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MARIO QUINTANA ( 30/07/1906... 05/05/1994)

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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:42

Gare 




Faz tanto tempo que se está esperando o trem que não vem, o trem de Belém que as bagagens alheias, amontoadas no banco, cheiram-me a poeira de séculos: devem estar aqui, emboloranclo, o caduceu de Mercúrio, a cabeleira de Absalão, uma peça íntima de Cleópatra, um báculo de bispo, uma tabaqueira de Luís XV, um olho de vidro, uma fivela, uma bolsa de água quente, um lenço com um nó, um... Sinto-me tão infeliz. Para que me fui meter nesse triste inventário, meu Deus? E, a cada suspiro que dou, o meu anjo da guarda perde mais uma peninha da asa.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:44

O espião 




Bem o conheço. Num espelho de bar, numa vitrina ao acaso do footing, em qualquer vidraça por aí, trocamos às vezes um súbito e inquietante olhar. Não, isto não pode continuar assim. Que tens tu de espionar-me? Que me censuras, fantasma? Que tens a ver com os meus bares, com os meus cigarros, com os meus delírios ambulatórios, com tudo o que não faço na vida!?


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:45

Aparição 


Tão de súbito, por sobre o perfil noturno da casaria, tão de súbito surgiu, como um choque, um impacto, um milagre, que o coração, aterrado, nem lhe sabia o nome: a lua! -a lua ensangüentada e irreconhecível de Babilônia e Cartago, dos campos malditos de após-batalha, a lua dos parricídios, das populações em retirada, dos estupros, a lua dos primeiros e dos últimos tempos.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:46

Inferno 




Em suave andadura de sonho, sob uma infinita série de arco-íris celestiais, anjos me conduziam num palanquim dourado, entre um curioso povo de profetas e virgens, que formavam alas para me ver passar. Mas eu me debruçava inquieto a uma e outra janela: faltava-lhe alguma coisa. Faltava... Faltavam os meus desafetos. Eu só queria era ver a cara deles, ver a cara que eles fariam quando me vissem passar, tirado por anjos num palanqüim de ouro!


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:47

A bela e o dragão 


As coisas que não têm nome assustam, escravizam-nos, devoram-nos... Se a bela faz de ti gato e sapato, chama-lhe, por exemplo, A BELA DESDENHOSA. E ei-la rotulada, classificada, exorcizada, simples marionete agora, com todos os gestos perfeitamente previsíveis, dentro do seu papel de boneca de pau. E no dia em que chamares a um dragão de JOLÍ, o dragão te seguirá por toda parte como um cachorrinho...


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:48

Epílogo 


Não, o melhor é não falares, não explicares coisa alguma. Tudo agora está suspenso. Nada agüenta mais nada. E sabe Deus o que é que desencadeia as catástrofes, o que é que derruba um castelo de cartas! Não se sabe... Umas vezes passa uma avalanche e não morre uma mosca... Outras vezes senta uma mosca e desaba uma cidade.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:50

Quem bate? 




Cecilia. Cecilia que chega de um pátio da infância... Traz ainda sereno nas tranças, seus sapatinhos andaram pulando na grama... Depois assenta-se nos degraus da torre, e canta... Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe as tranças, teceu cordoalhas para o seu navio. Mas o chaveiro do sonho pegou-lhe a canção... E fez um vento longo e triste. E eu pensava que toda a minha tristeza vinha apenas do vento, da solidão do mar, da incerteza daquela viagem num navio perdido...





*** Cecilia Meireles, poeta


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:52

Trágico acidente de leitura




 Tão comodamente que eu estava lendo, como quem viaja num raio de lua, num tapete mágico, num trenó, num sonho. Nem lia: deslizava. Quando de súbito a terrível palavra apareceu, apareceu e ficou, plantada ali diante de mim, focando-me: ABSCÔNDITO. Que momento passei!... O momento de imobilidade e apreensão de quando o fotógrafo se posta atrás da máquina, envolvidos os dois no mesmo pano preto, como um duplo monstro misterioso e corcunda... O terrível silêncio do condenado ante o pelotão de fuzilamento, quando os soldados dormem na pontaria e o capitão vai gritar: Fogo!


