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Luís Vaz de Camões

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Mensaje por Maria Lua el Miér 12 Ago 2020, 05:57

Quem pode livre ser, gentil Senhora,

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

Luís de Camões


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Mensaje por Maria Lua el Miér 12 Ago 2020, 13:30

O dia em que nasci moura e pereça,

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao Mundo, e, se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.

A luz lhe falte, O Sol se [lhe] escureça,
Mostre o Mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.

As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu.

Ó gente temerosa, não te espantes,
Que este dia deitou ao Mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

Luís de Camões


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Mensaje por Maria Lua el Lun 17 Ago 2020, 13:46

Verdes são os campos




Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.


Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.


Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.


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Mensaje por Maria Lua el Mar 18 Ago 2020, 07:49

Descalça vai para a fonte




Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.


Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.


Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 22 Ago 2020, 08:52

Quando de minhas mágoas a comprida

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá nu~a saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: -- Não me fujais, sombra benina! --
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: -- Dina...
Antes que diga: -- mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

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Mensaje por Maria Lua el Mar 25 Ago 2020, 05:06


Tão suave, tão fresca e tão fermosa



Tão suave, tão fresca e tão fermosa,
nunca no Céu saiu
a Aurora no princípio do Verão,
as flores dando a graça costumada,
como a fermosa, mansa fera, quando
um pensamento vivo m'inspirou,
por quem me desconheço.

Bonina pudibunda ou fresca rosa
nunca no campo abriu,
quando os raios do Sol no Touro estão,
de cores diferentes esmaltada,
como esta flor que, os olhos inclinando,
o sofrimento triste costumou
à pena que padeço.

Ligeira, bela Ninfa, linda, irosa,
não creio que seguiu
Sátiro, cujo brando coração
de amores comovesse fera irada,
que assi fosse fugindo e desprezando
este tormento, onde Amor mostrou
tão próspero começo.

Nunca, enfim, cousa bela e rigorosa
Natura produziu
que iguale àquela forma e condição,
que as dores em que vivo estima em nada.
Mas com tão doce gesto, irado e brando,
o sentimento e a vida me enlevou
que a pena lhe agradeço.

Bem cuidei de exaltar em verso ou prosa
aquilo que a alma viu
antre a doce dureza e mansidão,
primores de beleza desusada:
mas, quando quis voar ao Céu, cantando,
entendimento e engenho me cegou
luz de tão alto preço.

Naquela alta pureza deleitosa
que ao mundo se encobriu
e nos olhos angélicos, que são
senhores desta vida destinada,
e naqueles cabelos que, soltando
ao manso vento, a vida me enredou,
me alegro e entristeço.

Saudades e suspeita perigosa,
que Amor constituiu
por castigo daqueles que se vão;
temores, penas d'alma desprezada,
fera esquivança, que me vai tirando
o mantimento que me sustentou,
a tudo me ofereço.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 28 Ago 2020, 17:18

Nunca manhã suave



Nunca manhã suave,
estendendo seus raios pelo mundo,
despois de noite grave,
tempestuosa, negra, em mar profundo,
alegrou tanta nau, que já no fundo,
se viu em mares grossos,
como a luz clara a mim dos olhos vossos.

Aquela fermosura
que só no virar deles resplandece,
com que a sombra escura
clara se faz, e o campo reverdece,
quando meu pensamento s'entristece,
ela e sua viveza
me desfazem a nuvem da tristeza.

O meu peito, onde estais,
e, para tanto bem, pequeno vaso;
quando acaso virais
os olhos, que de mim não fazem caso,
todo, gentil Senhora, então me abraso
na luz que me consume
bem como a borboleta faz no lume.

Se mil almas tivera
que a tão fermosos olhos entregara,
todas quantas tivera
polas pestanas deles pendurara;
e, enlevadas na vista pura e clara,
- posto que disso indinas – ,
se andaram sempre vendo nas mininas.

E vós, que descuidada
agora vivereis de tais querelas,
de almas minhas cercada
não pudésseis tirar os olhos delas;
não pode ser que, vendo a vossa antre elas,
a dor que lhe mostrassem,
tantas üa alma só não abrandassem.

Mas pois o peito ardente
üa só pode ter, fermosa Dama,
basta que esta somente,
como se fossem duas mil, vos ama,
para que a dor de sua ardente flama
convosco tanto possa
que não queirais ver cinza üa alma vossa.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 29 Ago 2020, 04:48

Pode um desejo imenso



Pode um desejo imenso
arder no peito tanto
que à branda e a viva alma o fogo intenso
lhe gaste as nódoas do terreno manto,
e purifique em tanta alteza o esprito
com olhos imortais
que faz que leia mais do que vê escrito.

Que a flama que se acende
alto tanto alumia
que, se o nobre desejo ao bem se estende
que nunca viu, a sente claro dia;
e lá vê do que busca o natural,
a graça, a viva cor,
noutra espécie milhor que a corporal.

Pois vós, ó claro exemplo
de viva fermosura,
que de tão longe cá noto e contemplo
n'alma, que este desejo sobe e apura:
não creais que não vejo aquela imagem
que as gentes nunca vêem,
se de humanos não têm muita ventagem.

Que, se os olhos ausentes
não vêem a compassada
proporção, que das cores excelentes
de pureza e vergonha é variada;
da qual a Poesia, que cantou
até aqui só pinturas,
com mortais fermosuras igualou;

se não vêem os cabelos
que o vulgo chama de ouro,
e se não vêem os claros olhos belos,
de quem cantam que são do Sol tesouro,
e se não vêem do rosto as excelências,
a quem dirão que deve
rosa, cristal e neve as aparências;

vêem logo a graça pura,
a luz alta e severa,
que é raio da divina fermosura
que n'alma imprime e fora reverbera,
assi como cristal do Sol ferido,
que por fora derrama
a recebida flama, esclarecido.

E vêem a gravidade
com a viva alegria,
que misturada tem, de qualidade
que üa da outra nunca se desvia;
nem deixa üa de ser arreceada
por leda e por suave,
nem outra, por ser grave, muito amada.

E vêem do honesto siso
os altos resplandores,
temperados co doce e ledo riso,
a cujo abrir abrem no campo as flores;
as palavras discretas e suaves,
das quais o movimento
fará deter o vento e as altas aves;

dos olhos o virar,
que torna tudo raso,
do qual não sabe o engenho divisar
se foi por artifício, ou feito acaso;
da presença os meneios e a postura,
o andar e o mover-se,
donde pode aprender-se fermosura.

Aquele não sei que,
que aspira não sei como,
que, invisível saindo, a vista o vê,
mas para o compreender não acha tomo;
o qual toda a Toscana poesia,
que mais Febo restaura,
em Beatriz nem em Laura nunca via;

em vos a nossa idade,
Senhora, o pode ver,
se engenho e ciência e habilidade
igual a fermosura vossa der,
como eu vi no meu longo apartamento,
qual em ausência a vejo.
Tais asas dá o desejo ao pensamento!

Pois se o desejo afina
üa alma acesa tanto
que por vós use as partes da divina,
por vós levantarei não visto canto
que o Bétis me ouça, e o Tibre me levante;
que o nosso claro Tejo
envolto um pouco vejo e dissonante.

O campo não o esmaltam
flores, mas só abrolhos
o fazem feio; e cuido que lhe faltam
ouvidos para mim, para vós olhos.
Mas faça o que quiser o vil costume;
que o sol, que em vós está,
na escuridão dará mais claro lume.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 29 Ago 2020, 10:42

Detém um pouco, Musa, o largo pranto



Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e, vestida de rico e ledo manto,
dêmos honra e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia
e, quando escuro está, é mais que o dia.

Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
cos teus raios de prata
a escura noite fazes que não possa
encontrar o que trata,
e o que n'alma retrata
Amor por teu divino
rosto, por que endoudeço e desatino;

tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas e rodeias
teus cabelos d'argento e faces belas,
e os campos fermoseias
coas rosas que semeias,
coas boninas que gera
o teu celeste amor na Primavera;

pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades
- üas por saudades,
outras por crus indícios -
fazem das próprias vidas sacrifícios

Vejo teu Endimião por estes montes,
suspenso o Céu olhando,
e o teu nome, cos olhos feitos fontes,
embalde e em vão chamando,
pedindo e suspirando
mercês à tua beldade,
sem em ti achar üa hora de piadade.

Por ti feito pastor de branco armento,
nas selvas solitárias
acompanhado só do pensamento,
conversa as alimárias,
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta e chora desventuras.

Por ti guarda o sítio fresco de Ílio
suas sombras fermosas;
para ti, Erimanto e o lindo Epílio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas cheirosas
deste nosso Oriente
também Arábia Félix eminente.

De que pantera, tigre, leopardo
as ásperas entranhas
não temeram o agudo e fero dardo,
quando pelas montanhas
mui remotas e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que Amor de amor matavas?

Das castas virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando-lhe a força e os espritos;
mas os daquele triste
já nunca consentiste
ouvi-los um momento,
para ser menos grave seu tormento.

Não fujas de mim assi, nem assi te escondas
dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piadosamente,
ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mim, que o pior é queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergue a mão para matar-me,
como a cruel imigo;
mas eu meu fado sigo,
que a isto me destina,
e isto só pretendo e só me ensina.

Quantos dias há que o Céu me desengana,
e sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
não fujo o desvario;
e este, que em mi vejo,
para esperança minha e meu desejo.

Oh! quanto milhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a tempo tal,
mais que dantes, por tema,
mais cruel Que ussa fera, mais que ema.

Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e, quando mouro mais, então mais vivo!
Porque assi me há ordenado
meu infelice estado
que, quando me convida
a morte, para a morte tenha vida.

Minha secreta amiga, mansa noute,
estas rosas – porquanto
ouviste meus queixumes – ora dou-te
este fresco adianto,
húmido inda do pranto
e lágrimas da esposa
do cioso Titão, branca e fermosa.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 30 Ago 2020, 09:07


Fermosa fera humana



Fermosa fera humana,
em cujo coração soberbo e rudo
a força soberana
do vingativo Amor, que vence tudo,
as pontas amoladas
de quantas setas tinha, tem quebradas;

amada Circe minha
- posto que minha não, contudo amada – ,
a quem um bem que tinha
da doce liberdade desejada
pouco a pouco entreguei,
e, se mais tenho, inda entregarei:

pois natureza irosa
da razão te deu partes tão contrárias
que, sendo tão fermosa,
folgues de te queimar em flamas várias,
sem arder em nenhüa
mais que enquanto alumia o mundo a Lüa;

pois triunfando vás
com diversos despojos de perdidos,
que tu privando estas
de razão, de juízo e de sentidos,
e quase a todos dando
aquele bem que a todos vós negando;

pois tanto te contenta
ver o nocturno moço, em ferro envolto,
debaixo da tormenta
de Júpiter, em água e vento solto,
à porta, que impedido
lhe tem seu bem, de mágoa adormecido;

porque não tens receio
que tantas inocências e esquivanças
a deusa que põe freio
a soberbas e doudas esperanças
castigue com rigor,
e contra ti se acenda o fero Amor?

