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    Mensaje por Maria Lua Jue Abr 06, 2023 5:50 am

    Poema Relativo



    Vem, ó
    bem-amada
    Junto à minha casa
    Tem um regato (até quieto o regato).

    Não tem pássaros que pena!

    Mas os coqueiros fazem,
    Quando o vento passa,
    Um barulho que às vezes parece
    Bate-bate de asas.

    Supõe, ó bem-amada,
    Se o vento não sopra,
    Podem vir borboletas
    À procura das minhas jarras
    Onde há flores debruçadas,
    Tão debruçadas que parecem escutar.

    Todos os homens têm seus crentes,
    Ó bem-amada:
    - os que pregam o amor ao próximo
    e os que pregam a morte dele.

    Mas tudo é pequeno
    E ligeiro no mundo, ó amada.
    Só o clamor dos desgraçados
    É cada vez mais imenso!

    Vem, ó bem-amada.
    Junto à minha casa
    Tem um regato até manso.
    E os teus passos podem ir devagar
    Pelos caminhos:
    - aqui não há a inquietação
    de se atravessar o asfaalto

    Vem, ó bem-amada,
    Porque como te disse
    Se não há pásssaros no meu parque,
    Pode ser, se o vento
    Não soprar forte
    Que venham borboletas.
    Tudo é relativo
    E incerto no mundo.
    Também tuas sobrancelhas
    Parecem asas abertas.


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    Mensaje por Maria Lua Jue Abr 06, 2023 5:52 am

    Democracia



    Punhos
    de redes embalaram o meu canto
    Para adoçar o meu país, ó Whitman.
    Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,
    Catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,
    Carumã me alimentou quando eu era criança,
    Mãe-negra me contou histórias de bicho,
    Moleque me ensinou safadezas,
    Massoca, tapioca,pipoca, tudo comi,
    Bebi cachaça com caju para limpar-me,
    Tive maleita, catapora e ínguas,
    Bicho-de-pé, saudade, poesia;
    Fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,
    Dizendo coisas, brincando com as crioulas,
    Vendo espiritos, abusões, mães-d água,
    Conversando com os malucos, conversando sozinho,
    Emprenhando tudo o que encontrava,
    Abraçando as cobras pelos matos,
    Me misturando, me sumindo, me acabando,
    Apara salvar a minha alma benzida
    E o meu corpo pintado de urucu,
    Tatuado de cruzes, de corações, de mãos ligadas,
    De nomes de amor em todas as línguas de branco
    De mouro ou pagão.





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    Mensaje por Maria Lua Sáb Abr 08, 2023 5:11 am

    CANTO III

    POEMAS RELATIVOS

    I

    Caída a noite
    o mar se esvai,
    aquele monte
    desaba e cai
    silentemente.

    Bronzes diluídos
    já não são vozes,
    seres na estrada
    nem são fantasmas,
    aves nos ramos
    inexistentes;
    tranças noturnas
    mais que impalpáveis,
    gatos nem gatos,
    nem os pés no ar,
    nem os silêncios.

    O sono está.
    E um homem dorme.

    II

    Queres ler o que
    tão só se entrelê
    e o resto em ti está?
    Flor no ar sem umbela
    nem tua lapela;
    flor que sem nós há.

    Subitamente olhas:
    nem lês nem desfolhas;
    folha, flor, tiveste-as.

    E nem as tocaste:
    folha e flor. Tu - haste,
    elas reais, mas réstias.

    III

    qualquer voz alou-se
    muito desejada.
    Branco fosse o espaço
    e ela ardente cor.

    Quis o espaço a voz
    a voz veio e ampliou-o.

    Mas se não houvesse
    propriamente voz...

    Vamos nós supô-los:
    dois sem seus sentidos.

    Desejemos mesmo
    dois incompreensíveis.

    Bom nos ecoarmos
    na voz recebida.

    E o espaço esvaziado
    povoá-lo de vez.

    Amá-los tão sem
    amada presença,
    só com o coração
    sem correspondência,
    só com a vocação
    do verso feliz.