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:53

Envelhecer 


Antes, todos os caminhos iam, 
Agora todos os caminhos vem. 
Acasa é acolhedora, os livros poucos. 
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 08:55

Exegese 


-Mas que quer dizer esse poema? -perguntou-me alarmada a boa senhora. E que quer dizer uma nuvem? – retruquei triunfante. -Uma nuvem? -diz ela. -Uma nuvem umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo...


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 18 Jul 2020, 09:00








Velha História 


Era uma vez um homem que estava pescando, Maria. Até que apanhou um peixinho! Mas o peixinho era tão pequenininho e inocente, e tinha um azulado tão indescritível nas escamas, que o homem ficou com pena. E retirou cuidadosamente o anzol e pincelou com iodo a garganta do coitadinho. Depois guardou-o no bolso traseiro das calças, para que o animalzinho sarasse no quente. E desde então ficaram inseparáveis. Aonde o homem ia, o peixinho o acompanhava, a trote, que nem um cachorrinho. Pelas calçadas. Pelos elevadores. Pelos cafés. Como era tocante vê-los no 17! -o homem, grave, de preto, com uma das mãos segurando a xícara de fumegante moca, com a outra lendo o jornal, com a outra fumando, com a outra cuidando o peixinho, enquanto este, silencioso e levemente melancólico, tomava laranjada por um canudinho especial... 


Ora, um dia o homem e o peixinho passeavam à margem do rio onde o segundo dos dois fora pescado. E eis que os olhos do primeiro se encheram de lágrimas. E disse o homem ao peixinho:


 “Não, não me assiste o direito de te guardar comigo. Por que roubar-te por mais tempo ao carinho do teu pai, da tua mãe, dos teus irmãozinhos, da tua tia solteira? Não, não e não! Volta para o seio da tua família. E viva eu cá na terra sempre triste!” 


Dito isto, verteu copioso pranto e, desviando o rosto, atirou o peixinho n'água. E a água fez um redemoinho, que foi depois serenando, serenando... até que o peixinho morreu afogado...






*************






VIEJA HISTORIA


de Mario Quintana (Brasil, 1906-1994)



Era una vez un hombre que estaba pescando, María. ¡Hasta que agarró un pececillo! Pero el pececillo era tan pequeñito e inocente, y tenía un azulado tan indescriptible en las escamas, que al hombre le dio pena. Y le sacó cuidadosamente el anzuelo y untó con yodo la garganta del pobrecillo. Después, lo guardó en el bolsillo trasero de los pantalones para que el animalito se curase en lo caliente. Y desde entonces se hicieron inseparables. A donde iba el hombre, el pececillo le acompañaba, al trote, como un perrillo. Por las calles. En los ascensores. En los cafés. ¡Qué emocionante era verlos en el "17"!: el hombre grave, de negro, con una de las manos sosteniendo la jícara de humeante moka, con la otra leyendo el periódico, con la otra fumando, con la otra cuidando al pececito, mientras este, silencioso y levemente melancólico, sorbía naranjada por una pajita especial...

Bueno, pues un día, el hombre y el pececito se paseaban a lo largo del río donde el segundo de los dos había sido pescado. Y he aquí que los ojos del primero se llenaron de lágrimas. Y dijo el hombre al pececito:

"No, no me asiste el derecho de guardarte conmigo. ¿Por qué robarte por más tiempo al cariño de tu padre, de tu madre, de tus hermanitos, de tu tía soltera? ¡No, no y no! Regresa al seno de tu familia. ¡Y viva yo aquí en tierra siempre triste!..."

Dicho esto, derramó abundante llanto y, desviando el rostro, tiró el pececito al agua. Y el agua formó un remolino, que fue después serenándose, serenándose..., hasta que el pececito murió ahogado...




