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Mensaje por Maria Lua Mar 19 Ene 2021, 07:25

26.

Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma.
Dobraram a curva do caminho e eram muitas raparigas. Vinham cantando
pela estrada, e o som das suas vozes era felizes . Elas não sei o que seriam.
Escutei-as um tempo de longe, sem sentimento próprio. Uma amargura por
elas sentiu-me no coração.
Pelo futuro delas? Pela inconsciência delas? Não diretamente por elas —
ou, quem sabe? Talvez apenas por mim.


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Mensaje por Maria Lua Jue 21 Ene 2021, 06:32

27.


A literatura, que é a arte casada com o pensamento e a realização sem a
mácula da realidade, parece-me ser o fim para que deveria tender todo o
esforço humano, se fosse verdadeiramente humano, e não uma superfluidade
do animal. Creio que dizer uma coisa é conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o
terror. Os campos são mais verdes no dizer-se do que no seu verdor. As
flores, se forem descritas com frases que as definam no ar da imaginação,
terão cores de uma permanência que a vida celular não permite.
Mover-se é viver, dizer-se é sobreviver. Não há nada de real na vida que o
não seja porque se descreveu bem. Os críticos da casa pequena soem apontar
que tal poema, longamente ritmado, não quer, afinal, dizer senão que o dia
está bom. Mas dizer que o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele mesmo,
passa. Temos pois que conservar o dia bom num a memória florida e prolixa,
e assim constelar de novas flores ou de novos astros os campos ou os céus da
exterioridade vazia e passageira.
Tudo é o que somos, e tudo será, para os que nos seguirem na diversidade
do tempo, conforme nós intensamente o houvermos imaginado, isto é, o
houvermos, com a imaginação metida no corpo, verdadeiramente sido. Não
creio que a história seja mais, no seu grande panorama desbotado, que um
decurso de interpretações, um consenso confuso de testemunhos distraídos.
O romancista é todos nós, e narramos quando vemos, porque ver é
complexo como tudo.
Tenho neste momento tantos pensamentos fundamentais, tantas coisas
verdadeiramente metafísicas que dizer, que me canso de repente, e decido não
escrever mais, não pensar mais, mas deixar que a febre de dizer me dê sono, e
eu faça festas com os olhos fechados, como a um gato, a tudo quanto poderia
ter dito.


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Mensaje por Maria Lua Vie 22 Ene 2021, 06:39

28.

Um hálito de música ou de sonho, qualquer coisa que faça quase sentir,
qualquer coisa que faça não pensar.


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Mensaje por Maria Lua Vie 22 Ene 2021, 06:40

29.

Depois que os últimos pingos da chuva começaram a tardar na queda dos
telhados, e pelo centro pedrado da rua o azul do céu começou a espelhar-se
lentamente, o som dos veículos tomou outro canto, mais alto e alegre, e
ouviu-se o abrir de janelas contra o desesquecimento do sol. Então, pela rua
estreita do fundo da esquina próxima, rompeu o convite alto do primeiro
cauteleiro, e os pregos pregados nos caixotes da loja da esquina reverberaram
pelo espaço claro.
Era um feriado incerto, legal e que se não mantinha. Havia sossego e
trabalho conjuntos, e eu não tinha que fazer. Tinha-me levantado cedo e
tardava em preparar-me para existir. Passeava de um lado ao outro do quarto
e sonhava alto coisas sem nexo nem possibilidade — gestos que me esquecera
de fazer, ambições impossíveis realizadas sem rumo, conversas firmes e
contínuas que, se fossem, teriam sido. E neste devaneio sem grandeza nem
calma, neste atardar sem esperança nem fim, gastavam meus passos a manhã
livre e as minhas palavras altas, ditas baixo, soavam múltiplas no claustro do
meu simples isolamento.
A minha figura humana, se a considerava com uma atenção externa, era do
ridículo que tudo quanto é humano assume sempre que é íntimo. Vestira,
sobre os trajes simples do sono abandonado, um sobretudo velho, que me
serve para estas vigílias matutinas. Os meus chinelos velhos estavam rotos,
principalmente o do pé esquerdo. E, com as mãos nos bolsos do casaco
póstumo, eu fazia a avenida do meu quarto curto em passos largos e
decididos, cumprindo com o devaneio inútil um sonho igual aos de toda a
gente.
Ainda, pela frescura aberta da minha janela única, se ouviam cair dos
telhados os pingos grossos da acumulação da chuva ida. Ainda, vagos, havia
frescores de haver chovido. O céu, porém, era de um azul conquistador, e as
nuvens que restavam da chuva derrotada ou cansada cediam, retirando para
sobre os lados do Castelo, os caminhos legítimos do céu todo.
Era a ocasião de estar alegre. Mas pesava-me qualquer coisa, uma ânsia
desconhecida, um desejo sem definição, nem até reles. Tardava-me, talvez, a
sensação de estar vivo. E quando me debrucei da janela altíssima, sobre a rua
para onde olhei sem vê-la, senti-me de repente um daqueles trapos húmidos
de limpar coisas sujas, que se levam para a janela para secar, mas se esquecem,
enrodilhados, no parapeito que mancham lentamente.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 23 Ene 2021, 06:13

30.



