parte homens como eu, sombras vazias
      Homens arrastando vigas, outros velhos, velhos faquires insensíveis
      As fundas órbitas negras, a ossada encolhida, encorujada
      Corpos secos, carne sem dor, morta de há muito.

      Por toda a parte homens como eu, homens passando
      Homens nus, murchos, esmagando o sexo ao peso das âncoras enormes
      Bocas rígidas, sem água e sem rum, túmulos da língua árida e estéril.
      Mãos sangrando como facas cravadas na carne das cordas.

      Nunca poderás imaginar, ó coração de pai, o bergantim da aurora
      Que caminha errante ao ritmo fúnebre dos passos se arrastando
      Nele vivi o grande esquecimento das galeras de escravos
      Mas brilhavam demais as estrelas no céu.

      E um dia — era o sangue no meu peito — eu vi a grande estrela
      A grande estrela da alba cuja cabeleira aflora às águas
      Ela pousou no meu sangue como a tarde nos montes apaziguados
      E eu pensei que a estrela é o amor de Deus na imensa altura.

      E meus olhos dormiram no beijo da estrela fugitiva
      Ai de mim! não dormia há tantas noites! — dormi e eles me viram calmo
      E a serpente que eu nunca supus viver no seio da miséria
      Deu-me às ondas que tiveram pena da minha triste mocidade.

      Eis por que estou aqui, velho lobo, esperando
      O grande bergantim que eu sei não voltará
      Mas tornar, pobre velho, é perder tua filha, é verter outro sangue
      Antes o bergantim fantasma, onde o espaço é pobre e a caminhada eterna.

      Eis por que, velho lobo, aqui estou esperando
      À luz da mesma estrela, nos altos promontórios
      Aqui a morte me acolherá docemente, esperando
      O grande bergantim que eu sei não voltará.


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      VINICIUS DE MORAES  - Página 18 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:32

      VARIAÇÕES SOBRE O TEMA DA ESSÊNCIA


      (Três movimentos em busca da música)

      C'est aussi simple qu'une phrase musicale.
      Rimbaud

      I
      Foi no instante em que o luar desceu da face do Cristo como um velário
      E na madrugada atenta ouviu-se um choro convulso de criança despertando
      Sem que nada se movesse na treva entrou violentamente pela janela um grande seio branco
      Um grande seio apunhalado de onde escorria um sangue roxo e que pulsava como se possuísse um coração.
      Eu estava estendido, insone, como quem vai morrer — o ar pesava sobre mim como um sudário
      E as ideias tinham misteriosamente retornado às coisas e boiavam como pássaros fora da minha compreensão.
      O grande seio veio do espaço, veio do espaço e ficou batendo no ar como um corpo de pombo
      Veio com o terror que me apertou a garganta para que o
      [mundo não pudesse ouvir meu grito (o mundo! o mundo! o mundo!...)
      Tudo era o instante original, mas eu de nada sabia senão do
      [meu horror e da volúpia que vinha crescendo em minhas pernas
      E que brotava como um lírio impuro e ficava palpitando dentro do ar.
      Era o caos da poesia — eu vivia ali como a pedra despenhada no espaço perfeito
      Mas no olhar que eu lançava dentro de mim, oh, eu sei que
      [havia um grande seio de alabastro pingando sangue e leite
      E que um lírio vermelho hauria desesperadamente como uma boca infantil longe da dor.
      Voavam sobre mim asas cansadas e crepes de luto flutuavam — eu tinha embebido a noite de cansaço
      Eu sentia o branco seio murchar, murchar sem vida e o rubro lírio crescer cheio de seiva
      E o horror sair brandamente pelas janelas e a aragem balançar a imagem do Cristo pra lá e pra cá
      Eu sentia a volúpia dormir ao canto dos galos e o luar pousar agora sobre o papel branco como o seio
      E a aurora vir nascendo sob o meu corpo e ir me levando para as
      [ideias negras, azuis, verdes, rubras, mas também misteriosas.
      Eu me levantei — nos meus dedos os sentidos vivendo, na minha mão um objeto como uma lâmina
      E às cegas eu feri o papel como o seio, enquanto o meu olhar hauria o seio como o lírio.

      O poema desencantado nascia das sombras de Deus...

      II

      Provei as fontes de mel nas cavernas tropicais... (— minha imaginação, enlouquece!)
      Fui perseguido pelas floras carnívoras dos vales torturados e penetrei os rios e cheguei aos bordos do mar fantástico
      Nada me impediu de sonhar a poesia — oh, eu me converti à necessidade do amor primeiro
      E nas correspondências do finito em mim cheguei aos grandes sistemas poéticos do renovamento.
      Só desejei a essência — vi campos de lírios se levantarem da terra e cujas raízes eram ratos brancos em fuga
      Vi-os que corriam para as montanhas e os persegui com a minha ira — subi as
      [escarpas ardentes como se foram virgens
      E quando do mais alto olhei o céu recebi em pleno rosto o vômito das estrelas menstruadas — eternidade!

      O poeta é como a criança que viu a estrela. — Ah, balbucios, palavras entrecortadas e ritmos de berço. De súbito a dor.

      Ai de mim! É como o jovem que sonhando nas janelas azuis, eis que a
      [incompreensão vem e ele entra e atravessa à toa um grande corredor sombrio
      E vai se debruçar na janela do fim que se abre para a nova paisagem e ali estende o seu sofrimento (ele retornará...)
      Movimentos de areia no meu espírito como se fossem nascer cidades esplêndidas — paz! paz!

      Música longínqua penetrando a terra e devolvendo misteriosamente a doçura ao espelho das lâminas e ao brilho dos diamantes. Homens correndo na minha imaginação — por que correm os homens?

      O terrível é pensar que há loucos como eu em todas as estradas
      Os faces-de-lua, seres tristes e vãos, legionários do deserto
      (Não seria ridículo vê-los carregando o sexo enorme às costas como trágicas mochilas — ai! Deixem-me rir...
      Deixem-me rir — por Deus! — que eu me perco em visões que nem sei mais...)

