Aires de Libertad

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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Feb 2021, 07:11

56.


O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não
sei porque capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do
pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do
fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil,
o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo
Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida,
de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os
dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade,
esquecido já do acontecimento estático da fotografia duas vezes tirada,
encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça
debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci
logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal,
duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo
que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física,
mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão
minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta
fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem
intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das
outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos.
O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar
firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza do homem —
afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em
todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num
passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro
de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro do Moreira. E o
Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está
muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um
sentimento que busco supor que não é inveja tem uma certeza de cara, uma
expressão direta que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de
papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que
certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim?
Contudo... E o insulto do conjunto?
— "Você ficou muito bem", diz de repente o Moreira. E depois, virandose para o caixeiro de praça, "É mesmo a carinha dele, hein?" E o caixeiro de
praça concordou com uma alegria amiga que atirou para o lixo.


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Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 08:47

57.


E, hoje, pensando no que tem sido a minha vida, sinto-me qualquer bicho
vivo, transportado num cesto de encurvar o braço, entre duas estações
suburbanas. A imagem é estúpida, porém a vida que define é mais estúpida
ainda do que ela. Esses cestos costumam ter duas tampas, com meias ovais,
que se levantam um pouco num ou outro dos extremos curvos se o bicho
estrebucha. Mas o braço de quem transporta, apoiado um pouco ao longo dos
dobramentos centrais, não deixa coisa tão débil erguer frustemente mais do
que as extremidades inúteis, como asas de borboleta que enfraquecem.
Esqueci-me que falava de mim com a descrição do cesto. Vejo-o
nitidamente, e ao braço gordo e branco queimado da criada que o transporta.
Não consigo ver a criada para além do braço e a sua penugem. Não consigo
sentir-me bem senão — de repente — uma grande frescura daqueles varais
brancos e nastros de com que se tecem os cestos e onde estrebucho, bicho,
entre duas paragens que sinto. Entre elas repouso no que parece ser um banco
e falam lá fora do meu cesto. Durmo porque sossego, até que me ergam de
novo na paragem.


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Mensaje por Maria Lua Jue 25 Feb 2021, 08:48

58.



O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e
essa expressão vem-lhe de fora. Cada coisa é a intersecção de três linhas, e
essas três linhas formam essa coisa: uma quantidade de matéria, o modo como
interpretamos, e o ambiente em que está. Esta mesa, a que estou escrevendo,
é um pedaço de madeira, é uma mesa, e é um móvel entre outros aqui neste
quarto. A minha impressão desta mesa, se a quiser transcrever, terá que ser
composta das noções de que ela é de madeira, de que eu chamo àquilo uma
mesa e lhe atribuo certos usos e fins, e de que nela se refletem, nela se
inserem, e a transformam, os objetos em cuja justaposição ela tem alma
externa, o que lhe está posto em cima. E a própria cor que lhe foi dada, o
desbotamento dessa cor, as nódoas e partidos que tem — tudo isso, repare-se,
lhe veio de fora, e é isso que, mais que a sua essência de madeira, lhe dá a
alma. E o íntimo dessa alma, que é o ser mesa, também lhe foi dado de fora,
que é a personalidade.

Acho, pois, que não há erro humano, nem literário, em atribuir alma às
coisas que chamamos inanimadas. Ser uma coisa é ser objeto de uma
atribuição. Pode ser falso dizer que uma árvore sente, que um rio "corre", que
um poente é magoado ou o mar calmo (azul pelo céu que não tem) é
sorridente (pelo sol que lhe está fora). Mas igual erro é atribuir beleza a
qualquer coisa. Igual erro é atribuir cor, forma, porventura até ser, a qualquer
coisa. Este mar é água salgada. Este poente é começar a faltar a luz do sol
nesta latitude e longitude. Esta criança, que brinca diante de mim, é um
amontoado intelectual de células — mais, é uma relojoaria de movimentos
subatómicos, estranha conglomeração elétrica de milhões de sistemas solares
em miniatura mínima.

Tudo vem de fora e a mesma alma humana não é porventura mais que o
raio de sol que brilha e isola do chão onde jaz o monte de estrume que é o
corpo.
Nestas considerações está porventura toda uma filosofia, para quem
pudesse ter a força de tirar conclusões. Não a tenho eu, surgem-me atentos
pensamentos vagos, de possibilidades lógicas, e tudo se me esbate numa visão
de um raio de sol dourando estrume como palha escura humidamente
amachucada, no chão quase negro ao pé de um muro de pedregulhos.
Assim sou. Quando quero pensar, vejo. Quando quero descer na minha
alma, fico de repente parado, esquecido, no começo do espiral da escada
profunda, vendo pela janela do andar alto o sol que molha de despedida fulva
o aglomerado difuso dos telhados.


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Mensaje por Pascual Lopez Sanchez Jue 25 Feb 2021, 09:12

GENUINO E INIMITABLE PESSOA. SIN PARANGÓN

Nunca conocí a nadie a quien le hubiesen roto la cara.
Todos mis conocidos fueron campeones en todo.
Y yo, que fui ordinario, inmundo, vil,
un parásito descarado,
un tipo imperdonablemente sucio
al que tantas veces le faltó paciencia para bañarse;
yo que fui ridículo, absurdo,
que me llevé por delante las alfombras de la formalidad,
que fui grotesco, mezquino, sumiso y arrogante,
que recibí insultos sin abrir la boca
y que cuando la abrí fui más ridículo todavía;
yo que resulté cómico a las mucamas de hotel,
yo que sentí los guiños de los changadores,
yo que estafé, que pedí prestado y no devolví nunca,
que aparté el cuerpo cuando hubo que enfrentarse a puñetazos,
yo que sufrí la angustia de las pequeñas cosas ridículas,
me doy cuenta que no hay en este mundo otro como yo.
La gente que conozco y con quien hablo
nunca cayó en ridículo, nunca sufrió un insulto,
nunca fue sino príncipe -todos ellos príncipes- en la vida...
¡Ah, quién pudiera oír una voz humana
que confiese no un pecado sino una infamia;
que cuente no una violencia sino una cobardía!
Pero no, son todos la Maravilla si los escucho.
¿Es que no hay nadie en este ancho mundo capaz de confesar que una vez
fue vil?
¡Oh príncipes, mis hermanos!
¡Basta, estoy harto de semidioses!
¿Dónde está la gente de este mundo?
¿Así que en esta tierra sólo yo soy vil y me equivoco?
Admitirán que las mujeres no los amaron,
aceptarán que fueron traicionados -¡pero ridículos nunca!-
Y yo que fui ridículo sin haber sido traicionado,
¿Cómo puedo dirigirme a mis superiores sin titubear?
Yo que fuí ,literalmente vil,
vil en el sentido mezquino e infame de la vileza.