Olha a fermosa Flora:
de despojos de mil suspiros rica,
pelo capitão chora
que lá em Tessália, enfim, vencido fica,
e foi sublime tanto
que altares lhe deu Roma e nome santo.

Olha em Lesbos aquela
no seu salteiro insigne conhecida
dos muitos que por ela
se perderam: perdeu a cara vida,
na rocha que se infama
com ser remédio extremo de quem ama

pelo moço escolhido,
onde mais se mostravam as três Graças;
que Vénus escondido
para si teve um tempo antre as alfaças;
pagou coa morte fria
a ma vida que a muitos já daria.

E, vendo-se deixada
daquele por quem tantos já deixara,
se foi desesperada
precipitar da infame rocha cara;
que o mal de mal querida
sabe que vida lhe é perder a vida.

«Tomai-me, bravos mares;
tomai-me vós, pois outrem me deixou!»
E assi, dos altos ares
pendendo, com furor se arremessou.
Acude tu, suave,
acude, poderosa e divina ave!

Toma-a nas asas tuas,
Minino pio, ilesa sem perigo,
antes que nessas cruas
águas caindo, apague o fogo antigo.
É digno amor tamanho
de viver e ser tido por estranho?

«Não; que é razão que seja
para as lobas isentas, que amor vendem,
exemplo onde se veja
que também ficam presas as que prendem.»
Assi deu por sentença
Némesis, que Amor quis que tudo vença.


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Mensaje por Maria Lua el Mar 01 Sep 2020, 14:53

Se de meu pensamento



Se de meu pensamento
tanta razão tivera de alegrar-me
quanta de meu tormento
a tenho de queixar-me,
puderas, triste lira, consolar-me.

E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
com tanta desventura,
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.

A ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.

Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!

Ai, gostos fugitivos
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!

Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão, co seu poder, o tempo cura?

Mas, para padecê-la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê-la,
a força me falece
e de todo me cansa e me enfraquece.

Oh! bem-afortunado
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!

As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.

Ficou como pasmado
todo o estígio reino co teu canto;
e, quase descansado,
de teu eterno pranto
cessou de alçar Sísifo o grave canto.

A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.

Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.

Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroe profana?

Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, empedernido,
de algüa tigre fera
da Hircânia nacido,
ou dantre as duras rochas produzido!

Mas que digo, coitado,
e de quem fio em voo minhas querelas?
Só vós, ó do salgado,
húmido reino belas
e claras Ninfas, condoei-vos delas

e, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol' água erguidas,
as tranças gotejando,
saí alegres todas ver qual ando.

Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores;
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.

Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 06 Sep 2020, 06:44


Fogem as neves frias



Fogem as neves frias
dos altos montes, quando reverdecem
as árvores sombrias;
as verdes ervas crecem,
e o prado ameno de mil cores tecem.

Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira
e Filomela chora;
o Céu da fresca terra se enamora.
Vai Vénus Citereia
com os coros das Ninfas rodeada;
a linda Panopeia,
despida e delicada,
com as duas irmãs acompanhada.

Enquanto as oficinas
dos Ciclopes Vulcano esta queimando,
vão colhendo boninas
as Ninfas e cantando,
a terra co ligeiro pé tocando.

Dece do duro monte
Diana, já cansada d'espessura,
buscando a clara fonte
onde, por sorte dura,
perdeu Actéon a natural figura.

Assi se vai passando
a verde Primavera e seco Estio;
trás ele vem chegando
depois o Inverno frio,
que também passará por certo fio.

Ir-se-á embranquecendo
com a frígida neve o seco monte;
e Júpiter, chovendo,
turbará a clara fonte;
temerá o marinheiro a Orionte.

Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o tempo ter firmeza em nada;
e nossa vida escassa
foge tão apressada
que, quando se começa, é acabada.

Que foram dos Troianos
Hector temido, Eneias piadoso?
Consumiram-te os anos,
Ó Cresso tão famoso,
sem te valer teu ouro precioso.

Todo o contentamento
crias que estava no tesouro ufano?
Ó falso pensamento
que, à custa de teu dano,
do douto Sólon creste o desengano!

O bem que aqui se alcança
não dura, por possante, nem por forte;
que a bem-aventurança
durável de outra sorte
se há-de alcançar, na vida, para a morte.

Porque, enfim, nada basta
contra o terrível fim da noite eterna;
nem pode a deusa casta
tornar à luz superna
Hipólito, da escura noite averna.

Nem Teseu esforçado,
com manha nem com força rigorosa,
livrar pode o ousado
Pirítoo da espantosa
prisão leteia, escura e tenebrosa.


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Mensaje por Maria Lua el Lun 07 Sep 2020, 09:23

Já calma nos deixou



Já calma nos deixou
sem flores as ribeiras graciosas;
já de todo secou
os cravos, lírios e as purpúreas rosas;
fogem da calma grave os passarinhos
para o sombrio emparo de seus ninhos.

Meneia os altos freixos
a branda viração, de quando em quando,
e dentre vários seixos,
o líquido cristal sai murmurando;
as gotas, que das alvas pedras saltam,
o prado, como pérola, esmaltam.

Da caça já cansada,
busca a casta Titânia a espessura,
onde, a sombra deitada,
logre o doce repouso da verdura,
e sobre o seu cabelo crespo e louro
deixe cair o bosque o seu tesouro.

O Céu desimpedido
mostra o eterno lume das estrelas;
e de flores vestido,
üas vermelhas, outras amarelas,
se mostra alegre o bosque, alegre o monte,
o rio, o arvoredo, o prado, a fonte.

Porque como o minino
que a Júpiter pola águia foi levado,
no cerco cristalino
foi do amador de Clície visitado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o rio, o arvoredo, o prado, o monte.

O mar, que agora, brando,
é das lindas Nereidas cortado,
se irá alevantando
todo, em crespas escumas empolado;
o soberbo furor do negro vento
fará por toda a parte movimento.

Lei e da Natureza
mudar-se desta sorte o tempo leve;
suceder a beleza
da Primavera o fruto; à calma, a neve;
e tornar outra vez, por certo fio,
Outono, Inverno, Primavera, Estio.

Tudo, enfim, faz mudança,
quanto o claro Sol vê, quanto alumia;
nem se acha segurança
em tudo quanto alegra o belo dia;
mudam-se as condições, muda-se a idade,
a bonança, os estados e a vontade.

Só a minha inimiga
a dura condição nunca mudou,
para que o mundo diga
que, nela, lei tão certa se quebrou;
só ela em me não ver sempre está firme,
ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.

Mas já sofrível fora
só ela em me matar mostrar firmeza,
se não achara agora
também em mim mudada a natureza;
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre d'escuras nuvens rodeado.

Sempre exprimento os fios
que em contino receio Amor me manda;
sempre os dous caudais rios
que em meus olhos abriu quem nos seus anda,
correm, sem chegar nunca o Verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.

O Sol, sereno e puro,
que no fermoso rosto resplandece,
envolto em manto escuro,
do triste esquecimento, não parece,
deixando em triste noite a triste vida,
que nunca é de luz nova socorrida.

Porém seja o que for:
mude-se, por meu dano, a Natureza;
perca a constância Amor;
a Fortuna inconstante ache firmeza;
e tudo se conjure contra mi,
mas eu firme estarei no que emprendi.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 12 Sep 2020, 14:26

Naquele tempo brando

 

Naquele tempo brando
em que se vê do mundo a fermosura,
que Thétis descansando
de seu trabalho está, fermosa e pura,
cansava o Amor o peito
do mancebo Peleu de um duro afeito.

Com ímpeto forçoso
lhe tinha já fugido a bela Ninfa
quando, no tempo aquoso,
Noto ligeiro move a clara linfa,
serras no mar erguendo,
que as altas vão da terra desfazendo.

Esperava o mancebo,
com a dor que o seu peito n'alma sente,
um dos dias que Febo
o mundo todo abrasa em fogo ardente,
soltando as tranças de ouro
em que Clície de amor faz seu tesouro.

Era no mês que Apolo
entre os irmãos celestes passa o tempo;
o vento enfreia Eolo,
para que o deleitoso passatempo
seja quieto e mudo;
que a tudo Amor obriga, e vence tudo.

O luminoso dia
os amorosos corpos despertava
na cega idolatria,
que o peito mais contenta e mais agrava;
onde o cego Minino
se faz crer dos humanos que é contino;

quando a fermosa Ninfa
com todo ajuntamento venerando,
na pura e clara linfa
o cristalino corpo está lavando;
o qual, nas águas vendo,
nele, alegre de o ver, se esta revendo:

o peito diamantino
em cuja branca teta Amor se cria;
o gesto peregrino,
cuja presença torna noite, dia;
a graciosa boca,
que Amor a seus amores mais provoca;

os rubins graciosos;
e pérolas que escondem entre as rosas
os jardins deleitosos,
que o Céu plantou em faces tão fermosas;
o transparente colo,
que ciúmes a Dafne faz de Apolo;

o sutil movimento
dos olhos, cuja vista o Amor cegou;
o qual, com seu tormento,
nunca mais de tais olhos se apartou,
mas antes de contino
nas mininas o trazem por minino;

os fios espalhados
de amor que aos mais dos peitos faz cobiça,
onde Amor enredados
os corações humanos traz e atiça,
com férvido desejo
por onde ele começa a ser sobejo.

O mancebo Peleu,
que de Neptuno estava aconselhado,
vendo na terra o Céu
em tão bela figura tresladado,
mudo um pouco ficou,
porque Amor logo a fala lhe tirou.

Enfim, querendo ver
quem tanto mal de longe lhe fazia,
a vista foi perder,
porque, de puro amor, Amor não via;
ficando cego e mudo
contra as forças do Amor, que pode tudo.

Agora se aparelha
para a batalha; agora remetendo;
agora se aconselha;
agora vai; agora está tremendo;
quando já de Cupido
com nova seta o peito viu ferido.

Remete o moço logo
para onde estava a chaga, sem sossego;
e co sobejo fogo,
quanto mais perto estava, então mais cego
se via; e cum suspiro
na fermosa donzela emprega o tiro.