      É Jesus passando pelas ruas de Jerusalém ao peso da cruz. Nos campos e nos montes a poesia das parábolas. Vociferações, ódios, punhos cerrados contra o mistério. Destino.

      Oh, não! Não é a ilusão enganadora nem a palavra vã dos oráculos e dos sonhos
      O poeta mentirá para que o sofrimento dos homens se perpetue.

      E eu diria... “Sonhei as fontes de mel...”

      III

      Do amor como do fruto. (Sonhos dolorosos das ermas madrugadas acordando...)
      Nas savanas a visão dos cactos parados à sombra dos escravos — as negras mãos no ventre luminoso das jazidas
      Do amor como do fruto. (A alma dos sons nos algodoais das velhas lendas...)
      Êxtases da terra às manadas de búfalos passando — ecos vertiginosos das quebradas azuis

      Ô Mighty Lord!

      Os rios, os pinheiros e a luz no olhar dos cães — as raposas brancas no olhar dos caçadores
      Lobos uivando, Yukon! Yukon! Yukon! (Casebres nascendo das montanhas paralisadas...)
      Do amor como da serenidade. Saudade dos vulcões nas lavas de neve descendo os abismos
      Cantos frios de pássaros desconhecidos. (Arco-íris como pórticos de eternidade...)
      Do amor como da serenidade nas planícies infinitas o espírito das asas no vento

      Ô Lord of Peace!

      Do amor como da morte. (Ilhas de gelo ao sabor das correntes...)
      Ursas surgindo da aurora boreal como almas gigantescas do grande-silêncio-branco
      Do amor como da morte. (Gotas de sangue sobre a neve...)
      A vida das focas continuamente se arrastando para o não-sei-onde — cadáveres eternos de heróis longínquos

      Ô Lord of Death!


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      o un ciego soñando
      y en ese vuelo y en ese sueño
      compartir contigo sol y luna,
      siendo guardián en tu cielo
      y tren de tus ilusiones."
      (Hánjel)





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      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:33

      A LENDA DA MALDIÇÃO


      A noite viu a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras
      E pousou como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam.
      A criança era o príncipe-poeta que a música ardente fizera subir à última torre
      E a noite era a camponesa que amava o príncipe e o adormecia no seu canto.
      Quando a criança chegou ao ponto mais alto viu que a música era o riso embriagado
      E que o riso embriagado era das estátuas mortas que tinham no ventre aberto entranhas murchas.
      A criança lembrou-se da noite cheia de entranhas e cujo riso era a poesia eterna
      E a angústia cresceu no seu coração como o mar alto nos penhascos.
      O olhar cego das estátuas levou o herdeiro do reino ao fosso negro — ó príncipe, onde estás? — a voz dizia
      E a água subia, nos braços, no peito, na boca, nos olhos do amado da noite.

      Depois saiu do fosso um homem que era o poeta-amaldiçoado
      E que possuiu a noite chorando, adormecida.
      A noite que nada viu continua chamando o príncipe-poeta
      Enquanto o poeta-amaldiçoado chora nos braços das estátuas mortas...


      _________________



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      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:34

      OS MALDITOS

      (A aparição do poeta)

      Quantos somos, não sei... Somos um, talvez dois, três, talvez, quatro; cinco, talvez nada
      Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze terras
      Quantos, não sei... Só sei que somos muitos — o desespero da dízima infinita
      E que somos belos deuses mas somos trágicos.

      Viemos de longe... Quem sabe no sono de Deus tenhamos aparecido como espectros
      Da boca ardente dos vulcões ou da órbita cega dos lagos desaparecidos
      Quem sabe tenhamos germinado misteriosamente do solo cauterizado das batalhas
      Ou do ventre das baleias quem sabe tenhamos surgido?

      Viemos de longe — trazemos em nós o orgulho do anjo rebelado
      Do que criou e fez nascer o fogo da ilimitada e altíssima misericórdia
      Trazemos em nós o orgulho de sermos úlceras no eterno corpo de Jó
      E não púrpura e ouro no corpo efêmero de Faraó.

      Nascemos da fonte e viemos puros porque herdeiros do sangue
      E também disformes porque — ai dos escravos! — não há beleza nas origens
      Voávamos — Deus dera a asa do bem e a asa do mal às nossas formas impalpáveis
      Recolhendo a alma das coisas para o castigo e para a perfeição na vida eterna.

      Nascemos da fonte e dentro das eras vagamos como sementes invisíveis o coração dos mundos e dos homens
      Deixando atrás de nós o espaço como a memória latente da nossa vida anterior
      Porque o espaço é o tempo morto — e o espaço é a memória do poeta
      Como o tempo vivo é a memória do homem sobre a terra.

      Foi muito antes dos pássaros — apenas rolavam na esfera os cantos de Deus
      E apenas a sua sombra imensa cruzava o ar como um farol alucinado...
      Existíamos já... No caos de Deus girávamos como o pó prisioneiro da vertigem
      Mas de onde viéramos nós e por que privilégio recebido?

      E enquanto o eterno tirava da música vazia a harmonia criadora
      E da harmonia criadora a ordem dos seres e da ordem dos seres o amor
      E do amor a morte e da morte o tempo e do tempo o sofrimento
      E do sofrimento a contemplação e da contemplação a serenidade imperecível.

      Nós percorríamos como estranhas larvas a forma patética dos astros
      A tudo assistindo e tudo ouvindo e tudo guardando eternamente
      Como, não sei... Éramos a primeira manifestação da divindade
      Éramos o primeiro ovo se fecundando à cálida centelha.

      Vivemos o inconsciente das idades nos braços palpitantes dos ciclones
      E as germinações da carne no dorso descarnado dos luares
      Assistimos ao mistério da revelação dos Trópicos e dos Signos
      E a espantosa encantação dos eclipses e das esfinges.