_________________
GRACIAS, MARÍA LUA, POR PERMITIRME USAR TUS PALABRAS. ES POSIBLE - Y NI TUYA NI MÍA ES LA RESPONSABILIDAD- QUE CAIGAN EN SACO ROTO. 


DE OTRA MANERA: 1x0=0

- - - - - - - - 

LAS "TRES HERIDAS" DE MIGUEL HERNÁNDEZ SON MÁS UNIVERSALES QUE CUALQUIER DISPOSICIÓN DEL SEÑOR ALMEIDA
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Mensaje por Maria Lua Dom 28 Feb 2021, 12:25

59.

Cada vez que o meu propósito se ergueu, por influência dos meus sonhos,
acima do nível quotidiano da minha vida, e um momento me senti alto, como
a criança num balouço, cada vez dessas tive que descer como ela ao jardim
municipal, e conhecer a minha derrota sem bandeiras levadas para a guerra
nem espada que houvesse força para desembainhar.
Suponho que a maioria daqueles, com que cruzo no acaso das ruas, traz
consigo — noto-lho no movimento silencioso dos beiços e na indecisão
indistinta dos olhos ou no altear da voz com que rezam juntos – uma igual
projeção para a guerra inútil do exército sem pendões. E todos — viro-me
para trás a contemplar os seus dorsos de vencidos pobres — terão, como eu, a
grande derrota vil, entre os limos e os juncos, sem luar sobre as margens nem
poesia de pauis, miserável e marçana.
Todos têm, como eu, um coração exaltado e triste. Conheço-os bem: uns
são moços de lojas, outros são empregados de escritório, outros são
comerciantes de pequenos comércios; outros são os vencedores dos cafés e
das tascas, gloriosos sem saberem no êxtase da palavra egotista, a contento no
silêncio do egotismo avaro sem ter que guardar. Mas todos, coitados, são
poetas, e arrastam, aos meus olhos, como eu aos olhos deles, a igual miséria da
nossa comum incongruência. Têm todos, como eu, o futuro no passado.
Agora mesmo, que estou inerte no escritório, e foram todos almoçar salvo
eu, fito, através da janela baça, o velho oscilante que percorre lentamente o
passeio do outro lado da rua. Não vai bêbado; vai sonhador. Está atento ao
inexistente; talvez ainda espere. Os Deuses, se são justos na sua injustiça, nos
conservem os sonhos ainda quando sejam impossíveis, e nos deem bons
sonhos, ainda que sejam baixos. Hoje, que não sou velho ainda, posso sonhar
com ilhas do Sul e com Índias impossíveis; amanhã talvez me seja dado, pelos
mesmos Deuses, o sonho de ser dono de uma tabacaria pequena, ou
reformado numa casa dos arredores. Qualquer dos sonhos é o mesmo sonho,
porque são todos sonhos. Mudem-me os deuses os sonhos, mas não o dom
de sonhar.
No intervalo de pensar isto, o velho saiu-me da atenção. Já o não vejo.
Abro a janela para o ver. Não o vejo ainda . Saiu. Teve, para comigo, o dever
visual de símbolo; acabou e virou a esquina. Se me disserem que virou a
esquina absoluta, e nunca esteve aqui, aceitarei com o mesmo gesto com que
fecho a janela agora.
Conseguir?...
Pobres semideuses marçanos que ganham impérios com a palavra e a
intenção nobre e têm necessidade de dinheiro com o quarto e a comida!
Parecem as tropas de um exército desertado cujos chefes tivessem um
sonho de glória, de que a estes, perdidos entre os limos de pauis, fica só a
noção de grandeza, a consciência de ter sido do exército, e o vácuo de nem ter
sabido o que fazia o chefe que nunca viram.
Assim cada um se sonha, um momento, o chefe do exército de cuja cauda
fugiu. Assim cada um, entre a lama dos ribeiros, saúda a vitória que ninguém
pôde ter, e de que ficou como migalhas entre nódoas na toalha que se
esqueceram de sacudir.
Enchem os interstícios da ação quotidiana como o pó os interstícios dos
móveis quando não são limpos com cuidado. Na luz vulgar do dia comum
vêem-se a luzir como vermes cinzentos contra o mogno avermelhado. Tiramse com um prego pequeno. Mas ninguém tem paciência para os tirar.
Os meus pobres companheiros que sonham alto, como os invejo e
desprezos!
Comigo estão os outros — os mais pobres, os que não têm senão a si
mesmos a quem contar os sonhos e fazer o que seriam versos se eles os
escrevessem — os pobres diabos sem mais literatura que a própria alma, sem
ouvirem bem da crítica, que morrem asfixiados pelo facto de existirem sem
terem feito aquele desconhecido exame transcendente que habilita a viver.
Uns são heróis e prostram cinco homens a uma esquina de ontem. Outros
são sedutores e até as mulheres inexistentes lhes não ousaram resistir. Creem
isto quando o dizem, talvez o digam para que o creiam. Outros para todos eles
os vencidos do mundo, quem quer que sejam, são gente.
E todos como enguias num alguidar, se enrolam entre eles e se cruzam uns
acima dos outros e nem saem do alguidar. As vezes falam deles os jornais. Os
jornais falam d’alguns mais do que algumas vezes — mas a fama nunca.
Esses são os felizes porque lhes é dado o sonho mentido da estupidez.
Mas aos que, como eu, têm sonhos sem ilusões


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Mensaje por Maria Lua Dom 28 Feb 2021, 12:27

60.