Reconheço, não sei se com tristeza, a secura humana do meu coração. Vale
mais para mim um adjetivo que um choro real da alma. O meu mestre Vieira.
Mas às vezes sou diferente, e tenho lágrimas, lágrimas das quentes dos que
não têm nem tiveram mãe; e os meus olhos que ardem dessas lágrimas mortas
ardem dentro do meu coração.
Não me lembro da minha mãe. Ela morreu tinha eu um ano. Tudo o que
há de disperso e duro na minha sensibilidade vem da ausência desse calor e da
saudade inútil dos beijos de que me não lembro. Sou postiço. Acordei sempre
contra seios outros, acalentado por desvio.
Ah, é a saudade do outro que eu poderia ter sido que me dispersa e
sobressalta! Quem outro seria eu se me tivessem dado carinho do que vem
desde o ventre até aos beijos na cara pequena?
Talvez que a saudade de não ser filho tenha grande parte na minha
indiferença sentimental. Quem, em criança, me apertou contra a cara não me
podia apertar contra o coração. Essa estava longe, num jazigo – essa que me
pertenceria, se o Destino houvesse querido que me pertencesse.
Disseram-me, mais tarde, que a minha mãe era bonita, e dizem que, quando
mo disseram, eu não disse nada. Era já apto de corpo e alma, desentendido de
emoções, e o falarem ainda não era uma notícia de outras páginas difíceis de
imaginar.
O meu pai, que vivia longe, matou-se quando eu tinha três anos e nunca o
conheci. Não sei ainda porque é que vivia longe. Nunca me importei de o
saber. Lembro-me da notícia da sua morte como de uma grande seriedade às
primeiras refeições depois de se saber. Olhavam, lembro-me, de vez em
quando para mim. E eu olhava de troco, entendendo estupidamente. Depois
comia com mais regra, pois talvez, sem eu ver, continuassem a olhar-me.
Sou todas essas coisas, embora o não queira, no fundo confuso da minha
sensibilidade fatal


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Mensaje por Maria Lua Dom 24 Ene 2021, 04:51

31.



O relógio que está lá para trás, na casa deserta, porque todos dormem,
deixa cair lentamente o quádruplo som claro das quatro horas de quando é
noite. Não dormi ainda, nem espero dormir. Sem que nada me detenha a
atenção, e assim não durma, ou me pese no corpo, e por isso não sossegue,
jazo na sombra, que o luar vago dos candeeiros da rua torna ainda mais
desacompanhada, o silêncio amortecido do meu corpo estranho.
Nem sei pensar, do sono que tenho; nem sei sentir, do sono que não
consigo ter.
Tudo no meu torno é o universo nu, abstrato, feito de negações noturnas.
Divido-me em cansado e inquieto, e chego a tocar com a sensação do corpo
um conhecimento metafisico do mistério das coisas.
Por vezes amolece-se-me a alma, e então os pormenores sem forma da vida
quotidiana boiam-se-me à superfície da consciência, e estou lançamentos à
tona de não poder dormir. Outras vezes, acordo de dentro do meio-sono em
que estagnei, e imagens vagas, de um colorido poético e involuntário, deixam
escorrer pela minha desatenção o seu espetáculo sem ruídos. Não tenho os
olhos inteiramente cerrados. Orla-me a vista frouxa uma luz que vem de
longe; são os candeeiros públicos acesos lá em baixo, nos confins
abandonados da rua.
Cessar, dormir, substituir esta consciência intervalada por melhores coisas
melancólicas ditas em segredo ao que me desconhecesse!... Cessar, passar
fluido e ribeirinho, fluxo e refluxo de um mar vasto, em costas visíveis na
noite em que verdadeiramente se dormisse!... Cessar, ser incógnito e externo,
movimento de ramos em áleas afastadas, ténue cair de folhas, conhecido no
som mais que na queda, mar alto fino dos repuxos ao longe, e todo o
indefinido dos parques na noite, perdidos entre emaranhamentos contínuos,
labirintos naturais da treva!... Cessar, acabar finalmente, mas com uma
sobrevivência translata, ser a página de um livro, a madeixa de um cabelo
solto, o oscilar da trepadeira ao pé da janela entreaberta, os passos sem
importância no cascalho fino da curva, o último fumo alto da aldeia que
adormece, o esquecimento do chicote do carroceiro à beira matutina do
caminho... O absurdo, a confusão, o apagamento — tudo que não fosse a
vida... E durmo, ao meu modo, sem sono nem repouso, esta vida vegetativa
da suposição, e sob as minhas pálpebras sem sossego paira, como a espuma
quieta de um mar sujo, o reflexo longínquo dos candeeiros mudos da rua.
Durmo e desdurmo.
Do outro lado de mim, lá para trás de onde jazo, o silêncio da casa toca no
infinito. Oiço cair o tempo, gota a gota, e nenhuma gota que cai se ouve cair.
Oprime-me fisicamente o coração físico a memória, reduzida a nada, de tudo
quanto foi ou fui. Sinto a cabeça materialmente colocada na almofada em que
a tenho vale. A pele da fronha tem com a minha pele um contacto de gente na
sombra. A própria orelha, sobre a qual me encosto, grava-se-me
matematicamente contra o cérebro. Pestanejo de cansaço, e as minhas
pestanas fazem um som pequeníssimo, inaudível, na brancura sensível da
almofada erguida. Respiro, suspirando, e a minha respiração acontece — não
é minha. Sofro sem sentir nem pensar. O relógio da casa, lugar certo lá ao
fundo das coisas, soa a meia hora seca e nula. Tudo é tanto, tudo é tão fundo,
tudo é tão negro e tão frio!
Passo tempos, passo silêncios, mundos sem forma passam por mim.
Subitamente, como uma criança do Mistério, um galo canta sem saber da
noite. Posso dormir, porque é manhã em mim. E sinto a minha boca sorrir,
deslocando levemente as pregas moles da fronha que me prende o rosto.
Posso deixar-me à vida, posso dormir, posso ignorar-me... E, através do
sono novo que me escurece, ou lembro o galo que cantou, ou é ele, de veras,
que canta segunda vez.
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Mensaje por Maria Lua Lun 25 Ene 2021, 14:59

32.