Vingado assi Peleu,
nasceu deste amoroso ajuntamento
o forte Larisseu,
destruição do frígio pensamento;
que, por não ser ferido,
foi nas ondas estígias submergido.

 


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 12 Sep 2020, 14:26


Aquele moço fero

 

Aquele moço fero
na peletrónia cova doutrinado
do Centauro severo,
cujo peito esforçado
com tutanos de tigres foi criado;

na água fatal, minino,
o lava a mãe, pressaga do futuro,
para que ferro fino
não passe o peito duro
que de si mesmo a si se tem por muro.

A carne lhe endurece,
que ser não possa de armas ofendida.
Cega! que não conhece
que pode haver ferida
n'alma, que menos dói perder a vida.

Que, aonde o braço irado
dos Troianos passava arnês e escudo,
ali se viu passado
daquele ferro agudo
do Minino que em todos pode tudo.

Ali se viu cativo
da cativa gentil, que serve e adora;
ali se viu que, vivo,
em vivo fogo mora,
porque de seu senhor se vê senhora.

Já toma a branda lira
na mão que a dura Pélias meneara;
ali canta e suspira,
não como lhe ensinara
o velho, mas o Moço que o cegara.

Pois, logo, quem culpado
será se, de pequeno, oferecido
foi logo a seu cuidado,
no berço instituído
a não poder deixar de ser ferido?

Quem, logo, fraco infante,
doutro mais poderoso foi sujeito,
que para cego amante
foi de princípio feito,
com lágrimas banhando o brando peito?

Se agora foi ferido
da penetrante seta e força de erva,
e se Amor é servido
que sirva à linda serva,
para que minha estrela me reserva?

O gesto bem-talhado,
o airoso meneio e a postura,
o rosto delicado,
que na vista afigura
que se ensina por arte a fermosura,

como pode deixar
de cativar quem tenha entendimento?
Que, quem não penetrar
um doce gesto, atento,
não lhe é nenhum louvor viver isento.

Que aqueles cujos peitos
ornou de altas ciências o destino,
esses foram sujeitos
ao cego e vão Minino,
arrebatados do furor divino.

O Rei fermoso hebreio,
que mais que todos soube, mais amou;
tanto que a deus alheio
falso sacrificou.
Se muito soube e teve, muito errou.

E o grão Sábio que ensina,
passeando, os segredos da Sofia,
à baixa concubina
do vil eunuco Hermia
aras ergueu, que aos deuses só devia.

Aras ergue a quem ama
o Filósofo insigne namorado.
Dói-se a perpétua Fama
e grita que, culpado,
da lesa-divindade e acusado.

Já foge donde habita;
já paga a culpa enorme com desterro.
Mas, oh! grande desdita!
Bem mostra tamanho erro
que doutos corações não são de ferro.

Antes na altiva mente,
no sutil sangue e engenho mais perfeito,
há mais conveniente
e conforme sujeito
onde se imprima o brando e doce afeito.


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 12 Sep 2020, 14:27

Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva

 

Tão crua Ninfa, nem tão fugitiva,
com lindo pé pisou
a verde erva, nem colheu as brancas flores,
soltando seus cabelos d'ouro fino
ao vento que em mil doces nós os olhos ata,
nem tão linda, discreta e tão fermosa
como esta minha imiga.

Aquilo que em pessoa que hoje viva
no mundo não se achou,
quis nela a Natureza., seus primores
mostrando, que se achasse de contino:
castidade e beleza; üa me mata,
a outra, de suave e deleitosa,
me faz doce a fadiga.

Mas esta bela fera, tão esquiva,
que o prazer me roubou,
quis-mo pagar seus únicos louvores,
cantando eu num estilo dela indino;
porque, se de louvor tão alto trata,
não sei eu tão baixo verso e prosa
que escreva nem que diga.

Aquela luz que a do Sol claro priva,
e a minha me cegou;
aquele mover de olhos, minhas dores
causando do olhar manso e divino;
o doce rir, que esta alma desbarata,
faz a sua pena desejosa
e de seu mal amiga.

Dos belos olhos veio a flama viva
que n'alma se ateou
com a lenha de vossos disfavores,
queimando dentro o coração mofino,
cujo fim, por mor dano, se dilata
com a esperança falsa e duvidosa
que forçado é que siga.

Minha ou vossa vendo-se cativa
quem Deus livre criou,
se aqueixa desses olhos roubadores,
culpando ao claro raio peregrino;
mas logo a luz suave, que a resgata,
de vossa linda vista graciosa
a faz que se desdiga.

Nenhüa que no mundo humana viva,
que o Criador formou
por milagre maior entre os maiores,
formou um feito de tal Feitor dino;
Deus não quer que sejais, Senhora, ingrata,
mas que ajudeis üa alma desditosa
que em vós servir periga:

a sofrer esta pena rigorosa
vosso valor me obriga.

 


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Mensaje por Maria Lua el Sáb 12 Sep 2020, 14:27

Aquele único exemplo

 

Aquele único exemplo
de fortaleza heróica e de ousadia,
que mereceu, no templo
da eternidade, ter perpétuo dia
o grão filho de Thétis, que dez anos
flagelo foi dos míseros Troianos;

não menos ensinado
foi nas ervas e médica notícia
que destro e costumado
no soberbo exercício da milícia:
assi que as mãos que a tantos morte deram,
também a muitos vida dar puderam.

E não se desprezou
aquele fero e indómito mancebo,
das artes que ensinou
para o lânguido corpo o intonso Febo
que, se o temido Hector matar podia,
também chagas mortais curar sabia.

Tais artes aprendeu
do semiviro mestre e douto velho,
onde tanto creceu
em virtude, ciências e conselho,
que Télefo, por ele vulnerado,
só dele pôde ser despois curado.

Pois a vós, ó excelente
e ilustríssimo Conde, do céu dado
para fazer presente
de heróis altos o tempo já passado;
em que bem trasladada está a memória
de vossos ascendentes a honra e a glória:

Posto que o pensamento
ocupado tenhais na guerra infesta,
ou do sanguinolento
taprobânico Achem, que o mar molesta,
ou do Cambaico; oculto imigo nosso,
que qualquer deles treme ao nome vosso;

favorecei a antiga
ciência, que já Aquiles estimou;
olhai que vos obriga
verdes que em vosso tempo se mostrou
o fruto daquela Orta, onde florecem
prantas novas, que os doutos não conhecem.

Olhai que, em vossos anos,
uma Orta insigne produze várias ervas
nos campos lusitanos,
as quais aquelas doutas e protervas
Medeia e Circe nunca conheceram,
posto que as leis da Magica excederam.

E vede carregado
d'anos, letras e longa experiência,
um velho que, ensinado
das gangéticas Musas na ciência
podalíria sutil e arte silvestre,
vence o velho Quiron, d'Aquiles mestre;

o qual está pedindo
vosso favor e ajuda ao grão volume
que, agora em luz saindo,
dará da Medicina um novo lume,
e descobrindo irá segredos certos
a todos os antigos encobertos.

Assi que não podeis
negar – como vos pede – benina aura:
que, se muito valeis
na polvorosa guerra índica e maura,
ajudai quem ajuda contra a morte;
e sereis semelhante ao Grego forte.


Poema editado na primeira edição do «Colóquio dos Simples e Drogas da Índia» de Garcia de Orta, obra publicada em Goa em 1563.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 03:56

A quem darão de Pindo as moradoras

 

A quem darão de Pindo as moradoras,
tão doutas como belas,
florescentes capelas
do triunfante louro ou mirto verde,
da gloriosa palma, que não perde
a presunção sublime,
nem por força do peso algum se oprime?

A quem trarão na fralda delicada
rosas a roxa Clóris,
conchas a branca Dóris;
estas, flores do mar, da terra aquelas,
argênteas, ruivas, brancas e amarelas,
com danças e coreias
de fermosas Nereidas e Napeias?

A quem farão os hinos, odes, cantos,
em Tebas Anfion,
em Lesbos Arion,
senão a vós, por quem restituída
se vê da Poesia já perdida
a honra e glória igual,
Senhor Dom Manuel de Portugal?

Imitando os espritos já passados,
gentis, altos, reais,
honra benigna dais
a meu tão baixo quão zeloso engenho.
Por Mecenas a vós celebro e tenho;
e sacro o nome vosso
farei, se algüa cousa em verso posso.

O rudo canto meu, que ressuscita
as honras sepultadas,
as palmas já passadas
dos belicosos nossos Lusitanos,
para tesouro dos futuros anos,
convosco se defende
da lei leteia, à qual tudo se rende.

Na vossa árvore, ornada de honra e glória,
achou tronco excelente
a hera florecente
para a minha, até aqui de baixa estima,
na qual, para trepar, se encosta e arrima;
e nela subireis
tão alto quanto aos ramos estendeis.

Sempre foram engenhos peregrinos
da Fortuna envejados;
que, quanto levantados
por um braço nas asas são da Fama,
tanto por outro a sorte, que os desama,
co peso e gravidade
os oprime da vil necessidade.

Mas altos corações, dignos de império,
que vencem a Fortuna,
foram sempre coluna
da ciência gentil: Octaviano,
Cipião, Alexandre e Graciano,
que vemos imortais:
e vós, que nosso século dourais.

Pois logo, enquanto a cítara sonora
se estimar pelo mundo,
com som douto e jucundo,
e enquanto produzir o Tejo e o Douro
peitos de Marte e Febo crespo e louro,
tereis glória imortal,
Senhor Dom Manuel de Portugal.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 04:30

CORRENTES ÁGUAS FRIAS DO MONDEGO



Correntes águas frias do Mondego,
dignas de ser somente celebradas
de outro engenho, menos que o meu cego:

correi agora, claras e apressadas,
por esses campos verdes saudosos,
banhando-lhe as flores prateadas;

e por desertos montes cavernosos,
vosso natural curso repugnando,
segui novos caminhos espantosos.

Deixai de ir docemente murmurando
pelos troncos dos freixos e salgueiros,
que o Zéfiro move, fresco e brando;

e as fontes de cristal, frescos ribeiros,
refúgio pola sesta dos pastores,
que de vós correm mansos e ligeiros,

todos tornem atrás; sequem-se as flores
que nos alegres prados floreciam
com mil diversidades de lavores.

As mui fermosas Ninfas que saíam
caçar ligeiras feras na montanha.
que em vão achar guarida pretendiam,

da terra a melhor vão da nossa Espanha
buscar novo apascento e novo rio
em triste sítio e entre gente estranha.