Intervalo doloroso

Se me perguntardes se sou feliz, responder-vos-ei que o não sou.


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Mensaje por Maria Lua Mar 02 Mar 2021, 14:46

61.


É nobre ser tímido, ilustre não saber agir, grande não ter jeito para viver.
Só o Tédio, que é um afastamento, e a Arte, que é um desdém, douram de
uma semelhança de contentamento a nossa.
Fogos-fátuos que a nossa podridão geral, são ao menos luz nas nossas
trevas.
Só a infelicidade elementar e o tédio puro das infelicidades contínuas, é
heráldico como o são descendentes de heróis longínquos.
Sou um poço de gestos que nem em mim se esboçaram todos, de palavras
que nem pensei pondo curvas nos meus lábios, de sonhos que me esqueci de
sonhar até ao fim.
Sou ruínas de edifícios que nunca foram mais do que essas ruínas, que
alguém se fartou, no meio de construí-las, de pensar em que construía.
Não nos esqueçamos de odiar os que gozam porque gozam, de desprezar
os que são alegres, porque não soubemos ser, nós, alegres como eles... Esse
sonho falso, esse ódio fraco não é senão o pedestal tosco e sujo da terra em
que se finca e sobre o qual, altiva e única, a estátua do nosso Tédio se ergue,
escuro vulto cuja face um sorriso impenetrável nimba vagamente de segredo.
Benditos os que não confiam a vida a ninguém.


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Mensaje por Maria Lua Mar 09 Mar 2021, 07:35

62.


Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E
capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um
vómito para aliviar a vontade de vomitar.
Um dos meus passeios prediletos, nas manhãs em que temo a banalidade
do dia que vai seguir como quem teme a cadeia, é o de seguir lentamente pelas
ruas fora, antes da abertura das lojas e dos armazéns, e ouvir os farrapos de
frases que os grupos de raparigas, de rapazes, e de uns com outras, deixam
cair, como esmolas da ironia, na escola invisível da minha meditação aberta.
E é sempre a mesma sucessão das mesmas frases... ("E então ela disse..." e
o tom diz da intriga dela. "Se não foi ele, foste tu... " e a voz que responde
ergue-se no protesto que já não oiço. "Disseste, sim senhor, disseste..." e a voz
da costureira afirma estridentemente "A minha mãe diz que não quer... "
"Eu?" e o pasmo do rapaz que traz o lunch embrulhado em papel-manteiga
não me convence, nem deve convencer a loura suja. "Se calhar era. . . " e o
riso de três das quatro raparigas cerca do meu ouvido a obscenidade que... "E
então pus-me mesmo diante do gajo, e ali mesmo na cara dele — na cara dele,
hein, ó Zé. .." e o pobre diabo mente, pois o chefe do escritório — sei pela
voz que o outro contendor era chefe do escritório que desconheço – não lhe
recebeu na arena entre as secretárias o gesto de gladiador de palhinhas. "... E
então eu fui fumar para a retrete..." ri o pequeno de fundilhos escuros.
Outros, que passam sós ou juntos, não falam, ou falam e eu não oiço, mas as
vozes todas são-me claras por uma transparência intuitiva e rota. Não ouso
dizer — não ouso dizê-lo a mim mesmo em escrita, ainda que logo a cortasse
— o que tenho visto nos olhares casuais, na sua direção involuntária e baixa,
nos seus atravessamentos sujos. Não ouso porque, quando se provoca o
vómito, é preciso provocar só um.
"O gajo estava tão grosso que nem via a escada." Ergo a cabeça. Este
rapazote, ao menos, descreve. E esta gente quando descreve é melhor do que
quando sente, porque por descrever esquece-se de si. Passa-me a náusea. Vejo
o gajo. Vejo-o fotograficamente. Até o calão inocente me anima. Bendito ar
que me dá na cara — o gajo tão grosso que nem via que era de degraus a
escada — talvez a escada onde a humanidade sobe aos tombos, apalpando-se
e atropelando-se na falsidade regrada do declive aquém do saguão.
A intriga, a maledicência, a prosápia falada do que se não ousou fazer, o
contentamento de cada pobre bicho vestido com a consciência inconsciente
da própria alma, a sexualidade sem lavagem, as piadas como cócegas de
macaco, a horrorosa ignorância da importância do que são... Tudo isto me
produz a impressão de um animal monstruoso e reles, feito no involuntário
dos sonhos, das côdeas húmidas dos desejos, dos restos trincados das
sensações.


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Mensaje por Maria Lua Mar 09 Mar 2021, 07:36

63.


Toda a vida da alma humana é um movimento na penumbra. Vivemos,
num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o
que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa,
e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no
intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que
talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
Estas páginas, em que registo com uma clareza que dura para elas, agora
mesmo as reli e me interrogo. Que é isto, e para que é isto? Quem sou quando
sinto? Que coisa morro quando sou?
Como alguém que, de muito alto, tente distinguir as vidas do vale, eu assim
mesmo me contemplo de um cimo, e sou, com tudo, uma paisagem indistinta
e confusa.
É nestas horas de um abismo na alma que o mais pequeno pormenor me
oprime como uma carta de adeus. Sinto-me constantemente numa véspera de
despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de
conclusões. De bom grado gritaria se a minha voz chegasse a qualquer parte.
Mas há um grande sono comigo, e desloca-se de umas sensações para outras
como uma sucessão de nuvens, das que deixam de diversas cores de sol e
verde a relva meio ensombrada dos campos prolongados.
Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o
objeto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém.
Há, algures, um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só
ouvida.
Releio, sim, estas páginas que representam horas pobres, pequenos
sossegos ou ilusões, grandes esperanças desviadas para a paisagem, mágoas
como quartos onde se não entra, certas vozes, um grande cansaço, o
evangelho por escrever.
Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento
de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns
trechos, certas dúvidas...
Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O
que está ali é outro. Já não compreendo nada...


