Aires de Libertad

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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 10:17

    REVOLTA



    Alma que sofres pavorosamente
    A dor de seres privilegiada
    Abandona o teu pranto, sê contente
    Antes que o horror da solidão te invada.

    Deixa que a vida te possua ardente
    Ó alma supremamente desgraçada.
    Abandona, águia, a inóspita morada
    Vem rastejar no chão como a serpente.

    De que te vale o espaço se te cansa?
    Quanto mais sobes mais o espaço avança...
    Desce ao chão, águia audaz, que a noite é fria.

    Volta, ó alma, ao lugar de onde partiste
    O mundo é bom, o espaço é muito triste...
    Talvez tu possas ser feliz um dia.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 10:18

    ÂNSIA

    Na treva que se fez em torno a mim
    Eu vi a carne.
    Eu senti a carne que me afogava o peito
    E me trazia à boca o beijo maldito.

    Eu gritei.

    De horror eu gritei que a perdição me possuía a alma
    E ninguém me atendeu.

    Eu me debati em ânsias impuras
    A treva ficou rubra em torno a mim
    E eu caí!

    As horas longas passaram.

    O pavor da morte me possuiu.

    No vazio interior ouvi gritos lúgubres
    Mas a boca beijada não respondeu aos gritos.

    Tudo quedou na prostração.

    O movimento da treva cessou ante mim.

    A carne fugiu
    Desapareceu devagar, sombria, indistinta
    Mas na boca ficou o beijo morto.

    A carne desapareceu na treva

    E eu senti que desaparecia na dor
    Que eu tinha a dor em mim como tivera a carne
    Na violência da posse.

    Olhos que olharam a carne
    Por que chorais?
    Chorais talvez a carne que foi
    Ou chorais a carne que jamais voltará?
    Lábios que beijaram a carne
    Por que tremeis?
    Não vos bastou o afago de outros lábios
    Tremeis pelo prazer que eles trouxeram
    Ou tremeis no balbucio da oração?
    Carne que possui a carne
    Onde o frio?
    Lá fora a noite é quente e o vento é tépido
    Gritam luxúria nesse vento
    Onde o frio?

    Pela noite quente eu caminhei...
    Caminhei sem rumo, para o ruído longínquo
    Que eu ouvia, do mar.
    Caminhei talvez para a carne
    Que vira fugir de mim.

    No desespero das árvores paradas busquei consoloção
    E no silêncio das folhas que caíam senti o ódio
    Nos ruídos do mar ouvi o grito de revolta
    E de pavor fugi.

    Nada mais existe para mim
    Só talvez tu, Senhor.
    Mas eu sinto em mim o aniquilamento...

    Dá-me apenas a aurora, Senhor
    Já que eu não poderei jamais ver a luz do dia.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 10:19

    VELHA HISTÓRIA


    Depois de atravessar muitos caminhos
    Um homem chegou a uma estrada clara e extensa
    Cheia de calma e luz.
    O homem caminhou pela estrada afora
    Ouvindo a voz dos pássaros e recebendo a luz forte do sol
    Com o peito cheio de cantos e a boca farta de risos.
    O homem caminhou dias e dias pela estrada longa
    Que se perdia na planície uniforme.
    Caminhou dias e dias...
    Os únicos pássaros voaram
    Só o sol ficava
    O sol forte que lhe queimava a fronte pálida.
    Depois de muito tempo ele se lembrou de procurar uma fonte
    Mas o sol tinha secado todas as fontes.
    Ele perscrutou o horizonte
    E viu que a estrada ia além, muito além de todas as coisas.
    Ele perscrutou o céu
    E não viu nenhuma nuvem.

    E o homem se lembrou dos outros caminhos.
    Eram difíceis, mas a água cantava em todas as fontes
    Eram íngremes, mas as flores embalsamavam o ar puro
    Os pés sangravam na pedra, mas a árvore amiga velava o sono.
    Lá havia tempestade e havia bonança
    Havia sombra e havia luz.

    O homem olhou por um momento a estrada clara e deserta
    Olhou longamente para dentro de si
    E voltou.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 10:19

    PURIFICAÇÃO


    Senhor, logo que eu vi a natureza
    As lágrimas secaram.
    Os meus olhos pousados na contemplação
    Viveram o milagre de luz que explodia no céu.

    Eu caminhei, Senhor.
    Com as mãos espalmadas eu caminhei para a massa de seiva
    Eu, Senhor, pobre massa sem seiva
    Eu caminhei.
    Nem senti a derrota tremenda
    Do que era mau em mim.
    A luz cresceu, cresceu interiormente
    E toda me envolveu.

    A ti, Senhor, gritei que estava puro
    E na natureza ouvi a tua voz.
    Pássaros cantaram no céu
    Eu olhei para o céu e cantei e cantei.
    Senti a alegria da vida
    Que vivia nas flores pequenas
    Senti a beleza da vida
    Que morava na luz e morava no céu
    E cantei e cantei.