      Descemos longamente o espelho contemplativo das águas dos rios do Éden
      E vimos, entre os animais, o homem possuir doidamente a fêmea sobre a relva
      Seguimos... E quando o decurião feriu o peito de Deus crucificado
      Como borboletas de sangue brotamos da carne aberta e para o amor celestial voamos.

      Quantos somos, não sei... somos um, talvez dois, três, talvez quatro; cinco, talvez, nada
      Talvez a multiplicação de cinco em cinco mil e cujos restos encheriam doze terras
      Quantos, não sei... Somos a constelação perdida que caminha largando estrelas
      Somos a estrela perdida que caminha desfeita em luz.

      ---


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      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:34

      O NASCIMENTO DO HOMEM
      I

      E uma vez, quando ajoelhados assistíamos à dança nua das auroras
      Surgiu do céu parado como uma visão de alta serenidade
      Uma branca mulher de cujo sexo a luz jorrava em ondas
      E de cujos seios corria um doce leite ignorado.

      Oh, como ela era bela! era impura — mas como ela era bela!
      Era como um canto ou como uma flor brotando ou como um cisne
      Tinha um sorriso de praia em madrugada e um olhar evanescente
      E uma cabeleira de luz como uma cachoeira em plenilúnio.

      Vinha dela uma fala de amor irresistível
      Um chamado como uma canção noturna na distância
      Um calor de corpo dormindo e um abandono de onda descendo
      Uma sedução de vela fugindo ou de garça voando.

      E a ela fomos e a ela nos misturamos e a tivemos...
      Em véus de neblina fugiam as auroras nos braços do vento
      Mas que nos importava se também ela nos carregava nos seus braços
      E se o seu leite sobre nós escorria e pelo céu?

      Ela nos acolheu, estranhos parasitas, pelo seu corpo desnudado
      E nós a amamos e defendemos e nós no ventre a fecundamos
      Dormíamos sobre os seus seios apojados ao clarão das tormentas
      E desejávamos ser astros para inda melhor compreendê-la.

      Uma noite o horrível sonho desceu sobre as nossas almas sossegadas
      A amada ia ficando gelada e silenciosa — luzes morriam nos seus olhos...
      Do seu peito corria o leite frio e ao nosso amor desacordada
      Subiu mais alto e mais além, morta dentro do espaço.

      Muito tempo choramos e as nossas lágrimas inundaram a terra
      Mas morre toda a dor ante a visão dolorosa da beleza
      Ao vulto da manhã sonhamos a paz e a desejamos
      Sonhamos a grande viagem através da serenidade das crateras.

      Mas quando as nossas asas vibraram no ar dormente
      Sentimos a prisão nebulosa de leite envolvendo as nossas espécies
      A Via Láctea — o rio da paixão correndo sobre a pureza das estrelas
      A linfa dos peitos da amada que um dia morreu.

      Maldito o que bebeu o leite dos seios da virgem que não era mãe mas era amante
      Maldito o que se banhou na luz que não era pura mas ardente
      Maldito o que se demorou na contemplação do sexo que não era calmo mas amargo
      O que beijou os lábios que eram como a ferida dando sangue!

      E nós ali ficamos, batendo as asas libertas, escravos do misterioso plasma
      Metade anjo, metade demônio, cheios da euforia do vento e da doçura do cárcere remoto
      Debruçados sobre a terra, mostrando a maravilhosa essência da nossa vida
      Lírios, já agora turvos lírios das campas, nascidos da face lívida da morte.

      II

      Mas vai que havia por esse tempo nas tribos da terra
      Estranhas mulheres de olhos parados e longas vestes nazarenas
      Que tinham o plácido amor nos gestos tristes e serenos
      E o divino desejo nos frios lábios anelantes.

      E quando as noites estelares fremiam nos campos sem lua
      E a Via Láctea como uma visão de lágrimas surgia
      Elas beijavam de leve a face do homem dormindo no feno
      E saíam dos casebres ocultos, pelas estradas murmurantes.

      E no momento em que a planície escura beijava os dois longínquos horizontes
      E o céu se derramava iluminadamente sobre a várzea
      Iam as mulheres e se deitavam no chão paralisadas
      As brancas túnicas abertas e o branco ventre desnudado.

      E pela noite adentro elas ficavam, descobertas
      O amante olhar boiando sobre a grande plantação de estrelas
      No desejo sem fim dos pequenos seres de luz alcandorados
      Que palpitavam na distância numa promessa de beleza.

      E tão maternalmente os desejavam e tão na alma os possuíam
      Que às vezes desgravitados uns despenhavam-se no espaço
      E vertiginosamente caíam numa chuva de fogo e de fulgores
      Pelo misterioso tropismo subitamente carregados.

      Nesse instante, ao delíquio de amor das destinadas
      Num milagre de unção, delas se projetava à altura
      Como um cogumelo gigantesco um grande útero fremente
      Que ao céu colhia a estrela e ao ventre retornava.

      E assim pelo ciclo negro da pálida esfera através do tempo
      Ao clarão imortal dos pássaros de fogo cruzando o céu noturno
      As mulheres, aos gritos agudos da carne rompida de dentro
      Iam se fecundando ao amor puríssimo do espaço.

      E às cores da manhã elas voltavam vagarosas
      Pelas estradas frescas, através dos vastos bosques de pinheiros
      E ao chegar, no feno onde o homem sereno inda dormia
      Em preces rituais e cantos místicos velavam.

      Um dia mordiam-lhes o ventre, nas entranhas — entre raios de sol vinha a tormenta...
      Sofriam... e ao estridor dos elementos confundidos
      Deitavam à terra o fruto maldito de cuja face transtornada
      As primeiras e mais tristes lágrimas desciam.

      Tinha nascido o poeta. Sua face é bela, seu coração é trágico
      Seu destino é atroz; ao triste materno beijo mudo e ausente
      Ele parte! Busca ainda as viagens eternas da origem
      Sonha ainda a música um dia ouvida em sua essência.


