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Mensaje por Maria Lua Jue 08 Sep 2022, 08:00

CONSIDERAÇÃO DO POEMA


Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convém.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.
Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.

Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?

Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes
[rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.

Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis ai meu canto.
Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.


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o un ciego soñando
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Mensaje por Maria Lua Jue 08 Sep 2022, 08:02

PROCURA DA POESIA


Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à
[efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.

O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das
[casas.
Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas
[junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


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Mensaje por Maria Lua Jue 08 Sep 2022, 08:26

A FLOR E A NÁUSEA


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:

Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Vomitar esse tédio sobre a cidade.

Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.

Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.

Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.




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Mensaje por Maria Lua Lun 12 Sep 2022, 16:22

CARREGO COMIGO


Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.

Serão duas cartas?
será uma flor?
será um retrato?
um lenço talvez?

Já não me recordo
onde o encontrei.
Se foi um presente
ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
trazendo-o nas mãos,
se boiava no rio,
se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

Como poderia
tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
e também tão quente.

Ele arde nas mãos,
é doce ao meu tato.
Pronto me fascina
e me deixa triste.

Guardar um segredo
em si e consigo,
não querer sabê-lo
ou querer demais.

Guardar um segredo
de seus próprios olhos,
por baixo do sono,
atrás da lembrança.

A boca experiente
saúda os amigos.
Mão aperta mão,
peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
vêm das coisas gritos.
O mundo te chama:
Carlos! Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
de jogá-lo ao fundo
da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
cinzas se dispersam
e não fica sombra
sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
que antes me carregas
do que és carregado,
para onde me levas?

Por que não me dizes
a palavra dura
oculta em teu seio,
carga intolerável?

Seguir-te submisso
por tanto caminho
sem saber de ti
senão que te sigo.

Se agora te abrisses
e te revelasses
mesmo em forma de erro,
que alivio seria!

Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
se vou para o baile.
De manhã te levo

para a escura fábrica
de negro subúrbio.
És, de fato, amigo
secreto e evidente.

Perder-te seria
perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
nas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.


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Mensaje por Maria Lua Lun 12 Sep 2022, 16:23

ANOITECER

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.

É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.

A Dolores
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz — morte — mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
Ê antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.





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Mensaje por Maria Lua Vie 16 Sep 2022, 08:17

Antología
:copyright: Carlos Drummond de Andrade

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Edición y diseño Harold Alvarado Tenorio y Héctor Hernán Gómez
Impreso en Colombia - Printed in Colombia
Todos los derechos reservados. Esta publicación no puede ser reproducida, ni en
todo ni en parte, ni registrada en o transmitida por, un sistema de recuperación de
información, en ninguna forma ni por ningún medio, sea mecánico, fotoquímico,
electrónico, magnético, electroóptico, por fotocopia, o cualquier otro, sin el permiso
previo por escrito de la editorial.



Carlos Drummond de Andrade



Fue en la rumorosa Feria del Libro, en Buenos Aires, y precisamente en
la sala Jorge Luis Borges, colmada por cientos de personas ese sábado 27 de
abril de 2002. Junto con tres colegas brasileños, invitados todos por su Embajada, conmemoramos el centenario del nacimiento de uno de los más
grandes poetas del continente: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).
Profundamente emocionado, pronto abandoné el texto escrito previamente
para permitirme improvisar, más libremente, dejando fluir mis sentimientos junto con mis razones. Porque esa poesía y ese hombre, con una misteriosa precisión, estaban muy hondamente relacionados con mi vida.
Hijo de gallegos, el primero de mi familia nacido en Buenos Aires, de
familia bilingüe, me descubrí escribiendo poesía en mi primera adolescencia. Y, casi al mismo tiempo, me descubrí igualmente traduciendo poesía,
sobre todo del portugués pero también del italiano y del francés. Y lo primero que traduje fueron poemas de Carlos Drummond de Andrade, que siempre me atrajeron fuertemente. Y que no sólo proseguí divulgando en mi país
sino también en Latinoamérica y España.

Todo se potenció al verme convertido, un día antes de cumplir diecisiete
años, en el miembro más joven de un movimiento argentino de vanguardia,
reunido alrededor de la revista Poesía Buenos Aires (1950-1960), que iba a
modificar de raíz la teoría y la práctica de la poesía argentina. A partir de
entonces, todo se aceleró, y la viva presencia de Carlos Drummond de Andrade
comenzó a ser una riqueza generosamente compartida. Entre nosotros, y
con los otros. Allí publiqué mi versión de El obrero en el mar, ese texto
magnífico, de honda significación estética y humana. Allí se llamó Sentimiento del mundo una de nuestras colecciones. Allí fue Drummond uno de
los cuatro primeros autores incluidos en los pocos cuadernillos que llegaron
a publicarse de una ambiciosa serie, Poetas del Siglo Veinte, luego interrumpida.
Acusados entonces de europeizantes y de afrancesados (y es verdad que
adorábamos a Éluard y Apollinaire, a Char y Dylan Thomas, por ejemplo),
también nos preciábamos de Huidobro y de Vallejo, de Oliverio Girondo y
Carlos Drummond de Andrade de Juan L. Ortiz, entre otros grandes latinoamericanos. Y a través de
Drummond me tocó, a partir de entonces, convertirme en el devoto impulsor de los indelebles modernistas brasileños, que vengo traduciendo y difundiendo sin cesar.