Sinfonia de uma noite inquieta
Dormia tudo como se o universo fosse um erro; e o vento, flutuando
incerto, era uma bandeira sem forma desfraldada sobre um quartel sem ser.
Esfarrapava-se coisa nenhuma no ar alto e forte, e os caixilhos das janelas
sacudiam os vidros para que a extremidade se ouvisse. No fundo de tudo,
calada, a noite era o túmulo de Deus (a alma sofria com pena de Deus).
E, de repente — nova ordem das coisas universais agia sobre a cidade -, o
vento assobiava no intervalo do vento, e havia uma noção dormida de muitas
agitações na altura. Depois a noite fechava-se como um alçapão, e um grande
sossego fazia vontade de ter estado a dormir.


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Mensaje por Maria Lua Miér 27 Ene 2021, 05:49

33.


Nos primeiros dias do outono subitamente entrado, quando o escurecer
toma uma evidência de qualquer coisa prematura, e parece que tardámos
muito no que fazemos de dia, gozo, mesmo entre o trabalho quotidiano, esta
antecipação de não trabalhar que a própria sombra traz consigo, por isso que
é noite e a noite é sono, lares, livramento. Quando as luzes se acendem no
escritório amplo que deixa de ser escuro, e fazemos serão sem que
cessássemos de trabalhar de dia, sinto um conforto absurdo como uma
lembrança de outrem, e estou sossegado com o que escrevo como se estivesse
lendo até sentir que irei dormir.

Somos todos escravos de circunstâncias externas: um dia de sol abre-nos
campos largos no meio de um café de viela; uma sombra no campo encolhenos para dentro, e abrigamo-nos mal na casa sem portas de nós mesmos; um
chegar da noite, até entre coisas do dia, alarga, como um leque que se abra
lento, a consciência íntima de dever-se repousar.
Mas com isso o trabalho não se atrasa: anima-se. Já não trabalhamos;
recreamo-nos com o assunto a que estamos condenados.

E, de repente, pela
folha vasta e pautada do meu destino numerador, a casa velha das tias antigas
alberga, fechada contra o mundo, o chá das dez horas sonolentas, e o
candeeiro de petróleo da minha infância perdida brilhando somente sobre a
mesa de linho obscurece-me, com a luz, a visão do Moreira, iluminado a uma
eletricidade negra infinitos para além de mim. Trazem o chá — é a criada mais
velha que as tias que o traz com os restos do sono e o mau humor paciente da
ternura da velha vassalagem — e eu escrevo sem errar uma verba ou uma
soma através de todo o meu passado morto. Reabsorvo-me, perco-me em
mim, esqueço-me a noites longínquas, impolutas de dever e de mundo,
virgens de mistério e de futuro.


E tão suave é a sensação que me alheia do débito e do crédito que, se acaso
uma pergunta me é feita, respondo suavemente, como se tivesse o meu ser
oco, como se não fosse mais que a máquina de escrever que trago comigo,
portátil de mim mesmo aberto. Não me choca a interrupção dos meus
sonhos: de tão suaves que são, continuo sonhando-os por detrás de falar,
escrever, responder, conversar até.

E através de tudo o chá perdido finda, e o
escritório vai fechar... Ergo do livro, que cerro lentamente, olhos cansados do
choro que não tiveram, e, numa mistura de sensações, sofro que ao fechar o
escritório se me feche o sonho também; que no gesto da mão com que cerro
o livro encubra o passado irreparável; que vá para a cama da vida sem sono,
sem companhia nem sossego, no fluxo e refluxo da minha consciência
misturada, como duas marés na noite negra, no fim dos destinos da saudade e
da desolação.


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Mensaje por Maria Lua Jue 28 Ene 2021, 08:31

34.



Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito,
então, parece-me a eternidade.
Não o prazer, não a glória, não o poder: a liberdade, unicamente a
liberdade.
Passar dos fantasmas da fé para os espectros da razão é somente ser
mudado de cela. A arte, se nos liberta dos manipansos assentes e obsoletos,
também nos liberta das ideias generosas e das preocupações sociais —
manipansos também.
Encontrar a personalidade na perda dela — a mesma fé abona esse sentido
de destino


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Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Ene 2021, 04:59

35.


... E um profundo e tediento desdém por todos quantos trabalham para a
humanidade, por todos quantos se batem pela pátria e dão a sua vida para que
a civilização continue... Um desdém cheio de tédio por eles, que desconhecem
que a única realidade para cada um é a sua própria alma, e o resto — o mundo
exterior e os outros — um pesadelo inestético, como um resultado nos
sonhos de uma indigestão de espírito.
A minha aversão pelo esforço excita-se até ao horror quase gesticulante
perante todas as formas de esforço violento. E a guerra, o trabalho produtivo
e enérgico, o auxílio aos outros... Tudo isto não me parece mais que o produto
de um impudor,
E, perante a realidade suprema da minha alma, tudo o que é útil e exterior
me sabe a frívolo e trivial ante a soberana e pura grandeza dos meus mais
vivos e frequentes sonhos. Esses, para mim, são mais reais.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Ene 2021, 05:06

36.


Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do
escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas
vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da
irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente,
da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente me
cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem
com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do
desgosto físico. E a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da
minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o
traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
Há momentos em que cada pormenor do vulgar me interessa na sua
existência própria, e eu tenho por tudo a afeição de saber ler tudo claramente.
Então vejo — como Vieira disse que Sousa descrevia – o comum com
singularidade, e sou poeta com aquela alma com que a crítica dos gregos
formou a idade intelectual da poesia. Mas também há momentos, e um é este
que me oprime agora, em que me sinto mais a mim que às coisas externas, e
tudo se me converte numa noite de chuva e lama, perdido na solidão de um
apeadeiro de desvio, entre dois comboios de terceira classe.
Sim, a minha virtude íntima de ser frequentemente objetivo, e assim me
extraviar de pensar-me, sofre, como todas as virtudes, e até como todos os
vícios, decréscimos de afirmação. Então pergunto a mim mesmo como é que
me sobrevivo, como é que ouso ter a cobardia de estar aqui, entre esta gente,
com esta igualdade certeira com eles, com esta conformação verdadeira com a
ilusão de lixo de eles todos? Ocorrem-me com um brilho de farol distante
todas as soluções com que a imaginação é mulher – o suicídio, a fuga, a
renúncia, os grandes gestos da aristocracia da individualidade, o capa e espada
das existências sem balcão.
Mas a Julieta ideal da realidade melhor fechou sobre o Romeu fictício do
meu sangue a janela alta da entrevista literária. Ela obedece ao pai dela; ele
obedece ao pai dele. Continua a rixa dos Montecchios e dos Capuletos; cai o
pano sobre o que não se deu; e eu recolho a casa — àquele quarto onde é
sórdida a dona de casa que não está lá, os filhos que raras vezes vejo, a gente
do escritório que só verei amanhã — com a gola de um casaco de empregado
do comércio erguida sem estranhezas sobre o pescoço de um poeta, com as
botas compradas sempre na mesma casa evitando inconscientemente os
charcos da chuva fria, e um pouco preocupado, misturadamente, de me ter
esquecido sempre do guarda-chuva e da dignidade da alma.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Ene 2021, 05:07

37.


Intervalo doloroso
Coisa arrojada a um canto, trapo caído na estrada, meu ser ignóbil ante a
vida finge-se.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Ene 2021, 06:55

38.


Invejo a todas as pessoas o não serem eu. Como de todos os impossíveis,
esse sempre me pareceu o maior de todos, foi o que mais se constituiu minha
ânsia quotidiana, o meu desespero de todas as horas tristes.
Uma rajada baça de sol turvo queimou nos meus olhos a sensação física de
olhar. Um amarelo de calor estagnou no verde preto das árvores. O torpor


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Mensaje por Maria Lua Dom 31 Ene 2021, 08:56

39.


De repente, como se um destino médico’ me houvesse operado de uma
cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida
anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto
tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma
espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver.
Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.
Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida
passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais
certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não
foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande
desconhecimento. Nem sequer representei. Representaram-me. Fui, não o
ator, mas os gestos dele.
Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou
a um ente falso que julguei meu, porque agi dele para fora, ou de um peso de
circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver,
um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre
cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.
Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os
limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho,
que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e
pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um
sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz
pouca do cárcere a que se habituara.
Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção
repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre
viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.
É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se
existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras
humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se
deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um
viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali
chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros
durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo — desde a nascença e a
consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e
sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me
incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a
ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente
e natural.
Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os
desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a
verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes
homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não
foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não
saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como
neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da
palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixanos nus até de nós.
Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E,
por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.


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Mensaje por Maria Lua Lun 01 Feb 2021, 10:35

40.


Sinto-me às vezes tocado, não sei porquê, de um prenúncio de morte... Ou
seja, uma vaga doença, que se não materializa em dor e por isso tende a
espiritualizar-se em fim, ou seja, um cansaço que quer um sono tão profundo
que o dormir lhe não basta — o certo é que sinto como se, no fim de um
piorar de doente, por fim largasse sem violência ou saudade as mãos débeis de
sobre a colcha sentida.
Considero então que coisa é esta a que chamamos morte. Não quero dizer
o mistério da morte, que não penetro, mas a sensação física de cessar de viver.
A humanidade tem medo da morte, mas incertamente; o homem normal
bate-se bem em exercício, o homem normal, doente ou velho, raras vezes olha
com horror o abismo do nada que ele atribui a esse abismo. Tudo isso é falta
de imaginação. Nem há nada menos de quem pensa que supor a morte um
sono. Porque o há de ser se a morte se não assemelha ao sono? O essencial do
sono é o acordar-se dele, e da morte, supomos, não se acorda. E se a morte se
assemelha ao sono, deveremos ter a noção de que se acorda dela. Não é isso,
porém, o que o homem normal se figura: figura para si a morte como um
sono de que não se acorda, o que nada quer dizer. A morte, disse, não se
assemelha ao sono, pois no sono se está vivo e dormindo; nem sei como pode
alguém assemelhar a morte a qualquer coisa, pois não pode ter experiência
dela, ou coisa com que a comparar.
A mim, quando vejo um morto, a morte parece-me uma partida. O cadáver
dá-me a impressão de um trajo que se deixou. Alguém se foi embora e não
precisou de levar aquele fato único que vestira.


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Mensaje por Maria Lua Mar 02 Feb 2021, 08:13

41.


O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de
monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de
pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que
sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente
luminosa que se destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E
não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que
sou.

Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem
sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de
todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou
sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que
se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou
até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta,
um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau.

Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos
os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio,
entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas...
Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da
vacuidade íntima... Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma,
por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas
íngremes, longínquo, imerso e fatal...

Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores...
Um sopro leve de vento, que por detrás da janela não sinto, rasga em
desnivelamentos aéreos a queda rectilínea da chuva. Clareia qualquer parte do
céu que não vejo. Noto-o porque, por detrás dos vidros meio-limpos da janela
em frente, já vejo vagamente o calendário na parede lá dentro, que até agora
não via.

Esqueço. Não vejo, sem pensar.
Cessa a chuva, e dela fica, um momento, uma poalha de diamantes
mínimos, como se, no alto, qualquer coisa como uma grande toalha se
sacudisse azulmente dessas migalhinhas. Sente-se que parte do céu está já
aberta. Vê-se, através da janela em frente, o calendário mais nitidamente. Tem
uma cara de mulher, e o resto é fácil porque o reconheço, e a pasta dentífrica é
a mais conhecida de todas.