    A minha voz subiu até ti, Senhor
    E tu me deste a paz.
    Eu te peço, Senhor
    Guarda meu coração no teu coração
    Que ele é puro e simples.
    Guarda a minha alma na tua alma
    Que ela é bela, Senhor.
    Guarda o meu espírito no teu espírito
    Porque ele é a minha luz
    E porque só a ti ele exalta e ama.


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    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 10:20

    SACRIFÍCIO



    Num instante foi o sangue, o horror, a morte na lama do chão.
    — Segue, disse a voz. E o homem seguiu, impávido
    Pisando o sangue do chão, vibrando, na luta.
    No ódio do monstro que vinha
    Abatendo com o peito a miséria que vivia na terra
    O homem sentiu a própria grandeza
    E gritou que o heroísmo é das almas incompreendidas.

    Ele avançou.
    Com o fogo da luta no olhar ele avançou sozinho.
    As únicas estrelas que restavam no céu
    Desapareceram ofuscadas ao brilho fictício da lua.
    O homem sozinho, abandonado na treva
    Gritou que a treva é das almas traídas
    E que o sacrifício é a luz que redime.

    Ele avançou.
    Sem temer ele olhou a morte que vinha
    E viu na morte o sentido da vitória do Espírito.
    No horror do choque tremendo
    Aberto em feridas o peito
    O homem gritou que a traição é da alma covarde
    E que o forte que luta é como o raio que fere
    E que deixa no espaço o estrondo da sua vinda.

    No sangue e na lama
    O corpo sem vida tombou.
    Mas nos olhos do homem caído
    Havia ainda a luz do sacrifício que redime
    E no grande Espírito que adejava o mar e o monte
    Mil vozes clamavam que a vitória do homem forte tombado na luta
    Era o novo Evangelho para o homem da paz que lavra no campo.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Ago 2022, 18:44

    A FLORESTA



    Sobre o dorso possante do cavalo
    Banhado pela luz do sol nascente
    Eu penetrei o atalho, na floresta.
    Tudo era força ali, tudo era força
    Força ascencional da natureza.
    A luz que em torvelinhos despenhava
    Sobre a coma verdíssima da mata
    Pelos claros das árvores entrava
    E desenhava a terra de arabescos.
    Na vertigem suprema do galope
    Pelos ouvidos, doces, perpassavam
    Cantos selvagens de aves indolentes.
    A branda aragem que do azul descia
    E nas folhas das árvores brincava
    Trazia à boca um gosto saboroso
    De folha verde e nova e seiva bruta.
    Vertiginosamente eu caminhava
    Bêbado da frescura da montanha
    Bebendo o ar estranguladamente.
    Às vezes, a mão firme apaziguava
    O impulso ardente do animal fogoso
    Para ouvir de mais perto o canto suave
    De alguma ave de plumagem rica
    E após, soltando as rédeas ao cavalo
    Ia de novo loucamente à brida.

    De repente parei. Longe, bem longe
    Um ruído indeciso, informe ainda
    Vinha às vezes, trazido pelo vento.
    Apenas branda aragem perpassava
    E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.
    Que seria? De novo caminhando
    Mais distinto escutava o estranho ruído
    Como que o ronco baixo e surdo e cavo
    De um gigante de lenda adormecido.

    A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
    Era ela. Meu Deus, que majestade!
    Desmontei. Sobre a borda da montanha
    Vendo a água lançando-se em peitadas
    Em contorções, em doidos torvelinhos
    Sobre o rio dormente e marulhoso
    Eu tive a estranha sensação da morte.

    Em cima o rio vinha espumejante
    Apertado entre as pedras pardacentas
    Rápido e se sacudindo em branca espuma.
    De repente era o vácuo embaixo, o nada
    A queda célere e desamparada
    A vertigem do abismo, o horror supremo
    A água caindo, apavorada, cega
    Como querendo se agarrar nas pedras
    Mas caindo, caindo, na voragem
    E toda se estilhaçando, espumecente.

    Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
    Ouvindo o grande grito que subia
    Cheio, eu também, de gritos interiores.
    Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
    Sufocando no peito o sofrimento
    Caudal de dor atroz e inapagável
    Bem mais forte e selvagem do que a outra.
    Feita ela toda da desesperança
    De não poder sentir a natureza
    Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

    Quando voltei, já vinha o sol mais alto
    E alta vinha a tristeza no meu peito.
    Eu caminhei. De novo veio o vento
    Os pássaros cantaram novamente
    De novo o aroma rude da floresta
    De novo o vento. Mas eu nada via.
    Eu era um ser qualquer que ali andava
    Que vinha para o ponto de onde viera
    Sem sentido, sem luz, sem esperança
    Sobre o dorso cansado de um cavalo.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:05

    TARDE

    Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
    Meu espírito te sentiu.
    Ele te sentiu imensamente triste
    Imensamente sem Deus
    Na tragédia da carne desfeita.