Capaz de ser al mismo tiempo absolutamente renovador y legítimamente
nacional, en el mejor sentido, el modernismo brasileño constituye una prueba
evidente de la originalidad de las vanguardias latinoamericanas, tantas veces
acusadas de ser mero reflejo de recursos europeos. Y, con ser originalísima, la
obra de Carlos Drummond se vuelve también significativa en ese contexto
modernista, del cual constituye muy probablemente el paradigma. Popular
sin demagogia, discreta sin pavoneos, distante pero cálida, precisa sin frialdad, incluso en sus comienzos abiertamente comprometida pero con tal intensidad de vida y de lenguaje que sus poemas de ese tipo continúan en
vigencia y conmoviéndonos, el desarrollo de la poesía de Drummond constituyó para nosotros, y especialmente para mí, una experiencia enriquecedora.

Donde lo estético y lo humano se daban como evidencia viva, lograda, cabal,
y al mismo tiempo temblorosamente inerme, transida, contagiosa.
Si pudo ofrecernos, en Búsqueda de la poesia, una lúcida, ejemplar arte
poética, de luminosa inteligencia y contagiosa sensibilidad, capaz de precavernos contra toda demagogia, y que cada día cobra más justificadas dimensiones (especialmente en estos tiempos de ácida banalización y consiguiente
aridez del lenguaje, inclusive cotidiano, asolado por los medios audiovisuales
globalizados), ¿no es llamativo que haya logrado hacerlo después de su tocante Consideración del poema, humanísima obertura con la que abre, en los
duros y crueles años que fueron de 1943 a 1945, en lucha mundial contra
el fascismo, nada menos que un libro que quiso llamar La rosa del pueblo?

Es la misma temblorosa precisión con que, como el torero a la hora de la
verdad, en un golpe de gracia, culmina allí mismo ese otro poema imborrable: Pasaje del año, como si quisiera dar una demostración definitiva a aquel
lúcido aserto de Huidobro («el adjetivo, cuando no da vida, mata»), con
estas palabras indelebles: «La vida es gorda, oleosa, mortal, subrepticia.» No
sólo calidad literaria, ni mucho menos habilidad retórica, como se ve, sino
precisamente lenguaje encarnado, belleza-verdad hecha voz, inflexión y sentido. Porque, como él mismo dijo, no se trata apenas de escribir bien, de tener buenos sentimientos o buenas razones sino de «ser hombre en el poema», apenas, nada menos. Después de todo, aunque con sobria dignidad él
haya aludido a «razones de conciencia», ¿no habrá sido asimismo por razones estéticas que, en 1975, Drummond rechazó el bien dotado Premio de
Literatura de Brasilia que celebraba el aniversario de la dictadura militar?
Si vuelvo la vista atrás, continúo sin salir de mi asombro. ¿Cómo consiguió el adolescente tímido que yo era, tomar contacto epistolar con
Drummond de Andrade, que me contestó con increíble generosidad? Libros
y cartas me llegaban, entibiándome el corazón, desde su domicilio carioca en
Conselheiro Lafaiete 60/701. (Y algo similar me iba a seguir ocurriendo,
poco tiempo después, con Murilo Mendes.) Pero no era sorprendente. Con
ese clima de fraternidad exigente, con esa amistad desinteresada y generosa
pero al mismo tiempo profundamente respetuosa de la dignidad, estética y
humana, de la poesía, los modernistas brasileños habían creado entre ellos y
sus obras lazos que los sostenían y los intercomunicaban. Son memorables,
y envidiables, entre muchas otras por ejemplo las relaciones de Bandeira con
Mário de Andrade, de Drummond con Bandeira, de Murilo con todos. Y de
ello ha quedado vigente testimonio no sólo en cartas, gestos y opiniones sino
también en algunos poemas imborrables.
Y yo también tuve pruebas de ello. En 1957, colaboraba con Paco Urondo
(otro miembro de Poesía Buenos Aires) en la Primera Reunión de Arte Contemporáneo, organizada para la Universidad Nacional del Litoral en la ciudad de Santa Fe, y donde se reunieron entonces las vertientes más avanzadas
del arte y la cultura moderna en la Argentina. Sólo hubo tres invitados
especiales, y uno de ellos fue Drummond, el único extranjero. Quien contestó a mi pedido enviando, de inmediato, el original de su bello poema

Especulaciones alrededor de la palabra hombre, por entonces todavía inédito,
que traduje conmovido y que no sólo fue expuesto sino también incluido en
el volumen que se publicó al año siguiente.
El primer libro de Drummond de Andrade que tuve entre mis manos fue
Fazendeiro do Ar & Poesia até Agora, que Livraria José Olympio Editôra
publicó en 1954. Y precisamente ese libro culmina con uno de los pocos
poemas de Drummond explícitamente relacionados con Buenos Aires. Se
trata de A Luís Maurício, niño, dedicado a uno de sus tres nietos argentinos,
y donde Buenos Aires aparece explícitamente aludida. No sólo por esa «ventana / que da hacia el Ministerio de Trabajo», cuya efigie burocrática es
engalanada por la primavera, sino también por «el enano de Harrods, hoy
viejo, entre niños enormes», que sólo los mayores recordarán ahora, o el
ciego sentado «en su inmovilidad, / en la esquina de Córdoba y Florida» , o
algunos habitantes de nuestro Jardín Zoológico, sin duda visitado con los
niños («Fíjate que hay terciopelo en los osos. / Incómodos y prisioneros, en
Palermo»), o también, como todos sabemos que «los chicos y las palomas
confraternizan en la Plaza de Mayo»).