Mario Quintana, incluido en Antología de la poesía brasileña. Desde el Romanticismo a la generación del cuarenta y cinco (Editorial Seix Barral, Barcelona, 1973, trad. de Ángel Crespo).


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Mensaje por Maria Lua el Dom 19 Jul 2020, 09:28

O Berço e o Terremoto – Mario Quintana




Os versos, em geral, são versos de embalar, como eu às vezes os tenho feito, não sei se por simples complacência… ou pura piedade.
Contudo, os verdadeiros versos não são para embalar – mas para abalar.
Mesmo a mais simples canção, quando a canta um García Lorca, desperta-te a alma para um mundo de espanto.






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(Poema , do livro Caderno H, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 334)


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Mensaje por Maria Lua el Lun 20 Jul 2020, 16:28

Gramática da felicidade 


Vivemos conjugando o tempo passado (saudade, para os românticos) e o tempo futuro (esperança, para os idealistas). Uma gangorra, como vês, cheia de altos e baixos — uma gangorra emocional. Isto acaba fundindo a cuca de poetas e sábios e maluquecendo de vez o Homo sapiens. Mais felizes os animais, que, na sua gramática imediata, apenas lhes sobra um tempo: o presente do indicativo. E que nem dá tempo para suspiros...


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 07:12

Recordo ainda…




VIII
(Para Dyonelio Machado)




Recordo ainda… e nada mais me importa…


Aqueles dias de uma luz tão mansa


Que me deixavam, sempre, de lembrança,


Algum brinquedo novo à minha porta…




Mas veio um vento de Desesperança


Soprando cinzas pela noite morta!


E eu pendurei na galharia torta


Todos os meus brinquedos de criança…




Estrada afora após segui… Mas, ai,


Embora idade e senso eu aparente


Não vos iluda o velho que aqui vai:




Eu quero os meus brinquedos novamente!


Sou um pobre menino… acreditai…


Que envelheceu, um dia, de repente!










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(A rua dos cataventos. Coleção Mario Quintana. 2a. edição. 6a. reimpressão. São Paulo: Globo, 2005. p. 26)


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 07:13

O Vento


O vento gosta é de cantar. Quem faz uma letra para a canção do vento?




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(Poema publicado originalmente no livro Da preguiça como método de trabalho, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 648)


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 08:06

QUEM SABE UM DIA


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Quem


sabe um dia


Quem sabe um seremos


Quem sabe um viveremos


Quem sabe um morreremos!








Quem é que


Quem é macho


Quem é fêmea


Quem é humano, apenas!








Sabe amar


Sabe de mim e de si


Sabe de nós


Sabe ser um!








Um dia


Um mês


Um ano


Um(a) vida!








Sentir primeiro, pensar depois


Perdoar primeiro, julgar depois






Amar primeiro, educar depois


Esquecer primeiro, aprender depois






Libertar primeiro, ensinar depois


Alimentar primeiro, cantar depois






Possuir primeiro, contemplar depois


Agir primeiro, julgar depois






Navegar primeiro, aportar depois


Viver primeiro, morrer depois




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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 08:07

DOS NOSSOS MALES


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A nós bastem nossos próprios ais,




Que a ninguém sua cruz é pequenina.




Por pior que seja a situação da China,



Os nossos calos doem muito mais...


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 08:08

O MAPA






Olho o mapa da cidade


Como quem examinasse


A anatomia de um corpo...








(E nem que fosse o meu corpo!)






Sinto uma dor infinita


Das ruas de Porto Alegre


Onde jamais passarei...






Ha tanta esquina esquisita,


Tanta nuança de paredes,


Ha tanta moca bonita


Nas ruas que não andei


(E ha uma rua encantada


Que nem em sonhos sonhei...)






Quando eu for, um dia desses,


Poeira ou folha levada


No vento da madrugada,


Serei um pouco do nada


Invisível, delicioso






Que faz com que o teu ar


Pareça mais um olhar,


Suave mistério amoroso,


Cidade de meu andar


(Deste já tão longo andar!)






E talvez de meu repouso...