Mas em que pensava eu antes de me perder a ver? Não sei. Vontade?
Esforço? Vida? Com um grande avanço de luz sente-se que o céu é já quase
todo azul. Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do
meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância
fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem
sequer há desejo de o ter...


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Mensaje por Maria Lua Miér 03 Feb 2021, 06:10

42.



Não compreendo senão como uma espécie de falta de asseio esta inerte
permanência em que jazo da minha mesma e igual vida, ficada como pó ou
porcaria na superfície de nunca mudar.

Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida
como mudamos de roupa — não para salvar a vida, como comemos e
dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que
propriamente chamamos asseio.

Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um
encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o
mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação
com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos,
uma ironia automática do conhecimento.

Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela,
por aquele mesmo extremo de um sentimento, pelo qual o apavorado se não
afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da
banalidade quotidiana por essa mesma atração da própria impotência.
São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos
troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.

Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco
de árvore do usual. Assim passeio o meu destino que anda, pois eu não ando;
o meu tempo que segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão
estes breves comentários que faço a propósito dela.

Contento-me com a minha cela ter vidraças por dentro das grades, e
escrevo nos vidros, no pó do necessário, o meu nome em letras grandes,
assinatura quotidiana da minha escritura com a morte.
Com a morte? Não, nem com a morte. Quem vive como eu não morre:
acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar onde esteve fica sem ele ali estar, a rua
por onde andava fica sem ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por
não-ele. É tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação
podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é nada,
vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por dentro como por
fora das vidraças, netos do Destino e enteados de Deus, que casou com a
Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que nos procriou.
Partir da Rua dos Douradores para o Impossível... Erguer-me da carteira
para o Ignoto... Mas isto intersecionado com a Razão — o Grande Livro que
diz que fomos.


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Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:16

43.


Há um cansaço da inteligência abstrata, e é o mais horroroso dos cansaços.
Não pesa como o cansaço do corpo, nem inquieta como o cansaço do
conhecimento pela emoção. É um peso da consciência do mundo, um não
poder respirar com a alma.

Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em
que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos
fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam
tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por
detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e
estrelado.

O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes
vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos
medos — a da encarnação disforme do não-ser. Outras vezes está atrás de
nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu
horror profundíssimo de a desconhecermos.

Mas este horror que hoje me anula é menos nobre e mais roedor. E uma
vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um
desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento
súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se
só a cela é tudo?

E então vem-me o desejo transbordante, absurdo, de uma espécie de
satanismo que precedeu Satã, de que um dia — um dia sem tempo nem
substância — se encontre uma fuga para fora de Deus e o mais profundo de
nós deixe, não sei como, de fazer parte do ser ou do não-ser.


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Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:39

44.

Há um sono da atenção voluntária, que não sei explicar, e que
frequentemente me ataca, se de coisa tão esbatida se pode dizer que ataca
alguém. Sigo por uma rua como quem está sentado, e a minha atenção,
desperta a tudo, tem todavia a inércia de um repouso do corpo inteiro. Não
seria capaz de me desviar conscientemente de um transeunte oposto.

Não
seria capaz de responder com palavras, ou sequer, dentro em mim, com
pensamentos, a uma pergunta de qualquer casual que fizesse escala pela minha
casualidade coincidente. Não seria capaz de ter um desejo, uma esperança,
uma coisa qualquer que representasse um movimento, não já da vontade do
meu ser completo, mas até, se assim posso dizer, da vontade parcial e própria
de cada elemento em que sou decomponível. Não seria capaz de pensar, de
sentir, de querer.

E ando, sigo, vagueio. Nada nos meus movimentos (reparo
por o que os outros não reparam) transfere para o observável o estado de
estagnação em que vou. E este estado de falta de alma, que seria cómodo,
porque certo, num deitado ou num recumbente, é singularmente incómodo,
doloroso até, num homem que vai andando pela rua.

É a sensação de uma ebriedade de inércia, de uma bebedeira sem alegria,
nem nela, nem na origem. É uma doença que não tem sonho de convalescer.
É uma morte alacre.


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Mensaje por Maria Lua Vie 05 Feb 2021, 06:23

45.


Viver uma vida desapaixonada e culta, ao relento das ideias, lendo,
sonhando, e pensando em escrever, uma vida suficientemente lenta para estar
sempre à beira do tédio, bastante meditada para se nunca encontrar nele.
Viver essa vida longe das emoções e dos pensamentos, só no pensamento das
emoções e na emoção dos pensamentos.

Estagnar ao sol, douradamente,
como um lago obscuro rodeado de flores. Ter, na sombra, aquela fidalguia da
individualidade que consiste em não insistir para nada com a vida. Ser no
volteio dos mundos como uma poeira de flores, que um vento incógnito
ergue pelo ar da tarde, e o torpor do anoitecer deixa baixar no lugar de acaso,
indistinta entre coisas maiores.

Ser isto com um conhecimento seguro, nem
alegre nem triste, reconhecido ao sol do seu brilho e às estrelas do seu
afastamento. Não ser mais, não ter mais, não querer mais... A música do
faminto, a canção do cego, a relíquia do viandante incógnito, as passadas no
deserto do camelo vazio sem destino...


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Mensaje por Maria Lua Sáb 06 Feb 2021, 05:31

46.


Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um
livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que
resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena,
pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a
cidade...
"Porque eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha
altura."
Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito,
limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida.
Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande
céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me
estremece no corpo todo.
"Sou do tamanho do que vejo!" Cada vez que penso esta frase com toda a
atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir
consteladamente o universo. "Sou do tamanho do que vejo!" Que grande
posse mental Vai desde o poço das emoções profundas até às altas estrelas
que se refletem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.
E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objetiva dos
céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando.
"Sou do tamanho do que vejo!" E o vago luar, inteiramente meu, começa a
estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.
Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria
ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova
personalidade largal aos grandes espaços da matéria vazia.
Mas recolho-me e abrando. "Sou do tamanho do que vejo!" E a frase ficame sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre
mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar
duro que começa largo com o anoitecer.