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Mensaje por Maria Lua Miér 10 Mar 2021, 09:30

64.

Choro sobre as minhas páginas imperfeitas, mas os vindouros, se as lerem,
sentirão mais com o meu choro do que sentiriam com a perfeição, se eu a
conseguisse, que me privaria de chorar e portanto até de escrever. O perfeito
não se manifesta. O santo chora, e é humano. Deus está calado. Por isso
podemos amar o santo mas não podemos amar a Deus.


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Mensaje por Maria Lua Jue 11 Mar 2021, 06:53

66.

Encolher de ombros

Damos comummente às nossas ideias do desconhecido a cor das nossas
noções do conhecido: se chamamos à morte um sono é porque parece um
sono por fora; se chamamos à morte uma nova vida é porque parece uma
coisa diferente da vida. Com pequenos mal-entendidos com a realidade
construímos as crenças e as esperanças, e vivemos das côdeas a que
chamamos bolos, como as crianças pobres que brincam a ser felizes.
Mas assim é toda a vida; assim, pelo menos, é aquele sistema de vida
particular a que no geral se chama civilização. A civilização consiste em dar a
qualquer coisa um nome que lhe não compete, e depois sonhar sobre o
resultado. E realmente o nome falso e o sonho verdadeiro criam uma nova
realidade. O objeto torna-se realmente outro, porque o tornámos outro.
Manufaturamos realidades. A matéria-prima continua sendo a mesma, mas
a forma, que a arte lhe deu, afasta-a efetivamente de continuar sendo a
mesma. Uma mesa de pinho é pinho mas também é mesa. Sentamo-nos à
mesa e não ao pinho. Um amor é um instinto sexual, porém não amamos com
o instinto sexual, mas com a pressuposição de outro sentimento. E essa
pressuposição é, com efeito, já outro sentimento.
Não sei que efeito subtil de luz, ou ruído vago, ou memória de perfume ou
música, tangida por não sei que influência externa, me trouxe de repente, em
pleno ir pela rua, estas divagações que registo sem pressa, ao sentar-me no
café, distraidamente. Não sei onde ia conduzir os pensamentos, ou onde
preferiria conduzi-los. O dia é de um leve nevoeiro húmido e quente, triste
sem ameaças, monótono sem razão. Dói-me qualquer sentimento que
desconheço; falta-me qualquer argumento não sei sobre quê; não tenho
vontade nos nervos. Estou triste abaixo da consciência. E escrevo estas linhas,
realmente mal-notadas, não para dizer isto, nem para dizer qualquer coisa, mas
para dar um trabalho à minha desatenção. Vou enchendo lentamente, a traços
moles de lápis rombo — que não tenho sentimentalidade para aparar -, o
papel branco de embrulho de sanduíches, que me forneceram no café, porque
eu não precisava de melhor e qualquer servia, desde que fosse branco. E doume por satisfeito. Reclino-me. A tarde cai monótona e sem chuva, num tom
de luz desalentado e incerto... E deixo de escrever porque deixo de escrever.


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Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 07:15

67.


Quantas vezes, presa da superfície e do bruxedo, me sinto homem. Então
convivo com alegria e existo com clareza. Sobrenado. E é-me agradável
receber o ordenado e ir para casa. Sinto o tempo sem o ver, e agrada-me
qualquer coisa orgânica. Se medito, não penso. Nesses dias gosto muito dos
jardins.
Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins
citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um
jardim é um resumo da civilização — uma modificação anónima da natureza.
As plantas estão ali, mas há ruas — ruas. Crescem árvores, mas há bancos por
baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade,
ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente.
Não odeio a regularidade das flores em canteiros. Odeio, porém, o
emprego público das flores. Se os canteiros fossem em parques fechados, se
as árvores crescessem sobre recantos feudais, se os bancos não tivessem
alguém, haveria com que consolar-me na contemplação inútil dos jardins.
Assim, na cidade, regrados mas úteis, os jardins são para mim como gaiolas,
em que as espontaneidades coloridas das árvores e das flores não têm senão
espaço para o não ter, lugar para dele não sair, e a beleza própria sem a vida
que pertence a ela.
Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro
como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo
menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho
realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para
um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.
Mas a ilusão não dura muito, tanto porque não dura como porque a noite
vem. E a cor das flores, a sombra das árvores, o alinhamento de ruas e
canteiros, tudo se esbate e encolhe. Por cima do erro e de eu estar homem
abre-se de repente, como se a luz do dia fosse um pano de teatro que se
escondesse para mim, o grande cenário das estrelas. E então esqueço com os
olhos a plateia amorfa e aguardo os primeiros atores com um sobressalto de
criança no circo.
Estou liberto e perdido.
Sinto. Esfrio febre. Sou eu.


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Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 07:16

68.


O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões — a perda delas,
a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa
de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à
inteligência. Há inteligências inconscientes — brilhos do espírito, correntes do
entendimento, mistérios e filosofias — que têm o mesmo automatismo que os
reflexos corpóreos, que a gestão que o fígado e os rins fazem das suas
secreções.


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Mensaje por Maria Lua Vie 12 Mar 2021, 07:16

69.


Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma coisa que vai desabar
no exterior negro...
Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma
planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é
cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora
me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas são a bruma que a
vela.
Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo
e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de
dentro. Numa névoa de intuição, sinto-me, matéria morta, caído na chuva,
gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração atual.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Mar 2021, 05:47

70.