O líquido elemento claro e frio
que, retratando suas fermosuras,
refreia o seco ardor do seco estio,

das teias de ouro e sedas que em figuras
vivas ao parecer fazem presente
o passado melhor que as escrituras;

a morada quieta e reluzente
de preciosas pedras fabricada,
no mais fundo do rio e mor corrente;

o retorcido arreio e mui dourada
Frecha de ouro, temida e poderosa,
armas da casta deusa venerada;

o branco lírio e a purpúrea rosa
que, entre outras várias flores, coroava
a branca fronte pura e graciosa;

o bosque, vale ou selva, que gozava
da doce fala e amoroso canto,
que aos mais duros penedos abrandava;

tudo triste, cruel, cheio de espanto
mostre perpétuo inverno e aspereza,
onde jamais se viu seu negro manto.

Os campos se revistam de tristeza;
jamais se veja neles primavera;
em tudo lhe falte arte e natureza.

Nada do que dá o Céu, que a gente espera
se possa achar aqui, nem ache abrigo
Ninfa, gado, pastor, nem ave ou fera.

Tudo, como a mi foi, lhe seja imigo;
que, por força de estrela ou de costume,
fujo do melhor sempre e o pior sigo.

Aquele dos meus olhos doce lume,
por quem alegre fui, por quem sou triste,
e a vida em largas queixas se consume,

donde está, cego Amor? Onde encobriste
um bem de tanto tempo, em um momento,
depois que tão sujeito a ti me viste?

Coa vista, co desejo e pensamento
ver o angélico rosto em vão procuro,
que excede todo o humano entendimento.

Ah, tempo avaro! Ah, Fado esquivo e duro,
que partiste a minha alma, e ma roubaste,
quando eu tinha meu bem por mais seguro!

Ah! Para que o grão preço me tiraste
da vida, num desterro aborrecido,
pois o gosto de o ter, tu mo deixaste?

Ah! Quem se vira dele despedido,
quando se despediu uma confiança,
que lhe fazia glória o ser perdido!

Quantas cousas mudou uma esperança,
quanto prazer já vi, quanto mal vejo.
quanto engano naceu de uma confiança!

Deixem o celebrado e rico Tejo
os coros das Nereidas que cantavam,
que é princípio e fim de meu desejo;

as peregrinas aves, que alternavam
cantigas aprazíveis nos sombrios
vales que amanhecendo retumbavam.

Tornai-vos, olhos meus, tornai-vos rios,
até que a imortal Parca, ou tarde ou cedo,
atalhe tanto mal com duros fios.

Que ainda falar de estado ou tempo ledo
co alívio me tolha meu destino
para que viva de contino em medo.

Mas tão longe do bem, de que era indino,
que pode arrecear que já não visse
o vago pensamento peregrino?

Se a meu ânimo crera, ele me disse,
antes de anoutecer com mil receios
da dor que adivinhou sem que a sentisse.

Fortuna me tirou todos os meios
de ser contente, e mais com apartar-me
destes campos de erva e prazer cheios.

E pois que neles só posso alegrar-me,
jamais quero ver neles alegria,
que só pode servir de magoar-me.

Vai crecendo coa dor, de dia em dia,
o grão temor, tristeza e saudade.
Faça à cansada vida companhia
a perdida esperança e liberdade.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 07:23

AQUELE MOVER DE OLHOS EXCELENTE



Aquele mover de olhos excelente,
aquele vivo espírito inflamado
do cristalino rosto transparente;

aquele gesto imoto e repousado,
que, estando na alma propriamente escrito,
não pode ser em verso trasladado;

aquele parecer, que é infinito
para se compreender de engenho humano,
o qual ofendo enquanto tenho dito,

me inflama o coração dum doce engano.
me enleva e engrandece a fantasia,
que não vi maior glória que meu dano.

Oh, bem-aventurado seja o dia
em que tomei tão doce pensamento,
que de todos os outros me desvia!

E bem-aventurado o sofrimento
que soube ser capaz de tanta pena,
vendo que o foi da causa o entendimento!

Faça-me, quem me mata, o mal que ordena;
trate-me com enganos, desamores;
que então me salva, quando me condena.

E se de tão suaves disfavores
penando vive üa alma consumida,
oh! que doce penar! que doces dores!

E se üa condição endurecida
também me nega a morte, por meu dano,
oh! que doce morrer! que doce vida!

E se me mostra um gesto brando e humano,
como quem de meu mal culpada se acha,
oh! que doce mentir! que doce engano!

E se em querer-lhe tanto ponho tacha,
mostrando refrear o pensamento,
oh! que doce fingir! que doce cacha!

Assi que ponho já no sofrimento
a parte principal de minha glória,
tomando por milhor todo o tormento.

Se sinto tanto bem só na memória
de vos ver, linda Dama, vencedora,
que quero eu mais que ser vossa a vitória?

Se tanto vossa vista mais namora
quanto eu sou menos para merecer-vos,
que quero eu mais que ter-vos por senhora?

Se procede este bem de conhecer-vos
e consiste o vencer em ser vencido,
que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?

Se em meu proveito faz qualquer partido,
só na vista duns olhos tão serenos,
que quero eu mais ganhar que ser perdido?

Se meus baixos espritos, de pequenos,
ainda não merecem seu tormento,
que quero eu mais, que o mais não seja menos?

A causa, enfim, me esforça o sofrimento,
porque, apesar do mal, que me resiste,
de todos os trabalhos me contento;
que a razão faz a pena alegre ou triste.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 08:04



O SULMONENSE OVÍDIO, DESTERRADO



O sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado,

sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;

não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.

O curso das estrelas contemplava
e como, por sua ordem, discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.

Os peixes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
como seu natural lhes permitia.

De suas fontes via estar nascendo
os saudosos rios de cristal,
à sua natureza obedecendo.

Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.

Só sua doce Musa o acompanha,
nos versos saudosos que escrevia,
e lágrimas com que ali o campo banha.

Destarte me afigura a fantasia
a vida com que vivo, desterrado
do bem que noutro tempo possuía.

Ali contemplo o gosto já passado,
que nunca passará pola memória
de quem o tem na mente debuxado.

Ali vejo a caduca e débil glória
desenganar meu erro, coa mudança
que faz a frágil vida transitória.

Ali me representa esta lembrança
quão pouca culpa tenho; e me entristece
ver sem razão a pena que me alcança.

Que a pena que com causa se padece,
a causa tira o sentimento dela;
mas muito dói a que se não merece.

Quando a roxa manhã, fermosa e bela,
abre as portas ao Sol, e cai o orvalho,
e torna a seus queixumes Filomela;

este cuidado, que co sono atalho,
em sonhos me parece; que o que a gente
para descanso tem, me dá trabalho.

E depois de acordado, cegamente
– ou, por melhor dizer, desacordado,
que pouco acordo tem um descontente –

dali me vou, com passo carregado,
a um outeiro erguido, e ali me assento,
soltando a rédea toda a meu cuidado.

Depois de farto já de meu tormento,
dali estendo os olhos saudosos
à parte aonde tenho o pensamento.

Não vejo senão montes pedregosos;
e os campos sem graça e secos vejo
que já floridos vira e graciosos.

Vejo o puro, suave e brando Tejo,
com as côncavas barcas que, nadando,
vão pondo em doce efeito seu desejo:

üas co brando vento navegando,
outras cos leves remos, brandamente
as cristalinas águas apartando.

Dali falo co a água, que não sente,
com cujo sentimento a alma sai
em lágrimas desfeita claramente.

Ó fugitivas ondas, esperai!
que pois me não levais em companhia,
ao menos estas lágrimas levai;

até que venha aquele alegre dia
que eu vá onde vós is, contente e ledo.
Mas tanto tempo quem o passaria?

Não pode tanto bem chegar tão cedo,
porque primeiro a vida acabará
que se acabe tão áspero degredo.

Mas esta triste morte que virá,
se em tão contrário estado me acabasse,
a alma impaciente adonde ira?

Que, se às portas tartáreas chegasse,
temo que tanto mal pola memória
nem ao passar de Lete lhe passasse.

Que, se a Tântalo e Tício for notória
a pena com que vai, que a atormenta,
a pena que lá tem terão por glória.

Esta imaginação me acrecenta
mil mágoas no sentido, porque a vida
de imaginações tristes se sustenta.

Que pois de todo vive consumida,
por que o mal que possui se resuma,
imagina na glória possuída,

até que a noite eterna me consuma,
ou veja aquele dia desejado,
em que Fortuna faça o que costuma;
se nela há i mudar um triste estado.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 08:21

A D. ANTÓNIO DE NORONHA, ESTANDO NA ÍNDIA:


Aquela que de amor descomedido
pelo fermoso moço se perdeu
que só por si de amores foi perdido,

despois que a deusa em pedra a converteu
de seu humano gesto verdadeiro,
a última voz só lhe concedeu;

assi meu mal do próprio ser primeiro
outra cousa nenhüa me consente
que este canto que escrevo derradeiro.

E, se uma pouca vida, estando ausente,
me deixa Amor, e por que o pensamento
sinta a perda do bem de estar presente.

Se, Senhor, vos espanta o sentimento
que tenho em tanto mal, para escrevê-lo
furto este breve tempo a meu tormento;

porque quem tem poder para sofrê-lo,
sem se acabar a vida co cuidado,
também terá poder para dizê-lo.

Nem eu escrevo mal tão costumado,
mas n'alma minha, triste e saudosa,
a saudade escreve, eu traslado.

Ando gastando a vida trabalhosa,
espalhando a contínua saudade
ao longo de üa praia saudosa.

Vejo do mar a instabilidade
como, com seu ruído impetuoso,
retumba na maior concavidade

e, com sua branca escuma, furioso,
na terra, a seu pesar, lhe está tomando
lugar onde se estenda, cavernoso.

Ela, como mais fraca, lhe está dando
as côncavas entranhas, onde esteja
suas salgadas ondas espalhando.

A todas estas cousas tenho enveja
tamanha, que não sei determinar-me,
por mais determinado que me veja.

Se quero em tanto mal desesperar-me,
não posso, porque Amor e Saudade
nem licença me dão para matar-me.

Às vezes cuido em mim se a novidade
e estranheza das cousas, coa mudança,
se poderão mudar üa vontade.

E com isto afiguro na lembrança
a nova terra, o novo trato humano,
a estrangeira gente e estranha usança.

Subo-me ao monte que Hércules tebano
do altíssimo Calpe dividiu,
dando caminho ao mar Mediterrano.

Dali estou tenteando aonde viu
o pomar das Hespéridas, matando
a serpe que a seu passo resistiu.

