Aires de Libertad

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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC) - Página 26 Empty

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FERNANDO PESSOA (!3/ 06/1888- 30/11/1935) ( ELE MESMO, ALBERTO CAEIRO, RICARDO REIS, ÀLVARO DE CAMPOS, BERNARDO SOARES, ETC)

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Mensaje por Maria Lua Dom 02 Mayo 2021, 06:11

86.

Penso se tudo na vida não será a degeneração de tudo’. O ser não será uma
aproximação — uma véspera, ou uns arredores.
Assim como o Cristianismo não foi senão a degeneração bastarda do
neoplatonismo abaixado, a judaização do helenismo pelo romano, assim nossa
época, senil e cancerígena, é o desvio múltiplo de todos os grandes propósitos,
confluentes ou opostos, de cuja falência surgiu a era com que faliram .
Vivemos um entreato com orquestra.
Mas que tenho eu, neste quarto andar, com todas estas sociologias? Tudo
isto é-me sonho, como as princesas da Babilónia, e o ocuparmo-nos da
humanidade é fútil, fútil — uma arqueologia do presente.
Sumir-me-ei entre a névoa, como um estrangeiro a tudo, ilha humana
desprendida do sonho do mar e navio com ser supérfluo à tona de tudo.


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Mensaje por Maria Lua Miér 19 Mayo 2021, 06:56

87.

A metafísica pareceu-me sempre uma forma prolongada da loucura latente.
Se conhecêssemos a verdade, vê-la-íamos; tudo o mais é sistema e arredores.
Basta-nos, se pensarmos, a incompreensibilidade do universo; querer
compreendê-lo é ser menos que homens, porque ser homem é saber que se
não compreende.
Trazem-me a fé como um embrulho fechado numa salva alheia. Querem
que o aceite, mas que o não abra. Trazem-me a ciência, como uma faca num
prato, com que abrirei as folhas de um livro de páginas brancas. Trazem-me a
dúvida, como pó dentro de uma caixa; mas para que me trazem a caixa se ela
não tem senão pó?
Na falta de saber, escrevo; e uso os grandes termos da Verdade alheios
conforme as exigências da emoção. Se a emoção é clara e fatal, falo,
naturalmente, dos deuses e assim a enquadro numa consciência do mundo
múltiplo. Se a emoção é profunda, falo, naturalmente, de Deus, e assim a
engasto numa consciência una. Se a emoção é um pensamento, falo,
naturalmente, do Destino, e assim a encosto à parede.
Umas vezes o próprio ritmo da frase exigirá Deus e não Deuses: outras
vezes, impor-se-ão as duas sílabas de Deuses e mudo verbalmente de
universo; outras vezes pesarão, ao contrário, as necessidades de uma rima
íntima, um deslocamento do ritmo, um sobressalto de emoção e o politeísmo
ou o monoteísmo amolda-se e prefere-se. Os Deuses são uma função do
estilo.



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Mensaje por Maria Lua Lun 04 Oct 2021, 07:49

88.



Onde está Deus, mesmo que não exista? Quero rezar e chorar, arrependerme de crimes que não cometi, gozar ser perdoado como uma carícia não
propriamente materna.
Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso
como uma noite de verão, e contudo próximo, quente, feminino, ao pé de
uma lareira qualquer... Poder ali chorar coisas impensáveis, falências que nem
sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grandes dúvidas arrepiadas de
não sei que futuro...
Uma infância nova, uma ama velha outra vez, e um leito pequeno onde
acabar por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção
que se torna morna, de perigos grandes — penetravam em jovens cabelos
louros como o trigo... E tudo isto muito grande, muito eterno, definitivo para
sempre, da estatura única de Deus, lá no fundo triste e sonolento da realidade
última das Coisas...
Um colo ou um berço ou um braço quente em torno ao meu pescoço...
Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar... O ruído de lume
na lareira... Um calor no inverno... Um extravio morno da minha consciência...
E depois sem som, um sonho calmo num espaço enorme, como a lua
rodando entre estrelas...
Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um
cuidado cheio de carinho — com vontade de lhes dar beijos — os meus
brinquedos, as palavras, as imagens, as frases — fico tão pequeno e
inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente
triste!...
Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas
ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que
dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. Do meu pai
sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia
de nada. Às vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e
faço-me uma ideia dele a que possa amar... Mas depois penso que o não
conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez não seja nunca esse o pai da
minha alma...
Quando acabará isto tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes
degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus
farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para sua casa e me
desse calor e afeição... As vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o
posso pensar... Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no
passeio... Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum... E de
tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor
quis para seu filho adotivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de
brinquedos.
Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó
Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci... Torna a
dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com
que eu dormia...













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Mensaje por Maria Lua Sáb 09 Oct 2021, 10:41

89.


A única atitude digna de um homem superior é o persistir tenaz de uma
atividade que se reconhece inútil, o hábito de uma disciplina que se sabe
estéril, e o uso fixo de normas de pensamento filosófico e metafísico cuja
importância se sente ser nula.


