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Luís Vaz de Camões

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Luís Vaz de Camões - Página 8 Empty Re: Luís Vaz de Camões

Mensaje por Maria Lua el Vie 18 Sep 2020, 07:39

ELEGIA DE SEXTA-FEIRA DE ENDOENÇAS



Divino, almo Pastor, Délio dourado,
a quem de Anfriso já viram os prados
guardar fermoso, rico e branco gado;

aos quais adormentavas, enlevados
no doce som da lira, e alternando
com versos e cantares namorados,

e às Ninfas e pastoras ensinando
o caminho de Cipro e dos amores,
as onças, feras e aves enlevando!

Ó fermosura e honra dos pastores,
que de um a outro pólo do horizonte
a natureza pintas de mil cores!

Ó pai das nove Irmãs, Senhor da fonte
a quem as ondas cedem de Leteu,
posta no mais excelso e sacro monte!

Por que causa, me dize, almo Timbreu,
o céu resplandecente hoje cobriste
de tão mal-assombrado e negro véu?

Se lembranças te fazem, Febo, triste,
de Dafne, para ti tão fera e crua,
a quem com tal vontade já seguiste;

também te lembrará como por tua
causa foi transformada em vez de rama,
por não se ver da roupa casta nua;

por onde aquela dor e aquela chama,
no insensato corpo difundida,
nenhum vigor nem força já, derrama.

Pois tu, da praia Hespéria esclarecida
adonde Thétis, Xanto e Galateia
a teus cavalos vem tirar a brida;

e a fermosa Clio e Panopeia,
com Dóris, sobre as ondas levantadas,
te vem receber com boa estreia;

e ainda estas aquém duas jornadas,
e no outro hemisfério a noute escura
tem as nocturnas sombras encerradas.

Se acaso a caída e má ventura
de Faeton te lembra, cuja morte
te deu sempre jamais tanta tristura,

o não teres tu culpa te conforte,
que o moço, de soberbo, não podia
cair em menos miserável sorte.

Mas vós, castas irmãs, que noute e dia
cantais com versos élegos o choro,
com o cândido Cisne em companhia;

unidas todas, a vicenda, em coro,
um padre consolai tão descontente,
em módulo cantar doce e canoro.

Se a dor que manifesta e mostra a gente
desta causa procede, mais parece
que outra pena maior é a que sente.

Pois a prenhada terra brota e crece,
de mil flores enchendo os verdes prados,
e tarda bem o tempo que anoutece.

Eolo, nas montanhas, encerrados
os cruéis ventos tem mais furiosos,
de mil prisões de ferro carregados.

Só Zéfiro Favónio, de amorosos
'spíritos cheio, brandamente aspira
por estes vales verdes e fermosos.

Naís fermosa por Amor suspira
e Flora, em companhia da Alvorada,
que, agora, o seu veneno tem mais ira,

pois tu, no Touro, fazes a morada
deixando Aquário e Píscis – , de mau brio,
com Vénus entre os cornos assentada,

o qual meteu Europa no mar frio.
Assi que, bem olhado e bem sentido,
triunfas do inverno e seco estio.

Se mortal rogo foi jamais ouvido,
Délio imortal, de ti; se nalgüa hora
à piadade foste comovido;

dize-me por que causa o mundo chora,
mostrando tais sinais e tal tristura,
escondendo a rosada e fresca Aurora

que, segundo os segredos de Natura
nos mostram claramente os elementos,
o mundo não será de muita dura.

Vejo o furor do mar e bravos ventos;
das estrelas e signos e planetas
de seus lugares fora e firmamentos;

vejo coriscos, raios e cometas,
relâmpagos, trovões mui acendidos
sair por diferentes e altas metas;

e nos mais altos montes e subidos
de Pélio, Emo, Ossa, Pindo, Atlante,
os robustos carvalhos destruídos.

Quer porventura algum novo gigante
subir por estes ao firmamento
e derrubar a Júpiter possante?

O qual, movido de soberbo intento,
qual os de Flegra que de já passados,
em pago de tamanho atrevimento?

Os eixos dos dous orbes, ordenados
a sustentar a máquina mundana,
parecem já desfeitos e quebrados.