Lo que me trae de inmediato el recuerdo de su única hija, María Julieta
(cuya muerte iba a causarle la muerte), casada y viviendo en Buenos Aires, a
quien una noche memorable de 1967 invité a mi casa, para recibir allí juntos a Giuseppe Ungaretti (a quien también traduje en 1962), que había
vivido en Brasil y como para volver a reunirlo con Drummond, reuniendo
así de paso en dos figuras ejemplares mi devoción de siempre por la poesía
italiana y la poesía brasileña, acaso las otras dos patrias de mi espíritu.
Poco después, en una carta del 3 de enero de 1968, Drummond comienza definiéndose «como el animal menos epistológrafo del mundo» para terminar adjuntando, tan discreta como generosamente, «unas pocas líneas»
para prologar mi libro Hago el amor (1969), a pesar de que «ya no escribo
prefacios.»
Aunque en medio de la supuesta globalización continúe en Latinoamérica
la insoportable balcanización de nuestros pueblos, siempre me pareció especialmente doloroso que esa absurda incomunicación se produzca también

con el Brasil, cuya cultura contagiosamente vital, extraordinariamente viva,
ha de resultar especialmente fecunda para un continente del cual, por otra
parte, constituye prácticamente la mitad. No son los intereses que quieren
ver justos, libres y fuertes a nuestros pueblos los que nos mantienen, todavía
en gran medida, tan absurdamente incomunicados. En la medida de mis
posibilidades, y siempre que me ha sido posible, he tratado de contribuir a
que la gran poesía de Brasil se mantenga bien viva entre nosotros, los otros
pueblos hermanos de habla castellana. Y en ese impulso, desde un comienzo, la gran poesía de Carlos Drummond de Andrade ha resultado siempre un
protagonista fundamental. Alrededor del fuego de la voz de Drummond,
fraterna y exigente, cada día más viva, cada día más vivos, habremos de continuar reuniéndonos, todos nosotros, brasileños, argentinos, colombianos,
latinoamericanos todos, en ese legítimo «sentimiento del mundo» que, hijo
del planeta, abarcará al planeta.



Rodolfo Alo
nso




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Mensaje por Maria Lua Vie 16 Sep 2022, 08:21

.
Poema de siete caras




Cuando nací, un ángel chueco
de esos que viven en la sombra
dijo: Anda, ¡Carlos! a ser gauche en la vida.

Las casas espían a los hombres
que corren detrás de mujeres.
La tarde tal vez fuese azul,
si no hubiese tantos deseos.

El tranvía pasa lleno de piernas:
piernas blancas negras amarillas.
Para qué tanta pierna, Dios mío, pregunta mi corazón.
Sin embargo mis ojos no preguntan nada.

El hombre detrás del bigote
es serio, simple y fuerte. Casi no conversa.
Tiene pocos, raros amigos
el hombre detrás de los anteojos y el bigote.

Dios mío, por qué me abandonaste
si sabías que yo no era Dios
si sabías que yo era débil.

Mundo mundo vasto mundo, si me llamase Raimundo
sería una rima, no sería una solución.
Mundo mundo vasto mundo, más vasto es mi corazón.

Yo no debía decírtelo
pero esa luna
pero ese coñac
lo dejan a uno más conmovido que el diablo




*************************


Original en portugués:



Poema de Sete Faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


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Mensaje por Maria Lua Vie 16 Sep 2022, 08:30

Laguna

Yo no vi el mar.
No sé si el mar es lindo,
no sé si es bravo.
El mar no me importa.

Yo vi la laguna.
La laguna, sí.
La laguna es grande
y calma también.

En la lluvia de colores
de la tarde que estalla
la laguna brilla
la laguna se pinta
de todos colores.
Yo no vi el mar.
Yo vi la laguna...



********************


Original en portugués:



Lagoa



Eu não vi o mar.
Não sei se o mar é bonito,
não sei se êle é bravo.
O mar não me importa.

Eu vi a lagoa.
A lagoa, sim.
A lagoa é grande
e calma também.

Na chuva de cores
da tarde que explode
a lagoa brilha
a lagoa se pinta
de todas as cores.
Eu não vi o mar.
Eu vi a lagoa. . .


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o un ciego soñando
y en ese vuelo y en ese sueño
compartir contigo sol y luna,
siendo guardián en tu cielo
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Mensaje por Maria Lua Vie 16 Sep 2022, 08:33

Política literaria


El poeta municipal
discute con el poeta provincial
cual de ellos es capaz de vencer al poeta federal.

Mientras tanto el poeta federal
se saca oro de la nariz.