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 08:10

A ARTE DE SER BOM


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Sê bom. Mas ao coração




Prudência e cautela ajunta.




Quem todo de mel se unta,



Os ursos o lamberão.


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 08:11

TROVA


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Coração que bate-bate...

Antes deixes de bater!

Só num relógio é que as horas

Vão passando sem sofrer.


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Mensaje por Maria Lua el Mar 21 Jul 2020, 20:54

CANÇÃO DE INVERNO














"Pinhão quentinho!


Quentinho o pinhão!"


(E tu bem juntinho


Do meu coração...).










Mario Quintana (Canções, 1946)














CANCIÓN DE INVIERNO










"¡Piñón calentito!


Calentito el piñón!"


(Y tú bien juntito


A mi corazón...).










Mario Quintana (Canções, 1946)


(versión de Pedro Casas Serra)


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Mensaje por Maria Lua el Jue 23 Jul 2020, 08:59

Atavismo 


As crianças, os poetas e talvez esses incompreendidos, os loucos, têm uma memória atávica das coisas. Por isso julgam alguns que o seu mundo não é propriamente este. Ah, nem queiras saber... Eles estão neste mundo há muito mais tempo do que nós!


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 08:53

No princípio do fim 


Há ruídos que não se ouvem mais: — o grito desgarrado de uma locomotiva na madrugada — os apitos dos guardas-noturnos quadriculando como um mapa a cidade adormecida — os barbeiros que faziam cantar no ar suas tesouras — a matraca do vendedor de cartuchos — a gaitinha do afiador de facas — todos esses ruídos que apenas rompiam o silêncio. E hoje o que mais se precisa é de silêncios que interrompam o ruído. 


Mas que se há de fazer? Há muitos — a grande maioria — que já nasceram no barulho. E nem sabem, nem notam, por que suas mentes são tão atordoadas, seus pensamentos tão confusos. 


Tanto que, na sua bebedeira auricular, só conseguem entender as frases repetitivas da música Pop. E, se esta nossa “civilização” não arrebentar, acabamos um dia perdendo a fala — para que falar? para que pensar? — ficaremos apenas no batuque: “Tan!tan!tan!tan!tan!”


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 08:55

O ovo 


Na Terra deserta 


A última galinha põe o último ovo... 


Seu cocoricó não encontra eco... 


O Anjo a que estava afeto o cuidado da Terra 


Dá de asas e come o ovo. 


Humm! o ovo vai sentar-lhe mal... 


O OVO! 


O Anjo, dobrado em dois, aperta em dores o ventre angélico. 


De repente, 


O Anjo cai duro, no chão! 


(Alguém, invisível, ri baixinho...)


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:02

Babel 

Deus sabotou a construção da Torre de Babel simplesmente porque não gostava de espigões, ou arranha-céus, como poeticamente eram denominados em tempos que não vão longe. 

Hoje, basta o pejorativo de espigões para ver-se o quanto os abominamos — com exceção dos construtores — estranho sinônimo dos demolidores da beleza e da comodidade do mundo. Era tão bom viver à flor da terra... 

Mas parece que eles, os construtores, andaram lendo por demais as novelas de ficção científica. Tudo são elevados ou subterrâneos. Ou anda-se minhocando por debaixo da terra ou pairando em alturas. Se ao menos fossem os jardins suspensos da Babilônia...

 Onde está o nosso querido chão humano? Tudo é tão desnatural! Quando ainda há pouco estive no Rio, encaminharam-nos diretamente da porta do avião para um túnel, ao fim do qual aconteceu uma escada rolante, depois mais um túnel e mais uma escada, depois a espera de que as nossas bagagens passassem por nós.

 Era o Rio aquilo? Não: parecia que estávamos dentro de um conto de Kafka. No hotel perguntou-me o gerente se eu preferia um quarto da frente ou dos fundos. Escolhi um dos fundos porque haveria menos barulho. Engano d’alma! Lá nos fundos havia uma britadeira que trabalhou toda a noite.