    IV

    Numas noites chegamos à janela,
    e as mandíbulas do ar tanto nos roem,
    que os leitos rotos logo deliqüescem
    com os nossos corpos complacentemente.

    Certos dias olhamos o sol claro;
    e a boca hiante das cores nos devora
    carnes e sangues, poeiras de costelas,
    que ficamos inúteis, sem matéria.

    Essas bocas nos sugam noite e dia,
    vigiando dia e noite nossas vidas
    um minuto no espaço, menos que ai
    de chumbo soluçado nos silêncios,
    ou cal de fome longa, revelada,
    na noite igual ao dia, de tão gêmeos.

    V

    Agora o sem senso
    sorriso nos ares,
    minha alma perdida,
    os vales lá embaixo
    de minhas lonjuras
    de não existido,
    parado nos antes,
    nem sei de pecados,
    nem sei de mim mesmo,
    eu mesmo não sou
    nem nada me vê;
    ausentes palavras
    não soam no vácuo
    dos antes das coisas,
    das coisas sem nexo,
    nem fluidos. Só o Verbo
    chorando por mim.

    VI

    Agora, escutai-me
    que eu falo de mim;
    ouvi que sou eu,
    sou eu, eu em mim;
    tocai esses cravos
    já feitos pra mim,
    suores de sangue,
    pressuados sem poros
    verônica herdada.
    sem face do ser.

    Embora; escutai-me,
    que eu falo com a voz
    inata que diz
    que a voz não é essa
    que fala por mim,
    talvez minha fala
    saída de ti.

    VII

    Alegria achareis neste poema
    como poema ilícito, como um
    corpo casual ou vão, como a memória
    dura e acídula, como um homem se
    conhece respirando, ou como quando
    se entristece sem causa ou se doente,
    ou se lavando sempre ou comparando-se
    às dimensões das coisas relativas;
    ou como sente os ombros de seu ser,
    transmitidos e opacos, e os avós
    responsabilizando-se presentes.

    São alegrias rápidas. Lugares,
    reencontrados países, becos, passos
    sob as chuvas que não vos molharão.

    VIII

    Se falta alguém nesses versos
    pele vento interminável,
    pelas arenas de estátuas,
    sucedam-lhe os cegos olhos
    sacudidos pelos medos,
    mãos de chuvas lhe inteiricem
    o corpo com algas remissas
    e com matérias tranqüilas
    tão soturna como os poços,
    exasperados invernos,
    ombros de escova comida,
    as asas secas caídas,
    ante seus netos calados;
    e incorporem-se a esse alvitre
    esse sabor de cortiça,
    essas esponjas morridas,
    essas marés estanhadas,
    essas escunas de espáduas
    estritamente fechadas
    como casas de abandono,
    restringem-se os conciliábulos,
    certos sigilos de pez,
    certas coisas enlutadas,
    refúgios, dramas ocultos,
    pois as rosas são de trapos
    e os fios menos que teias,
    menos que finos agora,
    e as camisas sem os pêlos
    enterrados nas ilhargas,
    vestem enganos e punhos
    e crimes em vez de adegas,
    mas tudo em vão, mesmo as plumas,
    mesmo os ausentes e as vozes
    aderidas a fragmentos
    aí moram degredadas,
    listrando as grades, de faces
    que não conhecem espelhos

    IX

    Numa hora perdida cantos doeram. Os desejos
    E flores despenteadas, flores largas e a barbárie
    e inconfidentes quase abominadas dos corpos.
    por oculta paixão, se intumesceram. E a relatividade
    do espírito
    Lírios eram pilares de cristal sob o cerco
    subindo para as aves; então dardos da matéria.
    desceram sobre os mais amados colos
    cantando amor com seus sentimentos.

    Canção melhor. Mais consentimentos puros olhos. Eu
    sei de cor os rebanhos, e olho o mundo.
    Tudo contém pequenas doces máscaras.
    Mas da selva selvagem desce o pranto
    dos que mastigam suas próprias fomes,
    sem saliva de pão, e o gosto ausente.

    Ninguém consegue assim amar os lírios.
    E esse amor é amaríssimo e adstringente
    com a memória das dores engolidas.