********************


Original en portugués:




Política Literária


A Manuel Bandeira


O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.




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Mensaje por Maria Lua Vie 16 Sep 2022, 08:37

Sentimental

Me pongo a escribir tu nombre
con fideos de letritas.
En el plato, la sopa se enfría, llena de escamas
y acodados en la mesa todos contemplan
ese romántico trabajo.

Desgraciadamente falta una letra,
¡una letra solamente
para acabar tu nombre!

— ¿Estás soñando? ¡Mira que la sopa se enfría!

Yo estaba soñando...
Y hay en todas las conciencias un cartel amarillo:
«En este país está prohibido soñar.»


*****************


Original en portugués:


Sentimental



Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

— Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências este cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."





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Mensaje por Amalia Lateano Vie 16 Sep 2022, 20:17

Carlos Drumond de Andrade, considero que es una maravilla, y que representa estilística y temáticamente hablando, una síntesis, consciente y didáctica de la obra que busca el principio de la esperanza.-

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Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:44

Poema que Aconteceu



Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.



**********************




Poema que ocurrió

Ningún deseo en este domingo
ningún problema en esta vida
el mundo paró de repente
los hombres quedaron callados
domingo sin fin ni comienzo.
La mano que escribe este poema
no sabe que está escribiendo
mas puede ser que si supiese
no atinara


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Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:47

Poesia


Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


****************

Poesía

Gasté una hora pensando un verso
que la pluma no quiere escribir.
No obstante él está aquí dentro
inquieto, vivo.
Él está aquí dentro
y no quiere salir.
Pero la poesía de este momento
inunda mi vida entera.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:49


Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história


***************


Cuadrilla


Juan amaba a Teresa que amaba a Raimundo
que amaba a María que amaba a Joaquín que amaba a Lilí
que no amaba a nadie.
Juan se fue a los Estados Unidos, Teresa al convento,
Raimundo murió en un desastre, María quedó para tía,
Joaquín se suicidó y Lilí se casó con J. Pinto Fernández
que no tenía nada que ver en el asunto.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 17 Sep 2022, 08:51

Anedota Búlgara

Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade.




*************

Anécdota Búlgara

Había una vez un zar naturalista
que cazaba hombres.
Cuando le dijeron que también se cazan
mariposas y golondrinas,
quedó muy espantado
y le pareció una barbaridad.





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Mensaje por Maria Lua Dom 18 Sep 2022, 08:44

El asalto
[Minicuento - Texto completo.]

Carlos Drummond de Andrade

La casa suntuosa en Leblon está guardada por un mastín de terrible semblante, que duerme con los ojos abiertos; o quizás no duerma, de tan vigilante que es. Por eso, la familia vive tranquila, y nunca hubo noticia de asalto a una residencia tan bien protegida.

Hasta la semana pasada. La noche del jueves, un hombre logró abrir el pesado portal de hierro y penetrar en el jardín. Iba a hacer lo mismo con la puerta de la casa, cuando el perro, que astutamente lo había dejado acercarse (para arrancarle toda la ilusión conquistada), se lanza hacia él y lo acomete en la pierna izquierda. El ladrón quiso sacar el revólver, pero no hubo ni tiempo para ello. Cayendo al suelo, bajo las patas del enemigo, le suplicó con los ojos que lo dejase vivir y con la boca prometió que jamás intentaría asaltar aquella casa. Habló por lo bajo para no despertar a los residentes, temiendo que la situación pudiera agravarse.

El animal pareció entender la súplica del ladrón y lo dejó salir en un estado lamentable. En el jardín quedó un trozo de pantalón. Al día siguiente, la criada no comprendió por qué razón una voz, al teléfono, diciendo que era de Salud Pública, preguntaba si el perro estaba vacunado. En ese momento, el perro, que estaba al lado de la doméstica, agitó la cola, afirmativamente.




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Mensaje por Maria Lua Dom 18 Sep 2022, 08:45

El pavo

[Minicuento - Texto completo.]

Carlos Drummond de Andrade


En las metrópolis hasta las operaciones más sencillas, si salen de la rutina, exigen una larga y meditada preparación. Por lo cual, desde noviembre el diario anunciaba: “Encargue sus pavos con anticipación a la Granja Castorina: son los más grandes y tiernos”.

La Dueña-de-Casa consideró un deber tomar en cuenta la advertencia. Llamó por teléfono a un número siempre ocupado: la ciudad entera poseída por el espíritu de la previsión, o simplemente por la angurria navideña, encargaba pavos. Después de varias tentativas logró inscribirse.

El pavo llegó a su debido tiempo, ni grande ni chico, ni gordo ni flaco, especialmente silencioso y sin el aire ofendido que tienen los pavos vivos. Llegó con la factura que certificaba sus kilos y los tasaba en medio millón de cruzeiros. La Dueña-de-Casa respiró: hay pavos que fallan causando aflicciones y vergüenzas inconmensurables. Dio una propina al repartidor y sin perder un segundo llevó a la heladera al objeto de sus desvelos.