Ó mente baixa de matéria humana,
cega no bem e vista na maldade,
que tão soberba vás e tão ufana

que vás buscando a fonte da verdade,
e cega-te a mentira de maneira
que não vês palmo já de claridade!

Põe os olhos da fé pura e sincera
nas altas cimas do Calvário monte,
por donde irás à glória verdadeira:

verá a cristalina e clara fonte
da vida pura posta em um madeiro,
por te livrar da barca de Aqueronte.

Ó verdadeira Luz, manso Cordeiro,
Jesus benigno, manso e piadoso,
Filho do Padre eterno e verdadeiro!

Que causa te moveu, Rei poderoso,
tão escondida lá na mente eterna,
a padeceres fim tão desonroso,

e deixares a mais alta e mais superna.
cadeira e vida pela mais escura
de quantas a mortal fama governa?

Se te moveu, Senhor, esta feitura,
e. morte condenada eternalmente
por a lei quebrantada de Natura,

lembra-te quão malvada e má semente
é esta a quem te dás crucificado,
que sempre te tem pago ingratamente.

Ó mundo ingrato, cego, descuidado,
cheio de falsidades enganosas,
em pecados e vícios ocupado,

que não derramas lágrimas chorosas
em tanta quantidade que pareça
mostrar sequer entranhas amorosas!

Tu, mar, que não levantas a cabeça
por tomar a cobrir o que cobriste,
para que tudo acabe e que pereça!

Vós, ventos, a quem nada não resiste,
que não transtornais tudo em desconcerto!
Tu, dura terra, porque não te abriste!

Vós, plantas, feras e aves do deserto,
que não chorais, pois chora a Natureza,
vendo-se posta em tamanho aperto!

Vós, altos Céus, de lá da mor alteza,
bem sei quanto sentis a Divindade
em tal miséria posta e tal baixeza,

pois vedes o Senhor da Majestade,
que vos criou de nada, submetido,
por amor puro, aos pés da humildade.

Senhor! que amor foi este tão crecido
que tão dobradas forças faz singelas,
só tão alto, baixo e abatido?

Ó preciosas chagas roxas, belas
luminárias da noute tenebrosa,
de toda luz privada das estrelas!

Ó Cruz bendita, cara, preciosa!
Contempla bem o passo que te deram,
ó coroa de espinhos amargosa!

Vós, santos cravos, quando vos meteram
à força de martelo, logo à hora,
os serpentes e dragos se esconderam.

O coração, a alma que não chora,
vendo-te, Redentor, com tantas dores,
em pedra viva de diamante mora.

Que não contemplais isto, pecadores,
e derramais mil lágrimas no dia,
vendo o Senhor tão triste dos senhores?

Tu, Virgem pura, Santa Avé Maria.,
cheia de Graça, Esposa, Filha e Madre,
mais fermosa que o sol ao meio-dia,

que vás buscando ao Esposo, Filho e Padre,
qual cordeira perdida da manada,
sem guarda de pastora nem cão que ladre;

vai, Rainha dos Anjos mui amada,
e preciosa pedra diamantina,
de perfeições e graças esmaltada;

vai, estrela do mar; vai, luz divina,
escolhida do Céu, vai, cordeirinha,
branca açucena e rosa matutina;

vai caminho da glória, vai, pombinha
branca sem fel; bendita entre as mulheres;
vai, mãe da lei da Graça, vai asinha

ao monte Calvário, se ver queres
ao teu precioso Filho antes de morto.
Desconsolada vai, vai, não esperes;

a o qual acharás bem sem conforto,
posto na Cruz, por partes mil chagado,
por nos dar sossegado e manso porto.

Escarnecido, só, desemparado
e antre dous malfeitores condenados,
de fariseus e armas rodeado.

Ó duros corações desatinados,
cegos, malditos, torpes, de má casta,
lobos no sangue justo encarniçados!

Dizei: que tigre hircana, ou que cerasta,
que aspe, basilisco, ou que dipsarta,
das quais a quente Líbia é cheia e basta;

que Trácia, Grécia, Colcos, Cítia, Esparta,
ou que bárbara gente, crua e fera,
de trágicos insultos nunca farta,

humana não deixara e não perdera
a crueldade toda, se te vira,
Jesus benigno, posto na Cruz vera?