    X

    Vós não viveis sozinhos
    os outros vos invadem
    felizes convivências
    agregações incômodas
    enfim ambientalismos,
    e tudo subsistências
    e mais comunidades;
    e tantas ventanias
    acotovelamentos,
    desgastes de antemão,
    acréscimos depois,
    depois substituições,
    a massa vos tragando,
    as coisas vos bisando;
    os hábitos, os vícios,
    as moças embutidas
    mudando vossas cartas;
    sereis administrados
    no sono e nos pecados,
    vós mapas e diagramas
    com várias delinqüências,
    e insanidades várias,
    dosando o vosso espaço,
    pesando o vosso pão
    de tempos racionados;
    e não tereis vivido
    e não tereis amado,
    porém sereis morrido.

    XI

    Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
    Clodoveu ou Clodovigo?
    Éreis vós por acaso eles?
    Éreis vós aqueles nomes,
    estes, e os demais já mortos,
    os mortos tão renovados
    nós mesmos sempre chamados
    Lútero, Lotário, otário,
    sim otário tão singelo,
    tão puro de todo o mal,
    relativo, universal.

    Éreis vós Tiago, Diogo, Jaques, Jaime?
    Dizei-me se acaso vós
    éreis eles ou voz sou
    de algum avo tão otário,
    tão eu mesmo como voz,
    como poema de outros vários.

    XII

    O simples ar
    de uma só corda
    em curta raia,
    mão de menino,
    punhado escasso,
    ar perfumado,
    sem o alvoroço
    dos vendavais;
    anjo acolhido
    em róseo céu
    abrigo instante,
    pranto lavado,
    chorar em ti
    de arrependido,
    subir teus vales,
    amar teu pólen,
    nunca escapar-me
    de tuas pétalas
    cair com elas.

    XIII

    Uma janela aberta
    e um simples rosto hirto,
    e que provavelmente
    nela se debruçou;
    e nesse gesto puro
    do rosto na janela
    estava todo o poema
    que ninguém escutou;
    só a janela aberta
    e o espaço dentro dela
    que o tempo atravessou.

    XIV

    O contro era um dia,
    um dia futuro,
    e dentro do dia
    incluído o conforme,
    e dentro o que foi
    porque fora isso
    se tal não se dera,
    se o mundo parasse
    e o espaço se excluí



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    Mensaje por Maria Lua Lun Abr 10, 2023 3:06 am

    Essa Infanta


    Essa infanta boreal era a defunta
    em noturna pavana sempre ungida,
    colorida de galos silenciosos,
    extrema-ungida de óleos renovados.

    Hoje é rosa distante prenunciada,
    cujos cabelos de Altair são dela;
    dela é a visão dos homens subterrâneos,
    consolo como chuva desejada.

    Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
    ontem houve enforcados, hoje guerras,
    amanhã surgirão campos mais mortos.

    Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
    reconciliemo-nos na noite dessa
    eterna infanta para sempre amada.





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    Mensaje por Maria Lua Lun Abr 17, 2023 7:58 am

    Essa Pavana


    Essa pavana é para uma defunta
    infanta, bem-amada, ungida e santa,
    e que foi encerrada num profundo
    sepulcro recoberto pelos ramos

    de salgueiros silvestres para nunca
    ser retirada desse leito estranho
    em que repousa ouvindo essa pavana
    recomeçada sempre sem descanso,

    sem consolo, através dos desenganos,
    dos reveses e obstáculos da vida,
    das ventanias que se insurgem contra

    a chama inapagada, a eterna chama
    que anima esta defunta infanta ungida
    e bem-amada e para sempre santa.




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    Mensaje por Maria Lua Miér Abr 19, 2023 10:13 am

    Madorna de Iaiá



    Iaiá está
    na rede de tucum.
    A mucama de Iaiá tange os piuns,
    Balança a rede,
    Canta um lundum
    Tão bambo, tão molengo, tão dengoso,
    Que Iaiá tem vontade de dormir

    Com quem?

    Rem-rem.