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      Mensaje por Maria Lua Mar 13 Sep 2022, 08:37

      A CRIAÇÃO NA POESIA

      (Ideal)

      (Fragmento)
      O poeta parte no eterno renovamento.
      Mas seu destino é fugir sempre ao
      homem que ele traz em si.

      O poeta:
         Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo!



      ************************


      LA CREACIÓN EN LA POESÍA

      (Ideal)

      (Fragmento)
      El poeta parte en eterna renovación.
      Pero su destino es siempre huir al
      hombre que lleva dentro..

      El poeta:
          ¡Sueño la poesía con los gestos fisonómicos de un ángel!








      Fin del libro FORMA E EXEGESE


      _________________



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      VINICIUS DE MORAES  - Página 18 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:51

      NOVOS POEMAS




      Rio de Janeiro, José Olympio, 1938
      Novos Poemas é o livro que aponta o momento de ruptura na obra poética – e na vida – de Vinicius de Moraes. O título, indicando a novidade, faz jus à renovação temática e formal de seus poemas. Adotando o soneto como espaço privilegiado de suas pesquisas com rimas e ritmos, aliando a forma fixa aos versos mais amplos e palavrosos que costumava a usar, e ainda usaria em outros momentos, o material publicado em Novos Poemas é definitivo para a entrada de Vinicius no time dos grandes poetas de sua geração.

      O livro é o quarto lançado por Vinicius no curto intervalo de cinco anos. Sua produtividade só crescia e a vontade de viver de literatura também. Como muitos escritores da época, ele oscilava entre o emprego público e o jornalismo como meios paralelos de sobrevivência. A literatura foi, aos poucos, conduzindo sua carreira e, mesmo que tenha se tornado depois embaixador e cronista, passa a ser conhecido desde então e para sempre como Poeta.

      O livro, pelo seu frescor, pela sua vivacidade renovadora em poemas como “Soneto de intimidade”, “A mulher que passa” ou “Lamento ouvido não sei onde”, gerou um texto de seu amigo e já então renomado poeta e crítico Mário de Andrade, homenageado pelo próprio Vinicius na dedicatória do poema “A máscara da noite”. O amigo, porém, não deixou de ser crítico. Apontou, de forma construtiva, defeitos na feitura de alguns poemas, entendendo ser um livro “de transição” para alguém que já podia reivindicar um lugar entre “os grandes poetas do Brasil”.


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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:52

      ÁRIA PARA ASSOVIO


      Inelutavelmente tu
      Rosa sobre o passeio
      Branca! e a melancolia
      Na tarde do seio

      As cássias escorrem
      Seu ouro a teus pés
      Conheço o soneto
      Porém tu quem és?

      O madrigal se escreve:
      Se é do teu costume
      Deixa que eu te leve

      (Sê... mínima e breve
      A música do perfume
      Não guarda ciúme)

      Rio, 1936


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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:53

      AMOR NOS TRÊS PAVIMENTOS


      Eu não sei tocar, mas se você pedir
      Eu toco violino fagote trombone saxofone.
      Eu não sei cantar, mas se você pedir
      Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
      Pra cantar melhor.
      Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
      Eu faço tudo que você quiser.

      Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
      Que eu te arranjo logo.
      Você quer fazer verso? É tão simples!... você assina
      Ninguém vai saber.
      Se você me pedir, eu trabalho dobrado
      Só pra te agradar.

      Se você quisesse!... até na morte eu ia
      Descobrir poesia.
      Te recitava as Pombas, tirava modinhas
      Pra te adormecer.
      Até um gurizinho, se você deixar
      Eu dou pra você...


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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:53

      SONETO DE INTIMIDADE


      Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
      Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
      Mastigando um capim, o peito nu de fora
      No pijama irreal de há três anos atrás.

      Desço o rio no vau dos pequenos canais
      Para ir beber na fonte a água fria e sonora
      E se encontro no mato o rubro de uma amora
      Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

      Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
      Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
      E quando por acaso uma mijada ferve

      Seguida de um olhar não sem malícia e verve
      Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
      Mijamos em comum numa festa de espuma.

      Campo Belo, 1937


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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:54

      VIAGEM À SOMBRA


      Tua casa sozinha — lassidão infinita dos devaneios, dos segredos. Frocos verdes de perfume sobre a malva penumbra (e a tua carne em pianíssimo, grande gata branca de fala moribunda) e o fumo branco da cidade inatingível, e o fumo branco, e a tua boca áspera, onde há dentes de inocência ainda.

      És, de qualquer modo, a Mulher. Há teu ventre que se cobre, invisível, de odor marítimo dos brigues selvagens que eu não tive; há teus olhos mansos de louca, ó louca! e há tua face obscura, dolorosa, talhada na pedra que quis falar. Nos teus seios de juventude, o ruído misterioso dos duendes ordenhando o leite pálido da tristeza do desejo.

      E na espera da música, o vaivém infantil dos gestos de magia. Sim, é dança! — o colo que aflora oferecido é a melodiosa recusa das mãos, a anca que irrompe à carícia é o ungido pudor dos olhos, há um sorriso de infinita graça, também, frio sobre os lábios que se consomem. Ah! onde o mar e as trágicas aves da tempestade, para ser transportado, a face pousada sobre o abismo?

      Que se abram as portas, que se abram as janelas e se afastem as coisas aos ventos. Se alguém me pôs nas mãos este chicote de aço, eu te castigarei, fêmea! — Vem, pousa-te aqui! Adormece tuas íris de ágata, dança! — teu corpo barroco em bolero e rumba. — Mais! — dança! dança! — canta, rouxinol! (Oh, tuas coxas são pântanos de cal viva, misteriosa como a carne dos batráquios...)

      Tu que só és o balbucio, o voto, a súplica — oh mulher, anjo, cadáver da minha angústia! — sê minha! minha! minha! no ermo deste momento, no momento desta sombra, na sombra desta agonia — minha — minha — minha — oh mulher, garça mansa, resto orvalhado de nuvem...