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Mensaje por Maria Lua Lun 25 Oct 2021, 18:09

90.

Reconhecer a realidade como uma forma da ilusão, e a ilusão como uma
forma da realidade, é igualmente necessário e igualmente inútil. A vida
contemplativa, para sequer existir, tem que considerar os acidentes objetivos
como premissas dispersas de uma conclusão inatingível; mas tem ao mesmo
tempo que considerar as contingências do sonho como em certo modo dignas
daquela atenção a elas, pela qual nos tornamos contemplativos.
Qualquer coisa, conforme se considera, é um assombro ou um estorvo, um
tudo ou um nada, um caminho ou uma preocupação. Considerá-la cada vez de
um modo diferente é renová-la, multiplicá-la por si mesma. É por isso que o
espírito contemplativo que nunca saiu da sua aldeia tem contudo à sua ordem
o universo inteiro. Numa cela ou num deserto está o infinito. Numa pedra
dorme-se cosmicamente.
Há, porém, ocasiões da meditação — e a todos quantos meditam elas
chegam — em que tudo está gasto, tudo velho, tudo visto, ainda que esteja
por ver. Porque, por mais que meditemos qualquer coisa, e, meditando-a, a
transformemos, nunca a transformamos em qualquer coisa que não seja
substância de meditação. Chega-nos então a ânsia da vida, de conhecer sem
ser com o conhecimento, de meditar só com os sentidos ou pensar de um
modo táctil ou sensível, de dentro do objeto pensado, como se fôssemos água
e ele esponja. Então também temos a nossa noite, e o cansaço de todas as
emoções aprofunda-se com serem emoções do pensamento, já de si
profundas. Mas é uma noite sem repouso, sem Luar, sem estrelas, uma noite
como se tudo houvesse sido virado do avesso — o infinito tornado interior e
apertado, o dia feito forro negro de um trajo desconhecido.
Mais vale, sim, mais vale sempre ser a lesma humana que ama e
desconhece, a sanguessuga que é repugnante sem o saber. Ignorar como vida!
Sentir como esquecimento! Que episódios perdidos na esteira verde branca
das naus idas, como um cuspo frio do leme alto a servir de nariz sob os olhos
das câmaras velhas!




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Mensaje por Maria Lua Lun 25 Oct 2021, 18:11

91.


Uma vista breve de campo, por cima de um muro dos arredores, liberta-me
mais completamente do que uma viagem inteira libertaria outro. Todo ponto
de visão é um ápice de uma pirâmide invertida, cuja base é indeterminável.
Houve tempo em que me irritavam aquelas coisas que hoje me fazem
sorrir. E uma delas, que quase todos os dias me Lembram, é a insistência com
que os homens quotidianos e ativos na vida sorriem dos poetas e dos artistas.
Nem sempre o fazem, como creem os pensadores dos jornais, com um ar de
superioridade. Muitas vezes o fazem com carinho. Mas é sempre como quem
acarinha uma criança, alguém alheio à certeza e à exatidão da vida.
Isto irritava-me antigamente, porque supunha, como os ingénuos, e eu era
ingénuo, que esse sorriso dado às preocupações de sonhar e dizer era um
eflúvio de uma sensação íntima de superioridade. E somente um estalido de
diferença. E se antigamente eu considerava esse sorriso como um insulto,
porque implicasse uma superioridade, hoje considero-o como uma dúvida
inconsciente; como os homens adultos muitas vezes reconhecem nas crianças
uma agudeza de espírito superior à própria, assim nos reconhecem, a nós que
sonhamos e o dizemos, uma qualquer coisa diferente de que eles desconfiam
como estranha. Quero crer que, muitas vezes, os mais inteligentes deles entrevejam a nossa superioridade; e então sorriem superiormente, para esconder
que a entreveem.
Mas essa nossa superioridade não consiste naquilo que tantos sonhadores
têm considerado como a superioridade própria. O sonhador não é superior ao
homem ativo porque o sonho seja superior à realidade. A superioridade do
sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o
sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do
que o homem de ação. Em melhores e mais diretas palavras, o sonhador é que
é o homem de ação.
Sendo a vida essencialmente um estado mental, e tudo, quanto fazemos ou
pensamos, válido para nós na proporção em que o pensamos válido, depende
de nós a valorização. O sonhador é um emissor de notas, e as notas que emite
correm na cidade do seu espírito do mesmo modo que as da realidade. Que
me importa que o papel-moeda da minha alma nunca seja convertível em
ouro, se não há ouro nunca na alquimia factícia da vida?
Depois de todos nós vem o dilúvio, mas é só depois de todos nós.
Melhores, e mais felizes, os que, reconhecendo a ficção de tudo, fazem o
romance antes que ele lhes seja feito, e, como Maquiavel, vestem os trajes da
corte para escrever bem em segredo.


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Mensaje por Maria Lua Lun 25 Oct 2021, 18:12

92.


(a child hand's playing with cotton-reels, etc.)



Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da
minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida
interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a
janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador. A quem me falou de viver nunca
prestei atenção. Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca
pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para
mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem
podia imaginar. À vida nunca pedi senão que passasse por mim sem que eu a
sentisse. Do amor apenas exigi que nunca deixasse de ser um sonho
longínquo. Nas minhas próprias paisagens interiores, irreais todas elas, foi
sempre o longínquo que me atraiu, e os aquedutos que se esfumavam —
quase na distância das minhas paisagens sonhadas, tinham uma doçura de
sonho em relação às outras partes da paisagem — uma doçura que fazia com
que eu as pudesse amar.
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda, e só na
minha morte me abandonará. Não alinho hoje nas minhas gavetas carros de
linha e peões de xadrez — com um bispo ou um cavalo acaso sobressaindo –
mas tenho pena de o não fazer.., e alinho na minha imaginação,
confortavelmente, como quem no inverno se aquece a uma lareira, figuras que
habitam, e são constantes e vivas, na minha vida interior. Tenho um mundo
de amigos dentro de mim, com vidas próprias, reais, definidas e imperfeitas.
Alguns passam dificuldades, outros têm uma vida boémia, pitoresca e
humilde. Há outros que são caixeiros-viajantes. (Poder sonhar-me caixeiroviajante foi sempre uma das minhas grandes ambições – irrealizável
infelizmente!) Outros moram em aldeias e vilas lá para as vizinhanças de um
Portugal dentro de mim; vêm à cidade, onde por acaso os encontro e
reconheço, abrindo-lhes os braços, numa atração ... E quando sonho isto,
passeando no meu quarto, falando alto, gesticulando.., quando sonho isto, e
me visiono encontrando-os, todo eu me alegro, me realizo, me pulo, brilhamme os olhos, abro os braços e tenho uma felicidade enorme, real.
Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!
O que eu sinto quando penso no passado que tive no tempo real, quando
choro sobre o cadáver da vida da minha infância ida,... Isso mesmo não atinge
o fervor doloroso e trémulo com que choro sobre não serem reais as figuras
humildes dos meus sonhos, as próprias figuras secundárias que me recordo de
ter visto uma só vez, por acaso, na minha pseudovida, ao virar uma esquina da
minha visionação, ao passar por um portão numa rua que subi e percorri por
esse sonho fora.
A raiva de a saudade não poder reavivar e reerguer nunca é tão lacrimosa
contra Deus, que criou impossibilidades, do que quando medito que os meus
amigos de sonho, com quem passei tantos detalhes de uma vida suposta, com
quem tantas conversas iluminadas, em cafés imaginários, tenho tido, não
pertenceram, afinal, a nenhum espaço onde pudessem ser, realmente,
independentes da minha consciência deles!
Oh, o passado morto que eu trago comigo e nunca esteve senão comigo!
As flores do jardim da pequena casa de campo e que não existiu senão em
mim. As hortas, os pomares, o pinhal, da quinta que foi só um meu sonho! As
minhas vilegiaturas supostas, os meus passeios por um campo que nunca
existiu! As árvores de à beira da estrada, os atalhos, as pedras, os camponeses
que passam... Tudo isto, que nunca passou de um sonho, está guardado na
minha memória a fazer de dor e eu, que passei horas a sonhá-los, passo horas
depois a recordar tê-los sonhado e é, na verdade, saudade que eu tenho, um
passado que eu choro, uma vida-real morta que fito, solene no seu caixão.
Há também as paisagens e as vidas que não foram inteiramente interiores.
Certos quadros, sem subido relevo artístico, certas oleogravuras que havia em
paredes com que convivi muitas horas — passam a realidade dentro de mim.
Aqui a sensação era outra, mais pungente e triste. Ardia-me não poder estar
ali, quer eles fossem reais ou não. Não ser eu, ao menos, uma figura a mais
desenhada ao pé daquele bosque ao luar que havia numa pequena gravura de
um quarto onde dormi já não em pequeno!
Não poder eu pensar que estava ali oculto, no bosque à beira do rio, por
aquele luar eterno (embora mal desenhado), vendo o homem que passa num
barco por baixo do debruçar-se de um salgueiro! Aqui o não poder sonhar
inteiramente doía-me. As feições da minha saudade eram outras. Os gestos do
meu desespero eram diferentes. A impossibilidade que me torturava era de
outra ordem de angústia. Ah, não ter tudo isto um sentido em Deus, uma
realização conforme o espírito dos nossos desejos, não sei onde, por um
tempo vertical, consubstanciado com a direção das minhas saudades e dos
meus devaneios! Não haver, pelo menos só para mim, um paraíso feito disto!
Não poder eu encontrar os amigos que sonhei, passear pelas ruas que criei,
acordar, entre o ruído dos galos e das galinhas e o rumorejar matutino da casa,
na casa de campo em que eu me supus... E tudo isto mais perfeitamente
arranjado por Deus, posto naquela perfeita ordem para existir, na precisa
forma para eu o ter que nem os meus próprios sonhos atingem senão na falta
de uma dimensão do espaço intimo que entretém essas pobres realidades...
Ergo a cabeça de sobre o papel em que escrevo... E cedo ainda. Mal passa o
meio-dia e é domingo. O mal da vida, a doença de ser consciente, entra com o
meu próprio corpo e perturba-me. Não haver ilhas para os inconfortáveis,
alamedas vetustas, inencontráveis de antes, para os isolados no sonhar! Ter de
viver e, por pouco que seja, de agir; ter de roçar pelo facto de haver outra
gente, real também, na vida! Ter de estar aqui escrevendo isto, por me ser
preciso à alma fazê-lo, e, mesmo isto, não poder sonhá-lo apenas, exprimi-Lo
sem palavras, sem consciência mesmo, por uma construção de mim próprio
em música e esbatimento, de modo que me subissem as lágrimas aos olhos só
de me sentir expressar-me, e eu fluísse, como um rio encantado, por lentos
declives de mim próprio, cada vez mais para o inconsciente e o Distante, sem
sentido nenhum exceto Deus.