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Mensaje por Maria Lua Jue 11 Feb 2021, 04:53

47.



No desalinho triste das minhas emoções confusas...
Uma tristeza de crepúsculo, feita de cansaços e de renúncias falsas, um
tédio de sentir qualquer coisa, uma dor como de um soluço parado ou de uma
verdade obtida. Desenrola-se-me na alma desatenta esta paisagem de
abdicações — áleas de gestos abandonados, canteiros altos de sonhos nem
sequer bem sonhados, inconsequências, como muros de buxo dividindo
caminhos vazios, suposições, como velhos tanques sem repuxo vivo, tudo se
emaranha e se visualiza pobre no desalinho triste das minhas sensações
confusas.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Feb 2021, 22:01

48.

Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada
conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de
Leonardo da Vinci de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois
de compreendê-la.
A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa
descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração
especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.


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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 05:54

49.



O isolamento talhou-me à sua imagem e semelhança. A presença de outra
pessoa — de uma só pessoa que seja — atrasa-me imediatamente o
pensamento, e, ao passo que no homem normal o contacto com outrem é um
estímulo para a expressão e para o dito, em mim esse contacto é um
contraestímulo, se é que esta palavra composta é viável perante a linguagem.
Sou capaz, a sós comigo, de idear quantos ditos de espírito, respostas rápidas
ao que ninguém disse, fulgurações de uma sociabilidade inteligente com
pessoa nenhuma; mas tudo isso se me some se estou perante um outrem
físico, perco a inteligência, deixo de poder dizer, e, no fim de uns quartos de
hora, sinto apenas sono. Sim, falar com gente dá-me vontade de dormir. Só os
meus amigos espectrais e imaginados, só as minhas conversas decorrentes em
sonho, têm uma verdadeira realidade e um justo relevo, e neles o espírito é
presente como uma imagem num espelho.
Pesa-me, aliás, toda a ideia de ser forçado a um contacto com outrem. Um
simples convite para jantar com um amigo me produz uma angústia difícil de
definir. A ideia de uma obrigação social qualquer — ir a um enterro, tratar
junto de alguém de uma coisa do escritório, ir esperar à estação uma pessoa
qualquer, conhecida ou desconhecida -, só essa ideia me estorva os
pensamentos de um dia, e às vezes é desde a mesma véspera que me
preocupo, e durmo mal, e o caso real, quando se dá, é absolutamente
insignificante, não justifica nada; e o caso repete-se e eu não aprendo nunca a
aprender.
"Os meus hábitos são da solidão, que não dos homens"; não sei se foi
Rousseau, se Senancour, o que disse isto. Mas foi qualquer espírito da minha
espécie — não poderei talvez dizer da minha raça.


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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 05:55

50.


Espaçado, um vaga-lume vai sucedendo-se a si mesmo. Em torno, obscuro,
o campo é uma grande falta de ruído que cheira quase bem. A paz de tudo dói
e pesa. Um tédio informe afoga-me.
Poucas vezes vou ao campo, quase nenhumas ali passo um dia, ou de um
dia para outro. Mas hoje, que este amigo, em cuja casa estou, me não deixou
não aceitar o seu convite, vim para aqui cheio de constrangimento — como
um tímido para uma festa grande -, cheguei aqui com alegria, gostei do ar e da
paisagem ampla, almocei e jantei bem, e agora, noite funda, no meu quarto
sem luz o lugar vago enche-me de angústia.
A janela do quarto onde dormirei deita para o campo aberto, para um
campo indefinido, que é todos os campos, para a grande noite vagamente
constelada onde uma aragem que se não ouve se sente. Sentado à janela,
contemplo com os sentidos esta coisa nenhuma da vida universal que está lá
fora. A hora harmoniza-se numa sensação inquieta, desde a invisibilidade
visível de tudo até à madeira vagamente rugosa de ter estalado a tinta velha do
parapeito branquejante, onde está estendidamente apoiada de lado a minha
mão esquerda.
Quantas vezes, contudo, não anseio visualmente por esta paz de onde
quase fugiria agora, se fosse fácil ou decente! Quantas vezes julgo crer — lá
em baixo, entre as ruas estreitas de casas altas — que a paz, a prosa, o
definitivo estariam antes aqui, entre as coisas naturais, que ali onde o pano de
mesa da civilização faz esquecer o pinho já pintado em que assenta! E, agora,
aqui, sentindo-me saudável, cansado a bem, estou intranquilo, estou preso,
estou saudoso.
Não sei se é a mim que acontece, se a todos os que a civilização fez nascer
segunda vez. Mas parece-me que para mim, ou para os que sentem como eu, o
artificial passou a ser o natural, e é o natural que é estranho. Não digo bem: o
artificial não passou a ser o natural; o natural passou a ser diferente. Dispenso
e detesto veículos, dispenso e detesto os produtos da ciência — telefones,
telégrafos — que tornam a vida fácil, ou os subprodutos da fantasia —
gramofonógrafos, recetores hertzianos — que, aos a quem divertem, a tornam
divertida.
Nada disso me interessa, nada disso desejo. Mas amo o Tejo porque há
uma cidade grande à beira dele. Gozo o céu porque o vejo de um quarto
andar de rua da Baixa. Nada o campo ou a natureza me pode dar que valha a
majestade irregular da cidade tranquila, sob o luar, vista da Graça ou de São
Pedro de Alcântara. Não há para mim flores como, sob o sol, o colorido
variadíssimo de Lisboa.
A beleza de um corpo nu só a sentem as raças vestidas. O pudor vale
sobretudo para a sensualidade como o obstáculo para a energia.
A artificialidade é a maneira de gozar a naturalidade. O que gozei destes
campos vastos, gozei-o porque aqui não vivo. Não sente a liberdade quem
nunca viveu constrangido.
A civilização é uma educação de natureza. O artificial é o caminho para
uma apreciação do natural.
O que é preciso, porém, é que nunca tomemos o artificial por natural.
É na harmonia entre o natural e o artificial que consiste a naturalidade da
alma humana superior.