    Ele te quis, hora sem tempo
    Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
    Ele te amou
    E te plasmou na visão da manhã e do dia
    Na visão de todas as horas
    Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.


    *******************************

    TARDE

    En la hora dolorosa y morada de las emociones silenciosas
    Mi espíritu te sintió.
    Te sintió inmensamente triste
    Inmensamente sin Dios
    En la tragedia de la carne destrozada.

    Él te quería, hora sin tiempo
    Porque eras su imagen, sin Dios y sin tiempo.
    el te amó
    Y te moldeó en la visión de la mañana y del día.
    A la vista de todas las horas
    Oh dolorosa y morada hora de emociones silenciosas.



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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:06

    RUA DA AMARGURA


    A minha rua é longa e silenciosa como um caminho que foge
    E tem casas baixas que ficam me espiando de noite
    Quando a minha angústia passa olhando o alto.
    A minha rua tem avenidas escuras e feias
    De onde saem papéis velhos correndo com medo do vento
    E gemidos de pessoas que estão eternamente à morte.
    A minha rua tem gatos que não fogem e cães que não ladram
    Tem árvores grandes que tremem na noite silente
    Fugindo as grandes sombras dos pés aterrados.
    A minha rua é soturna...
    Na capela da igreja há sempre uma voz que murmura louvemos
    Sozinha e prostrada diante da imagem
    Sem medo das costas que a vaga penumbra apunhala.

    A minha rua tem um lampião apagado
    Na frente da casa onde a filha matou o pai
    Porque não queria ser dele.
    No escuro da casa só brilha uma chapa gritando quarenta.

    A minha rua é a expiação de grandes pecados
    De homens ferozes perdendo meninas pequenas
    De meninas pequenas levando ventres inchados
    De ventres inchados que vão perder meninas pequenas.
    É a rua da gata louca que mia buscando os filhinhos nas portas das casas.

    É a impossibilidade de fuga diante da vida
    É o pecado e a desolação do pecado
    É a aceitação da tragédia e a indiferença ao degredo
    Como negação do aniquilamento.

    É uma rua como tantas outras
    Com o mesmo ar feliz de dia e o mesmo desencontro de noite.
    É a rua por onde eu passo a minha angústia
    Ouvindo os ruídos subterrâneos como ecos de prazeres inacabados.
    É a longa rua que me leva ao horror do meu quarto
    Pelo desejo de fugir à sua murmuração tenebrosa
    Que me leva à solidão gelada do meu quarto...

    Rua da amargura...


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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:07

    VIGÍLIA



    Eu às vezes acordo e olho a noite estrelada
    E sofro doidamente.
    A lágrima que brilha nos meus olhos
    Possui por um segundo a estrela que brilha no céu.

    Eu sofro no silêncio
    Olhando a noite que dorme iluminada
    Pavorosamente acordado à dor e ao silêncio
    Pavorosamente acordado!

    Tudo em mim sofre.
    Ao peito opresso não basta o ar embalsamado da noite
    Ao coração esmagado não basta a lágrima triste que desce,
    E ao espírito aturdido não basta a consolação do sofrimento.
    Há qualquer coisa fora de mim, não sei, no vago
    Como que uma presença indefinida
    Que eu sinto mas não tenho.

    Meu sofrimento é o maior de todos os sentimentos
    Porque ele não precisou a visão que flutua
    E não a precisará jamais.
    A dor estará em mim e eu estarei na dor
    Em todas as minhas vigílias...
    Eu sofrerei até o último dia
    Porque será meu último dia o último dia da minha mocidade.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:08

    O POETA



    A vida do poeta tem um ritmo diferente
    É um contínuo de dor angustiante.
    O poeta é o destinado do sofrimento
    Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza
    E a sua alma é uma parcela do infinito distante
    O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.

    Ele é o eterno errante dos caminhos
    Que vai, pisando a terra e olhando o céu
    Preso pelos extremos intangíveis
    Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
    O poeta tem o coração claro das aves
    E a sensibilidade das crianças.
    O poeta chora.
    Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes
    Olhando o espaço imenso da sua alma.
    O poeta sorri.
    Sorri à vida e à beleza e à amizade
    Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
    O poeta é bom.
    Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras
    Sua alma as compreende na luz e na lama
    Ele é cheio de amor para as coisas da vida
    E é cheio de respeito para as coisas da morte.
    O poeta não teme a morte.
    Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
    E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
    A sua poesia é a razão da sua existência
    Ela o faz puro e grande e nobre
    E o consola da dor e o consola da angústia.

    A vida do poeta tem um ritmo diferente
    Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu
    Preso, eternamente preso pelos extremos intangíveis.