Mas vós, cruéis, perversos, cheios de ira,
com grita e escárnio, risos tudo misto,
estais asidos todos na mentira,

dizendo em alta voz: «Se tu és Cristo,
dece-te dessa Cruz em que estais posto!»,
não bastando os milagres que haveis visto.

e tu, Senhor, metido em tal desgosto,
estás sofrendo penas tão estranhas
com humilde, sereno e manso rosto.

Ó algozes ingratos, de más manhas,
de troncos e penedos produzidos
nas mais altas e ásperas montanhas;

que não vos humilhais, dizei, perdidos,
e não pedis perdão do que vos toca,
que, segundo é meu Deus, sereis ouvidos?

Pois ele, com humilde rogo, invoca
ao Padre por vós, benignamente,
deitando o fel e sangue pela boca,

dizendo: «Padre meu omnipotente,
pedir-te quero, antes que me acabem,
que tudo isto perdoeis a esta gente,

pois o que fazem, certo, não no sabem!»
Ó palavras altíssimas, celestes,
nas quais secretos e mistérios cabem!

Mas vós, malditos, como não soubestes
senão idolatrar como gentios,
nenhüa cousa destas conhecestes,

que sempre caminhastes por desvios,
deixando a Lei de Deus sagrada e pura,
desterrados por montes, selvas, rios.

Quem cuidará, Senhor, na tua brandura,
misericórdia grande e piadade
que excede ser e ordem de Natura,

por mais duro que seja na maldade,
que não derrame sempre noite e dia
lágrimas, qual um rio, em quantidade?

Leitor que lendo vás esta elegia,
Quero-te perguntar, de amor vencido,
se contemplando lá na fantasia

algüa vez, acaso, no sentido,
vendo raiar o sol na mor altura,
de rubicundos raios acendido;

e, despois que se põe, a fermosura
de diversas estrelas espalhadas,
quando Hécate cobre a terra dura;

e as ondas do mar bravo salgadas,
tão sujeitas num ser sem se espalharem,
nem de rios ou chuva acrecentadas,

os quais, cursando sempre sem faltarem,
digo de muitos que há aí que são famosos,
que correm sempre, sem jamais pararem;

se ver os campos verdes deleitosos,
qual fermoso pavão, feras e aves
nos apartados bosques mais sombrosos;

as quais, com cantos doces e suaves,
saúdam a manhã, mui prazenteiras,
com passos ora agudos, ora graves;

se ao ver os ritos, vidas e maneiras
tão diversos que há aí por nosso dano
nas apartadas gentes estrangeiras;

se ver tanta mudança num só ano,
escuro, claro, chuva, frio e calma,
e tudo para prol do bem humano,

contemplaste lá dentro na tua alma,
porventura, algum dia separado
da pesada, mortal, terrestre salma,

em tantas criaturas que há criado
o criador do mundo, Padre Eterno,
no alto Céu com os olhos enlevado;

e neste pensamento tão superno,
com tão ligeiras asas desprezando
a trabalhosa vida deste inferno?

Pois olha, pecador, que vás nadando
nas procelosas ondas deste mundo,
nos mistérios divinos contemplando,

e verás o mais alto, sem segundo,
posto na vera Cruz, no Monte santo,
por te livrar do lago mui profundo;

não aquele que lá te punha espanto,
fabricado na mente que sempre erra,
coberta de mortal e cego manto,

mas o próprio que fez o céu e a terra,
e santas maravilhas que cá vemos,
afora as outras que consigo encerra.

Dizei, dizei, mortais, que lhe daremos,
por mais que o amemos ou sirvamos,
que a mais pequena parte lhe paguemos?

este domingo atrás nos alegrámos,
Senhor, com festas, danças e alegrias,
dando-te capas e olorosos ramos;

e agora, por cumprir as profecias
pelos profetas santos declaradas,
te vemos morto dentro em cinco dias,

com as carnes feridas e chagadas,
de mil açoutes cheio, arrepelado
de couces, empurrões e bofetadas.

Estás, Jesus benigno, qual no prado
o lírio branco fica decomposto,
do homicida ferro derribado;

ou qual o sol se mostra antes de posto,
de cores tristes, ou qual branca rosa
de frio trespassada ou mês de Agosto;

ou qual cisne na ribeira umbrosa,
que, pressago do fim, brando enternece
a circunstante selva em voz melosa.