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Mensaje por Maria Lua Lun 15 Feb 2021, 15:23

51.



O céu negro ao fundo do sul do Tejo era sinistramente negro contra as
asas, por contraste, vividamente brancas das gaivotas em voo inquieto. O dia,
porém, não estava tempestuoso já. Toda a massa da ameaça da chuva passara
para por sobre a outra margem, e a cidade baixa, húmida ainda do pouco que
chovera, sorria do chão a um céu cujo Norte se azulava ainda um pouco
brancamente. O fresco da Primavera era levemente frio.
Numa hora como esta, vazia e imponderável, apraz-me conduzir
voluntariamente o pensamento para uma meditação que nada seja, mas que
retenha, na sua limpidez de nula, qualquer coisa da frieza erma do dia
esclarecido, com o fundo negro ao longe, e certas intuições, como gaivotas,
evocando por contraste o mistério de tudo em grande negrume.
Mas, de repente, em contrário do meu propósito literário íntimo, o fundo
negro do céu do Sul evoca-me, por lembrança verdadeira ou falsa, outro céu,
talvez visto em outra vida, num Norte de rio menor, com juncais tristes e sem
cidade nenhuma. Sem que eu saiba como, uma paisagem para patos bravos
alastra-se-me pela imaginação e é com a nitidez de um sonho raro que me
sinto próximo da extensão que imagino.
Terra de juncais à beira de rios, terreno para caçadores e angústias, as
margens irregulares entram, como pequenos cabos sujos, nas águas cor de
chumbo amarelo, e reentram em baías limosas, para barcos de quase
brinquedo, em ribeiras que têm água a luzir à tona de lama oculta entre as
hastes verde-negras dos juncos, por onde se não pode andar.
A desolação é de um céu cinzento morto, aqui e ali arrepanhando-se em
nuvens mais negras que o tom do céu. Não sinto vento, mas há-o, e a outra
margem, afinal, é uma ilha longa, por detrás da qual se divisa — grande e
abandonado rio! — a outra margem verdadeira, deitada na distância sem
relevo.
Ninguém ali chega, nem chegará. Ainda que, por uma fuga contraditória do
tempo e do espaço, eu pudesse evadir-me do mundo para essa paisagem,
ninguém ali chegaria nunca. Esperaria em vão o que não saberia que esperava,
nem haveria senão, no fim de tudo, um cair lento da noite, tornando-se todo o
espaço, lentamente, da cor das nuvens mais negras, que pouco a pouco se
emergiam ’ no conjunto abolido do céu.
E, de repente, sinto aqui o frio de ali. Toca-me no corpo, vindo dos ossos.
Respiro alto e desperto. O homem, que cruza comigo sob a Arcada ao pé da
Bolsa, olha-me com uma desconfiança de quem não sabe explicar. O céu
negro, apertando-se, desceu mais baixo sobre o Sul.


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Mensaje por Maria Lua Vie 19 Feb 2021, 05:32

52.


O vento levantou-se... Primeiro era como a voz de um vácuo... Um soprar
no espaço para dentro de um buraco, uma falta no silêncio do ar. Depois
ergueu-se um soluço, um soluço do fundo do mundo, o sentir-se que tremiam
vidraças e que era realmente vento. Depois soou mais alto, urro surdo, um
chorar sem ser ante o aumentar noturno, um ranger de coisas, um cair de
bocados, um átomo de fim do mundo.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Feb 2021, 05:22

53.



Quando, como uma noite de tempestade a que o dia se segue, o
cristianismo passou de sobre as almas, viu-se o estrago que, invisivelmente,
havia causado; a ruína, que causara, só se viu quando ele passara já. Julgaram
uns que era pela sua falta que essa ruína viera; mas fora pela sua ida que a
ruína se mostrara, não que se causara.
Ficou, então, neste mundo de almas, a ruína visível, a desgraça patente, sem
a treva que a cobrisse do seu carinho falso. As almas viram-se tais quais eram.
Começou, então, nas almas recentes aquela doença a que se chamou
romantismo, aquele cristianismo sem ilusões, aquele cristianismo sem mitos,
que é a própria secura da sua essência doentia.
O mal todo do romantismo é a confusão entre o que nos é preciso e o que
desejamos. Todos nós precisamos das coisas indispensáveis à vida, à sua
conservação e ao seu continuamento; todos nós desejamos uma vida mais
perfeita, uma felicidade completa, a realidade dos nossos sonhos e É humano
querer o que nos é preciso, e é humano desejar o que não nos é preciso, mas é
para nós desejável. O que é doença é desejar com igual intensidade o que é
preciso e o que é desejável, e sofrer por não ser perfeito como se se sofresse
por não ter pão. O mal romântico é este: é querer a lua como se houvesse
maneira de a obter.
"Não se pode comer um bolo sem o perder."
Na esfera baixa da política, como no íntimo recinto das almas — o mesmo
mal.
O pagão desconhecia, no mundo real, este sentido doente das coisas e de si
mesmo. Como era homem, desejava também o impossível; mas não o queria.
A sua religião era e só nos penetrais do mistério, aos iniciados apenas, longe
do povo e dos eram ensinadas aquelas coisas transcendentes das religiões que
enchem a alma do vácuo do mundo.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Feb 2021, 05:47

54.