Ahí apareció la eximia Cesarina, de Campo Grande, convocada debido a su pericia en lidiar con vivientes de pluma y cresta. Le echó a la pieza una mirada experta e inició los preparativos.
La Dueña-de-Casa, sin menospreciar la sabiduría, basada en experiencias, de Cesarina, le sugirió que para los pormenores siguiera la receta que Mario de Andrade había copiado de una francesa que publicó en sus Cuentos nuevos: el pavo debe tener dos farofas¹, una espesa con los menudos, y una seca, doradita, con bastante mantequilla; el buche se rellenará con la farofa espesa, ciruelas secas, nueces y una copa de jerez. Así lo hizo.

El empeño de la Dueña-de-Casa en presentar un pavo bien preparado, se debía a que esa noche comería con ellos el argentino, muy versado en aves, a quien tenía que retribuir el envío de un pavo inmenso que incrustado en hielo seco atravesó triunfante el cielo de tres países y durante un mes alimentó a la familia y a los convidados. El de ahora era un ave cualquiera, pero el toque literario de la receta le otorgaba el quid deseado.

Llegada la cena, las dos parejas se aprontaban para la masticación ritual y el trinchante iba a funcionar cuando por hábito, una nariz se aproximó a la superficie de oro; se detuvo, perpleja: el olor no correspondía a la apariencia; era peculiar e inoportuno. Solicitada su opinión, el argentino sentenció:

-Podrido.

Estaba. El fenómeno se hacía manifiesto en la región posterior. Las partes nobles, aún inmunes, exhalaban buen olor pero adentro cundía una lucha sorda, semejante a esas conmociones nacionales intestinas que nadie percibe pero que el gobierno denuncia.

La fuente fue rechazada con temor como si de ella pudiera desprenderse un gusano para desearles Feliz Navidad. Hubo que reanimar a Cesarina eximiéndola de culpa: ya lo ha dicho por televisión el doctor Arruda, médico de la municipalidad, por lo menos cinco mil pavos podridos son vendidos para las cenas de Navidad. Nadie advierte la avería sino después que el ave sale del horno. Sucede.
Se comió lo demás, con buen humor: a situaciones heroicas, remedios heroicos. Se contó la historia de nuestro Jacinto de Torres: al ir a servir, el mucamo se resbala y, ¡plaf! El pavo en el piso. La anfitriona, imperturbable, ordena: “Joaquín, llévese ese pavo y traiga OTRO”. Ahora no se podía hacer lo mismo y había que tirarlo.

Aquí comienza otra historia. La mucama informa que no hay dónde tirar el pavo. Los camiones recolectores de basura no aparecían por ahí desde hacía tres días; los depósitos llenos; el calor nocturno iba en aumento…

El Dueño-de-Casa deliberó con el argentino y decidieron sacar con urgencia la basura. La envolvieron en hojas de diario y muy dignos penetraron en la noche con dos paquetes: el brasileño con el de la carne, el otro con el de la farofa.

Anduvieron en busca de un terreno baldío, pero no lo había o estaba ocupado por parejitas sin hogar. Se miraron:

-¡El mar!

El mar se extendía frente a ellos, purificador, cómplice. Frente a Cosme y Damián, antes de que estos, cumpliendo su deber de policías, los interpelasen, fueron murmurando: “Comida para los pobres”. En la playa, los columpios y los toboganes estaban llenos de muchachas que salían de la Misa del Gallo. Se sentaron en un banco y consideraron fríamente la situación.

-Si arrojamos el pavo, creerán que es un feto o una macumba, la gente se junta, nos llevan presos.

-¿Y entonces, che?

Disimuladamente se agacharon, dejaron los paquetes debajo del banco, y se alejaron despacito. Las radios vociferaban: “Noche de Paz”.






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Mensaje por Maria Lua Dom 18 Sep 2022, 08:47

En la escuela


[Minicuento - Texto completo.]

Carlos Drummond de Andrade



Es democrática doña Amarilis, maestra de una escuela pública situada en una calle que no voy a nombrar; también el nombre de doña Amarilis es inventado, pero el hecho aconteció.

La maestra se dirigió a los alumnos, al comienzo de la clase, y dijo:

-Hoy quiero que ustedes resuelvan algo muy importante. ¿Puede ser?

-¡Sí! -respondió la chiquilinada en coro.

-Muy bien. Será una especie de plebiscito. La palabra es complicada, pero la cosa es simple. Cada uno da su opinión, sumamos y la mayoría decide. Cuando den su opinión no hablen todos a la vez, porque así va a ser muy difícil que yo sepa lo que cada uno piensa. ¿Está bien?

-¡Muy bien! -respondió el coro, interesadísimo.

-Excelente. Entonces, vamos al grano. Ha surgido un movimiento para que las maestras puedan usar pantalones en las escuelas. El gobierno ya dijo que lo permite, la directora también, pero yo, personalmente, no quiero decidir por mí misma. En el aula todo debe hacerse de acuerdo con los alumnos, para que todos queden satisfechos y nadie pueda decir que no le gusta. Así no hay problemas. Bien, voy a empezar por Renato Carlos. Renato Carlos: ¿crees que tu maestra debe o no usar pantalón en la escuela?

-Creo que no debe -respondió bajando los ojos.

-¿Por qué?

-Porque es mejor no usar pantalones.

-¿Y por qué es mejor?