Senhor, com cuidar isto se entristece
a minha alma de modo, e meu sentido,
que de seu próprio alento desfalece.

Contemplo-te, meu Deus, na cruz subido,
e vejo-te com os olhos verdadeiros
cercado de mil anjos e servido;

os quais, voando leves e ligeiros,
qual enxame de abelhas, pressurosos
trabalham por curar os teus marteiros:

uns cobrem com unguentos olorosos,
e outros com vasos de poção divina,
os teus sagrados membros preciosos;

outro com água pura e cristalina
está lavando as chagas, e outros prestes
acodem com toalha rica e fina;

outros parecem entre todos estes
com cálices do novo testamento,
tomando as gotas de licor celestes;

outros, batendo as asas sempre ao vento,
parece que trabalham quanto podem
por te tomar a dar vital alento;

outros de novo pelo ar acodem;
e outros, feitos bizarros soldados,
com espadas na mão, postos em ordem,

querem ir cometer, mui denodados,
aquela gente torpe, endiabrada!
Mas tu, Senhor, os tens só refreados,

vendo quão pouco ganham na jornada,
porque, se tu quiseras, de um aceno
só, Pedro os destruíra sem espada.

Recebe, Pão de vida, este pequeno
sacrifício de mim, à sombra escrito
dum alto freixo deste vale ameno,

e dá-me tanta graça e tanto esprito,
para que sempre louve, qual espero,
o teu saber profundo e infinito.

Tomara ser Virgílio ou ser Homero,
somente no saber, que foi divino,
– que ser quem eles foram não no quero –,

para poder cantar, ó Rei benino,
em puro choro as chagas que te vejo,
a dor das quais provoca a desatino.

Mas, já que ver não posso este desejo,
o qual tomara só para louvar-te,
meu Deus, de dar-te pouco não me pejo;
porque eu, para dar mais, sou pouca parte.


SONETO DO PRÓPRIO A QUEM SE DIRIGIU:

A ti, Senhor, a quem as sacras Musas
nutrem e cibam de poção divina,
não as da fonte Délia cabalina,
que são Medeias, Circes e Medusas,

mas aquelas em cujo peito, infusas,
as leis estão, que as leis da Graça ensina,
beninas no amor e na doutrina
e não soberbas, cegas e confusas;

este pequeno parto, produzido
de meu saber e fraco entendimento,
üa vontade grande te oferece.

Se for de ti notado de atrevido,
daqui peço perdão do atrevimento,
o qual esta vontade te merece.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 18 Sep 2020, 07:40

Canção I



Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o marmóreo colo e branco peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vos que ver tão lindo gesto.
Ali me manifesto
por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo
nas lágrimas que choro;
e de mim, que vos amo,
em ver que soube amar-vos, me namoro;
e fico por mim só perdido, de arte
que hei ciúmes de mim por vossa parte.

Se porventura vivo descontente
por fraqueza de esprito, padecendo
a doce pena que entender não sei,
fujo de mim e acolho-me, correndo,
à vossa vista; e fico tão contente
que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei
se vós me dais a vida deste jeito
nos males que padeço,
senão de meu sujeito,
que não cabe com bem de tanto preço?
Mas ainda isso de mim cuidar não posso,
de estar muito soberbo com ser vosso.

Se, por algum acerto, Amor vos erra,
por parte do desejo cometendo
algum nefando e torpe desatino;
se ainda mais que ver, enfim, pretendo;
fraquezas são do corpo, que é de terra,
mas não do pensamento, que é divino.
Se tão alto imagino
que de vista me perco – peco nisto –,

desculpa-me o que vejo;
que se, enfim, resisto
contra tão atrevido e vão desejo,
faço-me forte em vossa vista pura,
e armo-me de vossa fermosura.

Das delicadas sobrancelhas pretas
os arcos, com que fere, Amor tomou,
e fez a linda corda dos cabelos;
e, porque de vós tudo lhe quadrou,
dos raios desses olhos fez as setas
com que fere quem alça os seus, a vê-los.
Olhos, que são tão belos,
dão armas de vantagem ao Amor,
com que as almas destrui;
porém, se é grande a dor,
co a alteza do mal a restitui;
e as armas com que mata são de sorte
que ainda lhe ficais devendo a morte.