Em outra parte estou afigurando
o poderoso Anteu que, derrubado,
mais força lhe estava acrecentando;

mas, do hercúleo braço sojugado,
no ar deixou a vida, não podendo
da madre terra já ser ajudado.

Nem com isto, enfim, que estou dizendo,
nem com as armas tão continuadas
de lembranças passadas me defendo.

Todas as cousas vejo demudadas,
porque o tempo ligeiro não consente
que estejam de firmeza acompanhadas.

Vi já que a Primavera, de contente,
de mil cores alegres revestia
o monte, o rio, o campo, alegremente.

Vi já das altas aves a harmonia,
que até aos montes duros convidava
a um modo suave de alegria.

Vi já que tudo, enfim, me contentava
e que, de muito cheio de firmeza,
um mal por mil prazeres não trocava.

Tal me tem a mudança e estranheza
que, se vou pelos campos, a verdura
parece que se seca, de tristeza.

Mas isto é já costume da ventura:
que os olhos que vivem descontentes,
descontente o prazer se lhe afigura.

Ó graves e insofríveis acidentes
de Fortuna e de Amor, que penitência
tão grave dais aos peitos inocentes!

Não basta exprimentar-me paciência,
com temores e falsas esperanças,
sem que também me atente o mal de ausência?

Trazeis um brando ânimo em mudanças,
para que nunca possa ser mudado
de lágrimas, suspiros e lembranças.

E, se estiver ao mal acostumado,
também no mal não consentis firmeza,
para que nunca viva descansado.

Vivia eu sossegado na tristeza,
e ali não me faltava um brando engano,
que tirasse os desejos da fraqueza;

e, vendo-me enganado estar ufano,
deu à roda Fortuna, e deu comigo
onde de novo choro o novo dano.

Já deve de bastar o que aqui digo
para dar a entender o mais que falo,
a quem já viu tão áspero perigo.

E se nos bravos peitos faz abalo
um peito magoado e descontente,
que obriga a quem o ouve a consolá-lo;

não quero mais senão que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra:
ao menos poderei viver contente.

Porque se o duro Fado me desterra
tanto tempo do bem que o fraco esprito
desampare a prisão onde se encerra,

ao som das negras águas de Cocito,
ao pé dos carregados arvoredos
cantarei o que na alma tenho escrito.

E, por entre esses hórridos penedos,
a quem negou Natura o claro dia,
entre tormentos ásperos e medos,

com a trémula voz, cansada e fria,
celebrarei o gesto claro e puro
que nunca perderei da fantasia.

E o músico de Trácia, já seguro
de perder sua Eurídice, tangendo
me ajudará, ferindo o ar escuro.

As namoradas sombras, revolvendo
memórias do passado, me ouvirão;
e, com seu choro, o rio irá crecendo:

Em Salmoneu as penas faltarão,
e das filhas de Belo, juntamente,
de lágrimas os vasos se encherão.

Que se o amor não se perde em vida ausente;
menos se perderá por morte escura;
porque, enfim, a alma vive eternamente,
e amor é afeito d'alma, e sempre dura.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 09:42

Se de meu pensamento



Se de meu pensamento
tanta razão tivera de alegrar-me
quanta de meu tormento
a tenho de queixar-me,
puderas, triste lira, consolar-me.

E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
com tanta desventura,
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.

A ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.

Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!

Ai, gostos fugitivos
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!

Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão, co seu poder, o tempo cura?

Mas, para padecê-la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê-la,
a força me falece
e de todo me cansa e me enfraquece.

Oh! bem-afortunado
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!

As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.

Ficou como pasmado
todo o estígio reino co teu canto;
e, quase descansado,
de teu eterno pranto
cessou de alçar Sísifo o grave canto.

A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.

Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.

Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroe profana?

Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, empedernido,
de algüa tigre fera
da Hircânia nacido,
ou dantre as duras rochas produzido!

Mas que digo, coitado,
e de quem fio em voo minhas querelas?
Só vós, ó do salgado,
húmido reino belas
e claras Ninfas, condoei-vos delas

e, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol' água erguidas,
as tranças gotejando,
saí alegres todas ver qual ando.

Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores;
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.

Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado.


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Mensaje por Maria Lua el Dom 13 Sep 2020, 13:34

O POETA SIMÓNIDES, FALANDO



O Poeta Simónides, falando
co capitão Temístocles, um dia,
em cousas de ciência praticando,

üa arte singular lhe prometia,
que então compunha, com que lhe ensinasse
a se lembrar de tudo o que fazia;

onde tão sutis regras lhe mostrasse
que nunca lhe passasse da memória
em nenhum tempo as cousas que passasse.

Bem merecia, certo, fama e glória
quem dava regra contra o esquecimento
que enterra em si qualquer antiga história.

Mas o capitão claro, cujo intento
bem diferente estava, porque havia
as passadas lembranças por tormento,

«o ilustre Simónides – dizia –
pois tanto em teu engenho te confias
que mostras à memória nova via?

Se me desses üa arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
oh! quanto milhor obra me farias!»

Se este excelente dito ponderado
fosse por quem se visse estar ausente,
em longas esperanças degradado,

oh! como bradaria justamente:
«Simónides, inventa novas artes;
não meças o passado co presente!»

Que, se e forçado andar por várias partes
buscando e vida algum descanso honesto,
que tu, Fortuna injusta, mal repartes;

e se o duro trabalho e manifesto
que, por grave que seja, há-de passar-se
com animoso esprito e ledo gesto;

de que serve às pessoas alembrar-se
do que se passou já, pois tudo passa,
senão de entristecer-se e magoar-se?

Se noutro corpo üa alma se traspassa,
– não, como quis Pitágoras, na morte
mas, como manda Amor, na vida escassa –;

e se este Amor no mundo está de sorte
que na virtude só dum lindo objecto
tem um corpo sem alma, vivo e forte;

onde este objecto falta, que é defecto
tamanho para a vida, que já nela
me está chamando à pena a dura Alecto;

porque me não criara minha estrela
selvático no mundo, e habitante
na dura Cítia, ou na aspereza dela?

Ou no Cáucaso horrendo, fraco infante,
criado ao peito dalgüa tigre hircana?
Homem fora formado de diamante,

porque a cerviz ferina e inumana
não sometera ao jugo e dura lei
daquele que de vida quando engana.

Ou, em pago das águas que estilei,
as que do mar passei foram de Lete,
para que me esquecera o que passei.

Que o bem que a esperança vã promete,
ou a morte o estorva, ou a mudança,
que e mal que üa alma em lágrimas derrete.

Já, Senhor, cairá como a lembrança,
no mal, do bem passado é triste e dura,
pois nace aonde morre a esperança.

E se quiser saber como se apura
nüa alma saudosa, não se enfade
de ler tão longa e mísera escritura.

Soltava Eolo a rédea e liberdade
ao manso Favónio brandamente,
e eu já tinha solta a saudade.

Neptuno tinha posto o seu tridente;
a proa a branca escuma dividia,
co a gente marítima contente.

O coro das Nereidas nos seguia;
os ventos, namorada Galateia
consigo, sossegados, os movia.

Das argênteas conchinhas, Panopeia
andava pelo mar fazendo molhe,
Melaneto, Dinamene, com Ligeia.

Eu, trazendo lembranças por antolhos
trazia os olhos na água sossegada,
e a água sem sossego nos meus olhos.

A bem-aventurança já passada
diante de mim tinha tão presente
como se não mudasse o tempo nada.

E com o gesto imoto e descontente
cum suspiro profundo e mal ouvido
por não mostrar meu mal a toda a gente,

dizia: ó claras Ninfas! Se o sentido
em puro amor tivestes, e inda agora
da memória o não tendes esquecido;

se, porventura, fordes algüa hora
aonde entra o grão Tejo a dar tributo
a Tétis, que vos tendes por Senhora;

ou por verdes o prado verde enxuto,
ou por colherdes ouro rutilante,
das tágicas areias rico fruto;

nelas em verso heróico e elegante,
escrevei cüa concha o que em mim vistes:
pode ser que algum peito se quebrante.

E contando de mim memórias tristes,
os pastores do Tejo, que me ouviam,
ouçam de vós as mágoas que me ouvistes.

Elas, que já no gesto me entendiam
nos meneios das ondas me mostravam
que em quanto lhes pedia consentiam.

Estas lembranças, que me acompanhavam
pola tranquilidade da bonança,
nem na tormenta grave me deixavam.

Porque, chegado ao Cabo da Esperança,
começo da saudade que renova,
lembrando a longa e áspera mudança;

debaixo estando já da estrela nova,
que no novo hemisfério resplandece,
dando do segundo axe certa prova;

eis a noite com nuvens escurece,
do ar supitamente foge o dia,
e o largo oceano se embravece.

A máquina do mundo parecia
que em tormenta se vinha desfazendo,
em serras todo o mar se convertia.

Lutando, Bóreas fero e Noto horrendo
sonoras tempestades levantavam,
das naus as velas côncavas rompendo.

As cordas, co ruído, assoviavam;
os marinheiros, já, desesperados,
com gritos para o Céu o ar coalhavam.

Os raios por Vulcano fabricados
vibrava o fero e áspero Tonante,
tremendo os Pólos ambos, de assombrados!

Ali Amor mostrando-se possante
e que por nenhum modo não fugia,
– mas quanto mais trabalho, mais constante –

vendo a morte diante em mim, dizia:
«Se algüa hora, Senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me lembraria».

Enfim, nunca houve cousa que mudasse
o firme Amor do intrínseco daquele
em cujo peito üa vez de siso entrasse.

Üa cousa, Senhor, por certo assele:
que nunca Amor se afina nem se apura,
enquanto está presente a causa dele.

Destarte me chegou minha ventura
a esta desejada e longa terra,
de todo o pobre honrado sepultura.

Vi quanta vaidade em nós se encerra,
e dos próprios quão pouca; contra quem
foi logo necessário termos guerra:

que üa ilha que o rei de Porcá tem,
que o rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.

Com üa armada grossa, que ajuntara
o viso-rei de Goa, nos partimos
com toda a gente de armas que se achara,

e com pouco trabalho destruímos
a gente no curvo arco exercitada;
com mortes, com incêndios, os punimos.

Era a ilha com águas alagada,
de modo que se andava em almadias;
enfim, outra Veneza trasladada.

Nela nos detivemos sós dous dias,
que foram para alguns os derradeiros,
que passaram de Estige as águas frias.

Que estes são os remédios verdadeiros
que para a vida estão aparelhados
aos que a querem ter por cavaleiros.