-Porque la minifalda es mucho más linda.

-¡Perfecto! Un voto en contra. Marilena, por favor, anota en tu cuaderno los votos en contra. Y tú, Leonardo, anota los votos a favor, si los hay. Ahora va a responder Inesita.

-Claro que debe, señorita. Usted usa pantalones fuera de la escuela. ¿Por qué no los va a usar aquí dentro?

-Pero aquí es otro lugar.

-Es lo mismo. El otro día la vi en la calle con uno rojo que estaba bárbaro.

-Uno a favor. ¿Y tú, Aparecida?

-¿Puedo ser sincera, señorita?

-No puedes, tienes que ser sincera.

-Yo, si fuese usted, no usaría pantalones.

-¿Por qué?

-Y… por las caderas, ¿sabe? Como las tiene medio anchas…

-Muchas gracias, Aparecida. ¿Anotaste, Marilena? Ahora tú, Edmundo.

-Yo creo que Aparecida no tiene razón, señorita. Usted debe quedar fenómeno de pantalones. Sus caderas son muy lindas.

-No estamos votando a favor o en contra de mis caderas sino de los pantalones. ¿Estás a favor o en contra?

-A favor, ciento por ciento.

-¿Y tú, Peter?

-A mí me da lo mismo.

-¿No tienes preferencia?

-No sé. En cosas de mujeres yo no me meto, señorita.

-Una abstención. Mónica, tú quedas encargada de tomar nota de los votos como el de Peter: ni a favor ni en contra.

Y seguían votando como si estuviesen eligiendo al presidente de la República, tarea que tal vez ¿quién sabe? sean llamados a desempeñar en el futuro. Votaban con la mayor seriedad. Le tocó el turno a Rinalda.

-¡Ah! Cada uno en la suya.

-¿Cómo en la suya?

-Yo en la mía, usted en la suya, cada uno en la propia. ¿Estamos?

-Explicáte mejor.

-La cosa es así: si usted quiere venir con pantalones, viene. Yo quiero venir de midi, de maxi, de pantalón corto, vengo. El uniforme es una estupidez.

-Fuiste más allá de la pregunta, Rinalda. ¿Entonces estás a favor?

-Evidente. Cada cual se copa como quiere.

-¡Mil! -exclamó Jorgito-. El uniforme está superado, señorita. Usted viene de pantalones y nosotros aparecemos como se nos dé la gana.

-¡Ah, no! -refutó Gilberto-. Ahí se arma un lío. En mi casa nadie anda en pijama o con la camisa abierta en el sala. Hay que respetar el uniforme.

Que hay que respetar, que no hay que respetar, la discusión subía de tono. Doña Amarilis pedía orden, orden, así no se puede, pero los grupos asumían posiciones extremas, hablaban todos al mismo tiempo, nadie conseguía hacerse oír, por lo cual, con cuatro votos a favor de los pantalones, dos en contra y una abstención, y antes de que se decretara por mayoría absoluta la abolición del uniforme escolar, la maestra consideró prudente dar por terminado el plebiscito y pasó a la lección de historia de Brasil.







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Mensaje por Maria Lua Lun 10 Oct 2022, 08:34

El enterrado vivo

Está siempre en el pasado el mismo orgasmo,
y siempre en el presente el mismo doble,
y siempre en el futuro el mismo pánico.

Esta siempre en mi pecho la misma garra.
Y siempre en mi tedio la misma llamada.
Y siempre en mi sueño la misma guerra.

Está siempre en mi acuerdo el gran desacuerdo.
Siempre en mi firma la antigua furia.
Siempre en el mismo engaño otro retrato.

Está siempre en mis saltos el límite.
Y siempre en mis labios la estampilla.
Y siempre en mi no el mismo trauma.

Y siempre en mi amor la noche rompe.
Y siempre dentro de mí mi enemigo.
Y en mi siempre la misma ausencia siempre.



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Mensaje por Maria Lua Miér 12 Oct 2022, 17:28

Construção

Um grito pula no ar como foguete.
Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos.
O sol cai sobre as coisas em placa fervendo.
O sorveteiro corta a rua.
E o vento brinca nos bigodes do construtor.


************************

Construcción

Un grito salta al aire como un cohete.
Proviene del paisaje de arcilla húmeda, piedra caliza y andamios rígidos.
El sol cae sobre las cosas hirviendo.
El heladero corta la calle.
Y el viento juega en los bigotes del constructor.


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Mensaje por Maria Lua Lun 17 Oct 2022, 09:24

Consolo Na Praia




Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.


O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.


Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?


A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.


Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.






*****************


Consuelo en la playa




Vamos, no llores...
La infancia se ha perdido.
La juventud se ha perdido.
Pero la vida aún no se ha perdido.


El primer amor ya pasó.
El segundo también pasó.
El tercer amor pasó.
Pero aún continúa vivo el corazón.


Perdiste a tu mejor amigo.
No realizaste ningún viaje.
No posees tierra, ni casa, ni barco,
pero tienes un perro.


Algunas duras palabras
en voz tenue, te golpearon.
Esas, nunca, nunca cicatrizan.
Sin embargo, ¿existe el humor?




La injusticia no se resuelve.
A la sombra del mundo equivocado
murmuraste una protesta tímida.
Pero vendrán otras.