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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:08

    MORMAÇO



    No silêncio morno das coisas do meio-dia
    Eu me esvaio no aniquilamento dos agudíssimos do violino
    Que a menina pálida estuda há anos sem compreender.
    Eu sinto o letargo das dissonâncias harmônicas
    Do vendedor de modinhas e da pedra do amolador
    Que trazem a visão de mulheres macilentas dançando no espaço
    Na moleza das espatifadas da carne.

    Eu vou pouco a pouco adormecendo
    Sentindo os gritos do violino que penetram em todas as frestas
    E ressecam os lábios entreabertos na respiração
    Mas que dão a impressão da mediocridade feliz e boa.

    Que importa que a imagem do Cristo pregada na parede seja a verdade...

    Eu sinto que a verdade é a grande calma do sono
    Que vem com o cantar longínquo dos galos
    E que me esmaga nos cílios longos beijos luxuriosos...

    Eu sinto a queda de tudo na lassidão...
    Adormeço aos poucos na apatia dos ruídos da rua
    E na constância nostálgica da tosse do vizinho tuberculoso
    Que há um ano espera a morte que eu morro no sono do meio-dia.


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    o un ciego soñando
    y en ese vuelo y en ese sueño
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    Mensaje por Maria Lua Dom 21 Ago 2022, 09:09

    ROMANZA



    Branca mulher de olhos claros
    De olhar branco e luminoso
    Que tinhas luz nas pupilas
    E luz nos cabelos louros
    Onde levou-te o destino
    Que te afastou para longe
    Da minha vista sem vida
    Da minha vida sem vista?

    Andavas sempre sozinha
    Sem cão, sem homem, sem Deus
    Eu te seguia sozinho
    Sem cão, sem mulher, sem Deus
    Eras a imagem de um sonho
    A imagem de um sonho eu era
    Ambos levando a tristeza
    Dos que andam em busca do sonho.

    Ias sempre, sempre andando
    E eu ia sempre seguindo
    Pisando na tua sombra
    Vendo-a às vezes se afastar
    Nem sabias quem eu era
    Não te assustavam meus passos
    Tu sempre andando na frente
    Eu sempre atrás caminhando.

    Toda a noite em minha casa
    Passavas na caminhada
    Eu te esperava e seguia
    Na proteção do meu passo
    E após o curto caminho
    Da praia de ponta a ponta
    Entravas na tua casa
    E eu ia, na caminhada.

    Eu te amei, mulher serena
    Amei teu vulto distante
    Amei teu passo elegante
    E a tua beleza clara
    Na noite que sempre vinha
    Mas sempre custava tanto
    Eu via a hora suprema
    Das horas da minha vida.

    Eu te seguia e sonhava
    Sonhava que te seguia
    Esperava ansioso o instante
    De defender-te de alguém
    E então meu passo mais forte
    Dizia: quero falar-te
    E o teu, mais brando, dizia:
    Se queres destruir... vem.

    Eu ficava. E te seguia
    Pelo deserto da praia
    Até avistar a casa
    Pequena e branca da esquina.
    Entravas. Por um momento
    Esperavas que eu passasse
    Para o olhar de boa-noite
    E o olhar de até-amanhã.

    Quase um ano o nosso idílio.
    Uma noite... não passaste.
    Esperei-te ansioso, inquieto
    Mas não vieste. Por quê?
    Foste embora? Procuraste
    O amor de algum outro passo
    Que em vez de seguir-te sempre
    Andasse sempre ao teu lado?

    Eu ando agora sozinho
    Na praia longa e deserta
    Eu ando agora sozinho
    Por que fugiste? Por quê?
    Ao meu passo solitário
    Triste e incerto como nunca
    Só responde a voz das ondas
    Que se esfacelam na areia.

    Branca mulher de olhos claros
    Minha alma ainda te deseja
    Traze ao meu passo cansado
    A alegria do teu passo
    Onde levou-te o destino
    Que te afastou para longe
    Da minha vista sem vida
    Da minha vida sem vista?


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    Mensaje por Maria Lua Lun 22 Ago 2022, 21:29

    SUSPENSÃO



    Fora de mim, fora de nós, no espaço, no vago
    A música dolente de uma valsa
    Em mim, profundamente em mim
    A música dolente do teu corpo
    E em tudo, vivendo o momento de todas as coisas
    A música da noite iluminada.

    O ritmo do teu corpo no meu corpo...
    O giro suave da valsa longínqua, da valsa suspensa...
    Meu peito vivendo teu peito
    Meus olhos bebendo teus olhos, bebendo teu rosto...
    E a vontade de chorar que vinha de todas as coisas.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:40

    VAZIO



    A noite é como um olhar longo e claro de mulher.
    Sinto-me só.
    Em todas as coisas que me rodeiam
    Há um desconhecimento completo da minha infelicidade.
    A noite alta me espia pela janela
    E eu, desamparado de tudo, desamparado de mim próprio
    Olho as coisas em torno
    Com um desconhecimento completo das coisas que me rodeiam.

