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Mensaje por Maria Lua Lun 18 Ene 2021, 06:14

ANEDOTA BÚLGARA


Era uma vez um czar naturalista
que caçava homens.
Quando lhe disseram que também se caçam borboletas e andorinhas,
ficou muito espantado
e achou uma barbaridade




ANÉCDOTA BÚLGARA


Había una vez un zar naturalista
que cazaba hombres.
Cuando le dijeron que también se cazan mariposas y golondrinas,
muy espantado quedó
y pensó que era una barbaridad.




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Traducción: Juan Martín


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Mensaje por Maria Lua Mar 19 Ene 2021, 06:44

Consideração do poema

Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporaram
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começá-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel… Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa


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Mensaje por Maria Lua Mar 19 Ene 2021, 06:51

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com
[sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouviras o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.
O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.
As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia


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Mensaje por Maria Lua Jue 21 Ene 2021, 06:21

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platónica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.


*************************



Dulce fantasma, ¿por qué me visitas
como en otros tiempos nuestros cuerpos se visitaban?
Me roza la piel tu transparencia, me invita
a rehacernos caricias imposibles: nadie
recibió nunca un beso de un rostro consumido.
Pero insistes, dulzura. Oigo tu voz,
la misma voz, el mismo timbre,
las mismas leves sílabas,
y aquel largo jadeo
en que te desvanecías de placer,
y nuestro final descanso de gamuza.


(...)


Entonces, convicto,
oigo tu nombre, única parte tuya indisoluble
música pura en continua existencia.
¿A qué me abro?, a ese aire imposible
en que te has convertido
y beso, beso esa nada intensamente.

(...)



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Mensaje por Maria Lua Vie 22 Ene 2021, 06:28

Ruas


Por que ruas tão largas?
Por que ruas tão retas?
Meu passo torto
foi regulado pelo becos tortos
de onde venho.
Não sei andar na vastidão simétrica
implacável.
Cidade grande é isso?
Cidades são passagens sinuosas
de esconde-esconde
em que as casas aparecem-desaparecem
quando bem entendem
e todo mundo acha normal.
Aqui tudo é exposto
evidente
cintilante. Aqui
obrigam-me a nascer de novo, desarmado.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 23 Ene 2021, 05:57

No lo hagas


Carlos, fácil, amor
es lo que ves:
hoy un beso, mañana nada,
y el siguiente día es Domingo
y por Lunes, quién sabe
qué sucederá.


Tonto, deberías resistir
o matarte, aún.
No lo hagas, Oh, no lo hagas.
Guárdalo todo para
la fiesta de bodas, nadie sabe
cuando vendrá,
o aún si vendrá.


Amor, Carlos, hijo de la Tierra,
pasaría la noche contigo
y, vencidas tus hesitaciones,
dentro crecería una maravillosa barahúnda:
rezos
estéreo
santos bendiciéndolos
avisos para las mejores marcas de jabón,
una barahúnda nadie sabe
de dónde, qué por qué.
Aún caminas
melancólico, vertical.
Eres la palmera, eres el grito
que nadie escuchó en el cine
y las luces se apagaron.


Amor en la oscuridad -no- amor por día
es siempre triste, Carlos, mi hijo,
pero no le vayas a contar a nadie,
ellos no saben y no tienen que
saberlo.



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Mensaje por Maria Lua Dom 24 Ene 2021, 04:45

Sonhava, aí de mim, sonhando
que não sonhara... Mas via
na treva em frente ao meu sonho,
nas paredes degradadas,
na fumaça, na impostura,
no riso mau, na inclemência,
na fúria contra os tranquilos,
na estreita clausura física,
no desamor à verdade,
na ausência de todo amor


Eu via, ai de mim, sentia
que o sonho era sonho, e falso.


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Mensaje por Maria Lua Miér 27 Ene 2021, 05:34

Los que sufren

Las plantas sufren como nosotros sufrimos.
¿Por qué no habrían de sufrir
si esta es la llave de la unidad del mundo?

La flor sufre, tocada
por la mano inconsciente.
Hay una ahogada queja
en su docilidad.

La piedra es sufrimiento
paralítico, eterno.

Nosotros -animales- no tenemos
ni siquiera el privilegio de sufrir.