Oh! lavradores, bem-aventuradas
se conhecessem seu contentamento!
Como vivem no campo sossegados!

Dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.

Não vêem o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.

Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.

Se lhe falta o vestido perfumado,
e da fermosa cor assíria tinto,
e dos torçais atálicos lavrado;

se não têm as delícias de Corinto,
e se de Pário os mármores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda, e o jacinto;

se suas casas de ouro não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
onde os cabritos seus, comendo, saltam.

Ali amostra o campo várias cores,
vêem-se os ramos pender co fruto ameno,
ali se afina o campo dos pastores;

ali cantara Títiro e Sileno.
Enfim, por estas partes caminhou
a sã Justiça para e Céu sereno.

Ditoso seja aquele que alcançou
poder viver na doce companhia
das mansas ovelhinhas que criou!

Este, bem facilmente alcançaria
as causas naturais de toda a cousa:
como se gera a chuva e neve fria;

os trabalhos do Sol, que não repousa;
e porque nos dá a Lüa a luz alheia,
se tolher-nos de Febo os raios ousa;

e como tão depressa o Céu rodeia;
e como um só os outros traz consigo;
e se é benina ou dura Citereia.

Bem mal pode entender isto que digo
quem há-de andar seguindo o fero Marte,
que traz os olhos sempre em seu perigo.

Porém seja, senhor, de qualquer arte,
que, posto que a Fortuna possa tanto
que tão longe de todo o bem me aparte,

não poderá apartar meu duro canto
desta obrigação sua, enquanto a morte
me não entrega ao duro Radamanto,
se para tristes há tão leda sorte.


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Mensaje por Maria Lua el Lun 14 Sep 2020, 08:50

Se de meu pensamento



Se de meu pensamento
tanta razão tivera de alegrar-me
quanta de meu tormento
a tenho de queixar-me,
puderas, triste lira, consolar-me.

E minha voz cansada,
que noutro tempo foi alegre e pura,
não fora assi tornada,
com tanta desventura,
tão rouca, tão pesada, nem tão dura.

A ser como soía,
pudera levantar vossos louvores;
vós, minha Hierarquia,
ouvíreis meus amores,
que exemplo são ao mundo, já, de dores.

Alegres meus cuidados,
contentes dias, horas e momentos,
oh! quão bem alembrados
sois de meus pensamentos,
reinando agora em mim, duros tormentos!

Ai, gostos fugitivos
ai, glória já acabada e consumida,
cruéis males esquivos,
que me deixais a vida
quão cheia de pesar, quão destruída!

Mas como não é morta
a triste vida já, que tanto dura?
Como não abre a porta
a tanta desventura,
que em vão, co seu poder, o tempo cura?

Mas, para padecê-la,
se esforça meu sujeito e convalece;
que, só para dizê-la,
a força me falece
e de todo me cansa e me enfraquece.

Oh! bem-afortunado
tu, que alcançaste com lira toante,
Orfeu, ser escutado
do fero Radamante,
e cos teus olhos ver a doce amante!

As infernais figuras
moveste com teu canto docemente;
as três Fúrias escuras,
implacáveis à gente,
quietas se tornaram, de repente.

Ficou como pasmado
todo o estígio reino co teu canto;
e, quase descansado,
de teu eterno pranto
cessou de alçar Sísifo o grave canto.

A ordem se mudava
das penas que ordenava ali Plutão,
em descanso tornava
a roda de Ixião,
e em glória quantas penas ali são.

Pelo qual, admirada
a Rainha infernal e comovida,
te deu a desejada
esposa que, perdida,
de tantos dias já tivera a vida.

Pois minha desventura
como já não abranda üa alma humana
que é contra mim mais dura
e mui mais desumana
que o furor de Calírroe profana?

Ó crua, esquiva e fera,
duro peito, cruel, empedernido,
de algüa tigre fera
da Hircânia nacido,
ou dantre as duras rochas produzido!

Mas que digo, coitado,
e de quem fio em voo minhas querelas?
Só vós, ó do salgado,
húmido reino belas
e claras Ninfas, condoei-vos delas

e, de ouro guarnecidas,
vossas louras cabeças levantando
sôbol' água erguidas,
as tranças gotejando,
saí alegres todas ver qual ando.

Saí em companhia
cantando e colhendo as lindas flores;
vereis minha agonia,
ouvireis meus amores,
assentareis meus prantos, meus clamores.

Vereis o mais perdido
e mais mofino corpo que é gerado;
que está já convertido
em choro, e neste estado
somente vive nele o seu cuidado.


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Luís Vaz de Camões - Página 7 Empty Re: Luís Vaz de Camões

Mensaje por Maria Lua el Lun 14 Sep 2020, 08:51


Fogem as neves frias



Fogem as neves frias
dos altos montes, quando reverdecem
as árvores sombrias;
as verdes ervas crecem,
e o prado ameno de mil cores tecem.

Zéfiro brando espira;
suas setas Amor afia agora;
Progne triste suspira
e Filomela chora;
o Céu da fresca terra se enamora.
Vai Vénus Citereia
com os coros das Ninfas rodeada;
a linda Panopeia,
despida e delicada,
com as duas irmãs acompanhada.

Enquanto as oficinas
dos Ciclopes Vulcano esta queimando,
vão colhendo boninas
as Ninfas e cantando,
a terra co ligeiro pé tocando.

Dece do duro monte
Diana, já cansada d'espessura,
buscando a clara fonte
onde, por sorte dura,
perdeu Actéon a natural figura.

Assi se vai passando
a verde Primavera e seco Estio;
trás ele vem chegando
depois o Inverno frio,
que também passará por certo fio.

Ir-se-á embranquecendo
com a frígida neve o seco monte;
e Júpiter, chovendo,
turbará a clara fonte;
temerá o marinheiro a Orionte.

Porque, enfim, tudo passa;
não sabe o tempo ter firmeza em nada;
e nossa vida escassa
foge tão apressada
que, quando se começa, é acabada.

Que foram dos Troianos
Hector temido, Eneias piadoso?
Consumiram-te os anos,
Ó Cresso tão famoso,
sem te valer teu ouro precioso.

Todo o contentamento
crias que estava no tesouro ufano?
Ó falso pensamento
que, à custa de teu dano,
do douto Sólon creste o desengano!

O bem que aqui se alcança
não dura, por possante, nem por forte;
que a bem-aventurança
durável de outra sorte
se há-de alcançar, na vida, para a morte.

Porque, enfim, nada basta
contra o terrível fim da noite eterna;
nem pode a deusa casta
tornar à luz superna
Hipólito, da escura noite averna.

Nem Teseu esforçado,
com manha nem com força rigorosa,
livrar pode o ousado
Pirítoo da espantosa
prisão leteia, escura e tenebrosa.


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Mensaje por Maria Lua el Lun 14 Sep 2020, 08:51


Já calma nos deixou



Já calma nos deixou
sem flores as ribeiras graciosas;
já de todo secou
os cravos, lírios e as purpúreas rosas;
fogem da calma grave os passarinhos
para o sombrio emparo de seus ninhos.

Meneia os altos freixos
a branda viração, de quando em quando,
e dentre vários seixos,
o líquido cristal sai murmurando;
as gotas, que das alvas pedras saltam,
o prado, como pérola, esmaltam.

Da caça já cansada,
busca a casta Titânia a espessura,
onde, a sombra deitada,
logre o doce repouso da verdura,
e sobre o seu cabelo crespo e louro
deixe cair o bosque o seu tesouro.

O Céu desimpedido
mostra o eterno lume das estrelas;
e de flores vestido,
üas vermelhas, outras amarelas,
se mostra alegre o bosque, alegre o monte,
o rio, o arvoredo, o prado, a fonte.

Porque como o minino
que a Júpiter pola águia foi levado,
no cerco cristalino
foi do amador de Clície visitado,
o bosque chorará, chorará a fonte,
o rio, o arvoredo, o prado, o monte.

O mar, que agora, brando,
é das lindas Nereidas cortado,
se irá alevantando
todo, em crespas escumas empolado;
o soberbo furor do negro vento
fará por toda a parte movimento.

Lei e da Natureza
mudar-se desta sorte o tempo leve;
suceder a beleza
da Primavera o fruto; à calma, a neve;
e tornar outra vez, por certo fio,
Outono, Inverno, Primavera, Estio.

Tudo, enfim, faz mudança,
quanto o claro Sol vê, quanto alumia;
nem se acha segurança
em tudo quanto alegra o belo dia;
mudam-se as condições, muda-se a idade,
a bonança, os estados e a vontade.

Só a minha inimiga
a dura condição nunca mudou,
para que o mundo diga
que, nela, lei tão certa se quebrou;
só ela em me não ver sempre está firme,
ou por fugir d'Amor, ou por fugir-me.

Mas já sofrível fora
só ela em me matar mostrar firmeza,
se não achara agora
também em mim mudada a natureza;
pois sempre o coração tenho turbado,
sempre d'escuras nuvens rodeado.

Sempre exprimento os fios
que em contino receio Amor me manda;
sempre os dous caudais rios
que em meus olhos abriu quem nos seus anda,
correm, sem chegar nunca o Verão brando,
que tamanha aspereza vá mudando.

O Sol, sereno e puro,
que no fermoso rosto resplandece,
envolto em manto escuro,
do triste esquecimento, não parece,
deixando em triste noite a triste vida,
que nunca é de luz nova socorrida.

Porém seja o que for:
mude-se, por meu dano, a Natureza;
perca a constância Amor;
a Fortuna inconstante ache firmeza;
e tudo se conjure contra mi,
mas eu firme estarei no que emprendi.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 18 Sep 2020, 07:38

À morte de D. Miguel de Meneses, filho de D. Henrique de Meneses, governador da Casa Cível, que morreu na Índia:


Que novas tristes são, que novo dano,
que mal inopinado incerto soa,
tingindo de temor o vulto humano?

Que vejo as praias húmidas de Goa
ferver com gente atónita e torvada
do rumor que de boca em boca soa.

É morto D. Miguel – ah, crua espada! –
e parte da lustrosa companhia
que se embarcou na alegre e triste armada,

e de espingarda ardente e lança fria
passado pelo torpe e iníquo braço
que nessas altas famas injuria.

Não lhe valeu rodela ou peito de aço,
nem ânimo de Avós altos herdado,
com que se defendeu tamanho espaço;

não ter-se em derredor todo cercado
de corpos de inimigos, que exalavam
a negra alma do corpo traspassado;

não com palavras fortes, que voavam
a animar os incertos companheiros
que, fortes, caem e tímidos viravam.