    Vago em mim mesmo, sozinho, perdido
    Tudo é deserto, minha alma é vazia
    E tem o silêncio grave dos templos abandonados.
    Eu espio a noite pela janela
    Ela tem a quietação maravilhosa do êxtase.
    Mas os gatos embaixo me acordam gritando luxúrias
    E eu penso que amanhã...
    Mas a gata vê na rua um gato preto e grande
    E foge do gato cinzento.

    Eu espio a noite maravilhosa
    Estranha como um olhar de carne.
    Vejo na grade o gato cinzento olhando os amores da gata e do gato preto
    Perco-me por momentos em antigas aventuras
    E volto à alma vazia e silenciosa que não acorda mais
    Nem à noite clara e longa como um olhar de mulher
    Nem aos gritos luxuriosos dos gatos se amando na rua.

    ---



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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:41

    QUIETAÇÃO


    No espaço claro e longo
    O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
    Eu sinto tudo pousado dentro da noite
    E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
    Como desesperados de melancolia
    Uivam na estrada cães cheios de lua.
    O silêncio pesado que desce
    Curva todas as coisas religiosamente
    E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite...

    Eu penso em ti.
    Minha boca cicia longamente o teu nome
    E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
    Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
    Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
    Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
    Ouvindo, junto de mim, a angústia apaixonada da minha voz
    Num desfalecimento.

    Pelo espaço claro e longo
    Vibra a luz branca das estrelas.
    Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
    Tudo imensamente repousado.
    E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
    Pensando em ti.

    ---


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:42

    OLHOS MORTOS



    Algum dia esses olhos que beijavas tanto
    Numa carícia sem mistérios
    Olharão para o céu e pararão.
    Nesse dia nem o teu beijo angelizante
    Poderá novamente despertá-los.
    A luz que lhes boiava nas pupilas
    Tu a verás talvez na face magra
    Do Cristo prisioneiro entre as mãos crispadas.
    Eles serão brancos — a imagem desse céu alto e suspenso
    Que foi a sua última visão.
    Eles não te dirão mais nada.
    Não te falarão aquela linguagem extraordinária
    Que te repousava como uma música longínqua.
    Não olharão mais nada que uma distância qualquer, longe
    Uma distância que nem tu nem ninguém saberá qual é.
    Eles estarão abertos, compreensivos da morte, parados
    Nem tu conseguirás mais despertá-los.
    E eu te peço — tu que tanto amavas repousá-los
    Com a luz clara do teu olhar sem martírios —
    Não os prendas à angústia triste do teu pranto.
    Silêncio... silêncio... Beija-os ainda e vai...
    Deixa-os fitando eternamente o céu.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:43

    A ESPOSA



    Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
    Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
    Essa estranha visão de mulher calma
    Surgindo do vazio dos meus olhos parados
    Vem espiar minha imobilidade.

    E ela fica horas longas, horas silenciosas
    Somente movendo os olhos serenos no meu rosto
    Atenta, à espera do sono que virá e me levará com ele.
    Nada diz, nada pensa, apenas olha — e o seu olhar é como a luz
    De uma estrela velada pela bruma.
    Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem
    Mas que não vencem o olhar perdido longe.
    Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias
    Se sentir frias suas mãos.
    Quando a porta ranger e a cabecinha de criança
    Aparecer curiosa e a voz clara chamá-la num reclamo
    Ela apontará para mim pondo o dedo nos lábios
    Sorrindo de um sorriso misterioso
    E se irá num passo leve
    Após o beijo leve e roçagante...

    Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...

    Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:44

    A QUE HÁ DE VIR



    Aquela que dormirá comigo todas as luas
    É a desejada de minha alma.
    Ela me dará o amor do seu coração
    E me dará o amor da sua carne.
    Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
    E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios
    Ela é a querida da minha alma
    Que me fará longos carinhos nos olhos
    Que me beijará longos beijos nos ouvidos
    Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
    Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas
    Temerá minha cólera e se aninhará no meu sossego
    Ela abandonará filho e esposo
    Abandonará o mundo e o prazer do mundo
    Abandonará Deus e a Igreja de Deus
    E virá a mim me olhando de olhos claros
    Se oferecendo à minha posse
    Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
    Cheia de uma pureza luminosa.
    Ela é a amada sempre nova do meu coração
    Ela ficará me olhando calada
    Que ela só crerá em mim
    Far-me-á a razão suprema das coisas.
    Ela é a amada da minha alma triste
    É a que dará o peito casto
    Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração.

    Ela é a minha poesia e a minha mocidade
    É a mulher que se guardou para o amado de sua alma
    Que ela sentia vir porque ia ser dela e ela dele.