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Mensaje por Maria Lua Miér 27 Ene 2021, 06:34

Para la escritora Clarice Lispector, escribió el poeta Carlos Drummond de Andrade




Clarice


vino de un misterio, partió para otro.
Nos quedamos sin conocer la esencia del misterio.
O el misterio no era esencial,
era Clarice viajando en él.
Era Clarice moviéndose en lo más profundo,
donde la palabra parecía encontrar
su razón de ser y retrataba al hombre.
Lo que Clarice dice, lo que Clarice
vivió por nosotros en forma de historia
en forma de sueño de historia
en forma de sueño de sueño de historia
(¿en medio había una cucaracha o un ángel?)
No sabemos repetir ni inventar.
Son cosas, son joyas particulares de Clarice
que usamos como préstamo, ella es dueña de todo.
Clarice no fue un lugar común,
cédula de identidad, retrato.
¿De Chirico la pintó? Pues sí.
El retrato más puro de Clarice
sólo se puede encontrar detrás de la nube
que el avión cortó y no se distingue más.
De Clarice nos quedamos con gestos. Gestos,
intentos de Clarice salir de Clarice
para ser igual a nosotros
por cortesía, cuidados, providencias.
Clarice no salió, ni siquiera sonriendo.
Dentro de ella
lo que había de pasillos, escaleras,
techos fosforescentes, largas estepas,
dunas, puentes de Recife envueltos en bruma,
formaba un país, un país donde Clarice
vivía, sola y ardiendo, construyendo fábulas.
No podíamos retener a Clarice en nuestro piso
salpicado de compromisos. Los papeles,
las obligaciones hablaban en ahora,
ediciones, posibles cócteles
al borde del abismo.
Levitando encima del abismo Clarice cavaba
un surco rojo y ceniza en el aire y fascinaba.
Nos fascinaba, apenas.
La dejamos para comprender más tarde
Más tarde, un día… sabremos amar a Clarice.



(Carlos Drummond de Andrade, Discurso de primavera e algumas sombras)


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Mensaje por Maria Lua Jue 28 Ene 2021, 08:23

Permanencia

Ahora recuerdo uno, antes recordaba otro.

Día vendrá en que ninguno será recordado.

Entonces en el mismo olvido se fundirán.
Una vez más la carne unida, y las bodas
cumpliéndose en sí mismas, como ayer y siempre.

Pues eterno es el amor que une y separa, y eterno
el fin
(ya comenzara , antes de ser), y somos eternos,
frágiles, nebulosos, tartamudos, frustrados:
eternos.

Y el olvido todavía es memoria, y lagunas de
sueño
cierran en su negrura lo que amamos y fuimos
un día,
o nunca fuimos y que con todo arde en nosotros
a la manera de la llama que duerme en la leña
apilada en el galpón.


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Mensaje por Maria Lua Vie 29 Ene 2021, 05:18

Reconocimiento del amor

Amiga, cómo carecen de norte
los caminos de la amistad.
Apareciste para ser el hombro suave
donde se reclina la inquietud del fuerte
(o que ingenuamente se pensaba fuerte).
Traías en los ojos pensativos
la bruma de la renuncia:
no querías la vida plena,
tenías el previo desencanto de las uniones para toda la vida,
no pedías nada,
no reclamabas tu cota de luz.
Y te deslizabas en ritmo gratuito de ronda.
Descansé en ti mi fajo de desencuentros
y de encuentros funestos.
Quería tal vez -sin percibirlo, lo juro-
sádicamente masacrarte
bajo el hierro de culpas y vacilaciones y angustias que dolían
desde la hora del nacimiento,
estigma desde el momento de la concepción
en cierto mes perdido en la Historia,
o más lejos, desde aquel momento intemporal
en que los seres son apenas hipótesis no formuladas
en el caos universal.
¡Cómo nos engañamos huyéndole al amor!
Cómo lo desconocimos, tal vez con recelo de enfrentar
su espada reluciente, su formidable
poder de penetrar la sangre y en ella
imprimir una orquídea de fuego y lágrimas.
Pero, él llegó mansamente y me envolvió
en dulzura y celestes hechizos.
No quemaba, no brillaba, sonreía.
No entendí, tonto que fui, esa sonrisa.
Me herí con mis propias manos, no por el amor
que traías para mí y que tus dedos confirmaban
al juntarse a los míos, en la infantil búsqueda del Otro,
el Otro que yo me suponía, el Otro que te imaginaba,
cuando -por agudeza del amor- sentí que éramos uno sólo.
Amiga, amada, amada amiga, así el amor
disuelve el mezquino deseo de existir de cara al mundo
con la mirada perdida y la ancha ciencia de las cosas.
Ya no enfrentamos al mundo: en él nos diluimos,
y la pura esencia en que nos transmutamos perdona
alegorías, circunstancias, referencias temporales,
imaginaciones oníricas,
el vuelo del Pájaro Azul, la aurora boreal,
las llaves de oro de los sonetos y de los castillos medievales,
todos los engaños de la razón y de la experiencia,
para existir en sí y para sí,
con la rebeldía de cuerpos amantes,
pues ya ni somos nosotros,
somos el número perfecto: Uno.
Tomó su tiempo, yo se, para que el «Yo» renunciase
a la vacuidad de persistir, fijo y solar,
y se confesara jubilosamente vencido,
hasta respirar el más grande júbilo de la integración.
Ahora, amada mía para siempre,
ni mirada tenemos para ver, ni oídos para captar la melodía,
el paisaje, la transparencia de la vida,
perdidos como estamos en la concha ultramarina de mar.