      Pudesse passar o tempo e tu restares horizontalmente, fraco animal, as pernas atiradas à dor da monstruosa gestação! Eu te fecundaria com um simples pensamento de amor, ai de mim!
      Mas ficarás com o teu destino.


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      y en ese vuelo y en ese sueño
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      siendo guardián en tu cielo
      y tren de tus ilusiones."
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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:55

      O MÁGICO


      Diante do mágico a multidão boquiaberta se esquece. Não há mais lugar na Grande Praça: as ruas adjacentes se cobrem de uma negra onda humana. Em todas as casas a curiosidade do mistério abriu todas as janelas. A espantosa fachada da Catedral se apinha de garotos acrobatas que se penduram nos relevos como anjos. É talvez Paris do Terror, porque os velhos pardieiros como que se inclinam para o espetáculo incessante e na porta das hospedarias há velhas tabuletas pendentes, mas também pode ser uma vila alemã, onde as campainhas das lojas tilintam alegremente, ou mesmo o Rio do tempo dos Vice-Reis, com os seus Capitães-Mores traficando em suas redes e fitando duramente o artista.

      O mágico está sobre o antigo pelourinho ou forca ou guilhotina por onde muitas gerações passaram.

      As abas da sua casaca vão ao vento — é uma negra andorinha saltitante! As brancas mãos se misturam em ondulantes movimentos de dança.

      É de tarde, hora do trabalho. Na primeira fila estão os senhores e na última os escravos do dever. Os senhores procuram adivinhar, os escravos procuram rir. O mágico se diverte com a multidão, a multidão se diverte com o mágico. Um filósofo e um dançarino perdidos confundem a multidão com o mágico e aguardam.

      Todos se divertem à sua maneira.

      *

      Silêncio, o mágico fala, todos escutam! “Ahora, presentaré el famoso entretenimiento de las palomas.” A dama oriental faz uma pirueta ágil e mostra ao público a cartola milagrosa. O mágico faz passes, cobre a cartola com um lenço vermelho de seda. “Un dos y...!” voam pombas brancas para o céu de safira. A multidão olha para cima, as mãos aparando o sol. O movimento prossegue. Toda a praça, toda a rua, toda a cidade olha para cima, o subúrbio olha para cima, os camponeses olham para cima. “O que estará para acontecer? Dizem que um tufão caminha do levante!” Acendem-se ícones nas isbás da estepe russa, fazem-se procissões em Portugal. O chefe guerreiro da tribo vê o sinal da guerra no céu, rugem os trocanos. O mágico joga a cartola para a multidão, que aplaude. O poeta apanha a cartola e recolhe nela o encantamento que se processou. As pombas invisíveis voltam, o poeta as contempla. Só elas são o Íntimo da Vida.

      *

      E o tufão cai de súbito, vindo do Levante. Os garotos escorrem pelas colunas, formigam pelas escadarias, escondem-se nos nichos. O povo se escoa como uma água lodosa pelas portas das casas que abrem e fecham. A um gesto de guignol todas as janelas se retraem e após um minuto de rumor intenso desce uma eternidade de silêncio. Uma procelária passando em busca do mar só vê da cidade as suas torres acima do grande nevoeiro. Os rios rugem, as pontes desabam, nas sarjetas boiam cadáveres de crianças ciganas. O dilúvio leva a música do mágico, leva as pinturas do mágico, leva as bonecas do mágico, só não leva o mágico na torrente.
      O poeta sobe ao palanque, castiga o mágico, possui a mulher do mágico, apresenta ao alto a cabeça e o coração, onde surgem e desaparecem pombas brancas e onde a realidade efêmera floresce no mistério perpétuo.
      Mágico do inescrutável, o poeta aguarda o raio de Deus.


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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 09:56

      BALADA FEROZ


      Canta uma esperança desatinada para que se enfureçam silenciosamente os cadáveres dos afogado
      Canta para que grasne sarcasticamente o corvo que tens pousado sobre a tua omoplata atlética.
      Canta como um louco enquanto os teus pés vão penetrando a massa sequiosa de lesmas
      Canta! para esse formoso pássaro azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu êxtase.

      Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a sobre o corpo felpudo das aranhas
      Ri dos touros selvagens, carregando nos chifres virgens nuas para o estupro nas montanhas
      Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos histéricos, dos masturbados e dança!
      Dança para a lua que está escorrendo lentamente pelo ventre das menstruadas

      Lança o teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo as cidades
      Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos amores miseráveis
      Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas
      Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos gênios.

      Dança, ó desvairado! Dança pelos campos aos rinches dolorosos das éguas parindo
      Mergulha a algidez deste lago onde os nenúfares apodrecem e onde a água floresce em miasmas
      Fende o fundo viscoso e espreme com tuas fortes mãos a carne flácida das medusas
      E com teu sorriso inexcedível surge como um deus amarelo da imunda pomada.

      Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem
      E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as narinas, lança-te sobre a cidade mortuária
      Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um velho canhão soterrado, volta
      E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem as fezes verdes das estradas.

      Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro por entre os raios do sol frenético.
      Faz rugir com o teu calão o eco dos vales e das montanhas
      Mija sobre o lugar dos mendigos nas escadarias sórdidas dos templos
      E escarra sobre todos os que se proclamarem miseráveis.

      Canta! canta demais! Nada há como o amor para matar a vida
      Amor que é bem o amor da inocência primeira!
      Canta! - o coração da Donzela ficará queimando eternamente a cinza morta
      Para o horror dos monges, dos cortesãos, das prostitutas e dos pederastas.

      Transforma-te por um segundo num mosquito gigante e passeia de noite sobre as grandes cidades
      Espalhando o terror por onde quer que pousem tuas antenas impalpáveis.
      Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros o ouro
      E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza!

      E com todo esse pus, faz um poema puro
      E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida
      E ri e canta dos que pasmados o abrigarem
      E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão.

      Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta
      E dança, porque dançar é o destino da pureza
      Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno
      Carne morta ou carne viva - toma! Agora falo eu que sou um!