Quando outra virtude não haja em mim, há pelo menos a da perpétua
novidade da sensação liberta.
Descendo hoje a Rua Nova do Almada, reparei de repente nas costas do
homem que a descia adiante de mim. Eram as costas vulgares de um homem
qualquer, o casaco de um fato modesto num dorso de transeunte ocasional.
Levava uma pasta velha debaixo do braço esquerdo, e punha no chão, no
ritmo de andando, um guarda-chuva enrolado, que trazia pela curva na mão
direita.
Senti de repente uma coisa parecida com ternura por esse homem. Senti
nele a ternura que se sente pela comum vulgaridade humana, pelo banal
quotidiano do chefe de família que vai para o trabalho, pelo lar humilde e
alegre dele, pelos prazeres alegres e tristes de que forçosamente se compõe a
sua vida, pela inocência de viver sem analisar, pela naturalidade animal
daquelas costas vestidas.
Volvi os olhos para as costas do homem, janela por onde vi estes
pensamentos.
A sensação era exatamente idêntica àquela que nos assalta perante alguém
que dorme. Tudo o que dorme é criança de novo. Talvez porque no sono não
se possa fazer mal, e se não dá conta da vida, o maior criminoso, o mais
fechado egoísta é sagrado, por uma magia natural, enquanto dorme. Entre
matar quem dorme e matar uma criança não conheço diferença que se sinta.
Ora as costas deste homem dormem. Todo ele, que caminha adiante de
mim com passada igual à minha, dorme. Vai inconsciente. Vive inconsciente.
Dorme, porque todos dormimos. Toda a vida é um sonho. Ninguém sabe o
que faz, ninguém sabe o que quer, ninguém sabe o que sabe. Dormimos a
vida, eternas crianças do Destino. Por isso sinto, se penso com esta sensação,
uma ternura informe e imensa por toda a humanidade infantil, por toda a vida
social dormente, por todos, por tudo.
É um humanitarismo direto, sem conclusões nem propósitos, o que me
assalta neste momento. Sofro uma ternura como se um deus visse. Vejo-os a
todos através de uma compaixão de único consciente, os pobres diabos
homens, o pobre diabo humanidade. O que está tudo isto a fazer aqui?
Todos os movimentos e intenções da vida, desde a simples vida dos
pulmões até à construção de cidades e de impérios, considero-os como uma
sonolência, coisas como sonhos ou repousos, passadas involuntariamente no
intervalo entre uma realidade e outra realidade, entre um dia e outro dia do
Absoluto. E, como alguém abstratamente materno, debruço-me de noite
sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus.
Enterneço-me com uma largueza de coisa infinita.
Desvio os olhos das costas do meu adiantado, e passando-os a todos mais,
quantos vão andando nesta rua, a todos abarco nitidamente na mesma ternura
absurda e fria que me veio dos ombros do inconsciente a quem sigo. Tudo
isto é o mesmo que ele; todas estas raparigas que falam para o atelier, estes
empregados jovens que riem para o escritório, estas criadas de seios que
regressam das compras pesadas, estes moços dos primeiros fretes, tudo isto é
uma mesma inconsciência diversificada por caras e corpos que se distinguem,
como fantoches movidos pelas cordas que vão dar aos mesmos dedos da mão
de quem é invisível. Passam com todas as atitudes com que se define a
consciência, e não têm consciência de nada, porque não têm consciência de
ter consciência. Uns inteligentes, outros estúpidos, são todos igualmente
estúpidos. Uns velhos, outros jovens, são da mesma idade. Uns homens,
outros mulheres, são do mesmo sexo que não existe.


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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Mar 2021, 04:35

71.


Aquilo que, creio, produz em mim o sentimento profundo, em que vivo, de
incongruência com os outros, é que a maioria pensa com a sensibilidade, e eu
sinto com o pensamento.
Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim,
pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar.
É curioso que, sendo escassa a minha capacidade de entusiasmo, ela é
naturalmente mais solicitada pelos que se me opõem em temperamento do
que pelos que são da minha espécie espiritual. A ninguém admiro, na
literatura, mais que aos clássicos, que são a quem menos me assemelho. A ter
que escolher, para leitura única, entre Chateaubriand e Vieira, escolheria Vieira
sem necessidade de meditar.
Quanto mais diferente de mim alguém é, mais real me parece, porque
menos depende da minha subjetividade. E é por isso que o meu estudo atento
e constante é essa mesma humanidade vulgar que repugno e de quem disto.
Amo-a porque a odeio. Gosto de vê-la porque detesto senti-la. A paisagem,
tão admirável como quadro, é em geral incómoda como leito.


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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Mar 2021, 04:44

72.


Disse Amiel que uma paisagem é um estado de alma, mas a frase é uma
felicidade frouxa de sonhador débil. Desde que a paisagem é paisagem, deixa
de ser um estado de alma. Objetivar é criar, e ninguém diz que um poema
feito é um estado de estar pensando em fazê-lo. Ver é talvez sonhar, mas se
lhe chamamos ver em vez de lhe chamarmos sonhar, é que distinguimos
sonhar de ver.
De resto, de que servem estas especulações de psicologia verbal?
Independentemente de mim, cresce erva, chove na erva que cresce, e o sol
doira a extensão da erva que cresceu ou vai crescer; erguem-se os montes de
muito antigamente, e o vento passa com o mesmo modo com que Homero,
ainda que não existisse, o ouviu. Mais certa era dizer que um estado da alma é
uma paisagem; haveria na frase a vantagem de não conter a mentira de uma
teoria, mas tão-somente a verdade de uma metáfora.
Estas palavras casuais foram-me ditadas pela grande extensão da cidade,
vista à luz universal do sol, desde o alto de São Pedro de Alcântara. Cada vez
que assim contemplo uma extensão larga, e me abandono do metro e setenta
de altura, e sessenta e um quilos de peso, em que fisicamente consisto, tenho
um sorriso grandemente metafísico para os que sonham que o sonho é sonho,
e amo a verdade do exterior absoluto com uma virtude nobre do
entendimento.
O Tejo ao fundo é um lago azul, e os montes da Outra Banda são de uma
Suíça achatada. Sai um navio pequeno — vapor de carga preto — dos lados
do Poço do Bispo para a barra que não vejo. Que os Deuses todos me
conservem, até à hora em que cesse este meu aspeto de mim, a noção clara e
solar da realidade externa, o instinto da minha importância, o conforto de ser
pequeno e de poder pensar em ser feliz.