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Mensaje por Maria Lua Lun 25 Oct 2021, 18:13

93.


Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade
da consciência delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo
que com o sofrimento de que tinha consciência.
Avida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do
pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da
vida.
E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente
que ela, o regime de consciência, em que passei a viver o que sentia, tornavame mais quotidiana, mais epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O
mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de
uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do
muro ou os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão
entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas
aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendemme a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma
dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão
indefinida. Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de
renúncias, outro no modo como sou eu.



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Mensaje por Maria Lua Vie 05 Nov 2021, 18:21

94.


Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se
sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir — é lembrar hoje o que se
sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.
Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova
madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção — isto, e só isto, vale a
pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos. Esta madrugada
é a primeira do mundo. Nunca esta cor rosa amarelecendo para branco quente
pousou assim na face com que a casaria de oeste encara cheia de olhos
vidrados o silêncio que vem na luz crescente. Nunca houve esta hora, nem
esta luz, nem este meu ser. Amanhã o que for será outra coisa, e o que eu vir
será visto por olhos recompostos, cheios de uma nova visão. Altos montes da
cidade! Grandes arquiteturas que as encostas íngremes seguram e
engrandecem, resvalamentos de edifícios diversamente amontoados, que a luz
tece de sombras e queimações – sois hoje, sois eu, porque vos vejo, sois o que
serei? Amanhã, e amo-vos da amurada como um navio que passa por outro
navio e há saudades desconhecidas na passagem.



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Mensaje por Maria Lua Lun 08 Nov 2021, 09:38

95.

Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em
que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm
feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver,
passaram pela minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha
meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam,
à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os
homens quiseram e não fizeram, o que mataram-no, o que as almas foram e
ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de
noite à beira-mar. E o que os amantes estranharam no outro amante, o que a
mulher ocultou sempre ao marido de quem é, o que a mãe pensa do filho que
não teve, o que teve forma só num sorriso ou numa oportunidade, num
tempo que não foi esse ou numa emoção que falta — tudo isso, no meu
passeio à beira-mar, foi comigo e voltou comigo, e as ondas estorciam
magnamente o acompanhamento que me fazia dormi-lo.
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste, O som das ondas à noite
é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma, como a esperança
constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda! Que
lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que
conseguiram! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da
noite e da confidência do abismo. Quantos somos! Quantos nos enganamos!
Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos
nos alagamentos da emoção! Aquilo que se perdeu, aquilo que se deveria ter
querido, aquilo que se obteve e satisfez por erro, o que amámos e perdemos e,
depois de perder, vimos, amando por tê-lo perdido, que o não havíamos
amado; o que julgávamos que pensávamos quando sentíamos; o que era uma
memória e críamos que era uma emoção; e o mar todo, vindo lá, rumoroso e
fresco, do grande fundo de toda a noite, a estuar fino na praia, no decurso
noturno do meu passeio à beira-mar...
Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para
si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam
ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz
solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um
salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio,
incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar
de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu
eterno passeio noturno à beira-mar!


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Mensaje por Maria Lua Mar 09 Nov 2021, 20:25

Quem sabe sequer o que pensa ou o que deseja? Quem sabe o que é para
si-mesmo? Quantas coisas a música sugere e nos sabe bem que não possam
ser! Quantas a noite recorda e choramos e não foram nunca! Como uma voz
solta da paz deitada ao comprido, a enrolação da onda estoira e esfria e há um
salivar audível pela praia invisível fora.
Quanto morro se sinto por tudo! Quanto sinto se assim vagueio,
incorpóreo e humano, com o coração parado como uma praia, e todo o mar
de tudo, na noite em que vivemos, batendo alto, chasco, e esfria-se, no meu
eterno passeio noturno à beira-mar!


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Mensaje por Maria Lua Sáb 27 Nov 2021, 09:12

96.