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Mensaje por Maria Lua Sáb 30 Ene 2021, 04:57

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.


As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.


Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.


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Mensaje por Maria Lua Dom 31 Ene 2021, 08:35

O chão é cama

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama
E para repousar do amor, vamos à cama.


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Mensaje por Maria Lua Lun 01 Feb 2021, 10:30

PASSAGEM DA NOITE


É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
E
noite no meu amigo.
É noite no submarino.

É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!


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Mensaje por Maria Lua Mar 02 Feb 2021, 08:05

NOTURNO À JANELA DO APARTAMENTO

Silencioso cubo de treva:
umsalto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.

Nenhumpensamento de infância,
nemsaudade nemvão propósito.
Somente a contemplação
de ummundo enorme e parado.

A soma da vida é nula.
Mas a vida temtal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.

Suicídio, riqueza, ciência…
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.

Triste farol da Ilha Rasa.


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Mensaje por Maria Lua Miér 03 Feb 2021, 06:03

MORRO DA BABILÔNIA

À noite, do morro
descemvozes que criamo terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).

Quando houve revolução, os soldados se espalharamno morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
Omorro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo umcavaquinho bemafinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.


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Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:18

MENINO CHORANDONA NOITE

Na noite lenta e morna, morta noite semruído, ummenino
[chora.
Ochoro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo
[na colher.

Ummenino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe ummenino chora, emoutra cidade talvez,
talvez emoutro mundo.

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta
[a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (umfio apenas).
E não há ninguémmais no mundo a não ser esse menino
[chorando.


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Mensaje por Maria Lua Jue 04 Feb 2021, 06:29

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.


Amar

¿Qué puede una criatura sino,
entre las criaturas, amar?
amar y olvidar,
amar y malamar,
amar, desamar, amar?
siempre, y hasta con ojos vidriados, amar?

¿Qué puede, pregunto, el ser amoroso
solo, en rotación universal, sino
rodar también, y amar?
amar lo que el mar trae a la playa,
lo que él sepulta, y lo que, en la brisa marina,
es sal, o precisión de amor, o simples ansias?

Amar solemnemente las palmas del desierto,
lo que es entrega o adoración expectante,
y amar lo inhóspito, lo áspero,
un vaso sin flor, una planta de hierro,
y el pecho inerte, y la calle vista en un sueño, y un ave de rapiña.

Este es nuestro destino: amor sin cuenta,
distribuido por las cosas pérfidas o nulas,
donación ilimitada a una completa ingratitud,
y en la concha vacía del amor la espera tímida,
paciente, de más y más amor.

Amar nuestra falta misma de amor, y en nuestra sequedad
amar el agua implícita, y el beso tácito, y la sed infinita.


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Mensaje por Maria Lua Vie 05 Feb 2021, 06:29

BRINDE NO JUÍZO FINAL


Poetas de camiseiro, chegou vossa hora,
poetas de elixir de inhame e de tonofosfan,
chegou vossa hora, poetas do bonde e do rádio,
poetas jamais acadêmicos, último ouro do Brasil.


Emvão assassinarama poesia nos livros,
emvão houve putschs, tropas de assalto, depurações.
Os sobreviventes aqui estão, poetas honrados,
poetas diretos da Rua Larga.
(As outras ruas são muito estreitas,
só nesta cabema poeira,
o amor
e a Light.)


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Mensaje por Maria Lua Sáb 06 Feb 2021, 05:38

ELEGIA 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchemos parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.


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Mensaje por Maria Lua Miér 10 Feb 2021, 09:21

TRISTEZA DO IMPÉRIO


Os conselheiros angustiados
ante o colo ebúrneo
das donzelas opulentas
que ao piano abemolavam
“bus-co a cam-pi-na se-re-na
pa-ra li-vre sus-pi-rar”
esqueciam a guerra do Paraguai,
o enfado bolorento de São Cristóvão,
a dor cada vez mais forte dos negros
e sorvendo mecânicos
uma pitada de rapé
sonhavam a futura libertação dos instintos
e ninhos de amor a serem instalados nos arranha-céus
[de Copacabana, com rádio e telefone automático


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Mensaje por Maria Lua Jue 11 Feb 2021, 04:49

Amar

¿Qué puede una criatura sino,
entre las criaturas, amar?
amar y olvidar,
amar y malamar,
amar, desamar, amar?
siempre, y hasta con ojos vidriados, amar?