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      Mensaje por Maria Lua Miér 14 Sep 2022, 10:03

      SONETO À LUA


      Por que tens, por que tens olhos escuros
      E mãos lânguidas, loucas e sem fim
      Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
      Impuro, como o bem que está nos puros?

      Que paixão fez-te os lábios tão maduros
      Num rosto como o teu criança assim
      Quem te criou tão boa para o ruim
      E tão fatal para os meus versos duros?

      Fugaz, com que direito tens-me presa
      A alma que por ti soluça nua
      E não és Tatiana e nem Teresa:

      E és tampouco a mulher que anda na rua
      Vagabunda, patética, indefesa
      Ó minha branca e pequenina lua!

      Rio, 1938



      *********************



      SONETO A LA LUNA


      ¿Por qué, por qué tienes los ojos oscuros?
      Y manos lánguidas, locas y sin fin
      ¿Quién eres, quién eres tú, no yo, y estás en mí?
      ¿Impuro, como el bien que está en el puro?

      Que pasión hizo tus labios  tan maduros
      En una cara como la tuya, tan de niña
      Quien te crió tan buena para el mal
      ¿Y tan fatal para mis duros versos?

      Fugaz con que derecho me tienes aprisionado
      El alma que llora por ti desnuda
      Y no eres Tatiana o Teresa:

      Y tampoco eres la mujer que anda por la calle
      Vagabunda, patética, indefensa
      ¡Oh mi blanca y pequeñita Luna!


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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:54

      INVOCAÇÃO À MULHER ÚNICA



      Tu, pássaro — mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
      Tu, que perpetuas o desespero humano — alma desolada da noite sobre o frio das águas — tu
      Tédio escuro, mal da vida — fonte! jamais... jamais... (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
      Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
      E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
      E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
      Pobre eu! sinto-me tão tu mesma, meu belo cisne, minha bela, bela garça, fêmea
      Feita de diamantes e cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua...
      A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas — negações do bem: o Antigo Testamento! — a minha descendência
      De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: O Novo Testamento — afirmações do bem: dúvida
      (Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade
      Dúvida, madrasta do gênio) — tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do Filho, carne do Santo Espírito, amém!
      Tu, criança! cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra — perpetuação do êxtase
      Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros — mulher! tu que deitas o teu sangue
      Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas praias — mulher!
      Mulher que eu amo, criança que amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno.
      Não me deixes morrer!... eu, homem — fruto da terra — eu, homem —fruto da carne
      Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sêmen que se rejubilam à carne
      Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura de um Deus que é o vazio ele mesmo!
      Não me deixes partir... — as viagens remontam à vida!... e por que eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
      A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
      Com uma grande extensão de corpo e alma — uma montanha imensa e desdobrada — por onde eu iria caminhando
      Até o âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
      No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria — oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!


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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:55

      SONETO DE AGOSTO


      Tu me levaste, eu fui... Na treva, ousados
      Amamos, vagamente surpreendidos
      Pelo ardor com que estávamos unidos
      Nós que andávamos sempre separados.

      Espantei-me, confesso-te, dos brados
      Com que enchi teus patéticos ouvidos
      E achei rude o calor dos teus gemidos
      Eu que sempre os julgara desolados.

      Só assim arrancara a linha inútil
      Da tua eterna túnica inconsútil...
      E para a glória do teu ser mais franco

      Quisera que te vissem como eu via
      Depois, à luz da lâmpada macia
      O púbis negro sobre o corpo branco.

      Oxford, 1938


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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:56

      A MÁSCARA DA NOITE



      Sim, essa tarde conhece todos os meus pensamentos
      Todos os meus segredos e todos os meus patéticos anseios
      Sob esse céu como uma visão azul de incenso
      As estrelas são perfumes passados que me chegam...

      Sim! essa tarde que eu não conheço é uma mulher que me chama
      E eis que é uma cidade apenas, uma cidade dourada de astros
      Aves, folhas silenciosas, sons perdidos em cores
      Nuvens como velas abertas para o tempo...

      Não sei, toda essa evocação perdida, toda essa música perdida
      É como um pressentimento de inocência, como um apelo...
      Mas para que buscar se a forma ficou no gesto esvanecida
      E se a poesia ficou dormindo nos braços de outrora...

      Como saber se é tarde, se haverá manhã para o crepúsculo
      Nesse entorpecimento, neste filtro mágico de lágrimas?
      Orvalho, orvalho! desce sobre os meus olhos, sobre o meu sexo
      Faz-se surgir diamante dentro do sol!

      Lembro-me!... como se fosse a hora da memória
      Outras tardes, outras janelas, outras criaturas na alma
      O olhar abandonado de um lago e o frêmito de um vento
      Seios crescendo para o poente como salmos...

      Oh, a doce tarde! Sobre mares de gelo ardentes de revérbero
      Vagam placidamente navios fantásticos de prata
      E em grandes castelos cor de ouro, anjos azuis serenos
      Tangem sinos de cristal que vibram na imensa transparência!

      Eu sinto que essa tarde está me vendo, que essa serenidade está me vendo
      Que o momento da criação está me vendo neste instante doloroso de sossego em mim mesmo
      Oh criação que estás me vendo, surge e beija-me os olhos
      Afaga-me os cabelos, canta uma canção para eu dormir!

      És bem tu, máscara da noite, com tua carne rósea
      Com teus longos xales campestres e com teus cânticos
      És bem tu! ouço teus faunos pontilhando as águas de sons de flautas
      Em longas escalas cromáticas fragrantes...

      Ah, meu verso tem palpitações dulcíssimas! — primaveras!
      Sonhos bucólicos nunca sonhados pelo desespero
      Visões de rios plácidos e matas adormecidas
      Sobre o panorama crucificado e monstruoso dos telhados!

      Por que vens, noite? por que não adormeces o teu crepe
      Por que não te esvais — espectro — nesse perfume tenro de rosas?
      Deixa que a tarde envolva eternamente a face dos deuses
      Noite, dolorosa noite, misteriosa noite!