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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mar 2021, 09:36

73.

No alto ermo dos montes naturais temos, quando chegamos, a sensação do
privilégio. Somos mais altos, de toda a nossa estatura, do que o alto dos
montes. O máximo da Natureza, pelo menos naquele lugar, fica-nos sob as
solas dos pés. Somos, por posição, reis do mundo visível. Em torno de nós
tudo é mais baixo: a vida é encosta que desce, planície que jaz, ante o
erguimento e o píncaro que somos.
Tudo em nós é acidente e malícia, e esta altura que temos, não a temos; não
somos mais altos no alto do que a nossa altura. Aquilo mesmo que calcamos,
nos alça; e, se somos altos, é por aquilo mesmo de que somos mais altos.
Respira-se melhor quando se é rico; é-se mais livre quando se é célebre; o
próprio ter de um título de nobreza é um pequeno monte. Tudo é artifício,
mas o artifício nem sequer é nosso. Subimos a ele, ou levaram-nos até ele, ou
nascemos na casa do monte.
Grande, porém, é o que considera que do vale ao céu, ou do monte ao céu,
a distância que o diferença não faz diferença. Quando o dilúvio crescesse,
estaríamos melhor nos montes. Mas quando a maldição de Deus fosse raios,
como a de Júpiter, de ventos, como a de Éolo, o abrigo seria o não termos
subido, e a defesa o rastejarmos.
Sábio deveras é o que tem a possibilidade da altura nos músculos e a
negação de subir no conhecimento. Ele tem, por visão, todos os montes; e
tem, por posição, todos os vales. O sol que doura os píncaros dourá-los-á para
ele mais que para quem ali o sofre; e o palácio alto entre florestas será mais
belo ao que o contempla do vale que ao que o esquece nas salas que o
constituem de prisão.
Com estas reflexões me consolo, pois que me não posso consolar com a
vida. E o símbolo funde-se-me com a realidade quando, transeunte de corpo e
alma por estas ruas baixas que vão dar ao Tejo, vejo os altos claros da cidade
esplender, como a glória alheia, das luzes várias de um sol que já nem está no
poente.


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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mar 2021, 09:37

74.

Trovoada

Este ar baixo e nuvens paradas. O azul do céu estava sujo de branco
transparente.
O moço, ao fundo do escritório, suspende um minuto o cordel à roda do
embrulho eterno....
"Como está só me lembra de uma", comenta estatisticamente.
Um silêncio frio. Os sons da rua como que foram cortados à faca. Sentiuse, prolongadamente, como um mal-estar de tudo, um suspender cósmico da
respiração. Parara o universo inteiro. Momentos, momentos, momentos. A
treva encarvoou-se de silêncio.
Súbito, aço vivo,
Que humano era o toque metálico dos elétricos! Que paisagem alegre a
simples chuva na rua ressuscitada do abismo!
Oh, Lisboa, meu lar!


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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mar 2021, 09:38

75.


Para sentir a delícia e o terror da velocidade não preciso de automóveis
velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro elétrico e a espantosa
faculdade de abstração que tenho e cultivo.
Num carro elétrico em marcha eu sei, por uma atitude constante e
instantânea de análise, separar a ideia de carro da ideia de velocidade, separálas de todo, até serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo
não dentro do carro mas dentro da Mera-Velocidade dele. E, cansado, se
acaso quero o delírio da velocidade enorme, posso transportar a ideia para o
Puro Imitar da Velocidade e ao meu bom prazer aumentá-la ou diminuí-la,
alargá-la para além de todas as velocidades possíveis de veículos comboios.
Correr riscos reais, além de me apavorar, não é por medo que eu sinta
excessivamente — perturba-me a perfeita atenção às minhas sensações, o que
me incomoda e me despersonaliza.
Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.
Um poente é um fenómeno intelectual.


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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mar 2021, 09:39

76.


Penso às vezes com um agrado (em bissecção) na possibilidade futura de
uma geografia da nossa consciência de nós próprios. A meu ver, o historiador
futuro das suas próprias sensações poderá talvez reduzir a uma ciência precisa
a sua atitude para com a sua consciência da sua própria alma. Por enquanto
vamos em princípio nesta arte difícil – arte ainda, química de sensações no seu
estado alquímico por ora. Esse cientista de depois de amanhã terá um
escrúpulo especial pela sua própria vida interior. Criará de si mesmo o
instrumento de precisão para a reduzir a analisada. Não vejo dificuldade
essencial em construir um instrumento de precisão, para uso auto-analítico,
com aços e bronzes só do pensamento. Refiro-me a aços e bronzes realmente
aços e bronzes, mas do espírito. E talvez mesmo assim que ele deva ser
construído.
Será talvez preciso arranjar a ideia de um instrumento de precisão,
materialmente vendo essa ideia, para poder proceder a uma rigorosa análise
íntima. E naturalmente será necessário reduzir também o espírito a uma
espécie de matéria real com uma espécie de espaço em que existe. Depende
tudo isso do aguçamento extremo das nossas sensações interiores, que,
levadas até onde podem ser, sem dúvida revelarão, ou criarão, em nós um
espaço real como o espaço que há onde as coisas da matéria estão, e que, aliás,
é irreal como coisa.
Não sei mesmo se este espaço interior não será apenas uma nova dimensão
do outro. Talvez a investigação científica do futuro venha a descobrir que
tudo são dimensões do mesmo espaço, nem material nem espiritual por isso.
Numa dimensão viveremos corpo; na outra viveremos alma. E há talvez
outras dimensões onde vivemos outras coisas igualmente reais de nós. Aprazme às vezes deixar-me possuir pela meditação inútil do ponto até onde esta
investigação pode levar.
Talvez se descubra que aquilo a que chamamos Deus, e que tão
patentemente está em outro plano que não a lógica e a realidade espacial e
temporal, é um nosso modo de existência, uma sensação de nós em outra
dimensão do ser. Isto não me parece impossível. Os sonhos também serão
talvez ou ainda outra dimensão em que vivemos, ou um cruzamento de duas
dimensões; como um corpo vive na altura, na largura e no comprimento, os
nossos sonhos, quem sabe, viverão no ideal, no eu e no espaço. No espaço
pela sua representação visível; no ideal pela sua apresentação de outro género
que a da matéria; no eu pela sua íntima dimensão de nossos. O próprio Eu, o
de cada um de nós, é talvez uma dimensão divina. Tudo isto é complexo e ao
seu tempo, sem dúvida, será determinado. Os sonhadores atuais são talvez os
grandes precursores da ciência final do futuro. Não creio, é claro, numa
ciência final do futuro. Mas isso nada tem para o caso.
Faço às vezes metafísicas destas, com a atenção escrupulosa e respeitosa de
quem trabalha deveras e faz ciência. Já disse que chega a ser possível que a
esteja realmente. O essencial é eu não me orgulhar muito com isto, dado que
o orgulho é prejudicial à exata imparcialidade da precisão científica