    Ela é o amor vivendo de si mesmo.

    É a que dormirá comigo todas as luas
    E a quem eu protegerei contra os males do mundo.

    Ela é a anunciada da minha poesia
    Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos
    E que será minha, só minha, como a força é do forte e a poesia é d
    o poeta.


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    Mensaje por Maria Lua Mar 23 Ago 2022, 12:46

    CARNE


    Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
    Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
    O mesmo céu nos cobre
    E a mesma terra liga nossos pés.
    No céu e na terra é tua carne que palpita
    Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
    Na carícia violenta do teu beijo.
    Que importa a distância e que importa a montanha
    Se tu és a extensão da carne
    Sempre presente?


    ***********************


    CARNE


    Que importa si la distancia se extiende entre nosotros leguas y leguas
    ¿Qué importa si hay muchas montañas entre nosotros?
    El mismo cielo nos cubre
    Y la misma tierra ata nuestros pies.
    En el cielo y en la tierra es tu carne la que palpita
    En todo siento tus ojos abrirse
    En la caricia violenta de tu beso.
    Que importa la distancia y que importa la montaña
    Si eres la extensión de la carne
    ¿Siempre presente?



    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Miér 24 Ago 2022, 09:23

    DESDE SEMPRE


    Na minha frente, no cinema escuro e silencioso
    Eu vejo as imagens musicalmente rítmicas
    Narrando a beleza suave de um drama de amor.
    Atrás de mim, no cinema escuro e silencioso
    Ouço vozes surdas, viciadas
    Vivendo a miséria de uma comédia de carne.
    Cada beijo longo e casto do drama
    Corresponde a cada beijo ruidoso e sensual da comédia
    Minha alma recolhe a carícia de um
    E a minha carne a brutalidade do outro.
    Eu me angustio.
    Desespera-me não me perder da comédia ridícula e falsa
    Para me integrar definitivamente no drama.
    Sinto a minha carne curiosa prendendo-me às palavras implorantes
    Que ambos se trocam na agitação do sexo.
    Tento fugir para a imagem pura e melodiosa
    Mas ouço terrivelmente tudo
    Sem poder tapar os ouvidos.
    Num impulso fujo, vou para longe do casal impudico
    Para somente poder ver a imagem.

    Mas é tarde. Olho o drama sem mais penetrar-lhe a beleza
    Minha imaginação cria o fim da comédia que é sempre o mesmo fim
    E me penetra a alma uma tristeza infinita
    Como se para mim tudo tivesse morrido.


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    Mensaje por Maria Lua Miér 24 Ago 2022, 09:31

    A UMA MULHER



    Quando a madrugada entrou eu estendi o meu peito nu sobre o teu peito
    Estavas trêmula e teu rosto pálido e tuas mãos frias
    E a angústia do regresso morava já nos teus olhos.
    Tive piedade do teu destino que era morrer no meu destino
    Quis afastar por um segundo de ti o fardo da carne
    Quis beijar-te num vago carinho agradecido.
    Mas quando meus lábios tocaram teus lábios
    Eu compreendi que a morte já estava no teu corpo
    E que era preciso fugir para não perder o único instante
    Em que foste realmente a ausência de sofrimento
    Em que realmente foste a serenidade.¨



    ¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨


    A UNA MUJER


    Cuando amaneció estiré mi pecho desnudo sobre tu pecho
    Estabas temblorosa y tu cara pálida y tus manos frías
    Y la angustia del regreso vivia en tus ojos.
    Tuve piedad de tu destino que era morir en mi destino
    Quería alejar de ti la carga de la carne por un segundo
    Quería besarte con un vago cariño agradecido.
    Pero cuando mis labios tocaron tus labios
    Comprendí que la muerte ya estaba en tu cuerpo
    Y que era necesario huir para no perder el único instante
    En qué fuiste realmente la ausencia de sufrimiento?
    En la que realmente fuiste la serenidad.


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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Ago 2022, 08:37

    VINTE ANOS


    Pela campina as borboletas se amam ao estrépito das asas.
    Tudo quietação de folhas. E um sol frio
    Interiorizando as almas.

    Mergulhado em mim mesmo, com os olhos errando na campina
    Eu me lembro da minha juventude.
    Penso nela como os velhos na mocidade distante:
    — Na minha juventude…

    Eu fui feliz nesse passado grato
    Viviam então em mim forças que já me faltam.
    Possuía a mesma sinceridade nos bons e maus sentimentos.
    Aos frenesis da carne se sucediam os grandes misticismos quietos.
    Era um pequeno condor que ama as alturas
    E tem confiança nas garras.
    Tinha fé em Deus e em mim mesmo
    Confessava-me todo domingo
    E tornava a pecar toda segunda-feira
    Tinha paixão por mulheres casadas
    E fazia sonetos sentimentais e realistas
    Que catalogava num grande livro preto
    A que tinha posto o nome de Fœderis Arca.