Todo sumado, deberías
zambullirte, de una vez por todas, en las aguas.
Estás desnudo en la arena, en el viento ...
Duerme, hijo mío.


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Mensaje por Maria Lua Mar 18 Oct 2022, 18:11

A noite está fria.
Noite indifferente.
Vamos morrer daqui a um minuto
(si você não roer a corda)
e no entanto o Cruzeiro do Sul parece
dizer: que m'importa,
E astros aguas e terras repetem
machinalmente: que m'importa.

Elles têm razão.
Nós também temos.
Dois contribuintes de menos,
que perderá o Brasil com isso.
No frio da noite os amorosos multiplicam a espécie.
O Brasil é tão grande.
Mais grande que o mundo inteiro.
Estamos caceteados, vamos s'embora

Adeus minha terra
terra bonita
pintada de verde
com bichos exquesitos e moleques
treteiros,
abençoada pelo Deus brasileiro das
felicidades e descarrilamentos. Meu povo
amigos inimigos
canalha miúda
me despéço de todos sem excepção.
Apezar de ser inútil,
se lembrem de mim nas suas orações.

Está na hora.
Agora vamos.
Me acompanhe nesse passo
tão complicado.
Me ajude a morrer,
morre com a gente, irmãosinho.

Vamos fazer a grande besteira: rebentar os miolos
e ir receber no céo o castigo de nossos
amores
e o premio de nossas
devassidões.


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Mensaje por Maria Lua Vie 21 Oct 2022, 10:36

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



***********************


Amar

¿Qué puede una criatura sino,
entre las criaturas, amar?
amar y olvidar,
amar y malamar,
amar, desamar, amar?
siempre, y hasta con ojos vidriados, amar?

¿Qué puede, pregunto, el ser amoroso
solo, en rotación universal, sino
rodar también, y amar?
amar lo que el mar trae a la playa,
lo que él sepulta, y lo que, en la brisa marina,
es sal, o precisión de amor, o simples ansias?

Amar solemnemente las palmas del desierto,
lo que es entrega o adoración expectante,
y amar lo inhóspito, lo áspero,
un vaso sin flor, una planta de hierro,
y el pecho inerte, y la calle vista en un sueño, y un ave de rapiña.

Este es nuestro destino: amor sin cuenta,
distribuido por las cosas pérfidas o nulas,
donación ilimitada a una completa ingratitud,
y en la concha vacía del amor la espera tímida,
paciente, de más y más amor.

Amar nuestra falta misma de amor, y en nuestra sequedad
amar el agua implícita, y el beso tácito, y la sed infinita.


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y en ese vuelo y en ese sueño
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Mensaje por Maria Lua Vie 21 Oct 2022, 10:38

BÚSQUEDA DE LA POESÍA

No hagas versos sobre acontecimientos.
No hay creación ni muerte ante la poesía.
Ante ella es un sol estático la vida,
ni calienta ni ilumina.
Las afinidades, los cumpleaños, los incidentes personales nada cuentan.
No hagas poesía con el cuerpo,
ese excelente y confortable cuerpo, tan adverso a la efusión lírica.
Tu gota de bilis, tu careta de gozo o de dolor en lo oscuro son indiferentes.
No me reveles tus sentimientos,
que se aprovechan del equívoco e intentan el largo viaje.
Lo que piensas y sientes, eso aún no es poesía.

No cantes a tu ciudad, déjala en paz.
El canto no es el movimiento de las máquinas ni el secreto de las casas.
No es música oída cuando pasas; rumor del mar en las calles junto a la línea de
[espuma.
El canto no es la naturaleza
ni los hombres en sociedad.
Para él, lluvia y noche, fatiga y esperanza, nada significan.
La poesía (no saques poesía de las cosas)
omite el sujeto y el objeto.

No dramatices, no invoques,
no indagues. No pierdas tiempo en mentir.
No te aburras.
Tu yate de marfil, tu zapato de diamante,
vuestras mazurcas y supersticiones, vuestros esqueletos de familia
desaparecen en la curva del tiempo, son algo inútil.

No recompongas
tu sepultada y melancólica infancia.
No osciles entre el espejo y la
memoria que se disipa.
Si se disipó no era poesía.
Si se partió cristal no era.

Penetra sordamente en el reino de las palabras.
Allí están los poemas que esperan ser escritos.
Están paralizados, pero sin desesperación,
hay calma y frescura en la intacta superficie.
Helos aquí solos y mudos, en estado diccionario.
Convive con tus poemas antes de escribirlos.
Ten paciencia, si oscuros. Calma si te provocan.
Espera que cada uno se realice y consuma
con su poder de palabra
y su poder de silencio.
No fuerces al poema a desprenderse del limbo.
No recojas del suelo el poema ya perdido.
No adules al poema. Acéptalo
como él aceptará su forma definitiva y concentrada
en el espacio.

Acércate y contempla las palabras.
Cada una
tiene mil facetas secretas bajo la faz neutra
y te pregunta, sin interés por la respuesta,
pobre o terrible, que le des:
¿Has traído la llave?