Lágrimas e suspiros, pensamentos,
quem deles se queixar, fermosa Dama,
mimoso está do mal que por vós sente.
Que maior bem deseja quem vos ama
que estar desabafando seus tormentos,
chorando, imaginando docemente?
Quem vive descontente
não há-de dar alívio a seu desgosto,
por que se lhe agradeça;
mas com alegre rosto
sofra seus males, para que os mereça;
que quem do mal se queixa, que padece,
fá-lo porque esta glória não conhece.

De modo que, se cai o pensamento
em algüa fraqueza, de contente
é porque este segredo não conheço:
assi que com razões, não tão-somente
desculpo ao Amor de meu tormento,
mas ainda a culpa sua lhe agradeço.
Por esta fé mereço
a graça, que esses olhos acompanha,
o bem do doce riso;
mas porém não se ganha
cum paraíso outro paraíso.
E assi, de enleada, a esperança
se satisfaz co bem que não alcança.

Se com razões escuso meu remédio,
sabe, Canção, que, porque não vejo,
engano com palavras o desejo.


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Mensaje por Maria Lua el Jue 01 Oct 2020, 13:25


Canção II



Se este meu pensamento,
como é, doce e suave,
de alma pudesse vir gritando fora,
mostrando seu tormento
cruel, áspero e grave,
diante de vós só, minha Senhora,
pudera ser que agora
o vosso peito duro
tornara manso e brando.
E eu que sempre ando
pássaro solitário, humilde, escuro,
tornado um cisne puro,
brando e sonoro pelo ar voando,
com canto manifesto,
pintara meu tormento e vosso gesto.

Pintara os olhos belos
que trazem nas mininas
o Minino que os seus neles cegou;
e os dourados cabelos
em tranças de ouro finas
a quem o Sol seus raios abaixou;
a testa que ordenou
Natura tão fermosa;
o bem proporcionado
nariz, lindo, afilado,
que a cada parte tem a fresca rosa;
a boca graciosa
– que querê-la louvar é escusado –,
enfim, é um tesouro:
os dentes, perlas; as palavras, ouro.

Vira-se claramente,
ó Dama delicada,
que em vós se esmerou a Natureza;
e eu, de gente em gente,
trouxera trasladada
em meu tormento vossa gentileza.
Somente a aspereza
de vossa condição,
Senhora, não dissera,
por que se não soubera
que em vós podia haver algum senão.
E se alguém, com razão,
«Porque morres?» dissera, respondera:
«Mouro porque é tão bela
que inda não sou pera morrer por ela».

E se porventura,
Dama, vos ofendesse,
escrevendo de vós o que não sento,
e vossa fermosura
tão baixo não descesse
que a alcançasse um baixo entendimento,
seria o fundamento
daquilo que cantasse
todo de puro amor,
por que vosso louvor
em figura de mágoas se mostrasse.
E onde se julgasse
a causa pelo efeito, minha dor
diria ali sem medo:
«quem me sentir verá de quem procedo».

Então amostraria
os olhos saudosos,
o suspirar que a alma traz consigo,
a fingida alegria,
os passos vagarosos,
o falar, o esquecer-me do que digo;
um pelejar comigo,
e logo desculpar-me;
um recear, ousando;
andar meu bem buscando,
e de poder achá-lo acovardar-me;
enfim, averiguar-me
que o fim de tudo quanto estou falando
são lágrimas e amores;
são vossas isenções e minhas dores.

Mas quem terá, Senhora,
palavras com que iguale
com vossa fermosura minha pena;
que em doce voz de fora
aquela glória fale
que dentro na minh' alma Amor ordena?
Não pode tão pequena
força de engenho humano
com carga tão pesada,
se não for ajudada
dum piadoso olhar, dum doce engano
que, fazendo-me o dano
tão deleitoso e a dor tão moderada,
que enfim se convertesse
nos gostos dos louvores que escrevesse.

Canção, não digas mais; e se teus versos
à pena vêm pequenos,
não queiram de ti mais, que dirás menos.