Vejo as paisagens sonhadas com a mesma clareza com que fito as reais. Se
me debruço sobre os meus sonhos é sobre qualquer coisa que me debruço.
Se vejo a vida passar, sonho qualquer coisa.
De alguém disse que para ele as figuras dos sonhos tinham o mesmo relevo
e recorte que as figuras da vida. Para mim, embora compreendesse que se me
aplicasse frase semelhante, não a aceitaria. As figuras dos sonhos não são para
mim iguais às da vida. São paralelas. Cada vida — a dos sonhos e a do mundo
— tem uma realidade igual e própria, mas diferente. Como as coisas próximas
e as coisas remotas. As figuras dos sonhos estão mais próximas de mim, mas...


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Mensaje por Maria Lua Miér 08 Dic 2021, 08:40

97. 


O verdadeiro sábio é aquele que assim se dispõe que os acontecimentos exteriores o alterem minimamente. Para isso precisa couraçar-se cercando-se de realidades mais próximas de si do que os factos, e através das quais os factos, alterados para de acordo com elas, lhe chegam. 


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Mensaje por Maria Lua Miér 08 Dic 2021, 08:42

98. 


Acordei hoje muito cedo, num repente embrulhado, e ergui-me logo da cama, sob o estrangulamento de um tédio incompreensível. Nenhum sonho o havia causado; nenhuma realidade o poderia ter feito. Era um tédio absoluto e completo, mas fundado em qualquer coisa. No fundo obscuro da minha alma, invisíveis, forças desconhecidas travavam uma batalha em que o meu ser era o solo, e todo eu tremia do embate incógnito. Uma náusea física da vida inteira nasceu com o meu despertar. Um horror a ter que viver ergueu-se comigo da cama. Tudo me pareceu oco e tive a impressão fria de que não há solução para problema algum. Uma inquietação enorme fazia-me estremecer os gestos mínimos. Tive receio de endoidecer, não de loucura, mas de ali mesmo. O meu corpo era um grito latente. O meu coração batia como se falasse. Com passos largos e falsos, que em vão procurara tornar outros, percorri, descalço, o comprimento pequeno do quarto, e a diagonal vazia do quarto interior, que tem a porta ao canto para o corredor da casa. Com movimentos incoerentes e imprecisos, toquei nas escovas em cima da cómoda, desloquei uma cadeira, e uma vez bati com a mão movida em baloiço o ferro acre dos pés da cama inglesa. Acendi um cigarro, que fumei por subconsciência, e só quando vi que tinha caído cinza sobre a cabeceira da cama — como, se eu não me debruçara ali? — compreendi que estava possesso, ou coisa análoga, em ser quando não em nome, e que a consciência de mim, que eu deveria ter, se tinha intervalado com o abismo. Recebi o anúncio da manhã, a pouca luz fria que dá um vago azul branco ao horizonte que se revela, como um beijo de gratidão das coisas. Porque essa luz, esse verdadeiro dia, libertava-me, libertava-me não sei de quê, dava-me o braço à velhice incógnita, fazia festas à infância postiça, amparava o repouso mendigo da minha sensibilidade transbordada. Ah, que manhã é esta, que me desperta para a estupidez da vida, e para a grande ternura dela! Quase que choro, vendo esclarear-se diante de mim, debaixo de mim, a velha rua estreita, e quando os taipais da mercearia da esquina já se revelam castanho sujo na luz que se extravasa um pouco, o meu coração tem um alívio de conto de fadas reais, e começa a conhecer a segurança de se não sentir. Que manhã esta mágoa! E que sombras se afastam? E que mistérios se deram? Nada: o som do primeiro elétrico como um fósforo que vai iluminar a escuridão da alma, e os passos altos do meu primeiro transeunte que são a realidade concreta a dizer-me, com voz de amigo, que não esteja assim.








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Mensaje por Maria Lua Miér 15 Dic 2021, 08:24

99.


 Há momentos em que tudo cansa, até o que nos repousaria. O que nos cansa porque nos cansa; o que nos repousaria porque a ideia de o obter nos cansa. Há abatimentos da alma abaixo de toda a angústia e de toda a dor; creio que os não conhecem senão os que se furtam às angústias e às dores humanas, e têm diplomacia consigo mesmos para se esquivar ao próprio tédio. Reduzindo-se, assim, a seres couraçados contra o mundo, não admira que, em certa altura da sua consciência de si-mesmos, lhes pese de repente o vulto inteiro da couraça, e a vida lhes seja uma angústia às avessas, uma dor perdida. Estou num desses momentos, e escrevo estas linhas como quem quer ao menos saber que vive. Todo o dia, até agora, trabalhei como um sonolento, contas por processos de sonho, escrevendo ao longo do meu torpor. Todo o dia me senti pesar a vida sobre os olhos e contra as têmporas — sono nos olhos, pressão para fora nas têmporas, consciência de tudo isto no estômago, náusea e desalento. Viver parece-me um erro metafísico da matéria, um descuido da inação. Nem olho o dia, para ver o que ele tem que me distraia de mim, e, escrevendo-o eu aqui em descrição, tape com palavras a xícara vazia do meu não me querer. Nem olho o dia, e ignoro com as costas dobradas se é sol ou falta de sol o que está lá fora na rua subjetivamente triste, na rua deserta onde está passando o som de gente. Ignoro tudo e dói-me o peito. Parei de trabalhar e não quero mexer-me daqui. Estou olhando para o mata-borrão branco sujo, que alastra, pregado aos cantos, por sobre a grande idade da secretária inclinada. Fito atentamente os rabiscos de absorção e distração que estão borrados nele. Várias vezes a minha assinatura às avessas e ao invés. Alguns números aqui e ali, assim mesmo. Uns desenhos de nada, feitos pela minha desatenção. Olho a tudo isto como um aldeão de mata-borrões, com uma atenção de quem olha novidades, com todo o cérebro inerte por detrás dos centros cerebrais que promovem a visão. Tenho mais sono íntimo do que cabe em mim. E não quero nada, não prefiro nada, não há nada a que fugir