A personagem individual e imponente, que os românticos figuravam em si
mesmos, várias vezes, em sonho, a tentei viver, e, tantas vezes, quantas a
tentei viver, me encontrei a rir alto, da minha ideia de vivê-la. O homem fatal,
afinal, existe nos sonhos próprios de todos os homens vulgares, e o
romantismo não é senão o virar do avesso do domínio quotidiano de nós
mesmos. Quase todos os homens sonham, nos secretos do seu ser, um grande
imperialismo próprio, a sujeição de todos os homens, a entrega de todas as
mulheres, a adoração dos povos, e, nos mais nobres’, de todas as eras...
Poucos como eu habituados ao sonho, são por isso lúcidos bastante para rir
da possibilidade estética de se sonhar assim.

A maior acusação ao romantismo não se fez ainda: é a de que ele representa
a verdade interior da natureza humana. Os seus exageros, os seus ridículos, os
seus poderes vários de comover e de seduzir, residem em que ele é a figuração
exterior do que há mais dentro na alma, mas concreto, visualizado, até
possível, se o ser possível dependesse de outra coisa que não o Destino.
Quantas vezes eu mesmo, que rio de tais seduções da distração, me
encontro supondo que seria bom ser célebre, que seria agradável ser
ameigado, que seria colorido ser triunfal! Mas não consigo visionar-me nesses
papéis de píncaro senão com uma gargalhada do outro eu que tenho sempre
próximo como uma rua da Baixa.

Vejo-me célebre? Mas vejo-me célebre
como guarda-livros. Sinto-me alçado aos tronos do ser conhecido? Mas o caso
passa-se no escritório da Rua dos Douradores e os rapazes são um obstáculo.
Ouço-me aplaudido por multidões variegadas? O aplauso chega ao quarto
andar onde moro e colide com a mobília tosca do meu quarto barato, com o
reles que me rodeia, e me amesquinha desde a cozinha ao sonho. Não tive
sequer castelos em Espanha, como os grandes espanhóis de todas as ilusões.
Os meus foram de cartas de jogar, velhas, sujas, de um baralho incompleto
com que se não poderia jogar nunca nem caíram, foi preciso destruí-los, com
um gesto de mão, sob o impulso impaciente da criada velha, que queria
recompor, sobre a mesa inteira, a toalha atirada sobre a metade de lá, porque a
hora do chá soara como uma maldição do Destino.

Mas até isto é uma visão
improfícua, pois não tenho a casa de província, ou as tias velhas, a cuja mesa
eu tome, no fim de uma noite de família, um chá que me saiba a repouso. O
meu sonho falhou até nas metáforas e nas figurações. O meu império nem
chegou às cartas velhas de jogar. A minha vitória falhou sem um bule sequer
nem um gato antiquíssimo. Morrerei como tenho vivido, entre o bric-à-brac
dos arredores, apreçado pelo peso entre os pós-escritos do perdido.
Leve eu ao menos, para o imenso possível do abismo de tudo, a glória da
minha desilusão como se fosse a de um grande sonho, o esplendor de não
crer como um pendão de derrota — pendão contudo nas mãos débeis, mas
pendão arrastado entre a lama e o sangue dos fracos, mas erguido ao alto, ao
sumirmo-nos nas areias movediças, ninguém sabe se como protesto, se como
desafio, se como gesto de desespero. Ninguém sabe, porque ninguém sabe
nada, e as areias engolfam os que têm pendões como os que não têm. E as
areias cobrem tudo, a minha vida, a minha prosa, a minha eternidade.
Levo comigo a consciência da derrota como um pendão de vitória


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Mensaje por Maria Lua Ayer a las 05:20

55.

Por mais que pertença, por alma, à linhagem dos românticos, não encontro
repouso senão na leitura dos clássicos. A sua mesma estreiteza, através da qual
a clareza se exprime, me conforta não sei de quê. Colho neles uma impressão
alacre de vida larga, que contempla amplos espaços sem os percorrer. Os
mesmos deuses pagãos repousam do mistério.
A análise sobre curiosa das sensações — por vezes das sensações que
supomos ter -, a identificação do coração com a paisagem, a revelação
anatómica dos nervos todos, o uso do desejo como vontade e da aspiração
como pensamento — todas estas coisas me são demasiado familiares para que
em outrem me tragam novidade, ou me deem sossego. Sempre que as sinto,
desejaria, exatamente porque as sinto, estar sentindo outra coisa. E, quando
leio um clássico, essa outra coisa é-me dada.
Confesso-o sem rebuço nem vergonha... Não há trecho de Chateaubriand
ou canto de Lamartine — trechos que tantas vezes parecem ser a voz do que
eu penso, cantos que tanta vez parecem ser-me ditos para conhecer – que me
enleve e me erga como um trecho de prosa de Vieira ou uma ou outra ode
daqueles nossos poucos clássicos que seguiram deveras a Horácio.
Leio e estou liberto. Adquiro objetividade. Deixei de ser eu e disperso. E o
que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a
grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua
que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a
solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos
tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves
das encostas.
Leio como quem abdica. E, como a coroa e o manto régios nunca são tão
grandes como quando o Rei que parte os deixa no chão, deponho sobre os
mosaicos das antecâmaras todos os meus triunfais do tédio e do sonho, e
subo a escadaria com a única nobreza de ver.
Leio como quem passa. E é nos clássicos, nos calmos, nos que, se sofrem,
o não dizem, que me sinto sagrado transeunte, ungido peregrino
contemplador sem razão do mundo sem propósito, Príncipe do Grande
Exílio, que deu, partindo-se, ao último mendigo, a esmola extrema da sua
desolação.


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