Observa:
yermas de melodía y de concepto
se refugiaron en la noche, las palabras.
Húmedas aún e impregnadas de sueño,
ruedan en un difícil río y se transforman en desprecio.

Una rosa del pueblo, 1945. Traducción de Pablo del Barco



*****************


PROCURA DA POESIA

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou dor no escuro
são indiferentes.
Não me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem de equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de
[espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

A rosa do povo, 1945.


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Mensaje por Maria Lua Miér 26 Oct 2022, 16:43

Liquidação

A casa foi vendida com todas as lembranças
todos os móveis todos os pesadelos
todos os pecados cometidos ou em via de cometer
a casa foi vendida com seu bater de portas
seu vento encanado sua vista do mundo
seus imponderáveis
por vinte, vinte contos.





Liquidación


La casa fue vendida con todos los recuerdos
todos los muebles todas las pesadillas
todos los pecados que se cometieron en vida
o por cometer.
La casa fue vendida con sus golpes en la puerta
con su viento acanalado su vista del mundo
sus imponderables
por veinte, veinte contos.



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Mensaje por Maria Lua Sáb 05 Nov 2022, 15:20

BRINDE NO JUÍZO FINAL

Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
poetas de elixir de inhame e de tonofosfan,
chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.
Em vão assassinaram a poesia nos livros,
em vão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
poetas diretos da Rua Larga.
(As outras ruas são muito estreitas,
só nesta cabem a poeira,
o amor
e a Light.

**************




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Mensaje por Maria Lua Vie 11 Nov 2022, 20:48

POR MUITO TEMPO ACHEI QUE A AUSÊNCIA É FALTA




Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.








*********************************








Durante mucho tiempo pensé que la ausencia era una falta.




Durante mucho tiempo pensé que la ausencia era una falta.
Y me compadecia, ignorantemente, de la falta.
Hoy no lamento.
No hay falta en la ausencia.
La ausencia es un estar en mí.
Y la siento, blanca, tan atrapada, acurrucada en mis brazos
Me río y bailo y hago exclamaciones alegres,
porque la ausencia, esta ausencia asimilada,
ya nadie me la roba.


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Mensaje por Maria Lua Dom 13 Nov 2022, 13:04

RECORDATORIO

Si busca bien usted acaba encontrando.
No la explicación (dudosa) de la vida,
Sino la poesía (inexplicable) de la vida.




RECORDATORIO

Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.


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Mensaje por Maria Lua Miér 16 Nov 2022, 13:53

Canto órfico de Carlos Drummond de Andrade

La danza ya no suena,
la música dejó de ser palabra,
el cántico creció del movimiento.
Orfeo, dividido, anda en busca
de esa unidad áurea que perdimos.

Mundo desintegrado, tu esencia
reside tal vez en la luz, más neutra ante los ojos
desaprendidos de ver; y bajo la piel,
¿qué turbia imporosidad nos limita?
De ti a ti, abismo; y en él, los ecos
de una prístina ciencia, ahora exangüe.

Ni tu cifra sabemos. Ni aun captándola
tuviéramos poder de penetrarte. Yerra el misterio
en torno de su núcleo. Y restan pocos
encantamientos válidos. Quizás
apenas uno y grave: en nosotros
tu ausencia retumba todavía, y nos estremecemos
R una pérdida se forma de esas ganancias.

Tu medida, el silencio la ciñe, la esculpe casi,
brazos del no-saber. Oh fabuloso
udo paralítico sordo nato incógnito
la raíz de la mañana que tarda, y tarde,
do la línea del cielo en nosotros se esfuma,
tornándonos extranjeros más que extraños.

En el duelo de las horas, tu imagen
atraviesa membranas sin que la suerte
se decida a escoger. Las artes pétreas
recógense a sus tardos movimientos.
En vano: ellas no pueden ya.
Amplio
vacío
un espacio estelar contempla signos
que se harán dulzura, convivencia,
espanto de existir, y mano anchurosa
recorriendo asombrada otro cuerpo.

La música se mece en lo posible,
en el finito redondo, donde se crispa
una agonía moderna. El canto es blanco,
huye a sí mismo, ¡vuelos! palmas lentas
sobre el océano estático: balanceo
del anca terrestre, segura de morir.

¡Orfeo, reúnete! llama tus dispersos
y conmovidos miembros naturales
y límpido reinaugura
el ritmo suficiente que, nostálgico,
en la nervadura de las hojas se limita,
cuando no forma en el aire, siempre estremecido,
una espera de fustes, sorprendida.

Orfeo, danos tu número
de oro, entre apariencias
que van del vano granito a la linfa irónica.
lntégranos, Orfeo, en otra más densa
atmósfera del verso antes del canto,
del verso universo, lancinante
en el primer silencio,
promesa del hombre, contorno aún improbable
de dioses por nacer, clara sospecha
de la luz en el cielo sin pájaros,
vacío musical a ser poblado
por el mirar de la sibila, circunspecto.

Orfeo, te llamamos, baja al tiempo
y escucha:
sólo al decir tu nombre, ya respira
la rosa trimegista, abierta al mundo.

Versión de Jorge Gaitán Durán y Dina Moscovich


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Mensaje por Maria Lua Dom 20 Nov 2022, 07:44

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