Mas já postos nos termos derradeiros,
passados por mil partes e cortados
os membros, só do nobre esforço inteiros,

os olhos, de furor acompanhados,
que inda na morte as vidas amedrontam
dos fracos inimigos espantados,

postos no Céu, parece que apresentam
a pura alma a suprema Eternidade,
por quem os Céus e Terra se sustentam.

E pedindo dos erros, que na idade
verde e quase inocente já fazia,
perdão à pia e justa Majestade,

as rosas apartou da neve fria;
e, como flama fraca, a quem falece
seu húmido licor, de que vivia,

nas mãos do Coro angelical, que dece,
se entrega, e vai gozar da vida eterna
que com tão justa morte se merece.

Vai-te, alma, em paz e glória sempiterna!
Vai, que quem pela Lei santa e divina
morre, a dá a Deus, que os Céus governa.

Quando pela razão devida e dina
do Rei, da Pátria, e honra dos passados
sacrificar a vida nos ensina,

nos assentos de estrelas esmaltados
lhe dá lugar a altíssima Clemência
entre os heróis a glória destinados.

Mas, ah! quem sofrerá perpétua ausência
de tão caro Senhor, tão fido amigo!
Quem porá contra mágoas resistência?

Aquele ânimo grande, que do antigo
de seus maiores era alto retrato,
desprezador de todo o vil perigo;

misturado com dece e brando trato
cos iguais juntamente, e cos menores
a todos amoroso, a todos grato;

aquele esprito nobre, onde maiores
esperanças cresciam, se o tão duro
caso as não cortara em novas flores;

em verde idade, siso já maduro,
alegre riso, ledo e aberto peito,
em repousado espírito seguro,

não soberbo e por arte contrafeito,
mas todo puro e, enfim, da natureza
mais para o Céu que para a terra feito.

Também do corpo a humana gentileza,
o bem talhado gesto, que mostrava
forças iguais e manhas com destreza;

a cor, que o fresco rosto matizava,
as rosas, flores novas de alegria,
com que o Verão as faces adornava;

tudo os fios da Morte, que desvia
dos propósitos nossos e salteia,
cortaram cruamente, quando abria.

Deixa pois tu, fermosa Citereia,
do gentil filho e neto de Ciniras
o pranto pela morte horrenda e feia.

E tu, dourado Apolo, que suspiras
pelo crespo Hiacinto, moço caro,
por quem a clara luz ao mundo tiras:

vinde e chorai um moço ao mundo raro,
não de ferino dente vulnerado,
nem de animal algum que haja reparo,

mas só do fero imigo traspassado
que, sem dúvida incerta ou pio medo,
a vida pôs nas mãos de Marte irado.

Este tu também, moço Idálio, quedo;
deixa de dar o venenoso mel
a beber pelos olhos triste e ledo,

que já os fermosos olhos de Miguel
cobertos são do negro e escuro manto
da lei geral, a todos mais cruel.

E vós, filhas de Téspis, que do canto
podeis bem mitigar a lei imensa
dos irmãos generosos e alto pranto,

não consintais que façam larga ofensa
à grande integridade; que, se devem,
não são águas do dano recompensa.

Que já diante os olhos me descrevem,
quando as bocas da fama voadora
ao pátrio e claro Tejo as novas levam,

a profunda tristeza que, em üa hora,
tal posse tomará dos altos peitos
que a razão quase quase deite fora.

Ali, de dor, os corações sujeitos
pesadas lhe serão consolações
e pesados exemplos e respeitos.

Pequena é certo a dor, que com razões
se pôde refrear, nem com memória
de outros antigos e íntegros varões.

Mas porém se igualais a vida à glória,
meu grande Dom Filipe, e pretendeis
deixar de vossas obras larga história,

eu não vos admoesto que estreiteis
o coração na estóica disciplina,
onde livre de efeitos vos mostreis,

que mal natura nossa determina
medo, esperanças, dores e alegria,
como o Cínico velho nos ensina.

Imanidade estúpida – diria
o sulmonense canto – e vil rudeza
e não sentir efeitos, que a alma cria.

Porém, se não sentir nada é bruteza,
e se paixão de vida se consente,
também o sentir muito é já fraqueza.

Se dói a opinião do mal presente
e medo e opinião do mal futuro,
são, enfim, tudo opiniões da gente.

O verdadeiro sábio está seguro
de leves alegrias e de espanto
de dor, que turba da alma o licor puro.

Inda antes que aconteça o riso e o pranto
os tem já no sentido meditados,
livre está de alvoroço e de quebranto.

E como de alta torre vê cuidados
humanos vãos, e aquela diferença
de ambições e cobiças e pecados,

todo caso acha nele só presença
que, como as febres são da carne humana,
assi os efeitos d'alma são doença.

Se esta doutrina credes, que é profana,
ponde os olhos na nossa, que é divina,
e sobre todas santa e soberana.

Vereis Arão, que não se contamina
sobre os montes seus, que defendida
a dor lhe foi da santa disciplina.

Não chega a ver parentes, que da vida
partidos são, que na alma a Deus agrada
que nenhüa aflição do mundo impida.

Nós somos geração a Deus dicada
sacerdotal, que em tempo nenhum deve
do gentílico culto ser tocada.

era porque ainda as portas não quebraram
do Céu sereno aquelas mãos cravadas
que os antigos contágios alimparam;

e também por ornar as sempre usadas
pompas do funeral enterramento
com públicas exéquias costumadas.

Esta alta fortaleza e sofrimento,
como a forte Varão, vos e devido
e como lei do santo documento.

Bem conheço que o corpo assi perdido,
que do sepulcro nobre aqui carece,
será de aves ou feras consumido.

Mas também nisto vi que se parece
co do grão Bisavô, que pela vida
real a sua às lanças oferece;

fazendo com seus membros impedida
a passagem aos feros Tingitanos,
ficou sem sepultura merecida.

E lá nos aposentos soberanos
o recebem da palma coroado,
desprezando do corpo baixo os danos.

E ele diz que das gentes enterrado
qualquer corpo será; mas quem morreu
por Deus, é só dos Anjos sepultado.

Que mais rico e fermoso mausoléu,
que pirâmides altas, que figura
de mortalha, que chegue a estar no Céu!

Fácil é a perda aqui da sepultura;
Diógenes prudente e Teodoro
pouco sentem de corpo essa jactura.

Assi fermoso, inteiro, assi decoro,
adora quem o tem, como o tomou,
quando se ouvir o extremo som sonoro.

Mas, oh! que temor súpito ocupou
vosso peito famoso, ó Portugueses?
Que pávido temor vos lanceou?

Que lançadas, que golpes, que reveses
vos fizeram fazer tamanha injúria
aos lusitanos bélicos arneses?

Ou já de Capitão sobeja incúria
ou a fraqueza? Não, que ele sustentava
co seu corpo dos bárbaros a fúria.

Ou do férreo cano a força brava
com estrondos que atroam mar e terra
que os corações no peito congelava?

Ou quem vos fez que os ímpetos da guerra
não sustenteis com valor sempre ousado,
desprezando o furor que a vida enterra?

A vida pela Pátria e pelo Estado
pondo, vossos Avós a nós deixaram
terras, mares e exemplo sublimado.

Eles a desprezar nos ensinaram
todo o temor; pois como agora os netos,
supitamente, assi degeneraram?

Não podem certo, não, viver quietos
com feia infâmia peitos generosos
em públicos lugares, nem secretos.

Mortos os espartanos valerosos
da fera multidão, fazendo extremos,
tais epitáfios tinham gloriosos:

Dirás, hóspede, tu, que aqui jazemos
passado do inimigo fero, enquanto
às santas leis da Pátria obedecemos.

Fugindo os Persas vão com frio espanto,
mas acham as mulheres no caminho
amostrando-lhe o ventre sem ter manto:

«Pois fugis do perigo, que é vizinho,
fracos! vinde esconder-vos – lhe diziam –
outra vez no materno, escuro ninho.»

Vedes quais com mais glória ficariam:
se aqueles que enfim morrem pelo Estado,
se os outros, que as mulheres injuriam.

Mas tu, claro Miguel, que, já acordado
deste sonho tão breve, estás naquela
torre do Céu, seguro e repousado,

onde, com Deus unida a forte e bela
alma , com teus maiores reluzindo,
por cada chaga tens üa clara estrela,

os pés o cristalino Céu medindo,
pisando essas lucíferas Esferas,
já da terrena os olhos encobrindo,

agora um curso e outro consideras,
agora a verdade dos mortais,
que tu também passaras, se viveras.
Mais a pena cantara, a poder mais.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 18 Sep 2020, 07:38

Ao muito ilustre Senhor D. Leonis Pereira sobre o livro que lhe oferece Pêro de Magalhães; tercetos de Luís de Camões:


Despois que Magalhães teve tecida
a breve história sua, que ilustrasse
a terra Santa Cruz, pouco sabida,

imaginando a quem a dedicasse,
ou com cujo favor defenderia
seu livro de algum zoilo que ladrasse;

tendo nisto ocupada a fantasia,
lhe sobreveio um sono repousado,
antes que o Sol abrisse o claro dia.

Em sonhos lhe aparece, todo armado,
Marte, brandindo a lança furiosa,
com que fez quem o viu todo enfiado,

dizendo, em voz pesada e temerosa:
«Não é justo que a outrem se ofereça
nenhüa obra que possa ser famosa,

senão a quem por armas resplandeça
no mundo todo com tal nome e fama
que louvor imortal sempre mereça.»

Isto assi dito, Apolo, que da flama
celeste guia os carros, de outra parte
se lhe apresenta, e por seu nome o chama,

dizendo: «Magalhães, posto que Marte
com seu terror te espante, todavia
comigo deves só aconselhar-te.

Um barão sapiente, em quem Talia
pôs seus tesouros e eu minha ciência,
defender tuas obras poderia.

É justo que a escritura na prudência
ache sua defensão, porque a dureza
das armas é contrária da eloquência.»

Assi disse e, tocando com destreza
a cítara dourada, começou
de mitigar de Marte a fortaleza.

Mas Mercúrio, que sempre costumou
a despartir porfias duvidosas,
co caduceu na mão, que sempre usou,

determina compor as perigosas
opiniões dos deuses inimigos,
com razões boas, justas e amorosas.

E disse: «Bem sabemos dos antigos
heróis e dos modernos, que provaram
de Belona os gravíssimos perigos,

que também muitas vezes ajuntaram
às armas eloquência, porque as Musas
mil Capitães na guerra acompanharam.

Nunca Alexandro ou César, nas confusas
guerras deixaram o estudo em breve espaço;
nem armas das ciências são escusas.