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Mensaje por Maria Lua el Jue 08 Oct 2020, 06:17

Canção III



Tomei a triste pena
já de desesperado
de vos lembrar as muitas que padeço,
com ver que me condena
a ficar eu culpado
o mal que me tratais e o que mereço.
Confesso que conheço
que, em parte, eu causei
o mal em que me vejo,
pois sempre meu desejo
tão comprido, em vós cumprir deixei;
mas não tive suspeita
que seguísseis tenção tão imperfeita.

Se em vosso esquecimento
tão envolto estou
como os sinais demonstram, que mostrais;
vivo neste tormento,
lembranças mais não dou
que a que de razão tomar queirais.
Olhai que me tratais
assi de dia em dia
com vossas esquivanças;
e as vossas esperanças,
de que vamente eu me enriquecia,
renovam a memória;
pois com tê-la de vós só tenho glória.

E se isto conhecêsseis
que e verdade pura,
como ouro de Arábia reluzente,
inda que não quisésseis,
a condição tão dura
mudáreis noutra muito diferente.
E eu, como inocente
que estou neste caço,
isto em mãos pusera
de quem sentença dera
– que ficasse o direito justo e raso –,
se não arreceara
que a vós por mim, e a mim por vós, matara.

Em vós escrita vi
vossa grande dureza,
e n' alma escrita está que de vós vive.
Não que acabasse ali
sua grande firmeza
o triste desengano que então tive;
porque antes que a dor prive
de todo meus sentidos,
ao grande tormento
acode o entendimento
com dous fortes soldados, guarnecidos
de rica pedraria,
que ficam sendo minha luz e guia.

Destes acompanhado,
estou posto sem medo
a tudo o que o fatal destino ordene;
pode ser que, cansado,
ou seja tarde ou cedo,
com pena de penar-me, me despene.
E quando me condene
- que isto e o que espero -
inda a maiores dores,
perdidos os temores.
por mais que venha, não direi: não quero.
Contudo estou tão forte
que nem me mudara a mesma morte.

Canção, se já não queres
ver tanta crueldade,
lá vás onde verás minha verdade.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 09 Oct 2020, 13:22

Canção IV



A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
– suaves, se duraram longamente –,
direi, por dar a vida algum sossego;
que pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo;
que um erro, em tantos erros, e concerto.
E pois nesta verdade me confio
– se verdade se achar no mal que digo –,
saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Já Amor fez leis, sem ter comigo algüa;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E se em algüa cousa o tenho errado,
com siso grande dor não vi nenhüa,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas isenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto alevantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor, que me condena,
me fez cair na culpa e mais na pena.

Os olhos que eu adoro, aquele dia
que desceram ao baixo pensamento,
n' alma os aposentei suavemente;
e pretendendo mais, como avarento,
o coração lhe dei por iguaria,
que a meu mandado tinha obediente.
Porém como ante si lhe foi presente
que entenderam o fim de meu desejo,
ou por outro despejo,
que a língua descobriu por desvario,
de sede morto estou posto num rio,
onde de meu serviço o fruto vejo;
mas logo se alça, se a colhê-lo venho,
e foge-me a água, se beber porfio.
Assi que em fome e sede me mantenho:
não tem Tântalo a pena que eu sustenho.

Despois que aquela em quem minh' alma vive
quis alcançar o baixo atrevimento,
debaixo deste engano a alcancei:
a nuvem do contino pensamento
ma afigurou nos braços, e assi a tive,
sonhando o que acordado desejei.
Porque a meu desejo me gabei
de alcançar um bem de tanto preço,
além do que padeço,
atado em üa roda estou penando,
que em mil mudanças me anda rodeando,
onde, se a algum bem subo, logo deço.
E assi ganho e perco a confiança;
e assi de mi fugindo, trás mi ando;
e assi me tem atado üa vingança,
como Ixião, tão firme na mudança.

Quando a vista suave e inumana
meu humano desejo, de atrevido,
cometeu, sem saber o que fazia,
que de sua beleza foi nacido,
o cego Moço que, coa seta insana,
o pecado vingou desta ousadia,
e afora este mal que eu merecia,
me deu outra maneira de tormento:
que nunca o pensamento,
que sempre voa düa a outra parte,
destas entranhas tristes não se farte,
imaginando sobre o famulento,
quanto mais come, mais está crecendo,
por que de atormentar-me não se aparte.
Assi que para a pena estou vivendo,
sou outro novo Tício, e não me entendo.