    A minha juventude...
    Onde eu seguia ansioso Tartarin pelos Alpes
    E Júlio Verne foi o mais audaz de todos os cérebros...
    Onde Mr. Pickwick era a alegria das noites de frio
    E Athos o mais perfeito de todos os homens...
    A minha juventude
    Onde Cervantes não era o filósofo de D. Quixote...

    A minha juventude
    E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara...

    Como vai longe tudo!
    Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos
    E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.

    Medo de ser jovem agora e ser ridículo
    Medo da morte futura que a minha juventude desprezava
    Medo de tudo, medo de mim próprio
    Do tédio das vigílias e do tédio dos dias...
    Virá para mim uma velhice como vem para os outros
    Que me dissecará na experiência?

    Da campina verde voaram as borboletas...

    Só a quietação das folhas
    E o meu turbilhão de pensamentos.


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    y en ese vuelo y en ese sueño
    compartir contigo sol y luna,
    siendo guardián en tu cielo
    y tren de tus ilusiones."
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    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Ago 2022, 08:38

    VELHICE


    Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
    Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
    E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
    Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
    Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
    Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmulo
    E todas as ideias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
    Ficará talvez somente a ideia do testamento bem escrito.
    Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
    Só terei uma experiência extraordinária.
    Fecharei minha alma a todos e a tudo
    Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
    Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
    Nem o cigarro da mocidade restará.
    Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
    E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
    Não escreverei mais a lápis
    E só usarei pergaminhos compridos.
    Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.

    Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
    Cheio de irritação para com a vida
    Cheio de irritação para comigo mesmo.

    O eterno velho que nada é, nada vale, nada vive

    O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.


    _________________



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Jue 25 Ago 2022, 08:42

    FIM


    Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
    E só resta a possibilidade de permanecer?
    Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
    Ou será ela a própria caminhada?
    Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
    E gritaram — Coragem!
    Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
    Que fecha tudo à libertação?
    Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
    Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
    Apenas pela glória de tombar lutando?

    Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
    Ao fim de todos os caminhos?




    ********************

    FIN


    ¿He llegado al final de todos los caminos?
    ¿Y sólo existe la posibilidad de quedarme?
    ¿Será la Verdad solo un incentivo para caminar?
    ¿O es el mismo caminar en sí?
    Los que surgieron de las tinieblas y gritaron: ¡Espíritu!
    Y gritaban: ¡Ánimo!
    Rasgaré mis manos sobre las piedras de la gran muralla
    ¿Que cierra todo a la liberación?
    Tiraré mi cuerpo a la fosa común de los quebrados
    O caeré luchando contra lo imposible que bloquea mis pasos
    ¿Solo por la gloria de caer peleando?

    ¿He llegado al final de todos los caminos...
    ¿Al final de todos los caminos?


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Vie 26 Ago 2022, 08:53

    EXTENSÃO


    Eu busquei encontrar na extensão um caminho
    Um caminho qualquer para qualquer lugar.
    Eu segui ao sabor de todos os ventos
    Mas somente a extensão.

    Chorei. Prostrado na terra eu olhei para o céu
    E pedi ao Senhor o caminho da fé.
    Noites e noites foram-se em silêncio
    E somente a extensão.

    Quis morrer. Talvez a terra fosse o único caminho
    E à terra me abracei esperando o meu fim
    Porém tudo era terra e eu não quis mais a terra
    Que era a grande extensão.

    Quis viver. E em mim mesmo eu busquei o caminho
    Na ansiedade de uma última esperança
    Eu olhei — e volvi à extensão desesperado
    Era tudo extensão.






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    Mensaje por Maria Lua Vie 26 Ago 2022, 08:54

    MINHA MÃE


    Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
    Tenho medo da vida, minha mãe.
    Canta a doce cantiga que cantavas
    Quando eu corria doido ao teu regaço
    Com medo dos fantasmas do telhado.
    Nina o meu sono cheio de inquietude
    Batendo de levinho no meu braço
    Que estou com muito medo, minha mãe.
    Repousa a luz amiga dos teus olhos
    Nos meus olhos sem luz e sem repouso
    Dize à dor que me espera eternamente
    Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
    Do meu ser que não quer e que não pode
    Dá-me um beijo na fronte dolorida
    Que ela arde de febre, minha mãe.

    Aninha-me em teu colo como outrora
    Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
    Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
    Dorme. Os que de há muito te esperavam
    Cansados já se foram para longe.
    Perto de ti está tua mãezinha
    Teu irmão, que o estudo adormeceu
    Tuas irmãs pisando de levinho
    Para não despertar o sono teu.
    Dorme, meu filho, dorme no meu peito
    Sonha a felicidade. Velo eu.

    Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
    Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
    Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
    Afugenta este espaço que me prende
    Afugenta o infinito que me chama
    Que eu estou com muito medo, minha mãe.