Nüa mão livros, noutra ferro e aço:
a üa rege e ensina, a outra fere;
mais co saber se vence que co braço.

Pois logo, barão grande, se requere
que com teus dões Apolo ilustre seja,
e de ti, Marte, palma e glória espere.

Este vos darei eu, em quem se veja
saber e esforço no sereno peito,
que é Dom Leonis, que faz ao mundo enveja.

Deste as Irmãs, em vendo o bom sujeito,
todas nove nos braços o tomaram,
criando-o co seu leite no seu leito.

As artes e ciência lhe ensinaram,
inclinação divina lhe influíram
as virtudes morais, que o logo ornaram.

Daqui os exercícios o seguiram
das armas no Oriente, onde primeiro
um soldado gentil instituíram.

Ali tais provas fez de cavaleiro
que, de cristão magnânimo e seguro,
a si mesmo venceu por derradeiro.

Depois, já capitão forte e maduro,
governando toda Áurea Quersoneso,
lhe defendeu co braço o débil muro:

porque vindo a cercá-la todo o peso
do poder dos Achéns, que se sustenta
do sangue alheio, em fúria todo aceso,

este só que a ti, Marte, representa,
o castigou de sorte que o vencido
de ter quem fique vivo se contenta.

Pois tanto que o grão Reino defendido
deixou, segunda vez com maior glória
para o ir governar foi elegido.

E não perdendo ainda da memória
os amigos o seu governo brando,
os imigos o dano da vitória,

uns, com amor intrínseco, esperando
estão per ele, e es outros, congelados,
o vão com temor frio receando.

Pois vede se serão desbaratados
de todo por seu braço, se tornasse,
e dos mares da Índia degradados!

Porque é justo que nunca lhe negasse
o conselho do Olimpo alto e subido
favor e ajuda, com que pelejasse.

Pois aqui certo está bem dirigido
de Magalhães o livro, este se deve
de ser de vós, ó deuses, escolhido.»

Isto Mercúrio disse; e logo em breve
se conformaram nisto Apolo e Marte,
e voou juntamente o sono leve.

Acorda Magalhães, e já se parte
a vos oferecer, Senhor famoso,
tudo o que nele pôs ciência e arte.

Tem claro estilo, engenho curioso,
pera poder de vós ser recebido
com mão benina, de ânimo amoroso.

Porque se de não ser favorecido,
um claro esprito fica baixo e escuro:
e seja ele convosco defendido,
como o foi de Malaca o fraco muro.


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Mensaje por Maria Lua el Vie 18 Sep 2020, 07:39

À PAIXÃO DE CRISTO NOSSO SENHOR



Se quando contemplamos as secretas
causas, por que o mundo se sustenta,
o revolver dos céus e dos planetas;

e se quando a memória se apresenta
este curso do sol, que é tão medido
que um ponto só não mingua nem se aumenta;

aquele efeito, tarde conhecido,
da lüa, em ser mudável tão constante
que minguar e crecer é seu partido;

aquela natureza tão possante
dos céus, que tão conformes e contrários
caminham, sem parar um breve instante;

aqueles movimentos ordinários,
a que responde o tempo, que não mente,
cos efeitos da terra necessários;

se quando, enfim, revolve sutilmente
tantas cousas a leve fantasia,
sagaz, escrutadora e diligente;

vê bem, se da razão só não desvia,
o altíssimo Ser, puro e divino,
que tudo pode, manda, move e cria;

sem fim e sem começo, um ser contino;
um Padre grande, a quem tudo é possível,
por mais árduo que seja ao homem indino;

um saber infinito, incompreensível;
üa verdade que nas cousas anda,
que mora no visível e invisível.

Esta potência, enfim, que tudo manda,
esta causa das causas, revestida
foi desta nossa carne miseranda.

Do amor e da justiça compelida,
polos erros da gente, em mãos da gente
– como se Deus não fosse – perde a vida.

o cristão descuidado e negligente,
pondera isto que digo, repousado;
não passes por aqui tão levemente.

Não, que aquele Deus alto incriado,
Senhor das cousas todas, que fundou
o céu, a terra, o fogo e o mar irado,

não do confuso caos, como cuidou
a falsa teologia e povo escuro,
que nesta só verdade tanto errou;

não dos átomos falsos de Epicuro;
não do largo oceano, como Tales,
mas só do pensamento casto e puro.

Olha, animal humano, quanto vales,
que por ti este grande Deus padece
novo modo de morte, novos males.

Olha que o sol no Olimpo se escurece,
não por oposição doutro planeta,
mas só porque virtude lhe falece.

Não vês que a grande máquina inquieta
do mundo se desfaz toda em tristeza,
e não por natural causa secreta?

Não vês como se perde a natureza;
o ar se turba; o mar, batendo, geme,
desfazendo das pedras a dureza?

Não vês que os montes caem, a terra treme
e que, até na remota e grande Atenas
o sábio Dionísio sente e teme?

Ó sumo Deus, tu mesmo te condenas,
polo mal em que eu só sou tão culpado,
a tamanhas afrontas, tantas penas!

Por mim, Senhor, no mundo reputado
por falso e por quebrantador da lei,
a fama a ti se põe de meu pecado.

eu, Senhor, sou ladrão; tu, sumo Rei;
eu, só, furtei; tu, com ladrões padeces;
a pena a ti se dá do que eu pequei.

Eu, servo sem valor; tu, sumo preço,
em preço vil te pões, por me tirares
do cativeiro eterno, que mereço.

Eu, por perder-te; e tu, por me ganhares,
te dás aos homens baixos, que te vendem,
só para os homens presos resgatares.

A ti, que as almas soltas, a ti prendem;
a ti, sumo Juiz, ante juízes
te acusam, polo error dos que te ofendem.

Chamam-te malfeitor, não contradizes;
sendo tu dos profetas a certeza,
dizem que quem te fere profetizes.

Riem-se de ti; tu choras a crueza
que sobre eles virá. A gente dura,
por quem tu vens ao mundo, te despreza.

O teu rosto, de cuja fermosura
se veste o céu e o sol resplandecente,
diante de quem muda está a Natura,

com cruas bofetadas da vil gente,
de precioso sangue está banhado
cuspido, arrepelado cruelmente.

Aquele corpo tenro e delicado,
sobre todos os santos sacrossanto,
de açoutes rigorosos flagelado;

depois coberto mal de um pobre manto,
que se pegava às carnes magoadas,
para dobrar-lhe as dores outro tanto.

Magoavam-no as chagas não curadas,
um tormento causando-lhe, excessivo,
ao despir pelas mãos cruéis e iradas.

As santíssimas barbas de Deus vivo,
de resplandor ornadas, lhe arrancavam,
para desempenhar Adão cativo.

Com cordas pelas ruas o levavam,
levando sobre os ombros o troféu
das vitórias que as almas alcançavam.

e tu que passas, homem cireneu,
ajuda um pouco este Homem verdadeiro,
que agora como humano enfraqueceu!

Olha que o corpo, aflito do marteiro
e dos longos jejuns debilitado,
não pode já co peso do madeiro.

Oh! Não enfraqueçais, Deus encarnado!
Essas quedas, que tanto vos magoam,
suportai, Cavaleiro sublimado!

Que aquelas altas vozes que lá soam,
dos padres são que estão no Limbo escuro,
que já de louro e palma vos coroam.

Todos vos bradam que subais ao muro
da cidade infernal, e que arvoreis
em cima essa bandeira mui seguro.

Oh Santos Padres, não vos apresseis,
que muito mais a Deus que a vós custaram
essas duras prisões em que jazeis!

Aquelas mãos, que o mundo edificaram,
aqueles pés, que pisam as estrelas,
com duríssimos pregos se encravaram.

Mas qual será a pessoa, que as querelas
da angustiada Virgem contemplasse,
que não se mova a dor e a mágoa delas,

e que dos olhos seus não estilasse
tanta cópia de lágrimas ardentes
que carreiras no rosto assinalasse?

Oh! Quem lhe vira os olhos refulgentes
desfazendo-se em lágrimas, regando
aquelas belas faces excelentes!

Quem a vira cos gritos ir tocando
as estrelas, a quem responde o Céu,
cos acentos dos Anjos retumbando!

Quem vira quando o claro rosto ergueu
a ver o Filho, que na Cruz pendia,
donde a nossa saúde descendeu!

Que mágoas tão chorosas que diria!
Que palavras tão míseras e tristes
para o Céu, para a gente espalharia!

Pois que seria, Virgem, quando vistes
com fel nojoso e com vinagre amaro
matar a sede ao Filho que paristes?

Não era este o licor suave e claro
que, para o confortar, então daríeis
a quem vos era, mais que a vida, caro.

Como, Virgem Senhora, não corríeis
a dar tetas puras ao Cordeiro
que padecer na Cruz com sede víeis?

Não só era esse, Senhora, o verdadeiro
poto, que vosso Filho desejava,
morrendo polo mundo num madeiro;

mas era a salvação, que ali ganhava
para o mísero Adão, que ali bebia
na fonte, que do peito lhe manava.

Pois, ó pura e Santíssima Maria,
que enfim sentistes esta mágoa, quanto
a gravidade dela o requeria;

dessa Fonte sagrada e peito santo
me alcançai üa gota, com que lave
a culpa, que me agrava e pesa tanto.

Do licor salutífero e suave
me abrangei, com que mate a sede dura
deste mundo tão cego, torpe e grave.

Assi, Senhora, toda a criatura
que vive e viverá, que não conhece
a Lei do vosso Filho, santa e pura;

o falsíssimo herege, que carece
da graça, e com danado e falso esprito
perturba a Santa Igreja, que florece;

o povo pertinaz, no antigo rito,
que só o desterro seu, que tanto dura,
lhe diz que é pena igual ao seu delito;

o torpe Ismaelita, que mistura
as leis, e com preceitos viciosos
na terra estende a seita falsa, impura;

os idólatras maus, supersticiosos,
vários de opiniões e de costume,
levados de conceitos fabulosos;

as mais remotas gentes, onde o lume
da nossa fé não chega, nem que tenham
religião algüa se presume;

assi todos, enfim, Senhora, venham
confessar um só Deus crucificado,
e por nenhum respeito se detenham.

Mas de todos o vício já passado,
o Seu nome co vosso, neste dia,
seja por todo mundo celebrado;
e respondam os Céus: JESUS, MARIA.


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Te encuentro
tus huellas son tatuajes en mi corazón
intensas e inmensas
como el vino de la pasión
y la rosa roja del amor
eternas y etereas
como los sortilegios de una Luna Creciente... 


Maria Lua




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