De vontades alheias, que roubava,
e que enganosamente recolhia
em meu fingido peito, me mantinha.
De maneira o engano lhe fingia
que, depois que a meu mando as sojugava,
com amor as matava, que eu não tinha.
Porém, logo o castigo que convinha
o vingativo Amor me fez sentir,
fazendo-me subir
ao monte da aspereza que em vós vejo,
co pesado penedo do desejo,
que do cume do bem me vai cair.
Torno a subi-lo ao desejado assento;
torna a cair-me; embalde, enfim, pelejo.
Não te espantes, Sísifo, deste alento,
que às costas o subi do sofrimento.

Dest'arte o sumo bem se me oferece
ao faminto desejo, por que sinta
a perda de perdê-lo mais penosa.
Como o avaro a quem o sonho pinta
achar tesouro grande, onde enriquece
e farta sua sede cobiçosa
e, acordando, com fúria pressurosa
vai cavar o lugar onde sonhava,
mas tudo o que buscava
lhe converte em carvão a desventura;
ali sua cobiça mais se apura,
por lhe faltar aquilo que esperava;
dest'arte Amor me faz perder o siso.
Porque aqueles, que estão na noite escura,
nunca sentirão tanto o triste abiso,
se ignorarem o bem do Paraíso.

Canção, nô mais, que já não sei que digo;
mas por que a dor me seja menos forte,
diga o pregão a causa desta morte.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 10 Oct 2020, 04:17



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Mensaje por Maria Lua el Mar 13 Oct 2020, 04:22

Que me quereis, perpétuas saudades?

Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.

Luí s de Camões


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Mensaje por Maria Lua el Miér 14 Oct 2020, 05:43

No mundo quis o Tempo que se achasse

No mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por exprimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho.

Luís de Camões


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Mensaje por Maria Lua el Lun 19 Oct 2020, 04:15

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Mensaje por Maria Lua el Lun 19 Oct 2020, 04:16

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Mensaje por Maria Lua el Vie 23 Oct 2020, 08:10


Canção V



Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho, modulando
com üa suave e doce melodia,
o claro dia estão manifestando.

A manhã bela e amena
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura
branda, suave, angélica, serena.
Ó deleitosa pena,
ó efeito de Amor tão preeminente
que permite e consente
que, onde quer que me ache e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.

A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual' aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.

Assi como acontece
a quem a cara vida esta perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algüa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
- enquanto da prisão se está apartando -
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Ó ditosa partida!
Ó glória soberana, alta e subida,
se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida!

Porém a Natureza,
que nesta vida pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o Sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento
que causastes tão longo apartamento,
por que perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso
- um homem sou só, de carne e osso –,
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.

Canção de cisne, feita n'hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura já me impede o dia.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 24 Oct 2020, 04:25


Canção VI



Vão as serenas águas
do Mondego descendo
mansamente que até o mar não param;
por onde minhas mágoas,
pouco a pouco crecendo,
para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
neste lugar ameno,
aonde agora mouro,
testa de neve e ouro,
riso brando, suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre n' alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia,
em paz com minha guerra,
contente com a pena
que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
o esperar me enganava;
longo tempo passei,
com a vida folguei,
só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
que tão fermosos olhos não os há?

Oh, quem me ali dissera
que de amor tão profundo
o fim pudesse ver inda algüa hora!
Oh, quem cuidar pudera
que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vós, minha Senhora,
para que desde agora
perdesse a esperança,
e o vão pensamento,
desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até o derradeiro despedir-me.
Mas a mor alegria
que daqui levar posso,
com a qual defender-me triste espero,
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quererdes-me vós quanto vos eu quero;
porque o tormento fero
de vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento
que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora; e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
aqui acompanhando
estes campos e estas claras águas,
e por mim ficarás
chorando e suspirando,
e ao mundo mostrando tantas mágoas
que, de tão larga história,
minhas lágrimas fiquem por memória.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 25 Oct 2020, 06:45