      Oh tarde, máscara da noite, tu és a presciência
      Só tu conheces e acolhes todos os meus pensamentos
      O teu céu, a tua luz, a tua calma
      São a palavra da morte e do sonho em mim!


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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:57

      A MULHER QUE PASSA


      Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
      Seu dorso frio é um campo de lírios
      Tem sete cores nos seus cabelos
      Sete esperanças na boca fresca!

      Oh! como és linda, mulher que passas
      Que me sacias e suplicias
      Dentro das noites, dentro dos dias!

      Teus sentimentos são poesia
      Teus sofrimentos, melancolia.
      Teus pelos leves são relva boa
      Fresca e macia.
      Teus belos braços são cisnes mansos
      Longe das vozes da ventania.

      Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

      Como te adoro, mulher que passas
      Que vens e passas, que me sacias
      Dentro das noites, dentro dos dias!
      Por que me faltas, se te procuro?
      Por que me odeias quando te juro
      Que te perdia se me encontravas
      E me encontrava se te perdias?

      Por que não voltas, mulher que passas?
      Por que não enches a minha vida?
      Por que não voltas, mulher querida
      Sempre perdida, nunca encontrada?
      Por que não voltas à minha vida?
      Para o que sofro não ser desgraça?

      Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
      Eu quero-a agora, sem mais demora
      A minha amada mulher que passa!

      No santo nome do teu martírio
      Do teu martírio que nunca cessa
      Meu Deus, eu quero, quero depressa
      A minha amada mulher que passa!

      Que fica e passa, que pacifica
      Que é tanto pura como devassa
      Que boia leve como a cortiça
      E tem raízes como a fumaça.


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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:57

      VIDA E POESIA



      A lua projetava o seu perfil azul
      Sobre os velhos arabescos das flores calmas
      A pequena varanda era como o ninho futuro
      E as ramadas escorriam gotas que não havia.
      Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
      — Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
      Só os perfumes teciam a renda da tristeza
      Porque as corolas eram alegres como frutos
      E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

      Eu me pus a sonhar o poema da hora.

      E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
      Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
      Talvez ao pressentir na carne misteriosa
      A germinação estranha do meu indizível apelo
      Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
      Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
      E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
      Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
      Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
      E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
      E marulhar entre os teus seios como uma onda
      Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
      De que me tivesses possuído antes do amor.



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      Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:59

      SONETO SIMPLES


      Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta e o coração voando ao encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas cinzentas plácidas passando — somente a amiga é como o melro branco!

      E enfim partira o mesmo que chegara; o horizonte transpondo o pensamento e nas auroras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos... (foi quando desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos...)




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      o un ciego soñando
      y en ese vuelo y en ese sueño
      compartir contigo sol y luna,
      siendo guardián en tu cielo
      y tren de tus ilusiones."
      (Hánjel)





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      Mensaje por Maria Lua Lun 19 Sep 2022, 17:45

      VIDA E POESIA


      A lua projetava o seu perfil azul
      Sobre os velhos arabescos das flores calmas
      A pequena varanda era como o ninho futuro
      E as ramadas escorriam gotas que não havia.
      Na rua ignorada anjos brincavam de roda...
      — Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
      Só os perfumes teciam a renda da tristeza
      Porque as corolas eram alegres como frutos
      E uma inocente pintura brotava do desenho das cores

      Eu me pus a sonhar o poema da hora.

      E, talvez ao olhar meu rosto exasperado
      Pela ânsia de te ter tão vagamente amiga
      Talvez ao pressentir na carne misteriosa
      A germinação estranha do meu indizível apelo
      Ouvi bruscamente a claridade do teu riso
      Num gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
      E ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
      Tão mais doce que o mel dourado dos teus olhos
      Que ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
      E se escorrer sobre os teus lábios como um suco
      E marulhar entre os teus seios como uma onda
      Eu chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
      De que me tivesses possuído antes do amor.


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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 08:57

      ÁRIA PARA ASSOVIO

      Inelutavelmente tu
      Rosa sobre o passeio
      Branca! e a melancolia
      Na tarde do seio

      As cássias escorrem
      Seu ouro a teus pés
      Conheço o soneto
      Porém tu quem és?

      O madrigal se escreve:
      Se é do teu costume
      Deixa que eu te leve

      (Sê... mínima e breve
      A música do perfume
      Não guarda ciúme)

      Rio, 1936


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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 08:57

      A BRUSCA POESIA DA MULHER AMADA


      Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
      Eles foram vistos caminhando de noite para o amor — oh, a mulher amada é como a fonte!

      A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
      A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
      Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
      Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

      Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
      E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

      Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.


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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 08:58

      SONETO A KATHERINE MANSFIELD


      O teu perfume, amada — em tuas cartas
      Renasce, azul... — são tuas mãos sentidas!
      Relembro-as brancas, leves, fenecidas
      Pendendo ao longo de corolas fartas.

      Relembro-as, vou... nas terras percorridas
      Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
      Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
      Como se numa foram duas vidas.

      Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
      Tanto rever-te, tanto!... e a primavera
      Vem já tão próxima!... (Nunca te apartas

      Primavera, dos sonhos e das preces!)
      E no perfume preso em tuas cartas
      À primavera surges e esvaneces.

      Rio, 1937


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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 08:59

      O CEMITÉRIO NA MADRUGADA
      Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
      E fica como louca, sentada, espiando o mar...
      É a hora em que se acende o fogo-fátuo da madrugada
      Sobre os mármores frios, frios e frios do cemitério
      E em que, embaladas pela harpa cariciosa das pescarias
      Dormem todas as crianças do mundo.

      Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
      Tudo repousa... e sem treva, morrem as últimas sombras...
      É a hora em que, libertados do horror da noite escura
      Acordam os grandes anjos da guarda dos jazigos
      E os mais serenos cristos se desenlaçam dos madeiros
      Para lavar o rosto pálido na névoa.