 E, no regresso, puxa! Quanta fila de espera e quanto guichê e quanto elevador! E ainda os cariocas indagavam se eu não achava uma maravilha aquele novo aeroporto... Eu achava a coisa um pesadelo técnico. 

A sorte é que andei autografando no Largo do Boticário — um oásis no Rio de hoje, com seus casarões coloniais, com seus lampiões — e tudo aquilo reconstruído ou ressuscitado pela senhora proprietária do local — uma construtora inteligente.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:06

Dos páginas muy buenas, con poemas de Mario Quintana, en español:



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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:10

Matinal

O tigre da manhã espreita pelas venezianas.
O Vento fareja tudo.
Nos cais, os guindastes domesticados dinossauros - erguem a carga do dia.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:13

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Intenta olvidarme (Antología poética)
Mário Quintana
Selección, versión y prólogo de Enrique García-Máiquez


 Hay poetas para todos los públicos y poetas para una minoría de exigentes conocedores. El brasileño Mário Quintana (1906-1994) pertenece muy claramente al primer grupo, aunque en nuestro país sea conocido solo por unos pocos.
            Enrique García-Máiquez, que ya se ocupó de él en una breve antología de reducida difusión, traduce ahora una amplia muestra que permitirá al lector español hacer suyo un poeta que aúna, en un lenguaje transparente, la sabiduría del anciano y el asombro del niño.
            Mário Quintana fue un poeta tardío. Sus primeros libros –publicados a una edad no precisamente temprana: bien pasados los treinta años– resultan de tanteo y de aprendizaje. Tanto en Sonetos como en Canciones se ejercita en los versos de arte mayor y de arte menor, dejando de lado las audacias del modernismo brasileño, equivalente a nuestra vanguardia y dando la impresión de tradicionalismo y retorno. Aunque, acá y allá, y sobre todo en los poco solemnes sonetos, aparecen los rasgos de su estilo, conviene al lector que desconoce a Mário Quintana saltarse esa parte de su obra –las canciones nos suenan envejecidamente albertianas– y comenzar con el único poema que se selecciona de Zapato florecido y que se titula, no casualmente, “Envejecer”: “Antes, todos los caminos iban. / Ahora, todos los caminos vuelven. / La casa es cómoda, los libros pocos. / Y yo mismo preparo el té para los fantasmas”.
            Enrique García-Máiquez gusta de recrear ligeramente, y casi siempre con acierto, los poemas que traduce. Algunas veces se le va la mano al tratar de mantener la rima, siempre lo más prescindible al pasar de un idioma a otro. La traducción literal de los dos primeros versos del soneto X sería: “Yo escribo versos como los saltimbanquis / descoyuntan los huesos doloridos”. García-Máiquez versiona: “No escribo versos, yo me los arranco / retorciendo mis huesos doloridos”. Y, más adelante, “van a comenzar las convulsiones y carreras / sobre las viejas alfombras (‘os velhos tapetes’) extendidas” se convierte en “me contorsiono, corro cojitranco,  / en los verdes plintos extendidos”.
            Afortunadamente, estos excesos aparecen sobre todo en los libros de los que aconsejamos prescindir y el portugués de Mário Quintana –la edición es bilingüe– necesita poca ayuda para ser entendido por un lector español.
            ¿Dónde está el encanto de esta poesía hecha de palabras cotidianas y que parece ajena a cualquier artificio? Ya lo hemos indicado: en no perder con el ultraje de los años la ingenuidad del niño.
            A ratos, Mário Quintana nos hace sonreír con humoradas que recuerdan al más célebre de nuestros poetas olvidados, Ramón de Campoamor: “Como un borrico atado a noria de labriego, / la mente humana siempre las mismas vueltas da. / Ninguna tontería se nos ocurrirá / que antes no haya dicho un sabio griego”.
            Otras veces, como en el poema “Matinal”, se aproxima a la greguería: “El tigre de la luz atisba por detrás de las persianas. / El viento lo olisquea todo. / En los muelles, las grúas –domesticados dinosaurios– / alzan la carga del día”.
            El amor, la poesía, el paso del tiempo son los temas (bien poco originales, afortunadamente) de un poeta que se presta más a la lectura sin intermediarios que a la exégesis. También Dios está muy presente –Mário Quintana es poeta religioso, de una religiosidad a la vez tan popular como poco convencional– y, por supuesto, la muerte temida, presentida, esperada con curiosidad: “La muerte es la cosa más antigua del mundo / y siempre llega puntual en la hora incierta. / ¿Qué importa, al final? / Es ya la única sorpresa que nos queda”.
            Cada lector encontrará un poema escrito para él en este libro, lleno de ventanas por las que entra un aire fresco que no abunda en la poesía. “Quien escribe un poema, abre una ventana. / Respira tú, que estás en una celda / sofocante / todo ese aire que entra…”, comienza precisamente “Emergencia”. Y en otro de sus poemas leemos: “Los poemas son pájaros que llegan / –no se sabe de dónde– y que se posan / en el libro que lees”.
            Los poemas, en el libro, están de paso, reposando en el viaje incesante que los lleva de un lector a otro lector, copiados a mano, fotocopiados, saltando en la Red de chat en chat, de muro en muro. Los poemas, los verdaderos poemas, no gustan de quedarse quietos en la página ni de ser analizados en aburridas clases de literatura, prefieren ser cantados, recitados, retuiteados una y otra vez.
            Mário Quintana, con su pátina de otro tiempo, con su encanto vintage, es un poeta lleno de asombro y consolación para el lector de hoy, un poeta que nos enseña a mirar y a descubrir el misterio de las cosas que vemos todos los días y que no parecen tener ningún misterio.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:19