    ---



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    Mensaje por Maria Lua Vie 26 Ago 2022, 08:55

    SOLIDÃO



    Desesperança das desesperanças...
    Última e triste luz de uma alma em treva...
    — A vida é um sonho vão que a vida leva
    Cheio de dores tristemente mansas.

    — É mais belo o fulgor do céu que neva
    Que os esplendores fortes das bonanças
    Mais humano é o desejo que nos ceva
    Que as gargalhadas claras das crianças.

    Eu sigo o meu caminho incompreendido
    Sem crença e sem amor, como um perdido
    Na certeza cruel que nada importa.

    Às vezes vem cantando um passarinho
    Mas passa. E eu vou seguindo o meu caminho
    Na tristeza sem fim de uma alma morta.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 29 Ago 2022, 07:52

    OS INCONSOLÁVEIS


    Desesperados vamos pelos caminhos desertos
    Sem lágrimas nos olhos
    Desesperados buscamos constelações no céu enorme
    E em tudo, a escuridão.
    Quem nos levará à claridade
    Quem nos arrancará da visão a treva imóvel
    E falará da aurora prometida?
    Procuramos em vão na multidão que segue
    Um olhar que encoraje nosso olhar
    Mas todos procuramos olhos esperançosos
    E ninguém os encontra.
    Aos que vêm a nós cheios de angústia
    Mostramos a chaga interior sangrando angústias
    E eles lá se vão sofrendo mais.
    Aos que vamos em busca de alegria
    Mostramos a tristeza de nós mesmos
    E eles sofrem, que eles são os infelizes
    Que eles são os sem-consolo...

    Quando virá o fim da noite
    Para as almas que sofrem no silêncio?
    Por que roubar assim a claridade
    Aos pássaros da luz?
    Por que fechar assim o espaço eterno
    Às águias gigantescas?
    Por que encadear assim à terra
    Espíritos que são do imensamente alto?

    Ei-la que vai, a procissão das almas
    Sem gritos, sem prantos, cheia do silêncio do sofrimento
    Andando pela infinita planície que leva ao desconhecido
    As bocas dolorosas não cantam
    Porque os olhos parados não veem.
    Tudo neles é a paralisação da dor no paroxismo
    Tudo neles é a negação do anjo...
    ...são os Inconsoláveis.



    — Águias acorrentadas pelos pés.


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    Mensaje por Maria Lua Lun 29 Ago 2022, 07:53

    SENHOR, EU NÃO SOU DIGNO



    Para que cantarei nas montanhas sem eco
    As minhas louvações?
    A tristeza de não poder atingir o infinito
    Embargará de lágrimas a minha voz.
    Para que entoarei o salmo harmonioso
    Se tenho na alma um de-profundis?
    Minha voz jamais será clara como a voz das crianças
    Minha voz tem as inflexões dos brados de martírio
    Minha voz enrouqueceu no desespero...
    Para que cantarei
    Se em vez de belos cânticos serenos
    A solidão escutará gemidos?
    Antes ir. Ir pelas montanhas sem eco
    Pelas montanhas sem caminho
    Onde a voz fraca não irá.
    Antes ir — e abafar as louvações no peito
    Ir vazio de cantos pela vida
    Ir pelas montanhas sem eco e sem caminho, pelo silêncio
    Como o silêncio que caminha...


    _________________



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    VINICIUS DE MORAES  - Página 17 Empty Re: VINICIUS DE MORAES

    Mensaje por Maria Lua Lun 29 Ago 2022, 07:54

    O BOM PASTOR



    Amo andar pelas tardes sem som, brandas, maravilhosas
    Com riscos de andorinhas pelo céu.
    Amo ir solitário pelos caminhos
    Olhando a tarde parada no tempo
    Parada no céu como um pássaro em voo
    E que vem de asas largas se abatendo.
    Amo desvendar a vaga penumbra que desce
    Amo sentir o ar sem movimento, a luz sem vida
    Tudo interiorizado, tudo paralisado na oração calma...

    Amo andar nessas tardes...
    Sinto-me penetrando o sereno vazio de tudo
    Como um raio de luz.
    Cresço, projeto-me ao infinito, agigantado
    Para consolar as árvores angustiadas
    E acalmar os pinheiros moribundos.
    Desço aos vales como uma sombra de montanha
    Buscando poesia nos rios parados.
    Sou como o bom-pastor da natureza
    Que recolhe a alma do seu rebanho
    No agasalho da sua alma...

    E amo voltar
    Quando tudo não é mais que uma saudade
    Do momento suspenso que foi...
    Amo voltar quando a noite palpita
    Nas primeiras estrelas claras...
    Amo vir com a aragem que começa a descer das montanhas
    Trazendo cheiros agrestes de selva...
    E pelos caminhos já percorridos, voltando com a noite
    Amo sonhar...


    _________________



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