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Mensaje por Maria Lua Mar 22 Mar 2022, 13:49

100. 




Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje — tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara -, que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim. O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história contínua, mas não o texto. Breve sombra escura de uma árvore citadina, leve som de água caindo no tanque triste, verde da relva regular — jardim público ao quase crepúsculo -, sois, neste momento, o universo inteiro para mim, porque sois o conteúdo pleno da minha sensação consciente. Não quero mais da vida do que senti-la perder-se nestas tardes imprevistas, ao som de crianças alheias que brincam nestes jardins engradados pela melancolia das ruas que os cercam, e copados, para além dos ramos altos das árvores, pelo céu velho onde as estrelas recomeçam


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Mensaje por Maria Lua Mar 22 Mar 2022, 13:51

101. 


Se a nossa vida fosse um eterno estar-à-janela, se assim ficássemos, como um fumo parado, sempre, tendo sempre o mesmo momento de crepúsculo dolorindo a curva dos montes. Se assim ficássemos para além de sempre! Se ao menos, aquém da impossibilidade, assim pudéssemos quedar-nos, sem que cometêssemos uma ação, sem que os nossos lábios pálidos pecassem mais palavras! Olha como vai escurecendo!... O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti... Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.


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Mensaje por Maria Lua Mar 12 Abr 2022, 12:47

O sossego positivo de tudo enche-me de raiva, de qualquer coisa que é o travo no sabor da aspiração. Dói-me a alma... Um traço lento de fumo ergue-se e dispersa-se lá longe... Um tédio inquieto faz-me não pensar mais em ti... Tão supérfluo tudo! Nós e o mundo e o mistério de ambos.


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Mensaje por Maria Lua Mar 19 Abr 2022, 08:37

102. 


A vida é para nós o que concebemos nela. Para o rústico cujo campo próprio lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas veem, temos que fundamentar’ a realidade da nossa vida. Isto não vem a propósito de nada. Tenho sonhado muito. Estou cansado de ter sonhado, porém não cansado de sonhar. De sonhar ninguém se cansa, porque sonhar é esquecer, e esquecer não pesa e é um sono sem sonhos em que estamos despertos. Em sonhos consegui tudo. Também tenho despertado, mas que importa? Quantos Césares fui! E os gloriosos, que mesquinhos! César, salvo da morte pela generosidade de um pirata, manda crucificar esse pirata logo que, procurandoo bem, o consegue prender. Napoleão, seu testamento em Santa Helena, deixa um legado a um facínora que tentara assinar a Wellington. Ó grandezas iguais às da alma da vizinha vesga! Ó grandes homens da cozinheira de outro mundo! Quantos Césares fui, e sonho todavia ser. Quantos Césares fui, mas não dos reais. Fui verdadeiramente imperial enquanto sonhei, e por isso nunca fui nada. Os meus exércitos foram derrotados, mas a derrota foi fofa, e ninguém morreu. Não perdi bandeiras. Não sonhei até ao ponto do exército, onde elas aparecessem ao meu olhar em cujo sonho há esquina. Quantos Césares fui, aqui mesmo, na Rua dos Douradores. E os Césares que fui vivem ainda na minha imaginação; mas os Césares que foram estão mortos, e a Rua dos Douradores, isto é, a Realidade, não os pode conhecer. Atiro com a caixa de fósforos, que está vazia, para o abismo que a rua é para além do parapeito da minha janela alta sem sacada. Ergo-me na cadeira e escuto. Nitidamente, como significasse qualquer coisa, a caixa de fósforos vazia soa na rua que me declara deserta. Não há mais som nenhum, salvo os da cidade inteira. Sim, os da cidade de um domingo inteiro — tantos, sem se entenderem, e todos certos. Quão pouco, no mundo real, forma o suporte das melhores meditações. O ter chegado tarde para almoçar, o terem-se acabado os fósforos, o ter eu atirado, individualmente, a caixa para a rua, maldisposto por ter comido fora de horas, ser domingo a promessa aérea de um poente mau, o não ser ninguém no mundo, e toda a metafísica. Mas quantos Césares fui


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Mensaje por Maria Lua Mar 19 Abr 2022, 08:38

103.