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Mensaje por Maria Lua Miér 24 Mar 2021, 09:39

77.


Muitas vezes para me entreter — porque nada entretém como as ciências,
ou as coisas com jeito de ciências, usadas futilmente — ponho-me
escrupulosamente a estudar o meu psiquismo através da forma como o
encaram os outros. Raras vezes é triste o prazer, por vezes doloroso, que esta
tática fútil me causa.
Geralmente, procuro estudar a impressão geral que causo nos outros,
tirando conclusões. Em geral sou uma criatura com quem os outros
simpatizam, com quem simpatizam, mesmo, com um vago e curioso respeito.
Mas nenhuma simpatia violenta desperto. Ninguém será nunca
comovidamente meu amigo. Por isso tantos me podem respeitar


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Mensaje por Maria Lua Dom 28 Mar 2021, 11:51

78.


Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão
do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam
claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer
coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada
dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde
despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.
Olha-se, mas não se vê. A longa rua movimentada de bichos humanos é
uma espécie de tabuleta deitada onde as letras fossem móveis e não
formassem sentidos. As casas são somente casas. Perde-se a possibilidade de
dar um sentido ao que se vê, mas vê-se bem o que é, sim.
As pancadas de martelo à porta do caixoteiro soam com uma estranheza
próxima. Soam grandemente separadas, cada uma com eco e sem proveito. Os
ruídos das carroças parecem de dia em que vem trovoada. As vozes saem do
ar, e não de gargantas. Ao fundo, o rio está cansado.
Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. E uma vontade de
dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento.
Não se sente nada, a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas
pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns
pés que se sentem dentro dos sapatos. Nem isto se sente talvez. À roda dos
olhos e como dedos nos ouvidos há um aperto de dentro da cabeça.
Parece uma constipação na alma. E com a imagem literária de se estar
doente nasce um desejo de que a vida fosse uma convalescença, sem andar; e
a ideia de convalescença evoca as quintas dos arredores, mas lá para dentro,
onde são lares, longe da rua e das rodas. Sim, não se sente nada. Passa-se
consciente- mente, a dormir só com a impossibilidade de dar ao corpo outra
direção, a porta onde se deve entrar. Passa-se tudo.
Que é do pandeiro, ó urso parado?


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Mensaje por Maria Lua Lun 05 Abr 2021, 09:20

79.


Leve, como uma coisa que começasse, a maresia da brisa pairou de sobre o
Tejo e espalhou-se sujamente pelos princípios da Baixa. Nauseava
frescamente, num torpor frio de mar morno. Senti a vida no estômago, e o
olfato tornou-se-me uma coisa por detrás dos olhos. Altas, pousavam em nada
nuvens ralas, rolos, num cinzento a desmoronar-se para branco falso. A
atmosfera era de uma ameaça de céu cobarde, como a de uma trovoada
inaudível, feita de ar somente.
Havia estagnação no próprio voo das gaivotas; pareciam coisas mais leves
que o ar, deixadas nele por alguém. Nada abafava. A tarde caía num
desassossego nosso; o ar refrescava intermitentemente.
Pobres das esperanças que tenho tido, saídas da vida que tenho tido de ter!
São como esta hora e este ar, névoas sem névoa, alinhavos rotos de tormenta
falsa. Tenho vontade de gritar, para acabar com a paisagem e a meditação.
Mas há maresia no meu propósito, e a baixa-mar em mim deixou descoberto
o negrume lodoso que está ali fora e não vejo senão pelo cheiro.
Tanta inconsequência em querer bastar-me! Tanta consciência sarcástica
das sensações supostas! Tanto enredo da alma com as sensações, dos
pensamentos com o ar e o rio, para dizer que me dói a vida no olfato e na
consciência, para não saber dizer, como na frase simples e ampla do Livro de
Job, "A minha alma está cansada da minha vida!"


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Mensaje por Maria Lua Lun 05 Abr 2021, 09:21

80.


Intervalo doloroso


Tudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão
dolorosa como a minha dor.
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de
quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes
de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.
Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e
compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.
Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? E
quem é triste não pode esforçar-se.
Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria
abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçarme.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro
daquele trem! Qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha,
deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!
Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um
todo não me esmagaria os ombros do pensamento.
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra
um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.
Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão
dar a clareiras de angústia.
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge,
então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E
todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas
olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de
objetos me pesam por a alma dentro.
A minha vida é como se me batessem com ela.


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Mensaje por Maria Lua Mar 13 Abr 2021, 14:57

81.

As carroças da rua ronronam sons separados, lentos, de acordo, parece,
com a minha sonolência. É a hora do almoço mas fiquei no escritório. O dia é
tépido e um pouco velado. Nos ruídos há, por qualquer razão, que talvez seja
a minha sonolência, a mesma coisa que há no dia.