      Às cinco da manhã... — tão tarde soube — não fora ainda uma visão
      Não fora ainda o medo da morte em minha carne!
      Viera de longe... de um corpo lívido de amante
      Do mistério fúnebre de um êxtase esquecido
      Tinha-me perdido na cerração, tinha-me talvez perdido
      Na escuta de asas invisíveis em torno...

      Mas ah, ela veio até mim, a pálida cidade dos poemas
      Eu a vi assim gelada e hirta, na neblina!
      Oh, não eras tu, mulher sonâmbula, tu que eu deixei
      Banhada do orvalho estéril da minha agonia
      Teus seios eram túmulos também, teu ventre era uma urna fria
      Mas não havia paz em ti!

      Lá tudo é sereno... Lá toda a tristeza se cobre de linho
      Lá tudo é manso, manso como um corpo morto de mãe prematura
      Lá brincam os serafins e as flores, bimbalham os sinos
      Em melodias tão alvas que nem se ouvem...
      Lá gozam miríades de vermes, que às brisas matutinas
      Voam em povos de borboletas multicolores...

      Escuto-me falar sem receio; esqueço o amanhã distante
      O vento traz perfumes inconfessáveis dos pinheiros...
      Um dia morrerão todos, morrerão as amadas
      E eu ficarei sozinho, para a hora dos cânticos exangues
      Hei de colar meu ouvido impaciente às tumbas amigas
      E ouvir meu coração batendo.

      Tu trazes alegria à vida, ó Morte, deusa humílima!
      A cada gesto meu riscas uma sombra errante na terra
      Sobre o teu corpo em túnica, vi a farândola das rosas e dos lírios
      E a procissão solene das virgens e das madalenas
      Em tuas maminhas púberes vi mamarem ratos brancos
      Que brotavam como flores dos cadáveres contentes.

      Que pudor te toma agora, poeta, lírico ardente
      Que desespero em ti diz da irrealidade das manhãs?
      A Morte vive em teu ser... — não, não é uma visão de bruma
      Não é o despertar angustiado após o martírio do amor
      É a Poesia... — e tu, homem simples, és um fanático arquiteto
      Ergues a beleza da morte em ti!

      Oh, cemitério da madrugada, por que és tão alegre
      Por que não gemem ciprestes nos teus túmulos?
      Por que te perfumas tanto em teus jasmins
      E tão docemente cantas em teus pássaros?
      És tu que me chamas, ou sou eu que vou a ti
      Criança, brincar também pelos teus parques?

      Por ti, fui triste; hoje, sou alegre por ti, ó morte amiga
      Do teu espectro familiar vi se erguer a única estrela do céu
      Meu silêncio é o teu silêncio — ele não traz angústia
      É assim como a ave perdida no meio do mar...
      ............................................................................................

      Serenidade, leva-me! guarda-me no seio de uma madrugada eterna!



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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 09:00

      PRINCÍPIO



      Na praia sangrenta a gelatina verde das algas — horizontes!
      Os olhos do afogado à tona e o sexo no fundo (a contemplação na desagregação da forma...)
      O mar... A música que sobe ao espírito, a poesia do mar, a cantata soturna dos três movimentos
      O mar! (Não a superfície calma, mas o abismo povoado de peixes fantásticos e sábios...)

      É o navio grego, é o navio grego desaparecido nas floras submarinas — Deus balança por um fio invisível a ossada do timoneiro sob o grande mastro
      São as medusas, são as medusas dançando a dança erótica dos mucos vermelhos se abrindo ao beijo das águas
      É a carne que o amor não mais ilumina, é o rito que o fervor não mais acende
      É o amor um molusco gigantesco vagando pela revelação das luzes árticas.

      O que se encontrará no abismo mesmo de sabedoria e de compreensão infinita
      Ó pobre narciso nu que te deixaste ficar sobre a certeza de tua plenitude?
      Nos peixes que da própria substância acendem o espesso líquido que vão atravessando
      Terás conhecido a verdadeira luz da miséria humana que quer se ultrapassar.

      É preciso morrer, a face repousada contra a água como um grande nenúfar partido
      Na espera da decomposição que virá para os olhos cegos de tanta serenidade
      Na visão do amor que estenderá as suas antenas altas e fosforescentes
      Todo o teu corpo há de deliquescer e mergulhar como um destroço ao apelo do fundo.

      Será a viagem e a destinação. Há correntes que te levarão insensivelmente e sem dor para cavernas de coral
      Lá conhecerás os segredos da vida misteriosa dos peixes eternos
      Verás crescerem olhos ardentes do volume glauco que te incendiarão de pureza
      E assistirás a seres distantes que se fecundam à simples emoção do amor.

      Encontrar, eis o destino. Aves brancas que desceis aos lagos e fugis! Oh, a covardia das vossas asas!
      É preciso ir e se perder no elemento de onde surge a vida.
      Mais vale a árvore da fonte que a árvore do rio plantada segundo a corrente e que dá seus frutos a seu tempo...
      Deixai morrer o desespero nas sombras da ideia de que o amor pode não vir.

      Na praia sangrenta a velha embarcação negra e desfeita — o mar a lançou talvez na tempestade!
      Eu — e casebres de pescadores eternamente ausentes...
      O mar! o vento tangendo as águas e cantando, cantando, cantando
      Na praia sangrenta entre brancas espumas e horizontes...


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      Mensaje por Maria Lua Lun 26 Sep 2022, 09:01

      SONETO DE CONTRIÇÃO



      Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
      Que o meu peito me dói como em doença
      E quanto mais me seja a dor intensa
      Mais cresce na minha alma teu encanto.

      Como a criança que vagueia o canto
      Ante o mistério da amplidão suspensa
      Meu coração é um vago de acalanto
      Berçando versos de saudade imensa.

      Não é maior o coração que a alma
      Nem melhor a presença que a saudade
      Só te amar é divino, e sentir calma...

      E é uma calma tão feita de humildade
      Que tão mais te soubesse pertencida
      Menos seria eterno em tua vida.

      Rio, 1938




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