Canção VII



Junto de um seco, fero e estéril monte,
inútil e despido, calvo, informe,
da natureza em tudo aborrecido,
onde nem ave voa, ou fera dorme,
nem rio claro corre, ou ferve fonte,
nem verde ramo faz doce ruído;
cujo nome, do vulgo introduzido,
é Félix, por antífrase infelice;
o qual a Natureza
situou junto a parte
onde um braço de mar alto reparte
Abássia da arábica aspereza,
onde fundada já foi Berenice,
ficando a parte donde
o Sol que nele ferve se lhe esconde;

nele aparece o Cabo com que a costa
africana, que vem do Austro correndo,
limite faz, Arómata chamado
(Arómata outro tempo; que, volvendo
os céus, a ruda língua mal composta
dos próprios outro nome lhe tem dado).
Aqui, no mar que quer apressurado
entrar pela garganta deste braço,
me trouxe um tempo e teve
minha fera ventura.
Aqui, nesta remota, áspera e dura
parte do mundo, quis que a vida breve
também de si deixasse um breve espaço,
por que ficasse a vida
pelo mundo em pedaços repartida.

Aqui me achei gastando uns tristes dias,
tristes, forçados, maus e solitários,
trabalhosos, de dor e de ira cheios,
não tendo tão-somente por contrários
a vida, o sal ardente e águas frias,
os ares grossos, férvidos e feios;
mas os meus pensamentos, que são meios
para enganar a própria Natureza,
também vi contra mi,
trazendo-me à memória
algüa já passada e breve glória,
que eu já no mundo vi, quando vivi,
por me dobrar dos males a aspereza,
por me mostrar que havia
no mundo muitas horas de alegria.

Aqui estive eu co estes pensamentos
gastando o tempo e a vida; os quais tão alto
me subiam nas asas que caía
– e vede se seria leve o salto! –
de sonhados e vãos contentamentos
em desesperação de ver um dia.
Aqui o imaginar se convertia
num súbito chorar e nuns suspiros,
que rompiam os ares.
Aqui, a alma cativa,
chagada toda, estava em carne viva,
de dores rodeada e de pesares,
desamparada e descoberta aos tiros
da soberba Fortuna:
soberba, inexorável e importuna.

Não tinha parte donde se deitasse,
nem esperança algüa onde a cabeça
um pouco reclinasse, por descanso.
Todo lhe é dor e causa que padeça,
mas que pereça não, por que passasse
o que quis o Destino nunca manso.
Oh! que este irado mar, gritando, amanso!
Estes ventos da voz importunados,
parece que se enfreiam!
Somente o Céu severo,
as Estrelas e o Fado sempre fero
com meu perpétuo dano se recreiam,
mostrando-se potentes e indignados
contra um corpo terreno,
bicho da terra vil e tão pequeno.

Se de tantos trabalhos só tirasse
saber inda por certo que algüa hora
lembrava a uns claros olhos que já vi;
e se esta triste voz, rompendo fora,
as orelhas angélicas tocasse
daquela em cujo riso já vivi;
a qual, tornada um pouco sobre si,
revolvendo na mente pressurosa
os tempos já passados
de meus doces errores,
de meus suaves males e furores,
por ela padecidos e buscados,
tornada – inda que tarde – piadosa,
um pouco lhe pesasse
e consigo por dura se julgasse;

isto só que soubesse, me seria
descanso para a vida que me fica;
co isto afagaria o sofrimento.
Ah! Senhora, Senhora, que tão rica
estais que, cá tão longe, de alegria
me sustentais cum doce fingimento!
Em vos afigurando o pensamento,
foge todo o trabalho e toda a pena.
Só com vossas lembranças
me acho seguro e forte
contra o rosto feroz da fera Morte,
e logo se me ajuntam esperanças
com que a fronte, tornada mais serena,
torna os tormentos graves
em saudades brandas e suaves.

Aqui co eles fico, perguntando
aos ventos amorosos, que respiram
da parte donde estais, por vós, Senhora;
às aves que ali voam, se vos viram,
que fazíeis, que estáveis praticando,
onde, como, com quem, que dia e que hora.
Ali a vida cansada, que melhora,
toma novos espritos, com que vença
a Fortuna e Trabalho,
só por tornar a ver-vos,
só por ir a servir-vos e querer-vos.
Diz-me o Tempo que a tudo dará talho;
mas o Desejo ardente, que detença
nunca sofreu, sem tento
me abre as chagas de novo ao sofrimento.

Assi vivo; e se alguém te perguntasse,
Canção, como não mouro,
podes-lhe responder que porque mouro.


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