Cultivo o ódio à ação como uma flor de estufa. Gabo-me para comigo da minha dissidência da vida. 






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Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Jun 2022, 15:33

104. 


Nenhuma ideia brilhante consegue entrar em circulação se não agregando a si qualquer elemento de estupidez. O pensamento coletivo é estúpido porque é coletivo: nada passa as barreiras do coletivo sem deixar nelas, como real de água, a maior parte da inteligência que traga consigo. Na mocidade somos dois: há em nós a coexistência da nossa inteligência própria, que pode ser grande, e a da estupidez da nossa inexperiência, que forma uma segunda inteligência inferior. Só quando chegamos a outra idade se dá em nós a unificação. Daí a ação sempre fruste da juventude — devida, não à sua inexperiência, mas à sua não-unidade. Ao homem superiormente inteligente não resta hoje outro caminho que o da abdicação. 


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Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Jun 2022, 15:34

105. 




Estética da abdicação Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. Por isso toda a vitória é uma grosseria. Os vencedores perdem sempre todas as qualidades de desalento com o presente que os levaram à luta que lhes deu a vitória. Ficam satisfeitos, e satisfeito só pode estar aquele que se conforma, que não tem a mentalidade do vencedor. Vence só quem nunca consegue. Só é forte quem desanima sempre. O melhor e o mais púrpura é abdicar. O império supremo é o do Imperador que abdica de toda a vida normal, dos outros homens, em quem o cuidado da supremacia não pesa como um fardo de joias


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Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Jun 2022, 15:35

106.


Às vezes, quando ergo a cabeça estonteada dos livros em que escrevo as contas alheias e a ausência de vida própria, sinto uma náusea física, que pode ser de me curvar, mas que transcende os números e a desilusão. A vida desgosta-me como um remédio inútil. E é então que eu sinto com visões claras como seria fácil o afastamento deste tédio se eu tivesse a simples força de o querer deveras afastar. Vivemos pela ação, isto é, pela vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos — irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta. Agir, eis a inteligência verdadeira. Serei o que quiser. Mas tenho que querer o que for. O êxito está em ter êxito, e não em ter condições de êxito. Condições de palácio tem qualquer terra larga, mas onde estará o palácio se o não fizerem ali? O meu orgulho lapidado por cegos e a minha desilusão pisada por mendigos. "Quero-te só para sonho", dizem à mulher amada, em versos que lhe não enviam, os que não ousam dizer-lhe nada. Este "quero-te só para sonho" é um verso de um velho poema meu. Registo a memória com um sorriso, e nem o sorriso comento.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Jun 2022, 15:36

107.


 Sou daquelas almas que as mulheres dizem que amam, e nunca reconhecem quando encontram; daquelas que, se elas as reconhecessem, mesmo assim não as reconheceriam. Sofro a delicadeza dos meus sentimentos com uma atenção desdenhosa. Tenho todas as qualidades, pelas quais são admirados os poetas românticos, mesmo aquela falta dessas qualidades, pela qual se é realmente poeta romântico. 
Encontro-me descrito (em parte) em vários romances como protagonista de vários enredos; mas o essencial da minha vida, como da minha alma, é não ser nunca protagonista. Não tenho uma ideia de mim próprio; nem aquela que consiste num a falta de ideia de mim próprio. Sou um nómada da consciência de mim. Tresmalharam-se à primeira guarda os rebanhos da minha riqueza íntima. A única tragédia é não nos podermos conceber trágicos. Vi sempre nitidamente a minha coexistência com o mundo. 
Nunca senti nitidamente a minha falta de coexistir com ele; por isso nunca fui um normal. Agir é repousar. Todos os problemas são insolúveis. A essência de haver um problema é não haver uma solução. Procurar um facto significa não haver um facto. Pensar é não saber existir. Passo horas, às vezes, no Terreiro do Paço, à beira do rio, meditando em vão. A minha impaciência constantemente me quer arrancar desse sossego, e a minha inércia constantemente me detém nele. Medito, então, num a modorra de físico, que se parece com a volúpia apenas como o sussurro de vento lembra vozes, na eterna insaciabilidade dos meus desejos vagos, na perene instabilidade das minhas ânsias impossíveis.
 Sofro, principalmente, do mal de poder sofrer. Falta-me qualquer coisa que não desejo e sofro por isso não ser propriamente sofrer. O cais, a tarde, a maresia entram todos, e entram juntos, na composição da minha angústia. As flautas dos pastores impossíveis não são mais suaves que o não haver aqui flautas e isso lembrar-mas. Os idílios longínquos, ao pé de riachos, doem-me esta hora análoga por dentro,


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Mensaje por Maria Lua Sáb 11 Jun 2022, 16:19

108.


 A vida pode ser sentida como uma náusea no estômago, a existência da própria alma como um incómodo dos músculos.
 A desolação do espírito, quando agudamente sentida, faz marés, de longe, no corpo, e dói por delegação. 
Estou consciente de mim num dia, em que a dor de ser consciente é, como diz o poeta, 


Languidez, mareo 


Y angustioso afán.