    Que preguiça, que calor!
    Iaiá tira a camisa,
    Toma aluá
    Prende o cocó,
    Limpa o suor
    Pula pra rede.

    Mas que cheiro gostoso tem Iaiá!
    Que vontade doida de dormir,,,

    Com quem?

    Cheiro de mel da casa das caldeiras!
    O saguim de Iaiá dorme num coco.

    Iaiá ferra no sono
    Pende a cabeça,
    Abre-se a rede
    Como uma ingá.

    Para a mucama de cantar,
    Tange os piuns,
    Cala o ram-rem,
    Abre a janela,
    Olha o curral:
    - um bruto sossego no curral!

    Muito longe uma peitica faz si-dó....
    Si-dó.....si-dó......si-dó....

    Antes que Iaiá corte a madorna
    A moleca de Iaiá
    Balança a rede,
    Tange os piuns,
    Canta um lundum
    Tão bambo,
    Tão molengo,
    Tão dengoso,
    Que Iaiá sem se acordar,
    Se coça,
    Se estira
    E se abre toda, na rede de tucum.

    Sonha com quem?


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    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 29, 2023 10:55 pm

    Jorge Mateus de Lima (União dos Palmares, Alagoas, 23 de abril de 1893 - Río de Janeiro, 15 de noviembre de 1953) fue un escritor, traductor, pintor, político y médico brasileño. Es el autor del poema Invenção de Orfeu (Invención de Orfeo), obra fundamental de la lírica brasileña. Completó sus estudios en Río de Janeiro en 1914, pero decidió que no quería ser médico sino poeta. Ese mismo año, publicó su primer libro de poemas, XIV Alexandrinos. Compuso los primeros poemas con la métrica Alejandrina, pero más tarde se convirtió en un modernista. Regresó a Maceió en 1915 y se dedicó a la literatura, la medicina y la política. Fue miembro de la Asamblea Legislativa de Alagoas de 1918 a 1922. La revolución de 1930 lo inspiró a mudarse a Río de Janeiro, donde abrió una oficina cerca de Cinelândia. Más tarde, la oficina también sirvió como un estudio de arte y lugar de reunión para intelectuales. Durante estas reuniones conoció a Murilo Mendes, Graciliano Ramos y José Lins do Rego. Durante este tiempo, publicó diez libros, incluyendo cinco colecciones de poemas. En 1935 se convirtió al catolicismo y muchos de sus poemas posteriores reflejan su religiosidad. En 1939 decidió dedicar más tiempo a las artes visuales, participando en algunas exposiciones. Entre 1937 y 1945, su solicitud a la Academia Brasileña de letras fue rechazada seis veces. En 1952 publicó su libro más importante, invención de Orfeo. En 1953, unos meses antes de su muerte, grabó poemas para los archivos de la palabra hablada en la biblioteca del Congreso.


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    Jorge de Lima (1893-1953) - Página 2 Empty Re: Jorge de Lima (1893-1953)

    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 29, 2023 10:56 pm

    De las bodegas viene un olor de marejada

    mezclado al olor de ratas y de charqui.

    Verde náusea ese barco que presagia

    males a quien embarque o desembarque.



    Silencioso sin nadie que lo marque

    recorre embarcaderos errabundo,

    así avisa al comercio que acapare

    la carga apenas el día se oscurezca.



    Parece muerto entre los muelles sucios

    que le pueblan el casco de gusanos

    y lo manchan con musgo del desagüe.



    Y nadie sabe si vinieron esas velas

    —marineros que infestan los océanos—

    a traer los esclavos o llevarlos.





    *********************


    Dos porões vem um cheiro à maresia

    mesclado a odor de ratos e de charque.

    Verde náusea essa nau que pressagia

    males a quem embarque ou desembarque.



    Silenciosa sem que ninguém a marque

    percorre ancoraduros erradia;

    e é avisado o comercio que açambarque

    a carga apenas escureça o dia.



    Ela parece morta nos cais sujos

    que lhe povoam o casco de gusanos

    e a emporcalham com o limo de seus ralos.