¿Qué puede, pregunto, el ser amoroso
solo, en rotación universal, sino
rodar también, y amar?
amar lo que el mar trae a la playa,
lo que él sepulta, y lo que, en la brisa marina,
es sal, o precisión de amor, o simples ansias?

Amar solemnemente las palmas del desierto,
lo que es entrega o adoración expectante,
y amar lo inhóspito, lo áspero,
un vaso sin flor, una planta de hierro,
y el pecho inerte, y la calle vista en un sueño, y un ave de rapiña.

Este es nuestro destino: amor sin cuenta,
distribuido por las cosas pérfidas o nulas,
donación ilimitada a una completa ingratitud,
y en la concha vacía del amor la espera tímida,
paciente, de más y más amor.

Amar nuestra falta misma de amor, y en nuestra sequedad
amar el agua implícita, y el beso tácito, y la sed infinita.


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Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Feb 2021, 07:03

LEMBRANÇA DOMUNDOANTIGO

Clara passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
a água era dourada sob as pontes,
outros elementos eram azuis, róseos, alaranjados,
o guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
a menina pisou a relva para pegar um pássaro,
o mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era tranquilo
[em redor de Clara.
As crianças olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor, os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
esperava cartas que custavam a chegar,
nem sempre podia usar vestido novo. Mas passeava no jardim,
[pela manhã !!!
Havia jardins, havia manhãs naquele tempo!!!


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Mensaje por Maria Lua Sáb 13 Feb 2021, 22:00

À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 05:41

POEMA DA NECESSIDADE

É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades,
é preciso substituir nós todos.

É preciso salvar o país,
é preciso crer em Deus,
é preciso pagar as dívidas,
é preciso comprar um rádio,
é preciso esquecer fulana.

É preciso estudar volapuque,
é preciso estar sempre bêbedo,
é preciso ler Baudelaire,
é preciso colher as flores
de que rezam velhos autores.

É preciso viver com os homens,
é preciso não assassiná-los,
é preciso ter mãos pálidas
e anunciar o FIM DO MUNDO.


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Mensaje por Maria Lua Dom 14 Feb 2021, 08:45





Um homem e seu Carnaval

Deus me abandonou
no meio da orgia
entre uma baiana e uma egípcia.
Estou perdido.
Sem olhos, sem boca
sem dimensões.
As fitas, as cores, os barulhos
passam por mim de raspão.
Pobre poesia.

O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.

Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.







***************************








Un hombre y su carnaval

Dios me abandonó
en medio de una orgía
entre una bahiana y una egipcia.
Estoy perdido,
sin ojos, sin boca
sin dimensiones.
Las cintas, los colores, los ruidos
pasan por mí de refilón.
Pobre poesía.

Bate el pandero,
está dentro del pecho
y nadie lo percibe.
Estoy lívido, tartamudo.
Novias eternas
me sonríen
mostrando los cuerpos,
los dientes.
Imposible perdonarlas
olvidarlas, incluso.

Dios me abandonó
en el medio del río.
Me estoy ahogando
peces sulfúreos
olas de éter
curvas curvas curvas
banderas de procesiones
neumáticos silenciosos
grandes abrazos largos espacios
eternamente.


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Mensaje por Maria Lua Lun 15 Feb 2021, 15:21

Sonhava, aí de mim, sonhando
que não sonhara... Mas via
na treva em frente ao meu sonho,
nas paredes degradadas,
na fumaça, na impostura,
no riso mau, na inclemência,
na fúria contra os tranquilos,
na estreita clausura física,
no desamor à verdade,
na ausência de todo amor


Eu via, ai de mim, sentia
que o sonho era sonho, e falso.




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Mensaje por Maria Lua Miér 17 Feb 2021, 07:11

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Mensaje por Maria Lua Jue 18 Feb 2021, 15:33

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.


Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.


Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.


Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...


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Mensaje por Maria Lua Sáb 20 Feb 2021, 05:17

FRAGILIDADE



Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial — inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,
ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidades
de sono se depositam sobre a terra esfacelada.
Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em feixe
subindo, e o espírito que escolhe, o olho que visita, a música
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frigidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.


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