OBSESSÃO DO MAR OCEANO



Vou andando feliz pelas ruas sem nome...

Que vento bom sopra do Mar Oceano!

Meu amor eu nem sei como se chama,

Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...

Mas há vasos cobertos de conchinhas

Sobre as mesas... e moças nas janelas

Com brincos e pulseiras de coral...

Búzios calçando portas... caravelas

Sonhando imóveis sobre velhos pianos...

Nisto,

Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,

E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,

De su'alma perdida e vaga na neblina...

Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!

Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,

Uma caixa de música

Uma bússola

Um mapa figurado

Uns poemas cheios de beleza única

De estarem inconclusos...

Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!

E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...

Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,

Quando eu também já não tiver mais nome.










Obsesión del Mar Océano, Mário Quintana




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[Tienes que estar registrado y conectado para ver este vínculo] , sus colores, su mar, su océano. Con añiles y afecto.



Obsesión del Mar Océano, Mário Quintana





Traducción: nuria p. serrano, Índigo Horizonte, 2012.





Voy andando feliz por las calles sin nombre…
¡Qué buen viento sopla del Mar Océano!
Mi amor yo no sé cómo se llama
Ni sé si está muy lejos el Mar Océano…
Pero veo jarrones llenos de diminutas conchas
Sobre las mesas… y chicas en las ventanas
Con pendientes y pulseras de coral…
Caracolas calzando puertas… carabelas
Soñando inmóviles sobre viejos pianos…
Y, de pronto,
En el escaparate del bazar, tu sonrisa, Antínoo
Y me acuerdo del pobre emperador Adriano
De su alma perdida y errante en la neblina…
¡Pero cómo sopla el viento en el Mar Océano!
Si yo muriese mañana, apenas dejaría, apenas
Una caja de música
Una brújula
Un mapa figurado
Unos poemas plenos de esa especial belleza
De seguir aún inconclusos…
¡Mas cómo sopla el viento en estas calles de otoño!
Y yo aún sin saber cómo te llamas…
Pero nos encontraremos en el Mar Océano,
Cuando yo ya tampoco sepa mi nombre.



__________________
:copyright: Índigo Horizonte, de las imágenes y de la traducción del poema de Mário Quintana, que puede leerse en :copyright: Mário Quintana,  O Aprendiz de Feiticeiro, Porto Alegre, Editora Fronteira, 1950.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 24 Jul 2020, 09:23



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