    E ninguém sabe se essas velas, cujos

    marinheiros corvejam os oceanos,

    vieram trazer escravos ou levá-los.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 29, 2023 10:58 pm

    Estão aqui as pobres coisas: cestas

    esfiapadas, botas carcomidas, bilhas

    arrebentadas, abas corroídas,

    com seus olhos virados para os que



    as deixaram sozinhas, desprezadas,

    esquecidas com outras coisas, sejam:

    búzios, conchas, madeiras de naufrágio,

    penas de ave e penas de caneta,



    e as outras pobres coisas, pobres sons,

    coitos findos, engulhos, dramas tristes,

    repetidos, monótonos, exaustos,



    visitados tão só pelo abandono,

    tão só pela fadiga em que essas ditas

    coisas goradas e órfãs se desgastam.



    *****************


    Aquí están las pobres cosas: cestas

    destejidas, botas carcomidas, botijas

    reventadas, alas corroídas,

    con sus ojos vueltos a los que



    solas las dejaron, despreciadas,

    olvidadas entre las otras cosas, es decir:

    conchas, caracolas, maderas de naufragio,

    plumas de aves y plumas de escribir,



    y las otras pobres cosas, pobres ruidos,

    coitos terminados, ansias, dramas tristes

    repetidos, monótonos, exhaustos,



    tan sólo visitados por el abandono,

    tan sólo por la fatiga en que las dichas

    cosas abortadas y huérfanas se gastan.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 29, 2023 10:59 pm

    Agora os girassóis entardecidos,

    e esse lírio e essa rosa tão exangue

    e essa mancha de símbolos sombrios

    quase como um desmaio ou leve sangue.



    Sobre os bosques caiu a tarde cinza

    e a estrela temporária se augurou,

    pendem das hastes cálices noviços,

    e a cansada corola se esboroou.



    E os cílios baixam gotejando chuvas

    sobre os vidros das horas enterradas

    com os momentos dos crimes e virtudes.



    Algum arroio corre com essas lágrimas,

    mas tão ligeiro pela escarpa aguda

    que os olhos de quem vê nunca veem nada.




    ******************


    Ahora los girasoles atardecidos,

    y ese lirio y esa rosa tan exangüe

    y esa mancha de símbolos sombríos

    casi como un desmayo o leve sangre.



    Sobre los bosques cayó la tarde en luto

    y la estrella temporaria se auguró:

    de los mástiles penden los cálices novicios,

    y la cansada corola se partió.



    Gotean las pestañas esas lluvias

    sobre los vidrios de las horas enterradas

    con los días de crímenes y gloria.



    Algún arroyo corre con las lágrimas,

    mas tan ligero por la vertiente aguda

    que el ojo del que ve nunca ve nada.


    _________________



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    Mensaje por Maria Lua Vie Dic 29, 2023 11:00 pm

    Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo

    em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.

    Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,

    e nos vastos areais — ossadas de cavalo.



    Entre as aves do céu: igual carnificina:

    se dormires cansado, à face do deserto,

    quando acordares hás de te assustar. Por certo,

    corvos te espreitarão sobre cada colina.



    E, se entoas teu canto a essas aves (teu canto

    que é debaixo dos céus, a mais triste canção),

    vem das aves a voz repetindo teu pranto.



    E, entre teu angustiado e surpreendido espanto,

    tangê-las-ás de ti, de ti mesmo, em que estão

    esses corvos fatais. E esses corvos não vão.





    ************


    Aquí es el fin del mundo, aquí es el fin del mundo

    adonde hasta las aves cantan para cerrarlo.

    Duerme un cadáver en cada pozo hundido

    en vastos arenales —osarios de caballo.



    Entre las aves del cielo: igual carnicería:

    si tú duermes cansado en el desierto

    cuando despiertes te asustarás.Por cierto,

    te acechan ya los cuervos en todas las colinas.



    Y si entonas tu canto a esas aves (tu canto

    que es bajo los cielos la más triste canción),

    tu voz regresará desde las aves repitiendo tu llanto.



    Y entre tu angustiado y sorprendido espanto,

    tañerás de ti mismo, donde están

    esos fatales cuervos. Y esos cuervos no se irán.







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