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Mensaje por Maria Lua Lun 19 Abr 2021, 08:49

82.

Não sei que vaga carícia, tanto mais branda quanto não é carícia, a brisa
incerta da tarde me traz à cara e à compreensão. Sei só que o tédio que sofro
se me ajusta melhor, um momento, como uma veste que deixe de roçar numa
chaga.
Pobre da sensibilidade que depende de um pequeno movimento do ar para
o conseguimento, ainda que episódico, da sua tranquilidade! Mas assim é toda
sensibilidade humana, nem creio que pese mais na balança dos seres o
dinheiro subitamente ganho, ou o sorriso subitamente recebido, que são para
outros o que para mim foi, neste momento, a passagem breve de uma brisa
sem continuação.
Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a
objetividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E
tudo isto, efetivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da
brisa me alegra a superfície da pele.
Tudo quanto amamos ou perdemos — coisas, seres, significações – nos
roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a
brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o
poder perder tudo esplendidamente.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 24 Abr 2021, 08:02

83.


Remoinhos, redemoinhos, na futilidade fluida da vida! Na grande praça ao
centro da cidade, a água sobriamente multicolor da gente passa, desvia-se, faz
poças, abre-se em riachos, junta-se em ribeiros. Os meus olhos veem
desatentamente, e construo em mim essa imagem áquea que, melhor que
qualquer outra, e porque pensei que viria chuva, se ajusta a este incerto
movimentos.
Ao escrever esta última frase, que para mim exatamente diz o que define,
pensei que seria útil pôr no fim do meu livro, quando o publicar, abaixo das
"Errata" umas "Não-Errata", e dizer: a frase "a este incerto movimentos", na
página tal, é assim mesmo, com as vozes adjetivas no singular e o substantivo
no plural. Mas que tem isto com aquilo em que estava pensando? Nada, e por
isso me deixo pensá-lo.
À roda dos meios da praça, como caixas de fósforos móveis, grandes e
amarelas, em que uma criança espetasse um fósforo queimado inclinado, para
fazer de mau mastro, os carros elétricos rosnam e tinem; arrancados, assobiam
a ferro alto. À roda da estátua central as pombas são migalhas pretas que se
mexem, como se lhes desse um vento espalhador. Dão passinhos, gordas
sobre pés pequenos. E são sombras, sombras...
Vista de perto; toda a gente é monotonamente diversa. Dizia Vieira que
Frei Luís de Sousa escrevia "o comum com singularidade". Esta gente é
singular com comunidade, às avessas do estilo da Vida do Arcebispo. Tudo
isto me faz pena, sendo-me todavia indiferente. Vim parar aqui sem razão,
como tudo na vida.
Do lado do oriente, entrevista, a cidade ergue-se quase a prumo falso,
assalta estaticamente o Castelo. O sol pálido molha de um aureolar vago essa
mole súbita de casas que para aqui o oculta. O céu é de um azul humidamente
esbranquiçado. A chuva de ontem talvez se repita hoje, mas mais branda. O
vento parece leste, talvez porque aqui mesmo, de repente, cheira vagamente
ao maduro e verde do mercado próximo. Do lado oriental da Praça há mais
forasteiros que do outro. Como descargas alcatifadas, as portas onduladas
descem para cima; não sei porquê, é assim a frase que me transmite aquele
som. É talvez porque fazem mais esse som ao descer, porém agora sobem.
Tudo se explica.
De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado
espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar
é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha
volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou
uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de
noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam — só
sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me
rondam aqui ao sol, mas são gente.


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Mensaje por Maria Lua Lun 26 Abr 2021, 10:10

84.

Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em
verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de
querer ter um sistema e uma norma. E certo que escrevi antes da norma e do
sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.
Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em
dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo
esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se
sente exatamente como se sente — claramente, se é claro; obscuramente, se é
obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um
instrumento, e não uma lei.
Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos.
Um ente humano vulgar dirá dela, "Aquela rapariga parece um rapaz". Um
outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é
dizer, dirá dela, "Aquela rapariga é um rapaz". Outro ainda, igualmente
consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afeto pela
concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, "Aquele rapaz". Eu direi,
"Aquela rapaz", violando a mais elementar das regras da gramática, que manda
que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e
a adjetiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora
da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.
A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por
exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber
dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para
fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver
às escuras. Se quiser dizer que existo, direi "Sou". Se quiser dizer que existo
como alma separada, direi "Sou eu".
Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e
forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei de
empregar o verbo "ser" senão convertendo-o subitamente em transitivo? E
então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi "Sou-me". Terei dito
uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer
nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?
Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem
sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que
tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a
quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática". E a história
narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo "supergrammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz

é, no seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.


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Mensaje por Maria Lua Vie 30 Abr 2021, 09:28

85.

Reparando, às vezes, no trabalho literário abundante ou, pelo menos, feito
de coisas extensas e completas de tantas criaturas que ou conheço ou de quem
sei, sinto em mim uma inveja incerta, uma admiração desprezante, um misto
incoerente de sentimentos mistos.
Fazer qualquer coisa completa, inteira, seja boa ou seja má — e, se nunca é
inteiramente boa, muitas vezes não é inteiramente má -, sim, fazer uma coisa
completa causa-me, talvez, mais inveja do que outro qualquer sentimento. E
como um filho: é imperfeita como todo o ente humano, mas é nossa como os
filhos são.
E eu, cujo espírito de crítica própria me não permite senão que veja os
defeitos, as falhas, eu, que não ouso escrever mais que trechos, bocados,
excertos do inexistente, eu mesmo, no pouco que escrevo, sou imperfeito
também. Mais valera, pois, ou a obra completa, ainda que má, que em todo o
caso é obra; ou a ausência de palavras, o silêncio inteiro da alma que se
reconhece incapaz de agir.


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