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Mensaje por Maria Lua Dom 12 Jun 2022, 16:30

109. 

(storm) 

Sobra silêncio escuro lividamente. Ao seu modo, perto, entre o errar raro e rápido das carroças, um camião troveja — eco ridículo, mecânico, do que vai real na distância próxima dos céus.
 De novo, sem aviso, espadana luz magnética, pestanejando. 
Bate o coração um hausto breve. 
Quebra-se uma redoma no alto, em estilhaços grandes de cúpula. 
Um lençol novo’ de má chuva agride o som do chão. (patrão Vasques) 
A sua cara lívida está de um verde falso e desnorteado. 
Noto-o, entre o ar difícil do peito, com a fraternidade de saber que também estarei assim.


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Mensaje por Maria Lua Dom 12 Jun 2022, 16:33

110. 


Quando durmo muitos sonhos, venho para a rua, de olhos abertos, ainda com o rastro e a segurança deles. E pasmo do automatismo meu com que os outros me desconhecem. Porque atravesso a vida quotidiana sem largar a mão da ama astral, e os meus passos na rua vão concordes e consoantes com obscuros desígnios da imaginação de dormir. 


E na rua vou certo; não cambaleio; respondo bem; existo. Mas, quando há um intervalo, e não tenho que vigiar o curso da minha marcha, para evitar veículos ou não estorvar peões, quando não tenho que falar a alguém, nem me pesa a entrada para uma porta próxima, largo-me de novo nas águas do sonho, como um barco de papel dobrado em bicos, e de novo regresso à ilusão mortiça que me acalentara a vaga consciência da manhã nascendo entre o som dos carros que hortaliçam. 


E então, em plena vida, é que o sonho tem grandes cinemas. Desço uma rua irreal da Baixa e a realidade das vidas que não são ata-me, com carinho, a cabeça num trapo branco de reminiscências falsas. Sou navegador num desconhecimento de mim. 


Venci tudo onde nunca estive. E é uma brisa nova esta sonolência com que posso andar, curvado para a frente numa marcha sobre o impossível. Cada qual tem o seu álcool. Tenho álcool bastante em existir. Bêbado de me sentir, vagueio e ando certo. 


Se são horas, recolho ao escritório como qualquer outro. Se não são horas, vou até ao rio fitar o rio, como qualquer outro. Sou igual. E por detrás de isso, céu meu, constelo-me às escondidas e tenho o meu infinito.


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Mensaje por Maria Lua Dom 12 Jun 2022, 16:35

111. 




Todo o homem de hoje, em quem a estatura moral e o relevo intelectual não sejam de pigmeu ou de charro, ama, quando ama, com o amor romântico. 
O amor romântico é um produto extremo de séculos sobre séculos de influência cristã; e, tanto quanto à sua substância, como quanto à sequência do seu desenvolvimento, pode ser dado a conhecer a quem não o perceba comparando-o com uma veste, ou traje, que a alma ou a imaginação fabriquem para com ele vestir as criaturas, que acaso apareçam, e o espírito ache que lhes cabe. 
Mas todo o traje, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em quem o vestimos. 
O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. 
Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspeto da criatura, por eles vestida.


(147)


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Mensaje por Maria Lua Lun 13 Jun 2022, 08:35

112.




 Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É um conceito nosso — em suma, é a nós mesmos — que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. 
O onanista é abjeto, mas, em exata verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana. 
As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha’ complexidade. No próprio acto em que nos conhecemos, nos desconhecemos. 
Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma. 
Estou hoje lúcido como se não existisse. O meu pensamento é em claro como um esqueleto, sem os trapos carnais da ilusão de exprimir. E estas considerações, que formo e abandono, não nasceram de coisa alguma – de coisa alguma, pelo menos, que me esteja na plateia da consciência. 
Talvez aquela desilusão do caixeiro de praça com a rapariga que tinha, talvez qualquer frase lida nos casos amorosos que os jornais transcrevem dos estrangeiros, talvez até uma vaga náusea que trago comigo e me não expeli fisicamente... 
Disse mal o escoliasta de Virgílio. É de compreender que sobretudo nos cansamos. 
Viver é não pensar. 


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Mensaje por Maria Lua Lun 13 Jun 2022, 08:36

113. 


Dois, três dias de semelhança de princípio de amor... Tudo isto vale para o esteta pelas sensações que lhe causa. Avançar seria entrar no domínio onde começa o ciúme, o sofrimento, a excitação. 
Nesta antecâmara da emoção há toda a suavidade do amor sem a sua profundeza — um gozo leve, portanto, aroma vago de desejos; se com isso se perde a grandeza que há na tragédia do amor, repare-se que, para o esteta, as tragédias são coisas interessantes de observar, mas incómodas de sofrer.
O próprio cultivo da imaginação é prejudicado pelo da vida. Reina quem não está entre os vulgares. Afinal, isto bem me contentaria se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha timidez, a minha incompetência para a vida.


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